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30 junho 2017

As barrigas das Carolinas

Rewind. Há três anos (ou coisa que o valha), o nosso mundinho tuga indignou-se com a barriga da Carolina Patrocínio durante e depois da sua gravidez (o mundo voltou a indignar-se quando ela teve a segunda filha, mas aí já não era novidade, portanto vamos falar só da estreia do indignanço). Ai, que horror, uma grávida musculada. Aquilo não pode ser saudável. A criança vai nascer raquítica. Aquilo é doença. A mulher é uma exageradona e só quer saber do bem-estar dela, está-se a lixar para o bebé que tem na barriga. Onde é que já se viu uma grávida a treinar como ela treina? Cruzes credo. Seis meses disto (sim, que os primeiros três foram vividos sem o mundo saber da gravidez da rapariga). A bebé nasce saudável, não nasce prematura, nasce com um peso normalíssimo. Pós-parto. Que horror. A mulher saiu da maternidade e já tem os abdominais trincados. Como é que é possível? Aquilo não pode ser saudável. Como assim, voltou a treinar pouco tempo depois do parto? É permitido por lei? E como é que trabalha? E como é que amamenta? E quem é que toma conta da bebé enquanto ela está lá só preocupada com o seu aspecto físico? Cruzes credo. Carolina segue a sua vidinha indiferente aos bitaites de quem NÃO lhe paga as contas. Volta a engravidar, volta a ter uma barriga musculada, volta a parir uma bebé de termo, com um peso normalíssimo, super saudável, e volta a treinar pouco tempo depois do parto.

Fast forward. Agora. O mundinho tuga indigna-se com a barriga da Carolina Deslandes que, em menos de onze meses, teve dois bebés via cesariana (sim, faz diferença). Ai, que horror, já teve o miúdo há um mês e ainda parece grávida. Aquilo não pode ser saudável. Como é que ela se deixa chegar a este ponto? Porque é que ainda não voltou a treinar? Mas ela não tem tempo para cuidar dela? Não tem quem a ajude? Não tem quem a aconselhe? Cruzes credo.

Podemos só parar de julgar as pessoas, por favor? Não estamos nos sapatos delas. Não sabemos porque fazem o que fazem, nem como vivem, nem que problemas, inquietações ou objectivos têm. Não somos todos iguais, nem temos de ser. Não vivemos todos da mesma forma, nem temos de viver. Estas Carolinas são figuras públicas e o escrutínio é ainda maior. Mas ambas têm o direito a fazer o que bem lhes apetecer e a viver as suas vidas como acharem melhor. A nós, que adoramos opinar sobre o que não nos diz respeito, resta-nos viver a nossa vida como quisermos. Porque também não íamos gostar de estar constantemente sob observação, nem de ter gente a mandar bitaites acerca de coisas que só nos dizem respeito a nós. Sei lá... só acho... 

13 junho 2017

Sobre a vida

Há um ano, Alfama mudou a minha vida. Não ia aos Santos há uns 15 anos (ou mais!), estive quase para não ir mas, à última da hora, resolvi que afinal ia. Foi a melhor decisão que tomei em muito tempo. A minha vida já estava a caminhar para onde eu a queria e aquela noite foi o sinal de que eu precisava. Foi "A Noite".

Fast forward. Um ano.

Este ano não queria ir aos Santos. Ia ser horrível, eu ia sofrer a sério por estar profundamente infeliz num sítio onde tinha sido tão feliz há 365 dias. Cedi às pressões e fui. Arrependi-me na hora. Para não ir para o mesmo sítio do ano passado, escolheu-se a Bica. Para mim, dava igual. Eu queria era voltar para Alfama, há um ano. Ontem, podiam ter-me levado para o inferno que era perfeitamente irrelevante. Comecei a perceber aquele ambiente. Detestei cada segundo. Só miúdos, encontrões de meia-noite, uma zona que parecia o Bronx. Um horror. Estacionámos algures perto de um arraial, ao fundo do Elevador da Bica. Sentei-me num degrau e chorei, chorei, chorei... Revivi o quão feliz tinha sido um ano antes. Aceitei a tristeza que agora tenho de carregar. Vou ter de aprender a viver com ela, até que um dia já não me doa. Por enquanto dói, e muito. Saí dali assim que pude. Chateada, zangada com o mundo, com a vida, com a injustiça do que estou a viver. É o que é - não sou eu a fazer-me de vítima, sou eu a constatar factos.

Há um ano, Alfama foi o palco da felicidade que eu não sabia que existia. Foi a ante-estreia. Foi o Prólogo. Este ano, nesta noite, a Bica foi o inferno na Terra. Nunca mais.

