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11 dezembro 2018

Do tempo que voa quando danço

Sete meses. Parecem sete anos. É aquele cliché básico, mas é verdade: parece que passou uma vida desde o dia em que entrámos, eu e a Lia, na aula do Diogo, perguntámos se podíamos experimentar e... eu nunca mais parei. 

Na altura, senti que tinha chegado a casa. Era antiga a paixão pela dança, era antigo o amor pelo ritmo a invadir-me e a fazer-me mexer. Ali foi como se tivesse encontrado a minha dança, o meu casulo. Já dancei muita coisa, hei-de dançar muitas mais. Não sou da salsa, nem da bachata, nem do hip hop, nem do afro house. Sou da kizomba. E sou ainda mais do urban kiz. 


Todas as manhãs há quem me veja dançar. É um ritual: entro no comboio, ponho os phones, escolho uma playlist de r&b calminha para vir a ouvir enquanto leio no comboio. Não me distrai, consigo concentrar-me. O comboio pára no Rossio e eu mudo a playlist: urban love e as músicas que não me permitem parar. Venho a ler na mesma, mas o ritmo nos pés é outro. Paro na gare do metro e às tantas estou a marcar o ritmo, não consigo sossegar nem quero saber. Sou das que dança onde tiver de dançar (e se andasse por ali um dos meus pares habituais, tenho a certeza de que dividíamos os phones e dançávamos juntos pela manhã, só porque sim). 

Subo a rua ao ritmo dos tempos e contratempos, um dois três-e-quatro, não dou pela rua que vai ficando para trás, continuo a ler, é o meu bocadinho de introspecção diário e sabe-me tão bem. Não faço questão nenhuma de falar com ninguém, prefiro a solidão dos anónimos, eu e o mundo, cada um na sua bolha, tantas maneiras de sermos felizes, tantas maneiras de curarmos feridas. Uma das minhas curas é isto de dançar (e, obviamente, isto de escrever).


Ontem, aula de urban e os homens foram desaparecendo - em danças em que têm de liderar, o trabalho é muito mais duro para eles do que para nós; eles são leaders e têm de saber tudo, nós somos followers e só temos de nos deixar guiar. O Celso dançou com todas nós e deu-nos um pequeno feedback sobre a nossa evolução.

Falámos sobre um dos grandes problemas das mulheres na dança: a tentativa de adivinhação sobre o que os homens querem fazer a seguir. Eu era assim - às vezes ainda sou. Mas o meu momento de viragem foi quando respirei fundo e desisti de antecipar. Tenho de ser rápida nas respostas, mas não tenho de saber o que me vão perguntar - imagine-se a dança como um diálogo entre duas pessoas, eles perguntam, elas respondem. Se não soubermos responder, não há conversa. Mas não temos de adivinhar o que nos vão perguntar.

Ontem, na aula, sete meses depois, sorriso aberto e "tu estás muito melhor". Não preciso de mais nada. Só preciso de saber que estou no caminho certo - e sei que estou a ser ensinada pelos melhores professores que poderia ter. Celso, Mafalda, obrigada!

One Red Crow #21


O ritual repetido infinitamente, caixas empilhadas na garagem, a ganharem pó até ao ano seguinte e, no primeiro domingo de Dezembro, a árvore falsa retirada da embalagem onde esteve o ano inteiro, as bolas vermelhas, há sempre uma que se parte e deixa pelo chão pedacinhos ínfimos de vidro e purpurinas, as bolas prateadas porque há muito que retirámos do Natal o brilho dourado, opulência de fachada, uma mentira como tantas outras.
Este ano desço à garagem sozinho, trago as caixas, tropeço em fios que arrumei sem cuidado no ano passado, as luzes enleadas e que se foda, não as ponho, os miúdos vão dar pela falta delas, uma árvore sem luzes é um espectáculo morto, porra que tenho de desembaraçar isto dê lá por onde der. Estico a fila de luzes meio fundidas, em tempos isto piscou numa coreografia perfeita, depois houve luzes que se apagaram e já não são luzes plenas, é apenas o que resta da vida que se apagou.
Nos anos anteriores, éramos cinco e não fazíamos isto sem a Mariah Carey aos berros, I don’t ask a lot for Christmas, this is all I’m asking for, todos a dançar desafinados, este ano troquei a Mariah por um copo de whiskey e espero que me anestesie da mesma maneira, a dor de cabeça que um me dá não deve ser muito diferente da do outro.
Este ano, a canção de Natal é a ausência deles, divididos entre nós, que nos dividimos também; as fitas que pus na árvore são fiadas de arame farpado, metáfora feroz dos corações feitos em papa; as bolas são cubos de gelo de arestas afiadas, uma transparência fugaz, um brilho falso e nada que me aqueça uma molécula sequer. Este ano o Natal é um fantasma pesado, a vida ligada à máquina, a recordação dolorosa do calor que arrefeceu.

