-->

Páginas

19 junho 2018

One Red Crow #5


Ficava sempre do lado de fora do quarto enquanto cuidávamos das escaras da dona. Sete anos naquela cama, o cheiro do tempo a morrer devagar, a morte em cada inspiração, a dor em cada expiração. O gato, calado, e aqueles olhos verdes, o brilho todo de quem ama mas não entende que em breve deixará de ter para quem olhar, deixará de ter o cheiro a medicamentos e produtos de limpeza, deixará de ouvir o barulho das luvas e das batas, os gemidos cada vez menos audíveis. A cadeira rasgada de anos de brincadeira, Não subas para aí, Simba, e o gato a subir e a afiar as unhas, o tecido a rasgar, Eu bem te disse para não ires para aí, que teimoso, a cadeira que passa a ser do gato, Queres subir, sobe, quero lá saber, e o ronronar feliz de quem se sente em casa, de quem fez ninho dentro de um coração. Depois, o gato parado à porta do quarto, o verde dos olhos menos brilhante, o silêncio de quem se despede, o barulho do saco a ser fechado, duas festas no alto da cabeça e a incerteza do que virá a seguir.

| Fotografia de João Corvo |

18 junho 2018

Três anos

Há três anos, vivia o meu último dia em casa. Sabia há cerca de um mês que ia começar a trabalhar aqui. Sabia que ia ser bom. Não sabia que ia ser assim TÃO bom.

Entrei para um escritório pequeno, na Rua da Prata. Quinze dias depois estava a fazer a mudança para um sítio maior, na Rua da Assunção. Uns meses depois, aumentámos o espaço com mais um andar no mesmo prédio. Dois anos depois, viemos para aqui, para longe da Baixa.

Entraram pessoas, saíram pessoas. Tenho saudades de quem já não está aqui todos os dias, a rir comigo. Mas sou grata, tão grata, pelas pessoas que este trabalho me trouxe. Aprendo tanto todos os dias. Sorrio. As segundas-feiras não têm o peso dos condenados. As segundas-feiras são dias leves, dias de voltar a este sítio onde sou sempre feliz. Mesmo quando me chateio.

Há três anos, ainda não sabia que ia ser tão feliz aqui. Três anos depois, sou feliz todos os dias.


(No primeiro dia de trabalho, arranjei uma playlist que me acompanhou durante meses no caminho até lá. Esta era a primeira música.)

14 junho 2018

One Red Crow #4


Éramos cinco lá em casa, mais os gatos que apareciam para deixar dos cadáveres dos peixes apenas as espinhas. Éramos cinco e éramos tantos, a mãe entregue ao fogão e ao tanque, o pai dobrado sobre a enxada, vereda acima, vereda abaixo, traz legumes, leva água, e nós aos saltos no quintal, os sapos à beira do poço, os morangos que roubávamos, os figos que apanhávamos do chão quando o calor era insuportável, os cabelos sujos, as mãos encardidas, os joelhos esfolados, o tempo que voou até a casa se encher de musgo, até a humidade enegrecer paredes, até os cabelos da mãe branquearem, até o reumático atirar ao chão o pai, depois o Alzheimer e nós às vezes a brigar porque não podíamos, nas vidas que entretanto construímos, acolher o nosso sangue, mas queríamos o melhor e achávamos sempre que o outro irmão conseguia mais. A casa tornou-se ruína, deixámos intacto o vaso onde a mãe tinha uma violeta que nunca deixou morrer, do lado de fora da janela os galhos fartos tomaram conta do esquecimento, descuidámos, saímos dali e deixámos o nosso passado arrumado naquela casa de onde trouxemos uma infância esquelética. Podíamos ter sido tanta coisa e fomos as sombras e os sons que ainda ecoam pela casa, se fecharmos os olhos e deixarmos o passado surgir.

| Fotografia de João Corvo |

O meu segredo

Ouço recorrentemente a pergunta: como é que consegues treinar tantas vezes, com a vida que tu tens?

A isto respondo com duas coisas: a vontade que eu tenho e a ajuda que recebo.

Custa-me um bocadinho admitir (por todo o estigma que vem com isto), mas sim, sou uma maluquinha do ginásio, no sentido em que vou lá todos os dias, mudo o que for preciso na minha vida para conseguir ir e aquilo é sempre prioritário em relação a outras coisas (excepto, obviamente, o bem estar dos meus filhos). Eu levo o meu desporto com uma seriedade que pouca gente que vive o mesmo tipo de vida que eu entende. Eu não quero ir ao ginásio para me mexer um bocadinho, só para manutenção, porque me faz bem desanuviar. Eu quero ir ao ginásio rasgar pano, dar tudo, levar-me ao limite. Percebo que isto não faça sentido para muita gente, mas se calhar é por ter este nível de compromisso que não me baldo só porque sim. Acontece não ir porque combinei qualquer coisa que me impede de ir, ou porque me atraso no trabalho ou porque estou doente. De resto, não é opção. O ginásio, para mim, não é aquela coisa que só faço se não tiver mais nada que fazer. É prioridade.

