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26 maio 2017

Back on track

Às vezes resvalo um bocado. Andei aí super focada na minha alimentação e nos treinos. Entretanto lesionei-me e uma lesão é a desculpa perfeita para abrandar. E eu abrandei. Meteu hamburgers, bolos, chocolates, gelados. Meteu pratos de massa sem mais nada ao jantar. Meteu duas semanas sem treinar. Mas já chega.

Altura de voltar a atinar com isto. Porque depois, quando desatino, vejo logo os efeitos disso no espelho e não gosto. Hoje espero chegar ao final do dia a poder dizer que correu bem. Que consegui comer como deve ser e que consegui ir treinar. Hei-de estar cansada mas feliz por ter conseguido voltar ao meu caminho.

Há uns tempos, se isto me acontecesse, ia por aí adiante durante meses. Perdido por cem, perdido por mil. Agora não. Agora sei que estes retrocessos acontecem e são normais e não me culpo por nada disto. Porque não devo nada a ninguém. Nem a mim mesma. É o que é. Não vivo acorrentada a isto. Quando me apetece sair da norma, saio. Depois volto. Foi isto que aprendi no último ano e meio: a regressar.

21 maio 2017

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Jacinta disse Está ali uma senhora. Francisco perguntou Onde? Lúcia disse que não conseguia ver. Jacinta descreveu o manto azul, o cabelo escuro, o semblante sereno. Francisco disse que só via uma luz, como se o sol estivesse a nascer por cima daquela árvore. Lúcia disse que continuava sem conseguir ver. Jacinta perguntou Quem és tu e o que queres de nós? Silêncio. Francisco disse que a luz parecia mais intensa. Lúcia mandou-o desviar o olhar, ia ferir os olhos e ficar cego. Francisco não fez caso. Jacinta tornou a perguntar Quem és tu e o que queres de nós.

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Gostava que, por um dia, o vento soprasse a meu favor. Talvez então pudesse deixar ir o trabalho que me massacra e render-me ao talento. Talvez então pudesse olhar de novo aquele sorriso que deixei escapar porque tive medo do que viria com a entrega. Talvez pudesse aprender a deixar que a brisa leve do fim de tarde me leve onde quer que eu faça falta. Cedi sempre ao medo. Deixei-me ficar. Agora, quase sessenta anos, os dias são pequenas ampulhetas que me recordam de quão pouco tempo me resta. Quem me dera ter tido coragem para não me entregar.

18 maio 2017

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Amiúde, durante o tempo que dura um café bebido no varandim com vista para o rio, observo a vida lenta que acontece na casa em frente. Um homem, setenta e muitos anos, oitenta, talvez, anda devagarinho pelas divisões. Rega as plantas esquálidas no parapeito da cozinha. Faz a cama no quarto ao lado. Vai à janela estender umas cuecas e um par de meias, que apanhará dali a umas horas ou assim que der conta de ter começado a chover. Por vezes, depois de estender a roupa, assenta os cotovelos no parapeito, acende um cigarro e morre mais um pouco.

17 maio 2017

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Hoje, só hoje, Isabel esqueceu os mortos. Deixou o cemitério trancado, não foi ajeitar ramos de flores falsas nem limpar o pó às fotografias que olhava sempre. Hoje Isabel preferiu um livro. Deixou-se ficar à porta, sentada na sua cadeira pequena, enquanto o dia descia rumo ao final. Não deu pela brisa que se levantou, não percebeu por que razão estava a ver pior. Tinha deixado que o título a cativasse e escolheu lê-lo sem saber nada acerca dele. Quando deu por si ia quase a meio. Deixou que a história a sugasse. Podia ser a sua história. Talvez fosse.

16 maio 2017

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Menina Eulália fazia questão no batom cor de rosa muito brilhante, a tinta a desbotar pelas rugas pequeninas que lhe mirravam a boca, os dentes alvíssimos, muito direitos que dormiam as noites dentro de um copo com uma pastilha de limpeza. Os olhos azuis já baços guardavam todas as histórias. Tinha sido uma mulher lindíssima. Exibia fotografias antigas porque se orgulhava no epíteto que conquistara a reboque da genética: era a mulher mais bonita daquela cidade. Teria podido escolher o marido que bem entendesse; todos a queriam. Escolheu viver sozinha, livre de encargos e preocupações, só ela e a vida.

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Não sei se chovia ou se criei esta memória por combinar melhor com solidão. Talvez fosse o princípio da Primavera, não sei precisar. Sei que estava em casa, os olhos postos numa parede manchada, o pensamento longe, quase congelado. A princípio, o toque do telefone pareceu-me distante, quase como se estivesse noutra casa. Depois percebi que vibrava junto às minhas pernas. Atendi. Do outro lado, um silêncio pesado entrecortado por um fungar aflitivo. Esperei que alguém falasse. Silêncio e lágrimas, apenas. Não reconheci o número, estava demasiado alienada. Talvez fosse engano, pensei. Então aquela voz de sempre disse apenas Morreu.

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Quando deixei de conseguir dizer-te tudo o que o meu peito guardava, escrevi. Na minha cabeça, construiu-se a canção. A melodia rasgou o silêncio e tornou-o insuportável. Não voltei a ele. Cantei-te ao ouvido mil vezes. Deixei a letra escrita num papel qualquer, presa no vidro do teu carro. Disse-te que te amo em cada verso e em cada nota. Tu ouviste sempre. Olhavas-me nos olhos, aquele brilho que disfarçavas, e eu sabia. Talvez não fossem amores iguais, porque não há amores iguais. Mas ao teu jeito e ao teu tempo, em silêncio e entre olhares, aquilo também era amor.

Sobre o exercício das 100 palavras

Claro que já falhei dois dias... Não importa. Depois apanhei o ritmo e compensei. É um trabalho giro. Tento fugir dos temas que me são óbvios - mortes, solidão, amores que doem no peito, saudade - e procuro pontos de vista diferentes. Escrever em 100 palavras não é fácil. É preciso ser concisa e não fazer daquilo apenas uma divagação. Acresce que não quero perder a minha voz, a minha maneira de escrever e isso, nesta brincadeira, tem sido o mais desafiante.

A juntar a isto, o facto de ter voltado a escrever um romance. Ou seja, eu, que sempre fui muito mais de textos curtos do que de romances, dou por mim a tocar os dois pontos e a brincar nas duas vertentes. E isso também me obriga a manter cada coisa de sua maneira: no romance não tenho de me limitar tanto (bem pelo contrário), nas micro histórias não tenho como me dispersar.

Estou a gostar muito mesmo deste desafio. E já só faltam 89 micro contos...

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O meu avô era caçador. Era um hobbie, uma maneira de matar o tempo. E animais. Antes de se reformar, trabalhava nos comboios. Nunca soube o que ele fazia, sabia apenas que trabalhava na CP. Quanto tomei noção de que tinha um avô já ele se tinha reformado. E matava animais para matar tempo. Tinha calendários com peças de caça espalhadas em cima de mesas, tudo morto, coelhos, perdizes, faisões. Eu não conseguia assimilar que aqueles animais estivessem mortos. O meu avô, para me ajudar a matar o tempo, ensinou-me a fazer cartuchos para a caça. Acho que matei animais.