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22 agosto 2019

Achei mesmo que não ia viver para ver isto

Fui crescendo com a ideia (errada) de que a humanidade tinha evoluído qualquer coisinha e aprendido com erros antigos e que o mundo era um lugar (mais ou menos) seguro.

Apesar disto, cresci com o patriarcado a dizer-me que uma mulher não pode fazer mil coisas sob pena de estar a pedi-las e que, fazendo exactamente as mesmas coisas que os homens fazem, ganha uns epítetos interessantes, de puta para baixo. 

Cresci a ouvir dizer que não podia andar sozinha na rua à noite porque podia ser violada. Cresci a ouvir dizer que não posso vestir uma mini-saia e um decote porque posso ser violada. Cresci a ouvir dizer que tenho de saber fazer tudo em casa, para assegurar a dinâmica familiar e garantir que o meu marido continua feliz e contente. E não foram os meus pais a dizer-me nada disto - foi a sociedade.

Sobrevivi. Caguei na maioria destas coisas, mas lá no fundo da minha mente ainda habita um "tranca as portas do carro se andares sozinha à noite". 

Cresci a achar que Portugal era um país pequenino e modesto, já muito longe do Portugal colonialista, pós-Descobrimentos. A grandeza de outrora deu lugar ao cá vamos andando, com a cabeça entre as orelhas. Éramos pequenos, fizemo-nos maiores, voltámos ao tamanho original e está tudo bem.

Achei que não viveria para ver Portugal vencer a Eurovisão, mas aconteceu. Achei que não viveria para ver Portugal campeão de coisa nenhuma, com uma bola nos pés, mas aconteceu. Achei que não viveria para ver a extrema-direita tomar conta da Europa, mas está a acontecer. 

Achei que não viveria para ver o país que pariu Camões, Pessoa, Saramago, Garrett, Eça, Lobo Antunes, Peixoto, Tordo, Natália, Florbela entregue a leitura de hipermercado, a clichés em barda, a pseudo-literatura reles, rasca e pobrezinha, mas aconteceu.

Achei que não viveria para ver um imbecil misógino, racista, sexista e homofóbico tomar conta do país supostamente mais "importante" do mundo, mas aconteceu. E, como se não bastasse, apareceu outro exemplar igual, uns metros mais abaixo, a tomar conta do país que alberga a extensão de terra que sustenta esta merda toda. 

Achei que não viveria para ver a destruição do planeta, do tal mundo mais ou menos seguro. Mas é isso que estamos a viver. Porque o dinheiro, que basicamente, é papel, transformou-se na coisa mais importante. Mas não há dinheiro que pague o ar que respiramos. Não há dinheiro que pague a sobrevivência humana. Bem sei que, pós Peste Negra, houve uma espécie de reequilíbrio na humanidade, bem sei que 7.60 biliões de pessoas é muita gente a respirar o mesmo ar mas é o que é e todos merecemos viver. 

Vejo a Amazónia arder e, ao mesmo tempo, vejo a merda das influencers no Instagram a venderem cremes e vassouras, descontos em hotéis e em boiões de creme e, não me levem a mal, mas fico com a noção clara de que, realmente, se calhar isto está um bocado sobrepopulado. 

Vejo a Amazónia arder e o imbecil do Bolsonaro a sacudir a água do capote, como se fosse o tipo mais sério do mundo e estivesse efectivamente preocupado com o país que lidera. Não está. Ao Bolsonaro, como ao Trump, interessa o dinheiro. Ao Bolsonaro, como ao Trump, interessa o património privado - o seu, bem entendido. Como se, morrendo, fossem para o inferno com um cartão de crédito sem limite de plafond. 

Olho para Portugal e vejo a corja de sempre, o poderzinho, os interesses privados, o nepotismo, o culto do clã. E dá-me vontade de fugir. Para Saturno.

Olho para os meus filhos e tenho pena, mesmo muita pena, do mundo em que eles vão viver depois de nós, a geração anterior, partirmos. E medo, tanto medo. Porque, de repente, os filmes épicos sobre desastres à escala mundial já não parecem tão ficção assim. 

