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08 agosto 2018

Sobre amamentação

Século XXI e ainda apontamos dedos a quem pensa diferente de nós. Certo. Bom, foi (está a ser?) a semana (mês?) do aleitamento materno e...

Estudos dizem que é o melhor, que é fundamental, que é importante. Pessoas saudáveis que não foram amamentadas com leite materno provam que se calhar é possível viver (e viver bem, já agora) sem ter passado pela mama. Da mesma maneira que haverá pessoas que, tendo sido amamentadas até aos cinco anos, sofrem doenças do catano e não foi o leite materno que as safou disso. Há de tudo.

A minha experiência: quis amamentar porque... era grátis. Nada que ver com vínculos maternos nem com unicórnios, nem com cornucópias em êxtase, explosões de purpurinas e o camandro. Foi mesmo só porque, amamentando, não tinha de andar carregada com parafernália para o processo artificial e porque não tinha de largar vinte euros na farmácia a cada quinze dias (depois larguei mais mas já lá vamos).

Amamentei os meus dois filhos durante cinco meses. Quando voltei ao trabalho, o meu corpo decretou a independência, acabou-se a mama e siga de leite artificial. Tive um episódio de mamas a explodir, com a minha filha mais velha, mas resolvi a coisa entre água a ferver e massagens no peito. Nada de mastites nem coisa que o valha. Foi um processo simples, sem grandes efeitos secundários. Tanto a miúda como o miúdo começaram a dormir noites inteiras por volta do mês e meio de idade, o que muito contribuiu para a manutenção da minha sanidade mental. Pelos vistos o que mamavam antes de dormir chegava para os aguentar durante a noite. Missão concluída com sucesso. Hoorray!

Quando acabou o leite a coisa foi natural. Com ela foi mais complicado porque a gaja era esquisita com os biberões, mas nada de mais. Não fui a rainha da esterilização de biberões e o que é facto é que a miúda nunca, até hoje (faz 11 anos daqui a três meses) tomou um antibiótico. Ele foi tratado da mesma maneira e já tomou uns quantos, portanto vale o que vale.

Bom, mas voltando às mamas: enquanto as mamas forem vossas e forem vocês a pagar as vossas contas, façam o que vos der na telha. Querem amamentar até os miúdos casarem? Amamentem. (E sim, sei de um que, na manhã do casamento se ausentou com a mãe durante um bocadinho para ir... mamar. True story. E não, ele não casou com dois anos, ok?) Não querem amamentar porque não querem destruir o peito estupidamente rijo e empinado com que foram agraciadas pela natureza? Não amamentem. All in all, vocês é que vão andar a pagar as latas de leite... (a mim custou-me MUITO largar VINTE E TAL euros cada vez que tinha de comprar uma lata - aquilo dava para quinze dias e era um rombo no orçamento... porque a então pediatra da minha filha achava que leite de supermercado não podia ser e toca de leite XPTO para cima e eu pagava, claro, que remédio...)

Entretanto, de caminho, vamos só TODAS parar de criticar a vizinha do lado que fez escolhas diferentes das nossas, boa? Não vivemos a vida dela, não sabemos o que a levou lá, não temos nada que ver com isso, os filhos não são nossos, as mamas também não e... Vamos parar, sim? 

06 agosto 2018

Breve tratado sobre as (minhas) paixões

Não sou mulher de coisas mornas. Sou 8 ou sou 80. Sou branco ou sou preto. Sou fogo ou sou gelo. Não sou temperada, meio termo, assim assim, tanto faz. Sou tudo ou nada. Estou inteira ou desapareço.

Sou assim com as paixões. Não me apaixono muitas vezes nem por muitas coisas. Às vezes entusiasmo-me mas rapidamente encontro um ponto de fuga, que é aquela coisinha mínima e sem importância que me faz travar a fundo e voltar para a minha bolha. No fundo, procuro sempre o meu conforto e as paixões são, por norma, desconfortáveis. Nem sempre cedo, nem sempre me apetece nadar para fora de pé e são mais as vezes em que me transformo numa sombra que ainda agora aqui estava e dois segundos depois já não está.

Quando me apaixono, e agora não falo de pessoas, mas sim de coisas, situações, o que for, é um problema. Porque sou intensa. E mergulho. Não molho os pés - mergulho mesmo.

