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22 maio 2018

A Belinha e o "bem"

Nota prévia: tudo na Isabel Silva me "enerba". TU-DO. Principalmente desde o dia em que a vi no paredão, sem câmeras por perto, portanto a operar à civil, sem gente a bater palminhas. E foi arrogante e armou-se em diva de metro e meio e... revelou-se. Bom, adiante.

Aparentemente, a Belinha é especialista em nutrição. Edita livros de receitas, promove marcas, enche a boca para falar da "comida do bem". Primeira pergunta: há comida "do mal"? Há um dark side of the force em forma de alimento? Nunca dei conta. Uma alface será sempre nutricionalmente mais interessante do que um big mac, mas daí a meter uma coisa do lado do bem e outra do lado do mal... vai todo um carrossel de coisas pelo meio.

Comer não faz de mim nutricionista. Da mesma maneira que tomar medicamentos não faz de mim médica. Da mesma maneira que treinar não faz de mim PT. Quanto muito, aplico em mim as coisas em que acredito. A Rádio Comercial pagar a esta pessoa, que não tem formação NENHUMA na área, para dar conselhos de nutrição é só estúpido. Mega tiro no pé. Nada contra a partilha de experiências, tudo contra o aproveitamento que esta pessoa faz de um assunto sobre o qual não tem conhecimento científico. Mastigar erva-trigo se calhar não nos faz mal nenhum, mas daí a justificar a coisa com uma série de falácias...  

Ar puro

E o ar puro que se instalou na minha vida, de há uns dias para cá?

Ar puro isento de podridão, sem aquele cheiro das represas paradas, sem esgotos a céu aberto. O ar puro da vida que acontece, da tranquilidade instalada no peito, da sensação de paz e de saber que estou a andar na direcção certa. O ar puro do sorriso que consegui ver num telefonema que durou horas, onde se falou do bafio podre, mas onde também se falou das brisas boas. O ar puro que circula entre as pessoas que se conhecem bem, que gostam uma da outra, que não se perderam nos entretantos.

O ar puro que merece quem teve sempre o coração no sítio certo, quem não se vendeu por preço nenhum, quem defendeu sempre os valores em que acredita e agiu em conformidade. O ar puro da consciência tranquila e da certeza de que, venha o que vier, há-de sempre, sempre sobreviver.

14 maio 2018

Livros e amigos

Esta foto (com uma qualidade, vá, péssima) foi tirada há cerca de um ano, na apresentação de "O Deslumbre de Cecilia Fluss", do João Tordo. à minha esquerda está o Yves e à esquerda do Tordo está o Manel. Ora estas duas pessoas aterraram na minha vida nos cursos do João: o Yves fez comigo os dois níveis; o Manel achou que o primeiro nível não fazia falta e fez apenas o segundo (mas o Manel é aquele gajo que começou a ler a trilogia do João pelo livro do meio, portanto não me surpreende).

No primeiro nível do curso, o Yves começou a escrever um romance. Escreveu o primeiro capítulo como parte de um exercício proposto pelo João. Havia ali material para edição. E a edição aconteceu agora. Na sexta-feira foi a apresentação do livro. Chama-se "Espero Por Ti na Próxima Tempestade" e parece-me assim uma coisa especial.

Para início de conversa, o livro foi apresentado pelo João - e isto, pessoas, é dos melhores certificados de qualidade que um livro pode ter. Depois, o que se viu ali foi uma conversa crua, daquelas que mordem as entranhas, do Yves sobre o processo de escrita deste livro. Já tínhamos falado sobre isto antes. Este livro salvou o Yves. Literalmente. Comecei a ler na apresentação e continuo assim que acabar o que tenho agora em mãos. Hei-de falar-vos mais sobre ele, mas adianto já que podem (devem!) ler isto. À confiança.

E nestas fotos, uma curiosidade: além da Mariana, filha do Manel (que há-de ser uma senhora artista do caraças - pinta que é uma maravilha e já fez a primeira exposição... aos doze anos!), nestas imagens só há uma pessoa que não tem livros editados...

(É sempre tão bom estar com eles... E sou uma privilegiada por poder conviver assim com o meu escritor preferido, e por poder contar com o apoio dele neste meu sonho... Caramba!, hei-de chegar ao fim da minha vida e isto há-de ter sido uma das melhores coisas que a vida me deu!)