Se calhar já chega. Se calhar já chega de nos preocuparmos com merdas sem importância nenhuma e de começarmos a olhar para o que realmente importa. E o que importa não são os números. São as pessoas. Os 7.60 biliões de pessoas que, estando vivas neste momento, estão mais mortas do que nunca. E se calhar já chega. 


20 agosto 2019

Best of... Férias 2019

Alentejo. Aguarelas. Piscina. Praia. Livros. Amigas. E o coração cheio...

No ano passado, tirei uma das semanas em que os miúdos estiveram de férias com o pai só para mim. Gostei tanto que... este ano tirei as duas semanas! E foi a melhor decisão do ano, na verdade.


Comecei com eles, no Alentejo, na festa da terra da minha mãe. Eles adoram, eu também. Dias de descanso e de família e eu não podia pedir mais nada. 


Manhãs de ronha, tardes de piscina, fins de tarde assim, sentada à porta de casa, a ler, noites de festa e copos e primos. Tranquilidade pura. Ah, e ali em cima, a minha árvore. Sempre que chego à Aldeia de dia, paro e fotografo-a. Desta vez, fotografei à saída, mas é ponto assente. É a árvore que define o meu Alentejo, não consigo explicar o fascínio que tenho por ela. É como se fosse minha, como se fosse raíz pura e o meu lugar no mundo.

Todos os anos, de há muito tempo a esta parte, tiramos uma foto dos miúdos no muro do quintal lá de casa. É giro ver a evolução deles. Este ano foi assim...


Depois eles continuaram de férias com o pai e eu vim para Lisboa, à procura do sol, que fez o favor de se pôr a milhas durante a primeira semana. Deu para ver filmes e para descansar, para dormir muito e pouco mais. Ao contrário do ano passado, em que andei doida a dançar, este ano estive na minha bolha, sossegada. E soube-me tão bem...

A segunda semana foi de praia, praia e mais praia. E foi perfeita. Não podia mesmo ter sido melhor. Estou com aquela cor com que a Lia odeia fotografar-me, porque diz que já não me pareço com nada - mas eu adoro... Sou do mar e do sal, da areia e do sol e não me importo nada com isso.

Este ano, tinha decidido que ia fazer pelo menos um dia de praia na Costa, para ver se quebrava o meu próprio preconceito. Eu explico: tenho um problema com a ponte 25 de Abril. Acho que passo a ponte e estou a entrar na Via do Infante, parece-me tudo longíssimo. E, tendo praia a 15km de casa, em linha recta, sem stresses de estacionamento, parece-me só parvo ir apanhar 3h de fila para chegar a uma praia que é exactamente igual ao que tenho deste lado: areia, sol e mar. 
Resultado: não fui um dia - fui dois. Não passei a ponte duas vezes - passei seis (incluindo duas à noite, noutro dia). 

Já é tradição jantar com as melhores amigas na semana do feriado de Agosto. Este ano, rumámos à Graça e, contra todas as previsões, conseguimos estacionar mesmo no miradouro. O jantar? Mais do mesmo: sushi, gargalhadas, sangria a rodos, mais gargalhadas, confissões e aquela amizade tão, tão boa, que já dura há imensos anos. Claro que acabámos a aparvalhar... porque nem a festa se fazia!!



Já sei... já sei que estou grelhada e mimimi. Sim, mãe, estou. E também estou mesmo feliz porque estas duas semanas foram ainda melhores do que eu esperava e trouxeram exactamente o que eu precisava de viver. Foram a mistura perfeita de descanso e novidade, paz e adrenalina. Agora? Venha de lá o resto do ano, porque férias... só em 2020 e já só há dois feriados até ao final de Dezembro!

02 agosto 2019

Banha da cobra, influenciadores e o poder do dinheiro

Há coisas que me tiram do sério. Algumas arrancam-me apenas um revirar de olhos. Outras pedem que gaste com elas alguns minutos de atenção. É o caso.

Não é muito difícil que quem anda pelo Instagram se cruze com gente que nos enfia códigos de desconto da Prozis pelos olhos dentro. Mais figura pública, menos figura pública, o que não falta são 10% de desconto + ofertas a rodos. Nada contra. 