Quase ninguém à minha volta entende esta minha forma de viver as paixões. Acham que me perco, que exagero, que bloqueio naquilo que me apaixona. Eu acho só que vivo. Que me entrego. Que absorvo tudo. Que me alimento destas paixões como se o mundo acabasse já a seguir. Formas de estar. Esta é a minha.

É por isso que danço todos os dias. É por isso que não me canso. É por isso que rasgo um sorriso quando o assunto é este. Apaixonei-me. Deixei-me ir. Entreguei-me. Não procurei aquele pequeno nada que podia ter-me feito desligar. Para mim, a kizomba não é um hobbie, um escape, uma coisa que ando a fazer como podia fazer outra qualquer. Para mim, é uma porta aberta. Uma paixão que cresce. Um mundo onde me sinto em casa. Um sítio onde sou eu, sem ter de ser eu pela metade, só um lado meu, aquela parte que se pode mostrar ao mundo. É por isso que vivo assim as minhas paixões: porque, se me permitem ser eu sem máscaras, então é para ir. E vou. Até ao fim.

A minha Lia revira os olhos, diz-me que só vejo isto à frente. E eu tenho pena de não lhe correr no sangue o mesmo ímpeto, a mesma torrente, a mesma voragem desmesurada. Porque isto é visceral, é gigante, é tão forte... e faz-me sentir tão viva que tenho a certeza de que todas as portas que se fecharam ao meu redor foram forma de abrir esta. E talvez esta se feche um dia para que outra se abra. Se acontecer, é porque a paixão esmoreceu e houve outra que se incendiou. E está tudo bem. Desde que o sangue fervilhe, desde que os sorrisos sejam rasgados, está sempre tudo bem.

31 julho 2018

One Red Crow #11


E é como se, para te tocar, tivesse de desfazer-me em mil pedaços, vidros partidos, o murro que dás na janela, a mão a sair do outro lado, o sangue que escorre lento pelo antebraço, partículas de vidro que se cravam na pele, horas no gabinete de enfermagem, a enfermeira de óculos presos na ponta do nariz, ai menina que isto é que foi, nunca mais daqui saímos e tu nem um ai, a dor é uma ausência como outra qualquer, é como se no teu peito vazio não houvesse espaço nenhum, ainda que nada aí dentro, ainda que todos os silêncios, ainda que os olhos baços e vazios, ainda que tu já nem saibas bem quem és, e não sintas coisa nenhuma, nem os vidros enfiados na carne. É como se, para te tocar, tivesse de ausentar-me de mim e viver de fora, não ser eu, ser outra coisa qualquer porque isto que eu sou está tão longe do que amas e esta estrada é um caminho que te recusas a percorrer.

| Fotografia de João Corvo |

30 julho 2018

Open roads

Quase 40 anos. Uma serenidade que nunca pensei vir a alcançar. Eu era a pulga eléctrica, sempre em movimento, sempre inconstante, sempre onde me apetecesse estar, no momento. Agora não sou muito diferente disso. O que muda é o gatilho: já não ando numa busca desenfreada sabe-se lá por quê. Agora vou andando por onde me apetece, sem procurar coisa nenhuma, mas aproveitando bem tudo o que vou encontrando pelo caminho.

É a paz. A minha paz. Sei que estou no sítio certo. Nunca senti isto com esta certeza. Faltou sempre qualquer coisa. Reparem: não tenciono estagnar nem parar por aqui. Mas cheguei ao meu mar e agora só preciso de ir nadando.

Quando me dizem que a felicidade se vê nos meus olhos, eu percebo. Vê mesmo. A felicidade e a serenidade. O estar bem comigo. Aceitar o que sou. Não esconder bocadinhos com medo dos julgamentos. Viver em pleno. Ser eu, sempre. Sem máscaras.

E agora entendo por que é que uma série de coisas teve de sair da minha vida: para dar espaço ao que estava para chegar. Neste momento, aquilo de que preciso é desta liberdade e desta serenidade que conquistei a pulso.

