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19 março 2019

À espera de Tarantino



Não sou nada fã do Tarantino. Dos filmes dele, gostei do Inglorious Bastards, não vi a filmografia toda, mas, do que vi, foi disto que gostei.

Agora, Tarantino meets Pitt and DiCaprio? Compro! Mais ainda quando o senhor Brad Pitt, do alto dos seus 56 (cinquenta-e-seis-anos-dassssse-como-é-que-é-possível?) anos, se apresenta nestes preparos. Quero ver. Quero mesmo ver. Já sei que vem de lá alucinação colectiva, mas eu aguento. E acho que até vou gostar...

11 março 2019

Quem quer casar com o meu filho?

Nota prévia: Vi uns 10 minutos do programa. Tenho impropérios para três gerações. (Mãe, é provável que este post contenha asneiras.)

Para início de conversa, assim que soube do que tratava esta porra, decidi que não quero ver isto. Do not feed the animals costuma ser um bom princípio. Depois, e porque vi a celeuma por aí, achei que tinha de espreitar. Devo dizer que tive MUITA dificuldade em ver asa apresentações daquela gente. Começa logo mal. Mas avancemos.

Tudo neste conceito está errado. TUDO. Em primeiro lugar, dá aos homens o papel de macho-alfa, caçador, que deverá ser conquistado pelas mulheres. A estas cabe o papel de se tornarem na escolha daqueles. Têm zero poder neste processo. Entram ali, sentam-se, são bombardeadas com perguntas e, quando não servem, são postas a andar. Maravilha para a auto-estima delas, obviamente.

Depois, as mães. Eu acho que isto é uma cena geracional: a minha geração ainda é aquela em que as mulheres eram educadas de uma maneira e os homens de outras (conheço vários casos de irmãos, rapazes e raparigas, que foram educados de forma diferente, o que resultou em mulheres que fazem tudo em casa e em homens que nem uma porra de uma t-shirt são capazes de passar a ferro). Eu achava que esta merda tinha acabado. Ingénua, eu sei. Aquelas mães vão para ali escolher as mulheres para os filhos. Critérios: é jeitosa, sabe cozinhar, não tem filhos, não fuma? Matem-me já.

Como há que aproveitar recursos, a TVI apostou em candidatos requentados. Lembram-se do casal do First Dates que se tornou viral por causa de uma conversa sobre viagens, em que a rapariga afirmava ter visitado três países - Espanha, Itália e Açores - e o rapaz reiterava que eram apenas dois? Estão ambos neste primeiro episódio. 

Bom, resumindo: isto é a prova de que é possível viajar no tempo. Ontem acordámos 2019 e adormecemos em 1865. Impressionante. É vergonhoso que a TVI compactue e incentive um programa que objectifica as mulheres (se bem que a TVI é detentora do Love On Top, de onde, aliás, também aterrou pelo menos uma das candidatas disto), que as põe no papel de submissas a quem cabe a tarefa de manter satisfeitinhos estes machos que não fazem ponta de corno e que precisam de quem lhes dê comida à boca. é vergonhoso que a TVI perpetue esta visão patriarcal da coisa, onde os homens mandam e as mulheres se sujeitam.

Agora... calha que eu sou mãe de um rapaz. Para começo de conversa, nunca me sujeitaria ao papel de mãe de entrevadinho que não consegue fazer-se à vida sozinho. Depois, nunca escolheria mulher nenhuma para o meu filho. Em terceiro lugar, acho que a minha missão é fazer dele um homem em condições, que não precise de mulher nenhuma para sobreviver (da mesma maneira que tenciono fazer da minha filha uma mulher que não precise de um homem para sobreviver). Cabe-lhes a eles safarem-se sozinhos. Não precisam de mãezinhas. Nem desta mãezinha terão de precisar. E até acho que já deviam fazer mais do que fazem, mas fazem os dois igual: o que ensino a um, ensino ao outro. E espero que um dia que tenham de escolher companheiros, escolham os que os fazem felizes e não os que lhes façam o jantar e lhes lavem a roupa. Terei cumprido a minha missão se eles forem pessoas completas sozinhas e não precisarem de quem os preencha, mas sim de quem os transborde. Porque estes tipos parecem só todos uns inúteis que não cresceram, são incapazes de sobreviver sem supervisão e, na verdade, o que querem é uma empregada, não é uma mulher. E a culpa disto é, em primeira análise das mães, que não lhes deram as ferramentas certas, e em segunda análise, deles mesmos, que acham que estão bem assim.