Antes de avançar, importa referir: sou cliente da marca, consumo whey e manteiga de amendoim deles, já usei códigos de desconto (e quando escolho o código a usar ganha o que tiver a oferta melhor - os descontos são sempre de 10%, mas as ofertas associadas variam de influenciador para influenciador e mudam semanalmente), estes produtos são bons e têm uma boa relação qualidade/preço e isso é o que me importa. Estou-me nas tintas para quem são os "embaixadores" da marca.

Então a que propósito é que vem este post? Pois que a Prozis resolveu "lançar" uns electroestimuladores de abdominais, que vende a 50€. Aquilo é uma maquineta que se cola à barriga, emite choques e... bom, e nada. Mas pronto. Também há quem acredite que a Nossa Senhora apareceu em cima de uma árvore, não é? 

Já todos vimos a Carolina Patrocínio e a sua barriga, certo? Ela já tinha a barriga traçada muito antes dos electroestimuladores, mas agora divulga-os, como se aquilo fosse a solução milagrosa. Ela e mais uma carrada de gente fit (que são quem fornece os tais códigos de desconto) desataram a divulgar aquilo. E há-de haver quem compre aquela merda e acredite que aquilo resolve alguma coisa. 

Ou seja, temos maquinetas inúteis, vendidas a um preço absurdo, e divulgadas por pessoas que têm corpos magros e tonificados, que conseguiram com muito trabalho árduo, mas sem a intervenção daquela porra. Isto faz algum sentido? Para mim, não. É só mesmo vender banha da cobra a preço de caviar. E por falar no preço... A mesmíssima coisa, no Aliexpress, custa... menos de 10€. 

26 julho 2019

Disclaimer

40 anos e ainda dou comigo a justificar coisas em mim. "Sou assim porque...", "eu digo isto mas,..." e afins são coisas que facilmente me ouvem dizer. Porquê? Não faço puto de ideia. É como se sentisse que preciso de pedir desculpa por ter opiniões e formas de agir, como se precisasse de me barricar antes sequer de me sentir atacada, uma espécie de devesa antecipada, já a prever o que possa vir de encontro a mim. Uma estupidez.

A parte boa é que, tendo consciência disto, cada vez menos caio neste erro. Já estou a chegar àquele ponto em que me preocupo... zero. Ainda não estou no zero-zero, mas para lá caminho... e é libertador, até porque pedir desculpa por sermos como somos é mais ou menos como insinuar que haveremos de mudar. E até podemos fazê-lo. Mas que seja por nós e não pelos outros. Porque os outros... bem, sejamos nós como formos, arranjarão sempre maneira de criticar. E aos 40 já temos idade para saber que nunca agradaremos a toda a gente (da mesma maneira que nós não gostamos de tudo quanto nos passa pela frente) e está tudo bem.

[Fim do momento Gustavo S@ntos. Podem seguir viagem rumo ao fim-de-semana. Obrigada e boa tarde.]

23 julho 2019

Vira o disco e toca o mesmo...

Lá ando eu de volta com o dilema de sempre: quero escrever mais aqui no blog, não quero plantar aqui a minha vida pessoa, não quero que isto seja drama, não quero entrar na espiral do assunto comida/ginásio/forma física, não quero criar um bolha cheia de nada. Quero criar conteúdo interessante, com que vocês se relacionem, que vos diga alguma coisa. Mas para isso preciso da vossa ajuda...

Vou deixar, no Instagram, que é a plataforma que permite isto, uma espécie de sondagem para perceber quais são os temas de que vocês preferem que fale. Obviamente, não escrevo para toda a gente e quem me lê aqui procurará outro tipo de conteúdo noutros sítios. Há assuntos que são meus e outros que não me dizem nada e convosco sei que se passa o mesmo. Posto isto, era giro saber quais é que são os meus pontos fortes e fracos, pelos olhos de quem me lê.

Alinham?

22 julho 2019

Time Lapse

Acabei de perceber que não escrevia há quase um mês. Vamos a update: tudo na mesma. Mentira: adoptei uma série de... plantas. Isso: eu, que mal me consigo manter viva a mim e que mantenho os meus filhos em óptimo estado, achei que era altura de me comprometer ao nível do relvado. E como eu sou 8 ou 80, não me limitei a levar uma planta para casa: levei... OITO. Entre elas, estão bambus, uma aloe vera e uma micro suculenta. Mas também tenho coisas assim mais imponentes tipo... um coqueiro. Isso. Co-quei-ro. (Insanity level: stellar...)