Para o ano, o mais certo é não ir a lado nenhum. Veremos. Mas, se for onde me leva o coração, de certeza que acabarei em Alfama, a ser feliz novamente, ou a recordar com ternura aquela noite, há dois anos, em que o meu mundo mudou para muito melhor. Até lá, a ferida terá sarado, ainda que o amor se mantenha igual.

[E este ano estive em Alfama no sábado à noite. E soube bem. Soube mesmo bem. Porque, lá está, estive no sítio onde guardo o meu coração. E a minha vida só faz sentido assim, com o coração entregue ao que amo.]

05 junho 2017

| 16 - 26 |

16.
Talvez fosse o instinto. Quando a viu, menina inocente a andar sozinha na rua, o céu a ameaçar desabar em cima das suas cabeças, Novembro frio como as ausências, não pôde fugir. As mãos em cima dela como certezas, o corpo preso contra a parede, maneira nenhuma de a deixar escapar. A braguilha das calças aberta num repente, o  antebraço a sufocá-la enquanto se ajeitava dentro dela, o corpo a rasgar-se, os gritos que calou com a palma da mão. Nos olhos toda a raiva, todo o desejo, tudo o que não cumpriu noutros corpos. Lurdes seria sua para sempre.


17.
Ficava nas últimas filas, normalmente de pé, apenas a vislumbrar o escritor que apresentava a obra. Deixava-se ficar para trás na fila para os autógrafos e, quando chegava a sua vez, murmurava o seu nome de maneira quase inaudível. Regressava a casa com os livros rabiscados, quase nunca sabia o que estava lá escrito. Pousava os livros na mesa de cabeceira — haveria de os ler em breve — e ia sentar-se ao computador. Fixava a página em branco e nada acontecia. Cada vez mais longínquo o sonho de um dia ser ele a autografar os livros que tivesse escrito.

18.
Meu amor, pedes-me que me desfaça em silêncios e eu sou incapaz. Não escolhi este bater intenso do coração, nem me arrastei para este lugar quente de onde não sei sair. Já procurei nomes e definições mas termina tudo nos teus braços, na certeza de que estou onde tenho de estar. Não é que não tenha mais sítios para onde ir. Simplesmente fechei os mapas e não e importam outras geografias. Não quero saber do que há para lá dos terrenos em que nos fundámos. Não quero saber de nada que não me caiba no peito. Tu habitas-me o coração.

19.
Naquelas noites geladas em que ela se sentava à beira da minha cama, a ver-me dormir, eu inquietava-me no sono como se a sentisse. Só sabia que ela tinha estado ali no dia seguinte, porque via as mantas alinhadas de maneira diferente. Durante o dia, não perdia uma oportunidade. Puxava-me os cabelos: enrolava um punhado na mão direita e puxava, sem dizer nada. Eu deixava a cabeça descer para evitar a dor. Nunca perguntei porquê. Nunca chorei de dor. Se me via andar pelo corredor, assentava-me com um cinto nas costas. Eu continuava a andar. Esta era a minha avó.

20.
Levámos-te dentro de um pote que comprámos numa loja de chineses. Entregámos o vaso ao homem da funerária, que prometeu devolver-te desfeito em cinzas. Vinhas quente ainda. Pegámos naquilo sem saber muito bem o que fazer. Recusei colocar-te a servir de bibelot em cima da lareira. Seria demasiado irónico. Saímos do crematório sem destino. Tu não gostavas de sítio nenhum em particular. Podias ter-nos facilitado a vida, podias ter gostado de praia ou do campo, quem sabe de passear pela serra. Mas não. Gostavas era de passar as tardes a jogar à sueca no jardim... Algumas cartas ficaram com cinzas.

21.
Quando entraste fechei a porta atrás de ti, segura de ter em casa tudo quanto me faltava. Ironia, sabes? Como é que eu podia ter tudo o que me fazia falta quanto tu não me davas nada? Eras a definição de ilusão de óptica: estavas não estando, davas não dando, eras não sendo. Ofereci-te aquele lugar onde pouca gente tinha estado. Quis que ficasses confortável e que não te faltasse nada. Dei-te tudo quanto tinha, sem reservas nem medo de errar. Era a vida, sabes? Era a vida e nela havia amor. Saíste e tranquei a porta atrás de ti.

22.
Às vezes, a morte é apenas uma pequena amostra de paraíso. Morremos porque nos esgotámos em opções irrisórias. Desistimos de tentar caber em sítios onde não há espaço suficiente para nós. Foi o que aconteceu com Joaquim. Deu por si um dia esvaziado. Não tinha nada a que voltar quando regressasse a casa. Os braços estendidos ao longo do corpo, a cabeça tombada, o olhar vazio, os pés que se arrastavam sem saber que caminho tomar. Percebeu que o seu fim era o passo seguinte, o que estaria do lado de lá da curva. Caminhou até lá e deixou-se morrer.