Enquanto continuarmos a achar isto tudo normal e aceitável, não sairemos da Idade Média. 

07 março 2019

Luto

Dia de luto nacional pelas vítimas de violência doméstica. Dia em que saiu a notícia da 12ª vítima em 66 dias (fora a cabeça de mulher que foi encontrada dentro de um saco de plástico, na praia de Leça da Palmeira). 

Quando é que esta merda pára? Quando é que vamos deixar de encolher os ombros e de achar que é normal e aceitável e foi só desta vez e, coitado, estava bêbedo, ou, coitado, gosta mesmo dela? Quando?

Pela minha parte, repito o que já disse antes: mais nenhum episódio de violência que me chegue aos ouvidos passará sem acção da minha parte - é um crime público e é dever de toda a gente que tenha conhecimento de crimes desta natureza denunciar.

E, para aquela malta que adooooora lançar boatos: sim, já fui vítima de violência no namoro. Isto aconteceu muito antes de sequer ter conhecido o meu ex-marido que nunca, em momento algum, teve um gesto violento para comigo. Discussões todos temos, mas daí a cenas que constituam crime de violência doméstica vai toda uma vida que, felizmente, nunca vivi. Portanto, escusam de ir por aí. E acho muito triste ter de estar a escrever isto quando nunca, em momento algum, dei a entender que ele tenha sido violento comigo. Não foi. Nem comigo, nem com ninguém. 

06 março 2019

História de um homicídio

Já aqui disse isto mil vezes: a única coisa de me arrependo na vida é de não ter seguido a minha vontade e ter ido estudar psicologia forense, para acabar com os costados na PJ. Se há coisa que me cativa são psicopatas e sociopatas. Adoro aquelas mentes retorcidas, adoro tentar perceber o que leva aquelas pessoas a fazerem o que fazem, quando fazem asneiras da grossa.

Vai daí, tenho andado entretida com documentários sobre crimes reais (na maioria americanos, mas também ingleses e australianos). No meio disto tudo, deparei-me com uma história de que já tinha ouvido falar em tempos mas que, na altura, não explorei.

Em 2008, uma senhora sociopata obcecadíssima pelo ex-namorado achou por bem matá-lo. Até aqui, nada de novo, é só uma entre muitas. Detalhes: os requintes de crueldade da coisa (matou-o com 27 facadas, uma das quais de orelha a orelha que quase o decapitou e, não contente com isso, ainda pôs a cereja no topo do bolo em forma de tiro no meio da testa - amorosa, não é?) e a forma como se comportou durante todo o processo, incluindo interrogatórios e julgamento. 

Ora aquela esperta decide que é boa ideia começar por ligar para a polícia a dizer que ouviu dizer que ele morreu e queria saber se era verdade. Vai daí, há toda uma conversa telefónica onde ela, calmíssima, fala como se efectivamente não soubesse nada sobre o assunto. Calha também que a polícia já a tinha debaixo de olho porque todos os amigos do morto, quando questionados sobre se haveria alguém capaz de lhe fazer aquilo, apontaram na mesma direcção: a dela. 

Às tantas a rapariga é levada para interrogatório, ainda sem estar acusada de nada. E os detectives fazem aquela coisa clássica que vemos nos filmes: espetam com ela numa sala de interrogatório e deixam-na ali um bocado a marinar. E o que é que ela faz? Canta. Fala sozinha. E acaba a fazer o pino contra a parede. True story.

Começa o interrogatório e ela diz que não estava sequer naquela terra (Mesa, Arizona), que estava em casa (algures na Califórnia, a cerca de cinco horas de distância). Apertam com ela e afinal já estava lá em casa, mas o que aconteceu foi que entraram dois encapuzados (o termo "ninja" é usado várias vezes), um homem e uma mulher, e mataram o tipo. Ela, miraculosamente, conseguiu fugir (e a descrição que ela faz da fuga é de rir, de tão surreal). Apertam mais um bocado com ela e afinal já foi ela que o matou, mas foi em legítima defesa. Com 27 facadas e um tiro. E sem ter ficado com "defense wounds", que é logo uma boa coisa quando se quer usar o argumento da legítima defesa. 