A minha motivação sou eu. Porque olho para mim e vejo o que já consegui fazer. E quero ainda mais. Depois, estou ali e é todo um descanso. Não há trabalho, não há chatices, não há dramas. Há máquinas e pesos meio brutos e uns PTs que me dão nas orelhas (e quem me dera que dessem ainda mais...!). Saio dali a pingar, mas tão feliz...

Isto só é possível porque os meus pais me ajudam e porque me organizo. Ao fim-de-semana cozinho para a semana toda. Isto faz com que os jantares sejam basicamente aquecer e, eventualmente, cozer uma massa. São os meus pais que vão buscar os miúdos à escola e ficam com eles até eu os ir buscar (o que acontece sempre em cima das 21h - tento mesmo não passar disto, para que eles não se deitem tarde, mas a verdade é que, mesmo que eu não vá treinar, é raro eles deitarem-se antes das 22h30). À quarta-feira jantam com o pai e eu estou mais à vontade: treino, tomo banho e vou à aula de kizomba. O professor tem dificuldade em cumprir horários e uma coisa que era suposto ser 21h-22h acaba a ser 21h20-22h20... e lá vou eu a voar para os ir buscar, mas depois é lavar dentes, vestir pijamas e estão na cama. Nos fins-de-semana em que os tenho, por norma peço para os meus pais ficarem uma hora e meia com eles, num dos dias, para eu conseguir ir. Mas se não der, treino em casa ou não treino de todo e também ninguém morre por isso. Quando não os tenho, é certinho que vou nos dias todos.

Por isso, quando me perguntam como é que consigo fazer isto, sendo eu mãe solteira, tendo um trabalho e uma casa para tomar conta, a resposta é: consigo porque quero. E quero tanto que faço por isso. Eu entendo que nem toda a gente tenha esta motivação. Mas gostava que as pessoas que dizem que não conseguem (na maior parte das vezes sem sequer tentarem) olhassem para isto e, caso seja uma coisa de que precisam, dessem uma oportunidade e fizessem os ajustes necessários para isto acontecer. No meu caso, a decisão fundamental foi investir duas ou três horas do meu domingo na cozinha e no supermercado. Acabaram-se as compras diárias para desenrascar um jantar, acabou andar à nora sem saber o que fazer. Planeio com antecedência, faço as compras necessárias, preparo tudo e depois... é só comer. O descanso mental é brutal, acreditem. E este processo facilita a vida de toda a gente, não apenas de quem quer ir-se enfiar num ginásio.

[Este post aparece no seguimento deste post da Rita, que tocou ali no ponto da inspiração... e não é que eu me ache grande inspiração para o que quer que seja, mas se houver uma pessoa a achar que alguma destas dicas faz sentido, então já está ganho.]

12 junho 2018

Conteúdo

Dei por mim a pensar por que é que escrevo pouco por aqui. Não tenho uma agenda de produção de conteúdos. Não promovo marcas. Não tenho a pressão dos números. Claro que me sabe bem ver que num dia tive 1000 e tal visitas, mas não vivo a pensar nisso (e raramente me lembro de ir ver, confesso).

Escrevo quando tenho alguma coisa que quero registar - para mim, um blog continua a ser um diário virtual e é para isso que serve. Escrevo quando quero partilhar alguma coisa, seja uma experiência ou uma opinião, por exemplo.

O meu conteúdo primordial vai ser sempre a ficção. É por isso que vou escrevendo aqui pequenos textos nestes moldes. Acabo por usar isto como sítio onde guardo algumas coisas e dou a conhecer o que escrevo - se bem que, quem me lê, sabe perfeitamente o que eu escrevo e como e porquê.

A minha vida pessoal tem pouquíssimo interesse: trabalho, pago contas, crio dois miúdos e um gato, faço compras, limpo, lavo, cozinho, treino... Tudo igual ao resto do mundo. O que me interessa guardar disto são alguns momentos que, se não tivesse o blog, acabaria por esquecer. Não me interessa explorar intimidades, não me interessa expor pessoas (os meus filhos e/ou eventuais pessoas que entrem na minha vida), já se sabe. Por isso isto é cada vez menos sobre a minha vida pessoal e cada vez mais sobre o resto. 