| Fotografia de João Corvo |

10 dezembro 2018

Lisboa no prato

Fui convidada a experimentar a nova carta do ET Portuguese e... bom, comida, Praça da Alegria, um fim de tarde frio e... claro que sim, vamos!

Desafios: um vegetariano, uma piscitariana. À partida, safava-me melhor do que ele, não é? Não. Foi igual. Pusemos o homem a comer peixe porque não há cá fundamentalistas e havia, vá, vontade de comer. Sem stresses, sem dramas.

Antes de falar da comida, o espaço: coração da Praça da Alegria (sorte: estacionámos mesmo à porta), sítio super acolhedor, preparado para refeições fora de horas (fecha às 2h) e preparado para sessões de trabalho (tomadas junto às mesas, uma luz bonita e... para mim, está maravilhoso). O espaço não é nada pretencioso (e ainda bem) e, apesar de termos partilhado a mesa com dois casais que não conhecíamos, não foi estranho. Deu para conversarmos os dois, deu para nos rirmos, deu para juntar mais um momento ao nosso leque de momentos leves e despreocupados (this is us, by the way).

A comida? A nova carta grita Portugal. Ou melhor: a carta assoma-se à janela, desvia os cortinados de renda, pousa os cotovelos no parapeito e assobia baixinho um fado dos antigos, o rio ao fundo e esta luz que só Lisboa tem. É a frescura da sardinha, o cheiro a fumeiro do chouriço, o bacalhau salgado no ponto certo, as texturas diferentes que casam tão bem e outras, que por serem mais inesperadas, parecem amantes sôfregos e inusitados.

Para entrada houve filete de sardinha em cama de pão com chouriço. Típico? Hell, yeah! 


Também houve salada de bacalhau com pimentos e laranja. Lembram-se dos amantes inesperados? Pois. Tão bom!

O prato de peixe era bacalhau com pão de ovar (brutalíssimo) e puré de pimentos. Para mim, foi a estrela da noite, sem dúvida.


Depois veio a carne e bom... carré de cordeiro com crosta de pistáchio e cogumelos e... eu não adoro cordeiro e não sou a melhor pessoa para apreciar este prato, mas um dos rapazes da nossa mesa estava doido com aquilo. Pela minha parte, o pesto de pistáchio e o puré de cogumelos com a batata assada estavam de babar. 


Para fechar, degustação de sobremesas. Neste ponto não chegámos a consenso: eu babei pelo pudim de laranja e gin, ele delirou com o salame. Os sorvetes estavam óptimos, o mil folhas também, mas os nossos corações penderam para os outros dois. 


Gostámos muito do sítio, do jantar e do ambiente todo. A repetir? Claro que sim!!

(Obrigada ao ET Portuguese pelo convite!!)

Se não os podes vencer...

Casados à Primeira Vista. A Lia e a Luísa já andavam viciadinhas nas versões estrangeiras disto. Tivemos jantarem em que a coisa era elas a debaterem aquilo e eu a pensar um rotundo "what tha fuck??", sem conseguir achar a mínima graça àquilo. E eu até tinha tudo para ser fãzérrima da coisa. Quer dizer, eu sou a pessoa que papa tudo quanto seja Casa dos Segredos, portanto os Casados eram o próximo passo. Só que não.