(Sim, este caso fascina-me assim... milhões.)

A senhora lá é detida, lêem-lhe os direitos e dizem que vão tirar a fotografia da praxe. E o que é que ela faz? Pergunta se lhe podem chegar a carteira, que queria dar um jeitinho à cara. (A mugshot dela é linda: está assim de cabecinha ligeiramente inclinada para a direita, olhos de bambi e... a sorrir. O normal quando se é preso por homicídio, portanto.)

Tenho andado a ver o julgamento que está na íntegra disponível no YouTube. O advogado de acusação é brilhante, encosta-a às cordas como ninguém. Mas ela, cortesia da sociopatia dela, não se desmancha. Não há nada que a faça vacilar. Não quebra. As vezes em que chora são claramente encenadas. A primeira vez que a vi chorar no julgamento foi quando apareceram as fotografias da autópsia do senhor. 

[E agora a prova de quão fascinada ando com isto: ontem, no Instagram, numa das contas de medicina forense que sigo, aparecem estas fotos (as da autópsia, bem entendido). Bastou ver a primeira, em que se vê apenas o peito dele, para saber de quem se tratava. Não li legendas. Nada. Foi directo.]

Atalho para o fim da história: a senhora foi condenada a prisão perpétua sem hipótese de liberdade condicional. O senhor continua morto, naturalmente.

(Em caso de curiosidade, Jodi Arias e Travis Alexander.)

Nota final: nada temam. A minha curiosidade não apresenta perigo nenhum, nem para mim, nem para a sociedade em geral. 

04 março 2019

Tabuleiro de Xadrez

Às vezes gosto de fazer este exercício: olhar para a minha vida de fora - e o que vejo faz-me sempre lembrar uma espécie de jogo de xadrez gigantesco. 

É giro ver como a vida se encarrega de nos pôr nos sítios certos, nas alturas certas. É giro ver como põe e tira pessoas do nosso dia-a-dia. É giro ver como nos traz pessoas que nos ensinam coisas e as leva embora quando já não temos nada a aprender.

O meu tabuleiro, hoje, está exactamente como preciso dele: com muito espaço livre. Levou embora as pessoas que já cumpriram a sua missão, deixou espaço para que eu cresça. Durante muito tempo, andei inquieta e a precisar de apoio. Agora não. Agora estou de novo em paz. Estava em paz no Verão passado. Tinha chegado finalmente ao ponto em que tudo o que eu fazia era respirar tranquilamente. Depois agitaram-se as águas e agora acalmaram novamente. Sou só eu e o meu tempo. Eu e as minhas coisas. Eu e o meu crescimento. Estou de novo pronta para o que a vida tiver para me ensinar.

Os últimos três anos foram lições incríveis para mim. Aprendi o que é o amor incondicional, que não morre com tempo, nem com distância, nem com obstáculos, nem com nada: Amor que sobrevive à ausência e que, mesmo que viva apenas em mim, me mostra todos os dias o que é isto de amar sem mas. Aprendi que sou suficiente. Tenho tudo o que preciso de ter, sou tudo o que preciso de ser. Aprendi o que é o amor-próprio e a não abrir mão dele por ninguém. E aprendi a dizer que não a tudo o que não me faz bem, a tudo o que não me acrescenta nada, a tudo o que não me ensina nada, a tudo o que me magoa, a tudo o que me faz duvidar. 

Perdoei tudo. Arrumei nos devidos lugares as coisas que me magoaram e já consigo olhar para tudo sem angústias nem mágoas.

Neste momento, sinto que tenho tudo o que preciso para seguir em frente. E sei exactamente por que caminho quero seguir. Se vou fazer esse caminho ou não é coisa que não depende só de mim. Mas, mesmo que não aconteça, estou em paz com isso e com o facto de ter vivido tudo o que pude, quando pude. E tenho a sorte de saber exactamente a que sabe a felicidade plena, o amor inteiro, o querer a vida toda ali. Se isto me basta? Não sei. Mas sei que sou muito grata por já ter tido isto, por ter vivido isto, por ainda saber exactamente a que sabe esta felicidade. 