23.
Eram punhais afiados a rasgarem-me a pele, traços fininhos de onde saíam fios de sangue que me tornavam a pele morena cada vez mais viscosa, cada vez mais aberta, cada vez mais morta. Já não chorava porque me esgotara antes disso. Deixei de querer saber. Vivia em serviços mínimos, o meu corpo fazia o suficiente para se manter vivo, funções vitais activadas e nada mais do que isso. Bloqueei a memória. Travei os desejos. Fechei-me numa cave escura que cheirava a mofo e a coisas podres e deixei-me ficar enquanto a morte se foi aproximando lentamente. Fechei os olhos. Morri.

24.
Há uma fotografia em cima do aparador. Parece uma cena inconsequente. Dois rostos colados, cabelos revoltos, ao fundo o mar. O dia estava frio. O mar picado batia nas rochas e fazia aquele barulho que nos suga e nos deixa sem chão. Abraçámo-nos com frio. Puseste as mãos nas minhas costas e puxaste-me para ti. Beijaste-me o pescoço ao de leve. Arrepiei-me. Beijaste-me embalado pelo vinho branco que bebemos ao almoço. Não sossegámos a urgência e acabámos meio despidos, a fazer amor dentro do carro, no parque de estacionamento. Eram três da tarde. Guardei as memórias, não tenho mais nada.

25.
As sombras caíam sobre o lago e tornavam-no sombrio. Nas margens, dois barcos amarrados a uma espécie de pontão. Costumava levar um desses barcos para passear por ali, só eu e o silêncio que restava depois das aves e do restolhar das ervas. Não sabia muito sobre barcos. Sabia apenas que, se remasse, chegaria a algum lado. Então remava. Sabia que não devia aproximar-me demasiado das margens: o que por norma era uma segurança, representava um perigo quando estás dentro de um barco. Não queria encalhar. Remava o  suficiente para que as dores me fizessem esquecer o resto. Nunca faziam.

26.
De início, não entendia a violência da minha avó. Era como se o mundo fosse um inimigo mortal que urgia abater. Usava as armas que tinha: palavras duras, uma voz aguda e as palmas das mãos. De vez em quando transformava-se. Deixava de ser Camélia e era outra pessoa qualquer. Conheci-lhe várias caras. Demorei muito a perceber que, na verdade, a avó Camélia não era só a avó Camélia. Também era Laura e Isilda e José. Era várias pessoas que se desconheciam entre si - apenas Isilda conhecia todas. E eu não entendia. Depois percebi e deixei o medo de fora. 

31 maio 2017

O dia em que deixei de acreditar no amor

Que me perdoem os românticos, mas a verdade crua e sem espinhas é esta: já não acredito no amor. Não acredito na entrega, na partilha, no romance. Não acredito em almas gémeas nem em amores para toda a vida. Não acredito em finais felizes nem em histórias de conto de fadas. Deixei de acreditar.

Vejo imensas fotografias de sessões de noivado e de casamentos (culpa dos vários amigos fotógrafos que tenho) e soa-me tudo a falso. Acho que tudo tem os dias contados. Sei que esta minha visão é fruto do que vivi na pele nos últimos tempos e também sei que, se vier a mudar de opinião, será por experiência própria. Não digo que não venha a acontecer - digo que me parece difícil. Eu sei... eu sei... amarguei. Sim, é verdade. Amarguei. É a vida. Adorava estar aqui, toda unicórnios e arco-íris, cheia de certezas acerca desta coisa que é o amor. Mas não. E tenho pena, a sério que sim. Porque enquanto acreditei fui feliz. Não por isso que fui feliz, mas ajudava. Agora, que não acredito em nada disto, é como se tivesse perdido uma das razões para aqui andar. Sobrevivo sem isso, vou tentando ignorar o que falta e tenho a certeza absoluta de que não perdi a capacidade de amar (aliás, tive provas disso nos últimos tempos) - e é precisamente por isso que, apesar de não acreditar, mantenho viva uma centelha(zinha) de esperança. Não é nisto que não acredito. É na equação que junta duas pessoas num resultado perfeito. E tenho mesmo, mesmo pena.

30 maio 2017

Irmã

Se, há quase 14 anos, me dissessem que um dia a minha melhor amiga ia viver a 50 metros de mim... eu tinha acelerado o processo para que a coisa acontecesse mais rapidamente.

Há seis anos (é isto?), a minha Lia comprou casa na minha rua. Aquilo bateu com a minha temporada de stay at home mom, o que fez com que tenhamos passado dois anos em convívio quase diário: bebíamos café de manhã, quando eu voltava de ir levar os miúdos e antes de ela ir trabalhar. Depois ela foi para Beja e essa travessia do deserto durou quatro (longuíssimos!!) anos. Há uns meses, a ideia de ela regressar foi ganhando força e em Abril ela veio de vez. De lá para cá... ui.

