-->

Páginas

16 janeiro 2019

The great alone

A solidão mata. A depressão mata. Aos bocadinhos e de repente. Com avisos, com pedidos de ajuda, com lágrimas, com as mãos vazias, com a sensação de que ninguém vê, ninguém ouve, ninguém quer saber. Conheço demasiado bem esta sensação. Olhar e não ver nada à volta. O vazio constante. O problema é quando se chega ao limite. Quando não se vê nada para além daquilo. Quando todos os caminhos soam a precipício. 


Há 22 anos, conheci um colega de faculdade que lutava contra uma depressão. Nós éramos poucos, a faculdade era pequena, as turmas eram pequenas e unidas. Éramos todos amigos, uns mais próximos, outros menos, mas todos no mesmo núcleo. Ele sempre me pareceu demasiado engolido pela depressão. Uma bomba-relógio. Questão de tempo. Infelizmente, não me enganei. Durante 22 anos, ele conseguiu ir respirando. Depois desistiu. A depressão profunda foi mais forte e ganhou. 

Peçam ajuda se precisarem de colo. Há sempre caminho pela frente. Há sempre pessoas connosco, mesmo que pareça que não. Peçam ajuda porque isto de viver é uma viagem gira e todos merecemos aproveitar o máximo enquanto cá andamos. Peçam ajuda porque, mesmo que não seja óbvio, há quem goste de vocês, há quem precise de vocês, há quem vos queira bem.


Olhem fundo nos olhos das vossas pessoas. Ouçam os gritos silenciosos. Dêem a mão. Ouçam. Ouçam mesmo. Tentem ver para além do óbvio. Ajudem, mesmo que não saibam como. Às vezes basta um abraço. Um "estou aqui, fala comigo". Não julguem os que vivem com um pé no buraco negro. Não assumam que quem, aparentemente, tem tudo para ser feliz é mesmo feliz. Talvez não seja. Mesmo que não percebam os porquês, mesmo que vos custe aceitar, percebam que, do lado de lá, o mundo nem sempre é tão claro, não é tudo preto ou branco. Às vezes só há sombras. Demasiadas sombras. E um dia o buraco negro pode ser o único caminho que aquela pessoa vê e o tempo esgota-se num instante.

15 janeiro 2019

Família Instantânea

Na semana passada fui ver esta antestreia e... que filminho bom! Sabem aqueles filmes em que riem e choram, em que sentem empatia em várias frentes, em que dão por vocês a calçar aqueles sapatos e a imaginarem como seria se estivessem naquela situação? Foi o que me aconteceu.

A história é baseada num caso verídico. Calha que é o caso verídico do argumentista/produtor/realizador do filme, pelo que não há-de andar muito longe da realidade. Portanto, o senhor e sua esposa dão por si a adoptar não um, mas três miúdos, irmãos, e a terem de lidar com tudo o que isso traz, visto que nenhum dos miúdos é propriamente um bebé. Há ali muita angústia, muito medo, mas também muita ternura, muito amor e muita vontade de pôr a máquina a funcionara  todo o vapor.

Gostei mesmo, mesmo muito. E acho que fazem uma asneira das grandes se não pegarem em vocês para irem ver isto. A sério. À confiança. 

(Estreia dia 24. Ponham na agenda.)

09 janeiro 2019

Sobre a polémica do pós-parto da Rita Pereira

2007, Dezembro.
Pequeno rewind: durante a gravidez da minha filha, aumentei 8kg, fui de uns jeitosos 55kg aos 63kg. Primeira filha acabada de nascer. Saio da maternidade com as minhas calças pré-gravidez. Natal à porta. Amamentar. Catarina Furtado como som de fundo a dizer que emagreceu este mundo e o outro porque amamentou. Eu a amamentar e a comer torradas a pingar manteiga e a virar copos de meio litro de leite. Sim, enquanto amamentava. Fim de Dezembro. Peso novamente 63kg. Nas três primeiras semanas não me conseguia sentar (fui atingida pelo clássico "pontinho demasiado apertado". Quando voltei a conseguir mexer-me tinha engordado todo o peso que perdi no parto. Sentia-me uma lontra. Mesmo. Não houve depressões nem babyblues, mas houve muito mal-estar, muito não gostar do que via, muito não me sentir bem comigo mesmo. A última coisa que me apetecia era dançar.