07 maio 2018

Esta coisa de ser mãe


Nota prévia: eu sou um tractor e hoje acordei particularmente... coise.

Vamos por pontos, para facilitar a leitura.

Ponto 1: sou mãe. Não sou Mãe, não sou A MÃE, não sou nada a não ser mãe. Igual às outras todas. A tentar fazer o melhor que sei e posso com o que tenho. A tentar ser uma espécie de amortecedor para eles, para que as arranhadelas da vida não lhes cheguem ao osso (hão-de chegar e eles hão-de sobreviver. Haven't we all?).

Ponto 2: os meus filhos são dois seres humanos normalíssimos. Não são a versão 2.0 do Cristiano Ronaldo, não são membros do Mensa (google it, vá), nada disso. Dois miúdos normais. Difíceis, na maior parte dos dias. Como todos os miúdos (ou quase, vá).

Ponto 3: eu não sou a rainha da paciência infinita. Nada mesmo. Aliás, a minha paciência é uma espécie de beco sem saída, quando dás conta já acabou. Calha também que eu tenho uma voz potente. E graças a anos de teatro sem microfones, tenho uma boa colocação de voz. Isto faz de mim uma mãe que grita.

Ponto 4: a parentalidade positiva é (teoricamente) muito bonita mas não é para mim. Sou a mãe, logo sou a figura de autoridade, logo sou eu que mando. Ponto final. Sem discussão. Além disso, tenho, de há muitos anos a esta parte, uma espécie de lema de vida: não negoceio com terroristas. De espécie nenhuma. Não cedo a chantagens. De espécie nenhuma. E escolho as minhas guerras. Aquela coisa de o menino quer, o menino tem não é para mim. Faz-me rir, aliás. A palavra que eles mais ouvem da minha boca (além dos nomes deles, chamados uns decibéis acima do aceitável, mil vezes ao dia) é NÃO. Com as letras todas. NÃO. Tão bom.

Ponto 5: a minha missão enquanto mãe é prepará-los para a vida. Não é fazer deles pequenos déspotas que acham que podem tudo. Lamento, não sou essa mãe. Nem quero ser. Sou a mãe que ensina, que ajuda, que exige. Também sou a mãe que fica super orgulhosa quando eles atravessam as etapas de crescimento normais. Ontem, por exemplo: a minha filha fez-me panquecas para o almoço (sozinha, sem me perguntar nada: um ovo, bebida de arroz, farinha, um fio de aceite no fundo da frigideira, fogão aceso - e se aquilo é difícil de acender, senhores! - e cá vai disto... pequeno-almoço trazido à cama), o meu filho tomou banho sozinho e eu nem sequer estava na casa-de-banho.

Ponto 6: não perco muito tempo a pensar nestas coisas da maternidade. Os dias seguem, eu ajo e reajo conforme as coisas acontecem e pronto. No big deal.

Ponto 7: falho muito. Se calhar devia ser mais permissiva, se calhar não devia ser a nazi das tecnologias (mas sou e não vou deixar de ser, lamento. Aquela coisa de miúdos pequenos agarrados ao Youtube não é para mim), se calhar devia espojar-me mais no meio do chão a brincar com eles. É o que é. Tento o meu melhor. O meu melhor, às vezes, não presta. Acontece. Este fim-de-semana, por exemplo, entre as mil coisas que fizemos não houve tempo para vermos um filme juntos. E o miúdo ontem queixou-se. E eu prometi que, no próximo fim-de-semana juntos, vemos dois filmes. All good. Ninguém se magoou.

Ponto 8: sempre quis ser mãe. Não sei se me sentiria completa se não tivesse filhos. Nunca vou saber. Sei que estes filhos que me calharam são um desafio constante. E ainda bem.

Ponto 9: interlúdio para dizer que aquela merda que muitas mães dizem "obrigada por me teres escolhido para ser tua mãe"... please. Por amor da santa. Lotaria. Ninguém escolheu nada. Lotaria, simplesmente.

Ponto 10: nestes dez anos e pouco de maternidade, há um peditório para o qual eu não dou: o da culpa. Faço o melhor por eles. Não me esqueço de mim. Não vivo em função deles. Vivo com eles. eu tenho as minhas coisas, eles têm as deles. Eu preciso do meu espaço e do meu tempo e não me sinto culpada por isso. Sei que seria absurdamente infeliz sem isto. E ninguém merece uma mãe infeliz. Dou a minha vida por eles sem pestanejar. Mas enquanto pudermos viver os três, então vamos viver de maneira a sermos todos felizes. E ninguém anula ninguém, ninguém se sobrepõe. Porque, no fim de contas, somos três seres humanos a quem cabe coabitar e, portanto, é bom que a coisa aconteça sem grandes dramas. Digo eu, que sou apenas mãe. Sem merdas.