Ah e tal, plantas porquê? Porque ando a ver se dou uma volta na minha casa. Quero destralhar, tornar tudo mais acolhedor e menos cheio de tralha inútil. E achei que aquilo precisava de vida. Por outro lado, é um desafio a mim mesma: eu sempre deixei morrer plantas. Enquanto estive casada, era o ex que tratava delas porque eu nem me lembrava que aquilo existia. Claro que acabaram por morrer e eu deitei tudo fora. Mas agora senti falta do compromisso e da dedicação que elas pedem. Reparem: a minha vida sou eu, os miúdos e os gatos. Cinco seres para manter vivos, bem sei. Mas faltava-me qualquer coisa... Por agora, resolvi com plantas. E, até ver, está a correr relativamente bem: uma está às portas da morte (mas a que a minha mãe tem em casa dela também está) e há outra que ainda nã ofala a mesma língua que eu, portanto, ainda não percebi o que é que ela quer - mais água?, menos água?, sol directo?, muita luz mas filtrada?... Pois, não sei... mas hei-de descobrir (e se não descobrir faço-lhe o funeral, pronto).

Então e mais coisas? Nada de especial. Férias com os miúdos, mau tempo, neura descomunal, cinema bom, livros bons, muitas aguarelas pintadas, muitas auto-descobertas e... não tarda é Agosto.

25 junho 2019

Living

Tenho muitas (demasiadas) vezes a sensação de que perco demasiado tempo com merdas. Não sei se é por ter batido nos 40 e ter começado a pensar que, se calhar, já vou a meio da viagem (espero ir a meio... ou menos, vá!, que não me apetece nada que isto acabe agora), ou se é mesmo por ter consciência do meu tempo enquanto bem precioso. Sei que dou comigo, cada vez mais, a achar que não devia perder tempo em coisas inúteis. 

Vou combatendo isto como posso, sem achar que tenho de estar sempre a fazer coisas. Aliás, muito do tempo que perco é tempo de descanso de que abdico para coisas tão parvas como... estar a varrer feeds de redes sociais.

Uma das coisas em que mais invisto tempo (e dinheiro...) é na leitura. Nunca vou entender as pessoas que dizem que não têm tempo para ler (ou para o que quer que seja). Não é NUNCA uma questão de falta de tempo. É SEMPRE uma questão de gestão de prioridades. O que, para mim, é prioritário, para outra pessoa pode não ser. Para mim, ler, ir ao ginásio e ver as minhas séries são coisas prioritárias. É por isso que lhes dedico tempo e é por isso que as encaixo no meu dia-a-dia como encaixo outras tarefas. Há pessoas que preferem ler revistas, dormir, passear o cão ou o canário. Não importa. Cada um gere as mesmas 24 horas diariamente, não é? As minhas 24 horas duram o mesmo que as de toda a gente. Mas, nessas 24 horas vezes não sei quantos dias que este ano já leva, já meti a leitura de 22 livros, já meti muitas horas de treino e de dança e muitos episódios de séries. Porquê? Porque isso me faz feliz. 

Tenho as minhas estratégias para aproveitar o tempo, obviamente. Acho que já falei de algumas. Por exemplo: ao domingo, faço comida para a semana toda, para depois demorar o menos possível com jantares em casa e para ter sempre comida para levar para o trabalho. Enquanto cozinho e enquanto faço a limpeza da casa, ando sempre com o telemóvel e uns phones atrás, para estar a ouvir audiobooks (os que tenho ouvido demoram entre 7 e 9 horas, pelo que, entre cozinha e limpeza, despacho praticamente um audiobook por fim-de-semana). Enquanto passo a ferro, vejo episódios de séries. Às vezes abdico do convívio à hora de almoço para ler, para escrever ou para ver mais um episódio de qualquer coisa, ou meio filme, conforme me apeteça. É raríssimo sentar-me no sofá, ao serão. Porquê? Porque, se for treinar ao fim do dia e tiver os miúdos comigo, significa que os vou buscar já perto das 21h, para ainda irmos jantar (e é aqui que entra a comida que fiz no fim de semana), depois ainda tenho de tomar banho, preparar as coisas para o dia seguinte e, vá, convém dormir (para terem uma noção, este mês tenho dormido em média 7.5 horas por noite, o que é maravilhoso, considerando tudo o que tenho para fazer).