2011. Janeiro.
Pequeno rewind: durante a gravidez do meu filho, engordei 12kg, tendo ido de uns avantajados 63 até uns inenarráveis 75kg (para mim, que andei sempre ali a bater nos 52/54kg, isto era uma alarvidade). Quatro destes quilos foram ganhos, adivinhem... em Dezembro. Because... Natal. Bom, a cria nasce, parto super tranquilo, aqui a mãe fresca que nem uma alface, no dia seguinte recebo as visitas sentada na cama, como se não se tivesse passado nada. Estava óptima, sentia-me capaz de tudo e mais um par de botas (e nada de pontinhos mais apertados!). O peso foi embora, não voltei logo aos 63, mas andei ali nos 65 e não me stressei muito com isso. Sentia-me muito melhor comigo do que no pós-parto da miúda, mas também não fui dançar. 

De ambas as vezes demorei um bom bocado a sentir-me capaz de voltar à minha vida normal. Não fazia desporto antes, não cuidava de mim e foi o que foi. Se voltasse a ser mãe agora, pese embora tenha quase 40 anos (que é a principal razão por que isto não vai acontecer), tenho a certeza de que recuperaria muito mais rapidamente. A cabeça também é outra e hoje sou muito mais capaz de lidar com as minhas adversidades (apesar de me apetecer berrar muitas vezes e de dizer demasiadas vezes foda-se). 

Isto para dizer o seguinte: o que a Rita Pereira fez está adaptado à condição dela. Problema dela. É a realidade dela. 

Mas não tem de ser a realidade de mais ninguém. Não é porque esta pariu e dez dias depois está a fazer altas coreografias na TV que nós temos de fazer o mesmo. Cada corpo é um corpo. Cada realidade é uma realidade e é nestas alturas, quando insistimos em comparar-nos com as outras, que isto de viver nas redes sociais ganha uma dimensão um bocadinho perversa.  

03 janeiro 2019

Separadas à nascença...

Aqui há tempos contei que eu e a minha Lia deixámos de comer carne exactamente no mesmo dia, sem nunca termos falado sobre o assunto, lembram-se?

Bom... dia 31, no tal café para onde fui arrastada, contei-lhe que tinha estado a preparar um bullet journal, porque queria tentar ver se funcionava para mim, para me organizar e tal. E diz ela: "a sério? Eu também!". Nunca tínhamos falado sobre nada disto. Nunca tínhamos sequer comentado a existência disto, muito menos partilhado links ou o que seja. Zero. Tal e qual como com a história da carne.

Mesmo dia, à noite, abrimos os nossos "The Good 2018" jars, onde fomos colocando coisas boas que nos aconteceram ao longo do ano. Acontece que ambas frequentamos a casa uma da outra quando a dona está ausente (because... gataria). Ora, pelo meio de ambos os frascos apareceram coisas que escrevemos para a outra e pusemos lá. Ela deu com o primeiro papel... e logo a seguir encontro eu um escrito por ela, no meu frasco. Mais uma vez, duas cabeças, a mesma ideia: deixar mimos no frasco da outra, que haveriam de ser lidos mais tarde.

E é isto: cumplicidade, partilha, quatro ombros, quatro orelhas. Nunca me falha, nunca me deixa cair. Já nos zangámos (e a última vez foi há bem pouco tempo), já ficámos magoadas uma com a outra, mas este amor de irmãs que temos foi sempre maior do que tudo o resto. É para sempre, minha Lia. É para sempre.

02 janeiro 2019

... and a happy new year...

Este ano a minha passagem de ano esteve muito perto de ser o cúmulo da deprimência: eu, o meu pijama, a minha manta, um chá, um filme e três Valdisperts ali por volta das 23h, para ver se me apagava antes da meia-noite. 

Acontece que eu, que tenho pouquíssimos amigos, tenho a sorte de ter a melhor amiga do mundo, que me chateia a cabeça até à exaustão e que me vence pelo cansaço. A meio da tarde, começa a Lia a desafiar para café e eu a dizer que não, que não ia sair de casa, que queria estar enfiadinha no meu buraco. E ela a insistir. E eu lá fui beber café. Bom, aquilo acabou connosco no Continente a comprarmos amêijoas e camarão, uma garrafa de espumante e pão acabado de fazer. Acabámos a jantar as duas lá em casa e a virarmos juntas uma garrafa de vinho branco e a dita de espumante, mais uma margarita para mim e dois goles de margarita para ela. E rimos. E rimos. E rimos. (Pequeno-almoço de dia 1: um ibuprofeno e um Gurosan. Resto do dia em serviços mínimos, quase sem conseguir comer.)

Foi inesperado. Foi muito melhor do que eu pensei que pudesse ser. E, às vezes, só é preciso ter ali aquela pessoa que nunca nos falha, que nunca nos deixa cair. Aquela pessoa que é a nossa pessoa e que vai ser sempre a nossa pessoa, independentemente de todas as outras pessoas que estejam na nossa vida.

Obrigada por nunca me deixares cair. 