Acontece que o homem começou a comentar isto comigo, porque também vê. E eu lá vi aquilo um  dia com ele. E agora sou eu que comento aquela porra. E que vejo os diários e as Galas ou lá como se chama aquilo ao domingo. Rendi-me, pronto. Bom, vamo'lá?

Primeiro ponto: se algum dia eu achar que preciso de ajuda especializada ali ao nível da terapia de casal, aquelas quatro pessoas estão claramente fora do meu leque de possibilidades. Eu sei que aquilo é televisão e sei que sem drama não há programa (que rima mai linda, não me lixem). Mas era difícil conseguir não acertar num casal que fosse. Quer dizer... ao menos que houvesse ali um capaz de nos fazer acreditar em milagres inesperados e tal... Mas não. Zero. Os matches que eles fizeram só os fazem parecer incompetentes, que é o tipo de coisa que se calhar não queremos passar para o mundo, uma vez que temos um negócio para manter. Não sei, digo eu.

Portanto...

Temos a destravada que precisava de equilíbrio e vai de a juntar com um gajo mais zen do que um exército de monges tibetanos. Se calhar não resulta. A parte mais interessante deste casal é o facto de ela estar assumida e conscientemente a tentar quebrar o seu próprio padrão: adora bad boys e lixa-se sempre (que novidade... been there, done that... e felizmente já me livrei desta onda). O marido que lhe calhou não é nada assim e ela está numa de tentar encarrilar. Parece-me inteligente. Não quer dizer que funcione, mas o princípio é bom.

Temos a senhora que parece que está sempre on fire e nada como juntá-la com um senhor que fala, fala, mas não faz nada. Para ver se ela se acalma e se ele arrebita. Ora... nem uma coisa, nem outra. Óbvio.

Depois temos um senhor que foge do amor como o diabo foge da cruz - apesar de se ter metido num programa cujo propósito é arranjar-lhe mulher. E casamo-lo com quem? Com a romântica inveterada, super querida e amorosa. Alguém vai sair daqui com dói-dói... e não vai ser ele... (e o tipo tem ar de quem vai matar a senhora enquanto ela dorme... eu não me sentia segura a dormir ao lado daqueles olhares aniquiladores, aviso já.)

O único casal que ainda não percebi por onde é que vai rebentar é o mais normalizinho/morno. Ali andam, sem grandes percalços, nada a declarar, vamos vendo e logo se decide. Ela precisa de mais calor, mas é um bocadinho fria... (identifico-me, pronto - mas estou muito melhor... se calhar até de mais...). Ele é o que se atira de cabeça sempre mas desta vez está cauteloso. Vá-se lá perceber...

Depois temos o tipo que é basicamente um psicopata. Anda ali de norte para sul, ora está bem, ora lhe dá a travadinha e desata a disparatar. Chama de falsa para baixo à mulher, mas diz que ela é a mulher da vida dele. Esqueceu-se de que, apesar de ter casado com ela, teria de a conquistar, e achou que era chegar e andar. Meu menino, nunca é. Trata a rapariga pior que eu sei lá o quê, faz birras, é manipulador, tem a mania que é diva e não há paciência para um desequilibrado deste calibre. A rapariga pode ter todos os defeitos do mundo mas, ao pé dele, é uma santa. E devia ganhar um prémio por estar há seis semanas a aturar este atrofiado. 

Estou curiosa para ver no que isto vai dar. Não me parece que nenhuma destas combinações funcione, mas se tivesse de correr o risco, apostava na Eliana e no Dave e no Daniel e na Daniela. Não apostava era muito, porque o risco de falhar é grande...

07 dezembro 2018

A pior mãe do mundo - breve explicação sobre o epíteto

Ora bem, sobre isto de ser a pior mãe do mundo por ter recusado uma ideia absurda que teve origem na escola da minha filha, tenho a dizer o seguinte:

- obviamente, levei isto tudo num contexto de ironia. Estou-me nas tintas para o que o mundo em geral pensa sobre a minha maternidade. As opiniões dos meus filhos interessam-me, mas são enviesadas pelos desejos deles e pela falta de noção que têm. Da mesma maneira que esta semana fui a pior mãe do mundo porque lhe disse que não à ida a Inglaterra, na semana que vem vou ser a melhor mãe do mundo porque os deixo jantar pizza no sofá. Como vêm, é tudo uma questão de perspectiva e de expectativas.