Então, no meio disto tudo, o que é que eu NÃO faço? 
Não ando a passear em shoppings, não saio muito com amigos, não vou muitas vezes beber café fora. Evito deslocações demasiado extensas (já me bastam as horas que demoro de casa para o trabalho e vice versa - que, a propósito, são cerca de 2h30 por dia, que ocupo a ler e, vá, a navegar na net).

Claro que há excepções. E claro que deixo muita coisa por fazer. Ando para destralhar roupeiros há imenso tempo, tenho feito aos pouquinhos, mas não me tem apetecido abdicar do meu tempo em prol disto. Claro que ando cansada e que até me apetece não fazer absolutamente nada de vez em quando. E está tudo bem.

Isto tudo para dizer o quê? Que cada vez menos me perco em feeds vários - o do Instagram é a minha paixão e vou conseguindo ver tudo já sem estar constantemente a olhar para aquilo, que uso algumas apps que me ajudam nisto tudo e que sinto que aproveito cada vez melhor esta areia que me resta numa ampulheta que não sei até quando durará. E sabem que mais? Adorava ter tido esta consciência há uns 15 ou 20 anos. Tenho a certeza de que teria perdido muito menos tempo e de que teria investido estes anos todos de uma maneira muito mais inteligente.  

19 junho 2019

O amor é lindo


Às vezes, o amor é uma dobradiça perra, uma fechadura que não corre, o barulho de metal a raspar em metal, o arrepio na nuca que não vem das coisas boas, mas sim das coisas que parecem estar bem mas não estão. Outra vezes, o amor é um tetris onde as peças encaixam devagarinho e sem esforço, de vez em quando temos de virar uma peça para que não fique um bocadinho de espaço vazio, para que o encaixe se faça perfeito, mas ganhamos pontos e subimos de nível e o jogo evolui sem grandes percalços. É sabido: gosto de lâminas afiadas na carne, sangue a pingar devagarinho, aquele arrepio do perigo, da incerteza, da insegurança. Na ficção, gosto disto tudo. Na minha vida, já deixei de lado as chaves que não fizeram abrir a fechadura, o som áspero do metal é a antítese da saudade. Na minha vida, já só quero a Primavera do amor devagar, sem lombas acidentadas, sem drama desnecessário. Talvez seja a isto que sabe a maturidade. Já podiam ter avisado, uma pessoa gasta metade da vida a consumir-se sem necessidade nenhuma. 

06 junho 2019

Floresta Mágica no Bombarral

Fui convidada pela Câmara do Bombarral a ir passar o fim-de-semana do Dia da Criança à Floresta Mágica, na Mata Municipal. Ora eu nunca tinha ido ao Bombarral. Não fazia ideia do que me esperava, mas não podia recusar a oportunidade de estar com os miúdos num lugar encantado, onde eles se iam divertir a sério. 

O programa das festas começava com uma Caça aos Pirilampos, na noite de sexta (dia 31). Quis muito que os miúdos vissem pirilampos verdadeiros, já que só conhecem os da CERCI, portanto dei fogo à peça, marquei um quarto para nós num Alojamento Local em Ferrel, a 20km do Bombarral (conto esta história noutro post, prometo... porque claro que tinham de acontecer coisas...), arranquei com eles ao final da tarde rumo a Ferrel, para ir buscar a chave do quarto. Como estávamos mega apertados de tempo e eu sou uma pessoa desenrascada, fiz uma paragem técnica no McDonald's de Torres Vedras para abastecer. A paragem em Ferrel foi rapidíssima. Voltámos logo para o Bombarral, porque não queríamos perder nada.

Assim que me aproximei do espaço percebi o cuidado com que tudo estava feito. À entrada, estavam duas mascotes a receber os caçadores. O pórtico de entrada, pintado à mão, dava o mote para a magia que aquela floresta guardava... e não me enganei! 