28 dezembro 2018

Movie time... again


Se tivesse de apostar, diria que estão aqui pelo menos duas nomeações para os Oscars. Uma Julia Roberts fenomenal, um Lucas Hedges que não há-de andar muito longe de ser um dos maiores da sua geração. A história? Espero nunca passar por nada sequer remotamente parecido. Mas aquilo é a maternidade, o amor, a redenção, a sobrevivência, os erros e os medos todos, o peso no peito, as angústias. Não é um filme fácil, mas é tão, tão bom.  


Apanhei este filme há uns dias, no Hollywood. Fiquei colada ao ecrã a ver. Não é um daqueles filmes com um final previsível e básicozinho. É a natureza humana, as coisas que mudam, o amor que não sobrevive mas que nunca morre. É a Celeste e podíamos ser nós. É fazer o melhor que se pode com o que se tem. É tentar manter acesa a luz no fundo do túnel e tentar que os corações continuem a bater, ainda que o ritmo seja outro. Há amores que acabam e que nunca acabam. Neste filme, como na vida. 


Eu sou super eclética nisto do cinema. Tão depressa estou a ver uma merda de um filme do Netflix (que, a propósito, tem séries espectaculares mas os filmes... credo... tudo tão mauzinho...), como estou a ver uma xaropada de acção, como vibro com uma Bridget Jones... como me dedico a filmes deste género. Na verdade, estes são os meus preferidos: filmes que não são produções grandiosas, mas que contam histórias de pessoas, com alma, com substância. Nunca são filmes fáceis nem óbvios, as personagens nunca são perfeitas. Pessoas reais, um bom argumento, bons diálogos, esqueço-me de que estou a ver um filme e a aposta está ganha. É o caso deste filme. Não é uma masterpiece, mas, lá está, é capaz de nos ensinar umas coisas sobre recomeços, perdão e seguir em frente.

27 dezembro 2018

Pós-Natal

Às vezes fico na dúvida: as pessoas sequer param para pensar? Este ano fiquei mesmo com a questão aqui a latejar. Importam-me zero as coisas de Natal, os bens materiais. Interessa-me muito mais o cuidado que se põe nas coisas. Eu explico: se querem oferecer alguma coisa a alguém, ofereçam uma coisa de que a pessoa goste, que tenha que ver consigo. Não ofereçam o que vocês gostam, o que a vizinha gosta, o que o irmão do marido gosta. Se não sabem do que as pessoas gostam, perguntem. Se não conhecem as pessoas, talvez seja preferível não oferecerem nada em vez de darem uma coisa que revela total desinteresse e despreocupação. São só coisas, é certo. Mas, lá está, oferecerem uma coisa, por pequenina que seja, que mostre que sabem quem está à vossa frente faz toda a diferença. Um exemplo: prefiro mil vezes que me ofereçam um marcador de livros do que uma garrafa de gin. Adoro ler, não sou fã de gin. Quem me conhece minimamente sabe isto. Nem sequer é preciso conhecerem-me há uma vida. E se me conhecem há uma vida, o mais provável é já me terem visto agarrada a livros a ler... mas dificilmente me terão visto de copo de gin na mão. 

Well... já passou. Venha de lá o ano novo...

21 dezembro 2018

O meu Natal perfeito

O meu Natal perfeito tem uma lareira acesa e torradas feitas ao lume. Tem Sozinho em Casa e Música no Coração. Tem pijama e roupão. Tem chá verde às três da manhã. Tem frio nos pés e saco de água quente na cama. Tem as minhas tias a atropelarem-se na cozinha. Tem gargalhadas e jogos de cartas. Não tem roupa de gala, não tem saltos altos nem vestidos novos. Não tem maquilhagem nem penteados. Não tem competição para ver quem recebe o presente mais caro. Este ano, o meu Natal perfeito tem os miúdos em histeria antes da meia-noite, porque ali ninguém quer saber das horas marcadas. Este ano, o meu Natal tem um abraço quentinho que vai chegar uns dias antes e isto é tudo o que eu preciso para ter um Natal (mais que) perfeito.

19 dezembro 2018

Um ano peculiar

Entrei em 2018 de coração ferido. 2017 tinha sido um ano muito difícil, 2018 não estava a prometer ser muito melhor. Fechei-me um bocadinho, sentia-me mergulhada em águas turvas, a tentar vir à superfície para respirar.

Janeiro foi introspecção. Foi não saber onde estava a pôr os pés, foi não saber para onde ir. Estava perdida e Janeiro não ajudou.

Em Fevereiro, 39 anos e a certeza de que estava no sítio errado. A nuvem negra perseguia-me e eu ali andei, meio arrastada. Lembro-me de me sentir completamente enrolada num novelo de arame farpado e de querer muito soltar-me, reencontrar-me e voltar a ser quem eu sou. Ainda demorou.

Março foi lodo.