Ponto 11: não sou a melhor mãe do mundo. E não quero ser. Aliás, nem tinha dado conta de que havia um campeonato. Não entro em comparações. Os meus sapatos sou eu que os calço e não calço os sapatos de ninguém. Portanto não quero saber se a Maria é mais isto ou aquilo e se a Joaquina faz assim ou assado. Esta mãe sou eu, destes filhos que são meus. É a vida. Lotaria, já disse?

03 maio 2018

Why so serious?


Eu não me levo demasiado a sério. Nem levo ninguém demasiado a sério. Gozo muito comigo mesma. Brinco com as minhas manias, os meus maneirismos, as minhas idiossincrasias. Eu sou um acumulado de coisas que nem sempre fazem sentido quando juntas umas com as outras.

Por exemplo, sou a miúda que lê livros sérios (especial preferência por thrillers com muito sangue e cabeças brilhantes e por romances contemporâneos - principalmente de autores portugueses - daqueles assim ao nível de um João Tordo), mas também sou a miúda que passa imenso tempo no ginásio, a treinar, que vibra com bodybuilding e que está a pensar seriamente em competir.

Sou a mãe que vai a todas com os filhos, mas também sou a mãe que lhes tira o comando da televisão quando decide que agora é a sua vez. Sou a mãe que os leva a comer um gelado, mas que os obriga a comer os cogumelos de que eles alegadamente não gostam (mas que comem deliciados quando não sabem que os estão a comer).

Sou a amiga que está lá para tudo, mas que nem sempre tem vontade de estar fisicamente com os amigos (às vezes só quero mesmo o meu sofá).

Sou a mulher que sabe costurar e fazer crochet e tricot, e que é capaz de passar horas a dançar house music numa discoteca (não me convidem para merdas que envolvam rock dos anos 70 e 80, por favor).

Sou a mulher que quer um amor para a vida toda mas que não acredita em amores eternos. Que se apaixona quando menos espera, mas que vira costas sem olhar para trás quando sabe que chegou a hora de ir.

Sou a mulher que perdoa demasiado, mesmo que isso lhe queime as entranhas, e que, por muito que saiba que deve ter vinte pés atrás, esquece tudo e segue porque há coisas mais importantes (ou então há aqui uma lição qualquer que ainda não aprendeu).

Eu sou um montanha de contradições. Mas sou sempre, sempre coerente. E não tenho problema nenhum em mudar de opinião nem em assumir que estava errada. Peço desculpas de olhos nos olhos, quando sou injusta ou quando falho. Tenho a humildade de saber que não sou perfeita (muito longe disso), que falho imenso e que me falta tanta coisa. Mas também sei o que valho e sei que sou suficiente - é uma lição recente, mas está aprendida e não volto a duvidar. Sei que não tenho tudo o que mereço e que talvez tenhas coisas que não mereci assim tanto. Sei que cada guerra serve para me ensinar qualquer coisa. E sei, acima de tudo, que, venha o que vier, eu hei-de sempre, sempre sobreviver.

23 abril 2018

Ups and downs

Os quase-quarenta trouxeram-me a serenidade de saber que, na vida, as coisa têm a importância que lhes dermos, nem mais, nem menos - somos nós que decidimos acerca disto, não é uma coisa imposta externamente. E isto é bom porque nos permite afastar das mágoas com a paz possível.

Neste momento, escolho lidar assim com o que teria todo o potencial de me magoar de uma maneira brutal. Escolho virar as costas e não dar relevância. Escolho aprender com a situação, não tenciono repetir nada daquilo, aprendi o que havia para aprender, foi mais o aborrecimento do que os sorrisos, saldo claramente negativo, quase meio ano empatado numa fantasia inconsequente. Moving on.

Os equilíbrios fazem-se assim: quando umas coisas estão piores, há outras que melhoram. Quando tiras o foco de coisas que não valem a pena e te focas em ti, a coisa vai.