One Red Crow #3


A divisão era sempre injusta para alguém. Nunca tirava a casca, a confiar que fosse ali que se acumulasse a maioria dos nutrientes. O estômago a fazer-me ensurdecer com os barulhos de quem mói em seco, de quem se angustia no vazio. As noites eram sempre longas, o pico de insulina que vinha depois do doce daquela pêra, único alimento de um dia inteiro, dividido por três, eles, sempre eles, e eu ficava a engolir saliva devagarinho, a tentar enganar o corpo, a tentar dizer ao cérebro que sim, aquilo era alimento e não precisava de mais nada. A pêra que dava para os três, raquíticos e pequenos para a idade, comiam na escola e ao fim-de-semana aquela pêra era a materialização do paraíso, o melhor momento do dia, o que os fazia esquecer por uns instantes que, quando acabasse, não haveria mais nada a fazer. Sessenta anos depois, a pêra nas minhas mãos, a casca lavada mas nunca deitada fora, várias pêras por dia, a abundância que chegou entre suor e sacrifícios, nenhuma refeição tem o sabor opulento que têm as pêras.

| Fotografia de João Corvo |

11 junho 2018

Casa

Há alturas em que nos perdemos e deixamos de saber como regressar a casa. Às nossas casas. Os regressos, quando acontecem por caminhos tranquilos, são das coisas mais fabulosas de sempre. A minha casa são algumas das minhas pessoas, é o café com a Lia, são os treinos a doer, é a minha praia, aquele bar no Cais do Sodré, as margaritas no sofá, o cinema de domingo à tarde, quando estou sozinha e não me apetece mais nada, aquela discoteca onde, quinze anos depois, ainda sinto como minha (apesar de tão diferente e das vidas que passaram entretanto), as conversas que fluem sem esforço, o apoio que está sempre lá.

A minha casa são os sítios e as pessoas onde posso ser eu mesma, sem filtros, sem medos, sem máscaras. A minha casa são as pessoas que podem ser exactamente quem são quando estão comigo. A minha casa é o amor, sempre o amor. 

07 junho 2018

Inside One Red Crow

O João é isto: imagens de caos capturadas com aquele olho que procura apocalipses. Não conheço ninguém que fotografe lados negros como ele. Na lente dele há sempre mágoa, angústia, perda, pecado, tristeza, solidão, desamor. (O coração dele é o oposto.)

O João captura com a lente o mesmo caos que eu ponho no que escrevo. Duas artes, o mesmo olhar, a mesma visão, a mesma forma de sentir.

One Red Crow são fotografias dele que dão balanço a textos meus. Somos nós numa partilha feita a quatro mãos, quatro olhos e uns quantos quilómetros de distância. Enquanto não faltar inspiração, enquanto a vida não se meter pelo meio, terças e quintas, por aqui. 

One Red Crow #2


Primeiro fomos as promessas. Todas as coisas indizíveis tiveram de ser ditas, no pus das feridas antigas, algumas ainda por cicatrizar. Cartas na mesa, toda a luz que podemos ver. Queríamos jogo limpo, guerra aberta, silêncio e conforto, o acordar que deixa um fio de baba na almofada, saber que preferes o lugar à esquerda na cama, saberes que eu nunca durmo nua, saberes que prefiro banhos demorados e que abras o cortinado e te juntes a mim, o sexo e a água que escorre, a tua língua dentro de mim, as minhas unhas que te rasgam a pele, mais ou menos por cima das cicatrizes, o beijo que me dás no canto da boca quando me sentes amuada com ou sem razão, tanto faz, todas as desculpas são boas para os beijos. Primeiro fomos as promessas. Depois as promessas quebraram-se como jarras pesadas atiradas contra uma parede, a mesma onde me prendias quando fazíamos amor, a mesma onde pendurámos fotografias com sorrisos maiores do que nós. No chão, todos os despojos, uma vida em mil bocados, o puzzle a que faltam peças, a obra que é impossível recuperar. Falámos em futuro e hoje conjugamos todos os verbos num pretérito imperfeito como são os amores que acabam partidos, atirados contra uma parede, como são todos os amores que um dia foram esperança e hoje não têm salvação.

| Fotografia de João Corvo |

06 junho 2018

One Red Crow #1


Enquanto me prendem os braços e me guiam os passos, sigo em silêncio com a língua torpe pela medicação. As paredes muito velhas, o chão demasiado sujo, anos de diabos à solta neste lugar. As janelas com grades soldadas, nem que parasse de comer caberia entre elas. Amarram-me os braços, mas não os pensamentos. Eu sei onde estou e sei que não vou conseguir fugir. Eu sei o que me destruiu, as mãos que me desfizeram como quem desfaz um pedaço de giz até se tornar pó. Eu sei tudo o que deixei lá fora, as angústias e os medos, as noites que acordei ensopada em suor, as vozes, sempre as vozes que me perseguem e me ordenam que cumpra todas as minhas missões, as sombras sempre em cima de mim, esteja o sol onde estiver, até à noite, o absoluto breu e ainda assim as sombras. Eu sei tudo sobre os meus crimes, os pecados que nunca expiarei, a sentença que escolhi para mim. Nas paredes muito sujas, no chão imundo, nas portas empenadas, algumas sem maçanetas, em todos os silêncios todos os gritos de quem não se consegue libertar.

| Fotografia de João Corvo |