- como não ando aqui numa competição com outras mãe, a ideia de assumir o papel de pior mãe do mundo enquanto posto de ironia e de gozo com alucinações várias que nos ocorrem a todas neste processo de gerar filhos, de os pôr no mundo e de tentar que eles sobrevivam. 

Portanto, chill: não fiquei minimamente melindrada com a cena da minha filha, não levei a peito e não dei importância. Mas achei graça ao nome e até me soa bem para uma série de crónicas sobre o lado negro e descomplicado da propagação da espécie. Aguardem - na semana que vem começa o baile.

05 dezembro 2018

A pior mãe do mundo

Ganhei este prémio ontem, quando disse à minha filha que não, não pode ir duas semanas para a Universidade de Winchester aprender Inglês.

A vida nem sempre é justa e à minha filha calhou-lhe uma mãe que está muito longe de ser rica. Calhou-lhe também uma mãe com noção da realidade, o que às vezes é uma chatice. 

Contexto: a escola da criatura está a organizar uma espécie de campo de férias que consiste nas tais duas semanas em Inglaterra, a viver nem sei bem onde (confesso que desliguei o botão e não fixei esta parte) e com aulas de Inglês na Universidade. Até aqui, tudo tranquilo. A escola achou boa ideia dizer isto aos miúdos (no caso, miúdos de 10/11 anos, portanto com imensa maturidade para entender a coisa... not). Depois disse-lhes que ia haver uma reunião de professores e encarregados de educação onde tudo seria explicado. 

O meu pequeno Gremlin andou a comer os miolos ao avô para ele ir à reunião e ele, que até é o melhor avô do mundo, lá foi. 

Ontem ao final da tarde recebo mensagem da criatura a dizer que a viagem custava só €2.333,00. Achei que ela se tinha enganado nos números e que aquilo não podia ser. Tirei a dúvida. Eram mesmo €2.333,00. Sacudi a cabeça e tentei encaixar este valor no meu conceito do que é aceitável. Não coube. Disse-lhe isso de maneira muito directa: nunca na vida, esquece. Pequeno Gremlin começou então a gerir a revolta interior...

Quando cheguei aos meus pais, vi o papel da reunião. O programa daquilo, as condições e os valores. Aparentemente enganaram-se em qualquer coisa (tipo no nome da Universidade ou assim) e hoje iam dar a versão corrigida aos miúdos. Ainda assim, aquilo tinha a espectacular possibilidade de dividir o pagamento em prestações de trezentos e tal euros. Uau. 

Continuei a dizer que não vai dar, ela continuou a insistir. Tive de explicar que não tenho €2.333,00 euros para dar por um campo de férias de duas semanas, nem que divida isso em 30 prestações. Se tivesse esse dinheiro para empatar numa viagem, já estávamos os três a caminho das Caraíbas, para uma semana de resort tudo incluído.

Hoje de manhã liga-me a dizer que recebeu o tal papel, que afinal não são €2.333,00 mas sim €1.900,00. Voltei a dizer que não dá e sua alteza toca de desligar o telefone na cara. Liguei de novo e vai de ralhete. E ela toca de me desligar o telefone na cara novamente (adivinhem quem vai ficar sem telefone nos próximos dias...).

Agora a desconstrução isto tudo: nada contra campos de férias em universidades inglesas, para aprender a falar inglês. Acho é que os miúdos da idade da minha não beneficiam grande coisa com eles, mas nem vou por aí. A minha questão é apresentarem esta possibilidade aos putos que, como ainda vivem um bocado no país das maravilhas e não sabem ainda bem como funciona a vida real, depois têm alguma (muita!) dificuldade em entender e aceitar um não.

Portanto, agora tenho uma filha que acha que, porque não posso bancar a viagem dela, sou a pior mãe do mundo. E se calhar sou mesmo.