Portanto, e desviando o assunto (sem desviar - já vão perceber), não sei se disse aqui que mudei de ginásio. Fui treinar para um sítio muito maior, mais bem equipado, com vários atletas a treinar e a trabalhar lá e o meu foco é outro: eu.

Nos últimos cinco meses, se calhar para compensar coisas que não vêm ao caso, engordei 6kg. Ui, que fartura. Não. Mas o suficiente para não me sentir bem assim, principalmente porque foram quilos ganhos à conta de McDonald's, chocolates e demais porcarias. A primeira coisa que fiz no ginásio novo foi ir a uma consulta de nutrição. Entendi-me com a nutricionista e tem corrido bem. Ou nem por isso, que é raro o dia em que consigo comer tudo o que ela me mandou comer. Mas siga.

Depois de Fátima, andei ali a curar a lesão. Está curada. Portanto, voltei em força, focadíssima no meu objectivo. De tal maneira que fui até resgatar a casa dos meus pais uma bicicleta estática que comprei há uns 20 anos, nem eu sei bem para quê, mas tenho a certeza de que, entre ontem e hoje, já pedalei mais lá do que no resto dos anos todos. Levei a bicha para casa e ontem matei 45 minutos (e um episódio do Designated Survivor) no pedal. Hoje, seis e vinte e cinco da manhã e o relógio a apitar. Fiquei até às seis e quarenta e lá fui eu. Mega dor no rabo, mas paciência. Mais 22 minutos daquilo (e meio episódio da mesma série de ontem), o tempo contado para o que ainda tinha de fazer antes de sair de casa. Acordei os miúdos, tomei banho, vesti-me, comi, preparei pequenos-almoços, ajudei com roupas, pus a máquina da louça a lavar e saímos a tempo. Manhã calma, depois de deixar a miúda na escola: eu e ele no café, a tomar o pequeno-almoço, eu a acabar as correcções do meu livro (está quase-quase), ele a jogar um jogo e a comer. Deixei-o na escola e acabei por apanhar o comboio ainda mais cedo do que o habitual. Tudo na maior das tranquilidades.

Portanto, saldo: numa semana, menos meio quilo no corpo (e menos duas toneladas na alma...). Tudo a correr como planeado. E eu... está bom assim, não mexe.

16 abril 2018

Fátima - a experiência

(Decidi dividir o texto em dois, porque estava prestes a escrever um lençol de texto e achei melhor não massacrar...)

Bom, se leram o post anterior sabem que a minha fé é uma cena muito, muito, muito ténue. Eu sabia que, indo a Fátima com um grupo da Paróquia de Belas, ia ter de conviver com a religião em modo MUITO durante aqueles dias. Tudo bem por mim, desde que não tentassem o método da lavagem cerebral.

Logo antes da partida agruparam-nos e deram-nos uns livrinhos que seriam o guia da semana. 120 páginas de orações, textos do Papa Francisco e cânticos. Tudo alinhado por dia e hora, bem organizado e tal. Respirei fundo.

A dar o pontapé de saída, uma missa. Às cinco da manhã. Eu a cair de sono porque só consegui dormir uma hora e meia nessa noite - a intenção foi boa, deitei-me às 19h, às 20h estava a dormir, mas acordei às 21h30 e não consegui voltar a adormecer... e a minha hora de levantar era às 3h, porque o get together era às 4h. Arrancámos às 7h, mais coisa menos coisa - e eu já pronta mas era para me deitar.

Percursos com estrada, com mato, com lama pra caraças. Pequeno-almoço em Caneças e tudo tranquilo. Um bocadinho antes da paragem do almoço, nos Bombeiros de Bucelas, comecei a sentir umas dores estranhas nas virilhas. A tentar defender isto, às tantas já me doía o joelho esquerdo. E as ancas. Já nos bombeiros, fui às massagens e a coisa melhorou. Tínhamos andado 26km. A seguir ao almoço andei mais 5km e, quando dei por mim a chorar de dores, assumi a derrota e fui para o carro de apoio. E chorei, chorei, chorei... porque a minha promessa não envolvia carros.

Pelo meio, muitas orações. E, nos intervalos, o convívio normal: conversas aqui e ali, nada de mais. Eu levei uns quantos audiobooks preparados e tinha esperança de poder ir com os phones nos ouvidos. Despachei três livros e meio naqueles dias. Fui sossegada, na minha. Em grupo, quando tinha de ir em grupo, sozinha nas outras alturas.