Na semana passada jantámos juntas três ou quatro vezes - já nem sei. Ontem, ao final da tarde, ela mandou mensagem a perguntar quando jantávamos. Disse-lhe para vir jantar connosco e ela veio. Acho que daqui em diante vai haver sempre um bife a mais cá em casa. E na dela é igual. E é bom isto de jantarmos por aqui, na rua ou em casa de uma ou de outra, e de não termos de andar de carro para isso. É bom isto de os meus filhos conviverem com a tia Lia que é uma das quatro pessoas que, não tendo laços de sangue com eles, eu deixo que eles tratem assim (portanto, Lia, Sofia, Mário e Joana, são vocês). É bom isto de eu ir a casa dela tratar dos gatos quando ela vai para fora. É bom isto de podermos passar em casa uma da outra só porque sim, para um olá, para um café ou para nada.

Vocês que percebem disto digam-me lá: ter irmãos é isto, não é?

26 maio 2017

Back on track

Às vezes resvalo um bocado. Andei aí super focada na minha alimentação e nos treinos. Entretanto lesionei-me e uma lesão é a desculpa perfeita para abrandar. E eu abrandei. Meteu hamburgers, bolos, chocolates, gelados. Meteu pratos de massa sem mais nada ao jantar. Meteu duas semanas sem treinar. Mas já chega.

Altura de voltar a atinar com isto. Porque depois, quando desatino, vejo logo os efeitos disso no espelho e não gosto. Hoje espero chegar ao final do dia a poder dizer que correu bem. Que consegui comer como deve ser e que consegui ir treinar. Hei-de estar cansada mas feliz por ter conseguido voltar ao meu caminho.

Há uns tempos, se isto me acontecesse, ia por aí adiante durante meses. Perdido por cem, perdido por mil. Agora não. Agora sei que estes retrocessos acontecem e são normais e não me culpo por nada disto. Porque não devo nada a ninguém. Nem a mim mesma. É o que é. Não vivo acorrentada a isto. Quando me apetece sair da norma, saio. Depois volto. Foi isto que aprendi no último ano e meio: a regressar.

21 maio 2017

| 15 |


Jacinta disse Está ali uma senhora. Francisco perguntou Onde? Lúcia disse que não conseguia ver. Jacinta descreveu o manto azul, o cabelo escuro, o semblante sereno. Francisco disse que só via uma luz, como se o sol estivesse a nascer por cima daquela árvore. Lúcia disse que continuava sem conseguir ver. Jacinta perguntou Quem és tu e o que queres de nós? Silêncio. Francisco disse que a luz parecia mais intensa. Lúcia mandou-o desviar o olhar, ia ferir os olhos e ficar cego. Francisco não fez caso. Jacinta tornou a perguntar Quem és tu e o que queres de nós.

| 14 |


Gostava que, por um dia, o vento soprasse a meu favor. Talvez então pudesse deixar ir o trabalho que me massacra e render-me ao talento. Talvez então pudesse olhar de novo aquele sorriso que deixei escapar porque tive medo do que viria com a entrega. Talvez pudesse aprender a deixar que a brisa leve do fim de tarde me leve onde quer que eu faça falta. Cedi sempre ao medo. Deixei-me ficar. Agora, quase sessenta anos, os dias são pequenas ampulhetas que me recordam de quão pouco tempo me resta. Quem me dera ter tido coragem para não me entregar.

18 maio 2017

| 13 |


Amiúde, durante o tempo que dura um café bebido no varandim com vista para o rio, observo a vida lenta que acontece na casa em frente. Um homem, setenta e muitos anos, oitenta, talvez, anda devagarinho pelas divisões. Rega as plantas esquálidas no parapeito da cozinha. Faz a cama no quarto ao lado. Vai à janela estender umas cuecas e um par de meias, que apanhará dali a umas horas ou assim que der conta de ter começado a chover. Por vezes, depois de estender a roupa, assenta os cotovelos no parapeito, acende um cigarro e morre mais um pouco.

17 maio 2017

| 12 |

Hoje, só hoje, Isabel esqueceu os mortos. Deixou o cemitério trancado, não foi ajeitar ramos de flores falsas nem limpar o pó às fotografias que olhava sempre. Hoje Isabel preferiu um livro. Deixou-se ficar à porta, sentada na sua cadeira pequena, enquanto o dia descia rumo ao final. Não deu pela brisa que se levantou, não percebeu por que razão estava a ver pior. Tinha deixado que o título a cativasse e escolheu lê-lo sem saber nada acerca dele. Quando deu por si ia quase a meio. Deixou que a história a sugasse. Podia ser a sua história. Talvez fosse.