E a seguir? A seguir... estão coisas boas para chegar. Não sei exactamente o quê, mas sei que vai acontecer. Sabem quando sentem tudo a fervilhar à vossa volta e parece que o universo se está a pôr a jeito...? É isso. Sei que vai ser bom... e sei que vem a caminho. Só não sei o que é. Mas tenho tempo para descobrir...

26 julho 2018

One Red Crow #10



A cada passo que dava o mar engolia-me mais. Procurei a ponte. Do lado de lá estavas tu. À minha frente, a água, quase como um mantra, era enganadora. Engoliu o caminho que me levaria a ti. Dividi-me entre a certeza de conseguir alcançar-te e o peso mortífero de não saber nadar. Entende: eu atravessaria todas as pontes, mas seria incapaz de aventurar-me em águas turvas ou cristalinas, tanto faz. Talvez fosse o medo. Ou a incerteza. Do lado de lá da ponte agora submersa, o teu sorriso era o vislumbre cravado na carne. Erguidas para fora da água, mil estacas que sustentavam a ponte. E eu, pés na água até aos tornozelos, eu e a minha certeza de que não seria capaz. Por amor atravessaria todas as pontes. Ou talvez não te amasse o suficiente para mergulhar.

| Fotografia de João Corvo |

25 julho 2018

Um pequeno exercício sobre amor próprio

Adorava não ter dois metros e meio de testa. Preferia não ter o nariz gigante e saliente e feio que tenho. Gostava de não ter os dedos das mãos tortos. Dispensava a celulite. E A meia dúzia de estrias também podia desaparecer. Gostava que o meu rabo não fosse o depósito de toda a gordura que se instala no meu corpo. E preferia que a barriga também não fosse testemunha das merdas que como (e que bebo). Mandava embora as poucas rugas que tenho nos cantos dos olhos e vivia bem sem os pouquíssimos cabelos brancos que tenho. Ah, e se mandasse alguma coisa, tinha encomendado umas mamas que não sofressem efeitos da gravidade e que fossem uma copa C ou coisa que o valha.

Tenho um cabelo que adoro, liso, enorme, saudável. Não preciso de alisamentos nem de grande manutenção. Corto-o duas ou três vezes por ano, pinto-o quando me apetece e siga. Tenho uns olhos rasgados, de uma cor algures entre o avelã e o esverdeado, meio orientais. Tenho os lábios carnudos e não me aproveito muito disso porque não sou a maior fã de batons do mundo. Adoro as minhas pernas - nunca ninguém me ouviu queixar delas. Apesar da celulite, gosto do meu rabo como está agora. Adoro os meus ombros, os braços e o pescoço. E as minhas costas. Ah, e gosto de ter mãos grandes e esguias. E também gosto dos meus pés.

Posso focar-me no primeiro bloco de texto e lamentar aquilo de que não gosto em mim. Ou posso focar-me no segundo e sentir-me bem comigo, valorizar o que gosto mais e dar destaque a isso. De caminho, posso resolver algumas das questões do primeiro bloco, mas se me focar apenas nisso nunca vou estar satisfeita com o que sou. E, reparem, aquilo que é possível resolver envolve treinos e alimentação e eu faço isso tudo. Mas faço porque gosto, porque me sinto bem. Não faço porque ando numa caça desenfreada pela perfeição - que, a propósito, não existe.

Se calhar é maturidade. Amor próprio é de certeza. Não posso ser a minha pior inimiga. Gosto de mim. Cada vez gosto mais de mim - e isto não é narcisismo, é apenas auto-estima. Tenho pontos a melhorar? Seguramente. Mas por mim, não pelos outros. E, mesmo que não melhore, gosto muito do que vejo agora. Esta sou eu. E sim, tenho milhares de inseguranças. E sim, nem todos os dias tenho esta clareza de pensamento, se quiserem. Há dias em que só  vejo o primeiro bloco. Depois olho com mais atenção e... no final, gosto sempre de mim.

Experimentem fazer isto: olhem para vocês e foquem-se naquilo que amam. Deixem de lado o que gostam menos, que agora não interessa. A ideia é valorizar o que têm de bonito e perceberem que sim, vale a pena gostarmos de nós. Depois contem-me, sim?