Os fins de dia foram sempre iguais: chegar aos sítios onde íamos dormir, tomar banho (só apanhei um sítio sem água quente e sobrevivi), jantar, mais orações e dormir. Na manhã seguinte, a alvorada era às 4h30 e foi sendo feita com música (Anitta no primeiro dia, Muse no terceiro), tampas de panelas e panelas a bater aos nossos ouvidos (no segundo dia) e apitos de árbitro no último dia. Um mimo... e provavelmente as alturas do dia em que fui menos católica, tive vontade de esganar pessoas e disse MUITAS asneiras para dentro. Porque, basicamente, estávamos em pavilhões desportivos onde teria bastado acender as luzes. Mas siga.

As refeições foram sempre asseguradas pelo cozinheiro e pelas assistentes e estava tudo muito bom. Nada a apontar - até porque, num dos dias em que eu não ia comer porque grão num bai dar, o cozinheiro guardou um bocadinho do jantar da véspera para mim.

Voltando ao percurso: no segundo dia, já mais descansada (depois de muitas massagens com o tal gel dos cavalos), tentei de novo. Mais 5km, em mato, com muita lama, e não aguentei mais. Ainda fui tentando uns bocadinhos, sempre com o mesmo resultado: carro de apoio. Ao terceiro dia, idem. No quarto dia, além de estar um temporal absurdo, era o dia com mais subida em montanha e eu não arrisquei. Mas fiz os últimos 5km, a chegar a Minde, porque era estrada a descer. Não custou? Custou, pois... mas paciência. Quis defender-me porque queria MESMO fazer os últimos 17km, que eram o percurso do dia da chegada a Fátima. E fiz. Com dores, meio coxa, mas fiz. Encharquei-me em Voltaren nestes dias, acompanhei com Brufen, mas o alívio era temporário. (Depois de chegar a casa, andei mais três dias nisto, até que desisti e fui ao hospital. Resultado: bursite na pata de ganso, drogas duras, emplastro no joelho durante sete dias, um a canadiana - que já descartei porque me fartei de tropeçar - e o descanso possível.)

Chegar a Fátima foi o que eu esperava, mas, ao mesmo tempo, não foi o que eu esperava e eu sei exactamente porquê: estava demasiada gente à minha volta. Fátima tem sempre o efeito lágrima em mim, quando estou sozinha ou com pouca companhia. Ali isso aconteceu, mas senti que precisava de ter estado mais sozinha, mais recolhida do que estive. Ainda assim, promessa cumprida (porque andei o que consegui, não parei por preguiça, foi o que foi).

Ouvi vários "para o ano, quando vieres...". Oi? Para o ano, quando for? Nunca mais na vida. Enquanto eu me lembrar disto, não mesmo. Porque, lá está, falta-me a fé para ver isto como um retiro e não como um sofrimento duro. Falta-me a fé para achar que basta pôr um pé à frente do outro. Falta-me a fé, ponto. Nada a fazer.

Saldo? Positivo. Missão cumprida. E a melhor parte é mesmo a minha mãe, viva, com saúde, sem sequelas do que teve, impecável. Essa é a parte mais bonita disto tudo. Sempre.

Fátima - dicas úteis

Há quase quatro anos, quando a minha mãe esteve entre a vida e a morte, com o rebentamento de um aneurisma cerebral, dei por mim a rezar. Na manhã em que ela foi operada, passei quatro horas deitada na cama, a chorar e a rezar. Eu não sou mega católica. Aliás, numa escala de 0 a beata, eu fico ali por um 2: entro numa igreja quando me apetece, assisto a missas de casamentos e baptizados e pouco mais. Nem sinto nenhum chamamento diferente. Aliás, acontece estar numa missa e o meu cérebro científico questionar aquela alegoria toda. A parte má é que acredito que seria muito mais feliz se acreditasse naquilo como a minha mãe acredita, por exemplo. Acho que a fé é um placebo poderoso... e tenho pena de não ter quase nenhuma. Bom, promessa feita durante a operação: se a minha mãe sobrevivesse, eu iria a Fátima a pé, agradecer. Fui este ano.

Nota prévia: não me preparei para aquilo. Caminhadas? Nah. Não preciso, eu aguento na boa. Estúpida.