O que virá a seguir? Não sei. Mas hei-de descobrir. E está tudo bem.

19 fevereiro 2019

Movie time... again...

Como de costume, enquanto a vida lá fora vai andando em stand-by, o cinema ganha espaço. Falta-me ver pouca coisa dos Oscars, não creio que veja tudo a tempo, mas pelo menos o Green Book vai ter de ser porque desconfio que o boneco vai para casa do senhor Viggo este ano. Bom, adiante.


Este foi o filme do dia do meu aniversário, este ano. Tenho alguma tendência para escolher coisas pesadas (excepto no ano em que tive a infeliz ideia de ir ver o La La Land e me arrependi para a vida). Este ano não foi excepção. Não sabia ao que ia. Sabia que aquilo era um papelão da Nicole Kidman. Sabia que contava a história de uma polícia que se depara com o regresso de um caso antigo. O filme é a Nicole Kidman. Ela é o ventilador daquilo tudo. Estava a achar um "bom, é ok, vale pela interpretação dela, a história é meio meh..."... até que aquilo leva ali um plot twist que muda tudo e... Wow.... Que filmaço! Vale muito a pena... Mesmo.


Não sabia bem o que esperar disto. Thriller? Anne Hathaway? Siga. Bom... neste filme, nem tudo o que parece é. É um médio-bom, daqueles para ver no sofá, numa noite de sábado. Não é uma obra-prima, não é nada por aí além, mas vale a pena mesmo assim.


Quando o cinema nos leva ao limite, quando nos revira as entranhas, quando nos arrasta do conforto do sofá, da certeza da vidinha mundana que, mais conta, menos conta para pagar, segue tranquila, quando nos faz ter vergonha dos nossos queixumes que não são nada perto do que vemos ali, naquele ecrã, a ficção que se calhar não é assim tão ficcionada, vidas tão piores do que as nossas... Quando o cinema nos faz isto, temos a certeza de que nunca nos esqueceremos daquele filme.

Aconteceu-me com poucos. "A Vida é Bela", "O Rapaz do Pijama às Riscas" e pouco mais. E aconteceu-me com este, que é um chapadão na cara, sem aviso, sem misericórdia nenhuma. Senti-me pequenina, pequenina perante o que vi. Ali está o degrau mais baixo da pobreza, está a miséria, está a sobrevivência, está uma pessoa que faz o que tem a fazer, que podia fazer tudo errado, dado o contexto, mas não faz. É uma lição de vida gigante. Daquelas para nunca mais esquecer. (E depois é árabe, que é uma das minhas fixações. E começa logo com uma banda sonora maravilhosa. E é realizado pela Nadine Labaki, que já tinha feito outro filme que adorei - "Caramel" - e cujos outros dois filmes quero ver rapidamente.) Se não quiserem ver mais nenhum filme este ano, vejam este. Vejam mesmo. Mas preparem-se para o embate - vai ser duro.

Séries: o que ando a ver


Façam um favor a vocês mesmos, larguem tudo o que estiverem a fazer e tratem de ver isto. Não interessa se têm filhos a rondar a idade destes miúdos, não interessa se nunca hão-de ter filhos, não interessa se estão mais perto da idade destes do que da minha. Vejam isto. É das melhores coisas - senão mesmo a melhor - que vi nos últimos tempos. Chapadas de luva branca em barda ali pelo meio. Muitos abre-olhos. E até para quem, como eu, tem uma mente aberta e não está cá com merdas, é uma série cheia de mensagens importantes, que tocam no nervo certo.


Já tinha visto o primeiro episódio "por aí". Mas a HBO estreou-se em Portugal e... bom, vai ser um mês intensivo ao nível das séries, está bom de ver. Portanto, aqui temos duas mulheres em modo braço de ferro. A que mata e a que procura. A bestinha e a instável. Uma luta de gigantes que ainda não percebi como vai acabar mas... bom, despachei quatro episódios logo no primeiro dia (e tinha vindo de uma sessão de cinema dupla, portanto ecrãs era coisa que não me apetecia por aí além...).