Em Abril, fui pagar a promessa que fiz quando a minha mãe teve o rebentamento do aneurisma cerebral. Cinco dias duríssimos, muitas dúvidas, muitas certezas que não vinham ao caso e um joelho que entregou a alma ao criador. Sobrevivi, trouxe sequelas, não fiquei mais crente, não senti o que a maioria das pessoas que faz este caminho sente. Fiquei de alma lavada por ter feito o que foi possível fazer e estou em paz com o assunto.

Maio trouxe a leveza de que eu precisava. De repente, o meu mundo entrou nos eixos, o que era tóxico ficou para trás e eu voltei a ser eu, tranquila, em paz comigo, de braços abertos e de olhos postos no futuro. Esperança foi a minha palavra de ordem.

Junho foi um mês para sossegar, não sossegando. A rotina da dança instalou-se, a lama desapareceu. Voltei a viver os santos populares como aprendi a gostar de fazer, a data deixou de me pesar e eu percebi que o passado era mesmo só passado. Foi o mês em que comecei a série One Red Crow, em parceria com o meu amigo João Corvo, continuo a adorar cada vez que as fotografias dele me alimentam a veia criativa. É o nosso equilíbrio perfeito entre palavras e imagens.

Em Julho houve as minhas férias com os miúdos (acabei cansada, naturalmente), mas houve também a certeza de que tinha finalmente encontrado a serenidade que precisava de ter para estar bem comigo, antes de conseguir estar bem com o resto do mundo. Julho foi toda a tranquilidade que eu procurava.

Agosto foi uma surpresa boa. Inesperada, sem expectativas, a fluir. Foi um sorriso à beira-rio e a pele arrepiada porque não demos pelo tempo passar. Se tivesse de resumir Agosto numa única palavra, essa palavra seria abraço.

Setembro trouxe-me o Caramelo e... agora que olho para trás, percebo: a vida deu-me os presentes que eu merecia, quando estive pronta para os receber. Em Setembro continuou a haver o doce e a leveza, a certeza de que estou bem no sítio onde estou.

Em Outubro deixei de comer carne, dei a minha primeira aula de kizomba, percebi que o ginásio estava a ser um problema, percebi que me deixei enrolar numa teia de que não gosto (a da auto-estima com lascas, que é coisa que me mói). Tive mais angústias do que sorrisos e a vida começou a mostrar-me que havia ajustes a fazer. Mas também me mostrou que vale a pena investir, que vale a pena o empenho e que é aqui que tenho de estar.

Novembro não foi fácil. Nada mesmo. O cerco (das minhas angústias) a apertar e eu a ter de me safar sem grandes alaridos. Fiz o que tinha de fazer: respirei fundo e levantei a cabeça. Foi em Novembro que mudei um bocadinho da minha casa. Fui pela primeira vez ao Estádio da Luz (e que abada, senhores...) e foi em Novembro que recuperei o rasto à minha turma do secundário. Foi tempo de parar um bocadinho, de deixar a poeira assentar e de tentar ver o que tinha de ser arrumado novamente. Queria ter aproveitado o mês para dar um bom avanço no meu livro e... não escrevi uma palavra sequer. Mas não faz mal nenhum...

Dezembro ainda não acabou mas já consigo (acho eu) fazer o resumo: cancelei o ginásio porque não conseguia ir treinar e uns dias depois anulei o cancelamento porque não consigo estar assim. Há coisas que vão ter de cair para que eu possa voltar como eu gosto, mas não faz mal, porque são coisas que não me acrescentam muito. Sinto mesmo que tudo se está a encaixar nos devidos lugares e que, aos poucos, tudo ficará mais calmo. Mantenho perto de mim as pessoas de quem mais gosto e isto é sempre o mais importante.

No geral, 2018 foi um ano muito bom. Muito, muito bom. Trouxe coisas e pessoas que me apaixonam, fez-me ferver o sangue, deu-me coisas por que lutar, deu-me sorrisos e abraços, trouxe-me as pessoas que faz sentido ter comigo.

Se tiver de pedir um desejo para 2019, quero apenas manter tudo. E crescer. Quero escrever mais, dançar mais, ler mais. Quero mais abraços, mais beijos e mais sorrisos. Quero memórias fortes, daquelas que se guardam para sempre. Quero amar e ser amada. Quero adormecer sempre com o coração em paz. É isso que levo de 2018: a certeza de que pus o meu coração no caminho certo, apesar dos tropeções, apesar de nem sempre a estrada ser plana e sem obstáculos. Quero ter a força que tiver de ter para enfrentar o que vier.

Como dizem os brasileiros... saúde e paz, o resto a gente corre atrás.  

17 dezembro 2018

Amor à primeira vista


Boa semana, gente gira...

(Então que seja sem medo...)