A primeira paragem foi na Aldeia das Fadas, uma zona muito gira do circuito. Para abrir o fim-de-semana, ouvimos a história do Tio Lobo, contada genialmente. Até eu, que tenho mais 35 anos do que o público-alvo da história, vibrei com aquilo tudo!  


Seguiu-se a caça aos pirilampos, guiada pela Bruxa Jójó - e a minha filha encantada com todo o figurino da bruxa... A Mata está cheia de pirilampos, mas talvez por ser muita gente e porque estávamos a fazer barulho, não foi assim a chuva de pirilampos que a organização esperava. Eu acho só que eles queriam mesmo dar o melhor àquela audiência... porque a carrada de pirilampos que nós vimos chegou bem para ter os miúdos super felizes... E eu ainda cacei mesmo um pirilampo, que eles puderam ver de perto!

Quando terminou voltámos para Ferrel, com a promessa de que estaríamos de volta no sábado a seguir ao almoço. E assim foi. Tivemos uma tarde espectacular, por todas as razões e mais alguma. Em primeiro lugar, a Mata Municipal está muitíssimo bem cuidada. Há bancos e pontos de água espalhados pelo recinto, de maneira a que quem por lá passeia tem sem tudo assegurado. Depois, o parque infantil merece destaque. Eu não sei há quanto tempo o Bombarral tem este tratamento, mas que aquilo está bem feito, está.

Os miúdos passaram a tarde a fazer as 97654 actividades disponíveis na Floresta. Houve de tudo: um mini musical do Timon e do Pumba (fabuloso!), tatuagens com purpurinas, um poeta a escrever com uma pena e um tinteiro (e a minha filha, que já se habituou às brush pens da mãe, por causa do bullet journal, retribuiu o gesto e escreveu qualquer coisa para o poeta assim mesmo à profissional da caligrafia da Idade Média), animais da quinta, incluindo cabras, pavões, perus, coelhos e patos, póneis para montar e para passear de carroça, uma escola de bruxas, onde fizeram varinhas mágicas, o mundo da Alice no país das Maravilhas, onde decoraram bolachas e jogaram ao jogo das cadeiras, insufláveis onde se queimaram de tanto lá andar (a sério, vieram os dois com pele arrancada dali!). 






Ali pelo meio andavam uns quantos animadores, que iam vestindo outras peles durante todo o evento e os miúdos reconheciam-nos e metiam-se com eles e eles interagiam... bom, foi só espectacular mesmo!

Entretanto, ao final do dia, fomos jantar ao restaurante O Pão, também a convite da Câmara. Estávamos mesmo a entrar no restaurante quando começara a passar os atletas que estavam a participar na Corrida da Pêra e do Vinho. Lá no meio, a Rosa Mota e também guardo um post para contar esta história, porque há coisas que só mesmo a mim, não é...?

Jantámos e, como íamos dormir na Floresta - porque havia um acampamento, para o qual fomos convidados mas que está aberto ao público mediante inscrições, voltámos, pusemos as coisas na tenda e fomos para as actividades nocturnas: voltámos à Aldeia das Fadas e... ups... acordámos os duendes da aldeia que estavam a dormir nas suas casas! Eles aproveitaram a invasão para contar histórias e deixar toda a gente bem disposta: éramos umas dez famílias a passar uma noite diferente! Quando acabou esta parte, fomos novamente caçar pirilampos: como estava calor e éramos menos, a esperança era que se vissem ainda mais pirilampos... e foi o que aconteceu. No final, tivemos uma ceia que assentou mesmo bem, antes de irmos dormir. 


Claro que eu não dormi nada, porque... pássaros, insectos e o Papagaio (que é um pónei) a relinchar a noite toda, mais o frio e o facto de eu já não ter 15 anos e, portanto, já ter umas costas que agradecem colchões em vez de chão duro. Mas... nem isso me desanimou!

Acordámos cedo, fomos tomar o pequeno-almoço (e fiquei mesmo com pena de não ter pedido a receita do bolo que lá estava e que foi provavelmente o melhor bolo caseiro que comi até hoje  MESMO!) e ficámos até à hora de almoço a passear e a fazer ais actividades. As únicas que eles não tinham feito no dia anterior foram asseguradas no domingo: andar de pónei e amassar pão.