Bom, antes de avançar, dicas práticas: eu fui com um grupo altamente organizado. Levámos cozinheiros, massagistas, enfermeiros. Tínhamos de levar duas malas, uma para termos sempre connosco (seguia num dos carros de apoio, mas tínhamos acesso a ela em todas as paragens) e uma grande à qual só tínhamos acesso à noite, no sítio onde íamos dormir. Levei umas oito ou nove mudas de roupa (o percurso era de cinco dias, mas a previsão de chuva constante fez-me querer ter alternativas), levei três pares de ténis (uns calçados - que usei sempre -, uns extra para o caso dos primeiros se ensoparem ou assim, e uns normais, do dia-a-dia, para as noites e para o último dia, já em Fátima). Na tal mochila a que tinha sempre acesso estava uma muda de roupa extra (não cheguei a precisar, mas andei perto de salvar outra caminheira), protector solar (que não usei porque... basicamente apanhei um temporal pegado), creme gordo e pó de talco, um boné, um impermeável e barras energéticas.

Não é que eu tenha andado muito (andei cerca de 70km, dos 150km disponíveis - já conto), mas o truque anti-bolha é MUITO creme gordo nos pés, antes de começar a caminhar, meias de algodão viradas do avesso (para as costuras não magoarem) e pó de talco nos ténis (para absorver a humidade e manter tudo operacional). Caso sintam que vão fazer bolha - e só ANTES de isso acontecer - ponham uns pensos de "pele artificial" (há da Compeed e da Well's, tanto quanto sei). Se já têm uma bolha, mesmo que pequenina, NÃO ponham isto porque vai dar asneira.

Outra coisa importante: na Decathlon, secção de equitação, há uns boiões de um gel azul, chamado Cool Gel. Aquilo é para cavalos, sim, mas guess what? É o melhor relaxante muscular de sempre! Comprem. Sem medos.

Outro extra: levei um cajado, que já tinha ido com a minha mãe a Fátima quatro vezes. Enorme apoio! O meu era mesmo uma cana, básica, sem nada. Mas na Decathlon há uns bastões próprios para caminhada. Apostem nisto. Ajuda muito nas subidas, mais ainda se o vosso percurso envolver mato (o meu envolveu... demasiado, até!).

26 março 2018


19 março 2018

Dia do Pai

Apetecia-me escrever um longo texto acerca da visão de uma mãe divorciada sobre o pai dos seus filhos mas.

Adiante.

Tenho uma sorte do caraças. Com o meu pai. Olho para ele - ainda ontem à tarde, quando estava a chegar a casa dos meus pais e ele a sair do prédio para ir comprar tabaco - e vejo aquele braço que me acolhia na cama, todas as noites, enquanto a minha mãe estava no Liceu, a terminar o 12º ano, e eu e ele ali, os dois, pai e filha, cúmplices, os jantares que ele me fazia, o facto de me levar sempre ao café depois de jantar, para ir beber a bica dele (e eu brincar às empregadas de café e registar coisas numa caixa registadora enorme e velha, longe da era digital), voltarmos para casa e ficarmos a ver o Norte e Sul até ser demasiado tarde para uma criança de seis ou sete anos se deitar mas ainda assim, aquele braço onde eu me deitava e ele "rebola cabacinha, rebola cabacinha" e eu a adormecer leve, com a certeza de que o melhor pai do mundo era aquele e era meu.

Hoje, trinta e tal anos depois, é capaz de me contar a história, se eu lhe pedir. Hei-de pedir. Já a contou aos netos. E continua a ser a minha âncora, de maneira mais ou menos palpável - como na semana passada, em que lhe liguei, aflita, às nove e tal da noite, porque a minha torneira da banheira resolveu morrer e eu precisava de tomar banho e lá veio ele, sem jantar, salvar-me de um problema de primeiro mundo, nem hesitou, agarrou no que tinha de levar e foi.

Depois, os netos. A minha tábua de salvação com os filhos que não me pediu para ter, mas que são os netos que sei que havia de querer. Vai buscá-los à escola, ajuda com os trabalhos de casa, leva-os à natação, dá banhos e lanches e ralha - ele e a minha mãe, equipa perfeita na minha salvação com aqueles dois - e eu não sei, mas não sei mesmo, o que faria se não tivesse este pai. Por isto tudo, devo-lhe um obrigada gigante que nunca vou conseguir concretizar na medida em que ele merece.

Que é o melhor do mundo. E é meu.

Feliz Dia do Pai, pai. Amo-te!!