A seguir em fila de espera tenho Sharp Objects e Little Big Lies, tudo na HBO. Na Netflix... já perdi a conta. Andei a ver uma série de documentários sobre - adivinhem - serial killers e afins. Que vício! (E porque Netflix não é suficiente... temos sempre o Youtube. Ando fascinada com um caso real, que aconteceu há 10 anos. Se a vossa cena também são psicopatas e sociopatas, procurem por Jodi Arias. De nada.)

The big 4.0

Fiz quarenta anos. Durante imenso tempo, achei que ia morrer antes e lá chegar (não me perguntem porquê, não sei, não faço ideia, é uma estupidez como outra qualquer). 

Há treze anos que não comemorava o meu aniversário. Fui deixando de achar que havia razão para isso, afinal de contas eu sou só uma entre sete mil milhões de pessoas e não importo para nada. Este ano resolvi que ia comemorar "para dentro". Havia de fazer coisas de que gosto muito, havia de estar com pessoas de quem gosto muito, mas sem anunciar o que se estava a passar. Quase consegui. Fiz a coisa em modo festa cigana: de dia 8 a dia 16, andei em comemoração. Entre saídas com amigos (normais, só para mim é que havia razão para estar ali, além da razão comum que é apetecer-me dançar), jantares e cafés, a semana passou.


No dia 16, sábado, a beber um café com a Lia ela insiste na pergunta: por que é que não fazes um jantar? Não me apetecia. Mas... perdido por 100, perdido por 1000. Meia hora e montei a coisa. Juntei seis amigos (e a pequena Lu, filha de dois deles, que é só a miúda mais espectacular de sempre, sou muito fã, assumo), daqueles que eu sei que nunca me falham. É tudo o que preciso na vida. Presenças. Às vezes silenciosas, mas sempre ali. Como eu para eles. Não fomos longe: restaurante quatro prédios ao lado do meu. Cinco meses depois, comi carne. Apeteceu-me uma francesinha, não devo justificações a ninguém, comi a francesinha, soube-me pela vida e no dia seguinte a minha vida sem carne seguiu normalmente.

Juntei pessoas que não se conheciam, acho que toda a gente gostou daquele bocadinho, eu percebi que nem sempre as pessoas me viram costas e me ignoram. Ou melhor, percebi que não preciso de muito para estar bem, percebi que tenho pessoas que gostam de mim o suficiente para desviarem um bocadinho o caminho que tinham planeado só para estarem ali comigo. Não tive ali toda a gente que queria ter tido e tenho pena, mas é a vida e não gosto menos das pessoas por isso. 


Acabou em grande a minha festa cigana. Cheguei aos 40 com a certeza de que não estou tão sozinha como pensava. (E também aprendi que meias presenças não ocupam lugar.) 

À minha Lia, o agradecimento do costume, por estar sempre lá, por me abrir os olhos, por me abanar os ombros e por me dar todos os pares de estalos de que preciso. És a minha pessoa. Sempre. 

E agora... siga viver isto dos 40 anos que, para já, está a ser maravilhoso.

13 fevereiro 2019

Um livro e uma metáfora

Fiz 40 anos e percebi uma série de coisas. A primeira é que não sou feliz porque deixei que a minha felicidade dependesse de terceiros. Parece coisa de miúda de 20 anos? Pois. O que eu sei é que, há uns tempos, tinha chegado ao ponto de equilíbrio: estava segura, tranquila e feliz, eu só comigo e isso bastava. Depois o coração acelera e de repente estás tão mais feliz quanto o retorno que recebes e se a coisa começa a engasgar começas a perder o brilho e quando dás por ti a felicidade é um verbo conjugado no pretérito. Avancemos.

Já tinha decidido que, este ano, os maus livros com que me cruzar vão ficar por ler. Tenho esta mania (parva) de ler as histórias até ao fim, na esperança de que algures a meio do caminho a coisa melhore brutalmente e faça a viagem valer a pena. Mas, sejamos honestos, já tenho idade para saber que provavelmente não vai acontecer. E, de caminho, perdi tempo de vida a ler aquilo quando podia estar a ler um livro realmente bom. A lição a aprender aqui é esta: não posso ter medo de deixar para trás o que não me enche as medidas. 