04 dezembro 2018

One Red Crow #20

Há sempre este barulho ensurdecedor, este ruído fininho que me enleia os pensamentos e torna tudo uma massa turva e espessa, pesada e infinita. Não sei onde deixei a estrada, há muito que rasguei os mapas, não me servem porque mesmo que os olhe escolho caminhar sem saber que trilhos me levam ao destino. Há sempre esta faca afiada apontada ao coração, a hipótese de morte, a fuga cada vez mais lenta e eu entre paredes, bola de squash que não abranda, pancadas secas e o eco que se propaga até à exaustão. Há sempre esta névoa cinzenta, esta incógnita incapacitante e ácida e eu ali, entre dúvidas e falsas certezas, entre o querer e o conseguir. Eu sou um puzzle a que faltam peças, sou a pintura inacabada, sou o livro que ficou por escrever, a história deixada a meio porque adormecemos abraçados inebriados pelo álcool dos gins e do passado. Eu sou um reflexo difuso num vidro sujo por histórias antigas, num vidro riscado por mágoas de outras vidas, num vidro rachado por tudo o que antes falhou. Basta que me toques no ponto certo. Ou partes o vidro irremediavelmente ou lhe devolves a absoluta transparência.

| Fotografia de João Corvo |

Antes & Depois

Chamemos-lhe evolução, aprendizagem, apuramento, velhice. Não importa. Há um Antes & Depois para todos nós, na vida. Este é o meu.

Atrasos

Antes:
Jantar marcado para as 21h. Lénia a chegar tranquilamente com uma meia hora de atraso. Porquê? Porque calculava mal as horas, não geria bem o tempo, demorava mais do que o esperado em coisas que eu até já sabia que iam demorar mais do que estava a contar (tipo escolhe roupa e maquilhar-me - tudo coisas importantíssimas, portanto). O pior era o meu ar plácido de quem está na boa com o atraso. Quer dizer, era apenas um jantar/saída/café, não era como se estivessem à minha espera para salvar a vida de alguém. 

Agora:
Se é às 21h, eu chego às 20h50. Se sei que só tenho meia hora para me despachar, ajusto o que tenho de fazer ao tempo disponível e não o inverso. O facto de ter apurado a técnica dos duches de 5 minutos ajuda, claramente. O facto de cada vez me chatear menos a decidir o que visto também ajuda. Na rara eventualidade de me atrasar, aviso assim que percebo que estou atrasada e os ditos atrasos nunca, mas mesmo nunca passam os 15 minutos. Odeio deixar pessoas à minha espera. E odeio que me deixem a mim à espera. Mesmo. Acho de uma falta de consideração atroz. Aprendi que o tempo que deixamos os outros plantados à nossa espera diz muito acerca do respeito que lhes temos. E acho mesmo que, se as pessoas sabem que são uma espécie de atrasados crónicos e não fazem nada para mudar isso, então o caso é grave.

Organização

Antes:
Vivia bem no meio do caos. Sabia sempre onde estava aquele papel, aquele livro, aquela peça de roupa. Era o típico caso de desorganização organizada. Na verdade, tudo aquilo era ruído visual e só poluía a minha vida.

Agora:
Não consigo. Não sou a rainha da organização - muito longe disso - mas preciso de mínimos para me sentir confortável. As coisas foram ganhando lugares, que respeito criteriosamente. Desenvolvi uma forma suave de OCD em alguns assuntos... e até acho que devia aprofundar mais a coisa, visto que isso me ajuda a limpar poeiras e a organizar o que interessa.

Planos

Antes:
Vivia, no máximo, com 24h de antecedência. Fazia zero planos a médio prazo (sendo que planear à terça uma coisa para sexta era, para mim, médio prazo), muito menos a longo prazo. Gostava da imprevisibilidade, achava que o facto de não marcar nada com antecedência me dava a liberdade de fazer tudo o que me apetecesse.