Para o meu filho, o ponto alto foi o stand dos dinossauros: esteve a tirar pedra de um fóssil de tartaruga e pôde ver e tocar num osso de dinossauro verdadeiro que está a ser retirado de pedra também. Ela adorou andar a fazer varinhas mágicas, a decorar lápis de carvão e a escola de bruxas. 


De certeza que me estou a esquecer de coisas aqui pelo meio, mas o espaço tinha tanta, tanta coisa que é difícil falar de tudo.

Adorámos cada minuto, eles já fizeram saber que "ó mãe, promete que para o ano vimos outra vez!" e eu fiquei mesmo com muita vontade de lá voltar. Afinal de contas são só 45 minutos que separam Lisboa do Bombarral, o caminho faz-se lindamente e não fica caríssimo.

Muito, muito obrigada à Câmara do Bombarral pelo convite. Sem ele, eu não teria descoberto isto e foi mesmo fabuloso. E obrigada à Dra. Patrícia Pereira, a vereadora que nos acompanhou, e a todo o staff que nos fez sempre sentir em casa. Fomos realmente bem recebidos e isso vale ouro!

Entretanto, fica a sugestão: mesmo sem Floresta Mágica, a Mata Municipal, que fica mesmo no centro do Bombarral, merece uma visita, com piquenique incluído! 

04 junho 2019

Preconceito

Gays. Árabes. Pretos. Burros. Comunistas. Indianos. Manequins. Ricos. Do gueto. Tios. De direita. Católicos. Lésbicas. Protestantes. Que amamentam. Que marcam cesarianas. Barmaids. Caixas de supermercado. Mães solteiras. Loiras. Tatuados. Gordos. Deprimidos. Nerds. Drogados. Intelectuais. Que vêm telenovelas. Vegans. Metaleiros. Góticos. Bodybuilders. Hospedeiras de bordo. De Cascais. Transexuais. 

Preconceito. Provavelmente já todos fomos alvo de algum tipo de preconceito. Provavelmente já todos tivemos algum tipo de preconceito em relação a outras pessoas. 

A empatia não é um processo linear nem imediato. Não empatizamos com tudo nem com todos. Há temas que nos são mais queridos e outros com os quais não conseguimos lidar tão bem. Conscientemente, é preciso fazer um esforço para erradicar o preconceito e aprender a conviver com coisa que, por uma razão ou outra, nos provocam algum desconforto. Às vezes, a única razão para este desconforto é o desconhecimento.

Quando conhecemos pessoas que são diferentes de nós, que têm vivências diferentes das nossas, acabamos por deixar cair alguns destes preconceitos. Ali em cima elenquei uma série de características com as quais aprendi a conviver, fruto da convivência mais ou menos intensa. Aprendi a respeitar, aprendi a nem sequer olhar para aquelas pessoas de acordo com esta catalogação. São pessoas. São o X, a Y, o Z e por aí adiante. São pessoas que são muito mais do que gay, árabe, preto, etc.. 


Nisto tudo, há um tema que me é particularmente caro: a cena LGBTIQ+. Porque tenho amigos gays. Porque tenho um amigo trans. E porque sei o que eles penam para serem só pessoas normais, cidadãos de pleno direito à vista da sociedade. Nem sequer entendo que tenham de se colocar nesta ou naquela gaveta. São pessoas. Ponto. Amam quem amam, dormem com quem dormem e isso não deveria ser questão para ninguém, excepto para eles. Também não entendo que as outras pessoas tenham de aceitar o que quer que seja que não lhes diga directamente respeito. Ultrapassa-me.

bom, isto tudo a que propósito? Disto: Só Que Não. Vejam os 10 episódios. Cada episódio tem mais ou menos 10 minutos e é um testemunho dado na 1ª pessoa por vítimas dos mais diversos tipos de preconceito. Vejam e pensem um bocadinho sobre o assunto: que preconceitos têm? Como é que os podem eliminar? Vão um bocadinho mais longe: ponham-se no lugar daquelas pessoas. Não ia ser bom, pois não? Pois...