24 julho 2018

One Red Crow #9



Às vezes eu queria ser o sal na tua pele, o rasto dourado do final da tarde, a areia colada pelo corpo todo. Às vezes queria ser o sorriso vírgula no canto da boca, o cabelo desalinhado que teimas em enrolar nos dedos quando a ansiedade se apodera de ti, a sobrancelha levantada perante a dúvida e a indecisão. Às vezes queria ser a noite mais escura, lua nova e nenhuma luz, todas as ruas da cidade em silêncio e em absolvição, o barulho dos carros como um eco longínquo, aquele som de fundo com que sonhas mas que sabes não ser real. Às vezes queria ser a promessa que nunca cumpres, o caminho que deixaste de fazer, os autocarros perdidos para os quais não correste, as portas todas que deixaste fechar Às vezes queria ser a última refeição no corredor da morte, a oração que guardas para quando já não sobrar nada, o altar onde ajoelhas mesmo sem acreditar. Às vezes queria ser as três letras órfãs da palavra fim, o ecrã preto no final do filme, a terra que se atira sobre o caixão. O silêncio que vem com a morte é o nome que carrego com mais orgulho.

| Fotografia de João Corvo |

23 julho 2018

Toxic

Há uns meses, vivi uma espécie de história absurda e muito, muito tóxica. Porque eu deixei. Porque, por alguma razão, havia uma lição a tirar dali e eu não bati com a porta no exacto instante em que a primeira red flag apareceu.

Passaram meses. A história está morta e enterrada há que tempos. Não há pontas soltas. Nada por dizer. Nada por fazer. Só me arrependo de ter deixado que aquilo se arrastasse tanto tempo, mas quanto a isso nada a fazer.

O problema é que continuo a acordar a meio da noite com esta porcaria na cabeça. Esta noite, por exemplo, dei por mim a imaginar toda uma perseguição virtual (coisa absolutamente plausível, vinda daquela pessoa) e acabei sufocada, sem conseguir adormecer de novo.

Aquela porra intoxicou-me. Tirou-me a paz. Foi difícil regressar a um ponto onde quem manda sou eu, onde me sinto tranquila e, na maior parte do tempo, é assim que estou. O problema é quando há alguma coisa que me impede de dormir e o fantasma regressa para dar um ar da sua graça.

Se eu pudesse voltar à noite de Novembro em que um gesto meu abriu espaço para este veneno na minha vida, voltava. E não fazia gesto nenhum. Deixava seguir. Era tão mais feliz se não tivesse passado por isto.

Serve isto para o seguinte: red flags são para serem vistas. Se há alguma coisa que vos deixa de pé atrás, em alerta, que não vos soa bem, que vos tira a paz... saiam daí imediatamente. Não se sujeitem a isto. Nada, absolutamente nada vale a nossa paz.  

Férias: the day after

Quinze dias de férias e...

Três tardes de praia, no primeiro domingo e neste fim-de-semana, porque o tempo... oh well, não esteve a meu favor. Eu, que sou do Verão e do sol e do calor abrasador... lixei-me e não tive nada disso.

Aproveitei para resolver coisas dos miúdos com a escola, aproveitei para ir com eles a uma data de consultas e aproveitei para tentar descansar.

Pelo meio, pouco treino (devo ter ido ao ginásio umas três vezes), mas sem culpas nem stresses. Não dá, não dá, paciência, treino depois. Ainda assim, o saldo é claramente positivo: menos dois quilos (e sim, pode ter ido alguma massa magra \á viola, mas sinto uma nítida diminuição de volume, que era o que eu queria). Acontece que não quero voltar a pesar 55kg, como pesava no ano passado por esta altura. Por várias razões. A primeira é que esse peso foi fruto de uma péssima fase emocional. Andava numa montanha-russa e nada de bom vem daí. A segunda é que, com 55kg, fico sem rabo. Ora calha que preciso de rabo para kizombar e, neste momento, é assim que me sinto bem. Já que sempre fui um rabo com pessoa à volta então vou usar isso a meu favor...