Agora:
Não consigo viver sem rede. Eu sei que os planos podem ser alterados, que imprevistos acontecem, que se descombinam coisas e a vida segue. É a tal liberdade. Mas agora, com quase 40 anos de vida nos costados, preciso da segurança de saber para onde vou. Não é uma prisão, não é uma gaiola. Mas gosto de saber com o que conto, até porque isso me permite gerir tudo o resto em conformidade. Na verdade, é como se a minha vida fosse um imenso tabuleiro de tetris onde vou ajustando peças de maneira a que tudo encaixe. Isto acontece porque tenho mil coisas para fazer e quero chegar a todo o lado. Mas a prioridade são sempre, sempre as pessoas. As minhas pessoas. Faço e desfaço planos para estar com as pessoas de quem gosto. Deixo de fazer coisas minhas para estar com elas e isso sabe-me mesmo, mesmo bem. Ponho tudo em pausa pelo café com a Lia, pelo filme no sofá com os miúdos, pelos abraços dele.


Não sei se cresci, se perdi ou ganhei qualidades. Sei que tenho tentado dar aquilo que gostava de receber (mas não dou esperando algo em troca, atenção). Tento mesmo agir de acordo com a maneira como eu gostava que agissem comigo. Tento ao máximo aligeirar a minha carga. Sei que ainda tenho um longo caminho a percorrer e gostava mesmo de repetir este post daqui a um ano dedicando uma secção ao perfeccionismo que é exacerbado em mim e que me congela e impede que faça coisas que quero fazer. É isso que sinto que tenho de trabalhar a seguir, é nisto que quer investir. Sei que preciso de ajuda com isto e acho que sei quem me pode "salvar"... É um work in progress - voltarei a isto um dia...

28 novembro 2018

Sobre o meu sonho

Desde que pus o meu primeiro livro a circular em direcção a editoras, tenho falado pouquíssimo sobre isso. Porque não há muito a dizer: saiu das minhas mãos, não há nada que eu possa fazer agora a não ser esperar por respostas (e, neste caso, o silêncio não é uma resposta: as editoras demoram mesmo muito tempo a dar feedback e acredito que aquelas para onde mandei o manuscrito são das que não deixam os autores sem uma palavra, mesmo que essa palavra seja um rotundo "não").
Tirando as editoras, não há muitas pessoas que o tenham lido. Algumas amigas ajudaram-me IMENSO na fase de revisões (e vou estar grata por isso até à 5ª geração!), outras leram o produto final. Para começar, fico sempre honrada quando empregam tempo com o meu livro em vez de lerem outro livro qualquer. Para mim, enquanto autora, ter uma pessoa a preferir dedicar umas horas ao que eu escrevi em vez de pegar noutra obra é motivo de alegria mesmo.

Sei bem que nunca poderei agradar a gregos e troianos, nem é esse o meu propósito, senão sabia bem por onde entrar, mas fico muito feliz por todo o feedback que recebi ser positivo. E sei que é sincero, porque tenho com todas as pessoas a quem dei o livro para lerem uma relação honesta que permite que tudo seja dito. Aceito e agradeço tudo o que me têm dito, mas o que é facto é que todas as opiniões me têm enchido o coração, porque são positivas. E não, não fui eu que escolhi as amigas fofinhas. Aliás, uma das primeiras a ler aquilo foi a minha Vanessa, que é provavelmente a pessoa mais frontal e sem merdas que conheço e que não tem problema nenhum em dizer-me as verdades na cara (como já aconteceu noutros contextos).

Bom, isto tudo para dizer que hoje o meu dia amanheceu brilhante, com uma mensagem de uma amiga que está agora a ler o manuscrito. Fiquei tão, tão feliz com as palavras dela que voltei a sentir o que já tinha sentido antes: mesmo que o livro nunca seja editado, mesmo que nenhuma editora o queira, mesmo que ele fique para sempre entre gavetas, o facto de haver quem o tenha lido e gostado dele já faz com que valha muito a pena tê-lo escrito.

Quem vos avisa...


Vamos todos concordar que não somos eternos, não vivemos para sempre e que o nosso tempo é um bem finito, boa? Por amor da santa, NÃO desperdicem uma hora e meia desse tempo precioso nesta merda de filme, ok? A sério. Se há filmes maus, este é seguramente um deles. Que coisinha inenarrável e sem nexo nenhum. Fujam disto.


This, on the other hand... que filme bem estruturado, caraças!! Adoro este género de mecânica, em que a história é uma espécie de inception. Gostei mesmo muito.