Há umas semanas comecei a ler um livro, "Fechada Para o Inverno", de Jørn Lier Horst. Uma merda. A tradução só piora a experiência, aquilo é desinteressante, não é fluído, é todo um novelo de coisa nenhuma. Li metade do livro. Hoje vinha no comboio e pensei: mas por que é que eu estou agarrada a isto? O que é que me obriga a ler isto até ao fim? O tempo que ando a empatar nisto podia estar a ser usado para ler outra coisa como deve ser. Tenho dezenas de livros por ler em casa. Seguramente muito melhores do que este (que veio da biblioteca, portanto o gasto não é nenhum). Enquanto ando a marinar nisto podia estar a aprender coisas como deve ser. Enquanto ando aqui parada não avanço para lado nenhum.

Às vezes, basta virar a página. Noutras, é preciso fechar o livro. Hoje fechei o livro. (Pus os phones e vim o resto do caminho a ouvir um audiobook que está a ser uma experiência muito, muito melhor. A vida a abrir janelas quando há portas que se fecham. E está tudo bem.)

05 fevereiro 2019

Não me calo

Nos últimos dias, tenho visto vários documentários sobre homicídios. Têm sido dezenas de histórias diferentes, todas elas com um elo em comum: nas entrevistas que são feitas aos familiares e amigos das pessoas assassinadas, o que se vê são olhos mortos, esvaziados, sem qualquer brilho. Uma morte enquanto há vida. 

A maioria do que tenho visto é sobre mulheres que foram assassinadas. Namorados ciumentos, amantes enfurecidos, maridos enlouquecidos. Alguns mataram os filhos, além das mulheres. Alguns mataram famílias inteiras.


Não é só nos Estados Unidos. Aqui são cada vez mais as mulheres assassinadas em contextos de relações pautadas pela violência. Este ano, que começou há 36 dias, foram assassinadas 10 mulheres e uma bebé. As últimas vítimas foram a mãe e a filha de uma mulher vítima de violência doméstica, assassinadas pelo ex-genro e pai da bebé. Não consigo imaginar como é que se vive depois disto. Não consigo imaginar o que fica depois de nos levarem a mãe e a filha. Não imagino como seja possível abrir os olhos e ver o que quer que seja. 

Enquanto se virar a cara, enquanto se fecharem os olhos e não se denunciar, isto vai continuar a acontecer. Vai continuar a haver homens que acham que podem tudo, violência verbal, psicológica, física, até matarem mulheres, filhos ou seja quem for que se atravesse no caminho. Acredito que a grande maioria deles chegue a este ponto num contexto de doença mental. Pois que se tratem. Pois que procurem ajuda e resolvam os demónios que tenham para resolver. 


Pela minha parte, o seguinte: já estive do lado de lá. Já ouvi berros, já tive mãos encostadas à cara, já tive muito mais do que deveria ter tolerado. Não denunciei por medo. Talvez o facto de eu não ter denunciado tenha permitido que outras depois de mim passassem pelo mesmo ou por ainda pior do que eu passei, às mãos daquela pessoa. Não sei. Passaram muitos anos e não voltei a sentir-me ameaçada. No dia em que sentir, agirei. E, de caminho, o compromisso de que não deixarei passar em branco nenhuma situação de violência contra mulheres de que eu tenha conhecimento. Mais nenhuma. Porque isto é um crime público precisamente para não exigir denúncia por parte das vítimas e poder ser denunciado por qualquer pessoa que tenha conhecimento das situações.

E é este o meu desafio para quem está desse lado: não se calem. Mesmo que tenham apenas uma suspeita e que a mesma não se confirme. Pessoalmente, prefiro perder amigos do que saber que o meu silêncio pode provocar a perda de uma vida. Consigo, na boa, viver sozinha na gruta. Não consigo viver sabendo que o facto de ter conhecimento de situações de violência perto de mim pode pôr vidas em risco. Provavelmente, não fará grande diferença. Mas se todos fizermos o mesmo, se todos recusarmos o silêncio e o fingir que não sabemos, talvez algumas vidas seja poupadas. Basta uma para já ter valido a pena. Eu não me calo. Não se calem vocês também.