E por falar em kizomba (bear with me, vá)... na semana passada fiz all in e fui a todas: terça, aula com um colega que também dá aulas; quarta e quinta, as duas horas de aulas normais (eu varro tudo: nível 0, 1 e 2 e Urban Kiz). Na quarta, depois das aulas, pegámos em nós e fomos para um dos spots onde se dança. Foi até às 3 e tal da manhã. Sem parar. É assim que se pratica e que se aprende. E eu tive a sorte de ser puxada por um senhor que é... professor. Ora eu sou uma esponja e toca de aproveitar a aulinha particular. Na sexta apetecia-me sair, não necessariamente para kizomba. Foi à quinta tentativa. Primeira: BBeach Club, em Oeiras - noite de Rock, num bai dar; segunda: Tamariz - noite de Funk, num bai dar; terceira: Mood, em Sintra - fechado para férias; quarta: Bombar, também em Sintra - um sítio invadido por crianças de 17 anos, mais tabaco do que eu sei lá o quê, num bai dar; à quinta lá acertámos: mesmo sítio da quarta-feira, até aquilo fechar. E, de novo, non-stop, horas a dançar. Sábado, mais do mesmo, mas noutro sítio. Fomos com o colega-professor e... sai mais uma sessão de aprendizagem para a mesa do canto. Portanto, fora o tempo que passei em casa a dançar (sim, acontece imenso e sabe-me pela vida!), devo ter dançado umas 14 horas ou mais. E sabem que mais? Estou de alma lavada. Leve, leve, leve.

Mais coisas? Houve filmes, séries, muito tempo a passar a ferro (e ainda não dei conta do monte, mas está quase), alguns passeios e muito mimo com as crias.

Hoje volto ao trabalho tranquila. Cheia de coisas para fazer, mas com a sensação de que, apesar da falta de sol, foram umas férias porreiras. Em Agosto há mais: os miúdos vão andar entre avós e pai, eu vou estar a trabalhar, mas vou aproveitar ao máximo os tempos mortos. E tenho uma semana de férias lá pelo meio, mesmo para desligar e carregar baterias.

E agora a million dollar question: como é que eu estou? Feliz, mesmo feliz. E levezinha, já disse?  

15 julho 2018

Meio cheio

Duas semanas de férias. Estou a meio. Tenho a casa em estado de sítio. Estes miúdos estão cada vez piores no que toca a arrumações e a culpa é minha, que não os empurro o suficiente. É aquela coisa de escolher as guerras em que me quero meter, sabem? Para esta, tenho cada vez menos força.

Duas semanas de férias, estou a meio e estou esgotada. Só me apetece chorar. Não há sol, não há praia. Praia é aquela coisa que me recarrega as baterias de imediato. Tive um ano de merda e precisava de descansar, de fazer reset, de conseguir respirar, sacudir o que foi mau e continuar, limpa e sem bagagem, para o que aí vem. Não consigo. É o desespero total. Não me apetece dedicar um dia inteiro a limpar a casa, mas vai ter de ser. Não me apetece porque sei que, duas horas depois, está tudo na mesma que eles são mestres na arte de fazer disto uma batalha campal.

Duas semanas de férias e, a meio, o miúdo adoece e vamos passar uma linda tarde de domingo ao hospital. Ele a vomitar, eu a segurar-lhe o vómito, a lavar roupa, a mudar lençóis da cama que ele vomitou, a tomar banhos para estarmos os dois prontos para outro banho imediatamente a seguir.

Não é fácil. Não é mesmo nada fácil. E depois da merda de ano que eu tive, tudo o que eu queria era ter duas semanas de paz com eles, com sol e gelados, com ar fresco e petiscos, com passeios e o sol na pele. Nada disso. Estou refém em casa. E preciso TANTO de respirar.

(Miúdo a melhorar, com perspectiva de voltar a piorar precisamente ali ao início da noite, que é quando vai acabar o efeito da medicação. Aposto que vai haver camas vomitadas (e os lençóis estão a secar). Amanhã vai estar sol e eu vou ficar trancada com eles em casa porque temos de limpar isto como deve ser. Entretanto, eu que não sou a maior das crentes, rezo para que o resto da semana seja de sol, para ver se consigo ao menos uma ou duas tardes de praia. A verdadeira vontade? Cancelar as férias e marcar mais tarde, quando for finalmente Verão. Isto este ano está a ser a maior perda de tempo de sempre. E sim, estou com um feitio de merda. Eu sei. Só me apetece chorar, já disse?)