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15 julho 2018

Meio cheio

Duas semanas de férias. Estou a meio. Tenho a casa em estado de sítio. Estes miúdos estão cada vez piores no que toca a arrumações e a culpa é minha, que não os empurro o suficiente. É aquela coisa de escolher as guerras em que me quero meter, sabem? Para esta, tenho cada vez menos força.

Duas semanas de férias, estou a meio e estou esgotada. Só me apetece chorar. Não há sol, não há praia. Praia é aquela coisa que me recarrega as baterias de imediato. Tive um ano de merda e precisava de descansar, de fazer reset, de conseguir respirar, sacudir o que foi mau e continuar, limpa e sem bagagem, para o que aí vem. Não consigo. É o desespero total. Não me apetece dedicar um dia inteiro a limpar a casa, mas vai ter de ser. Não me apetece porque sei que, duas horas depois, está tudo na mesma que eles são mestres na arte de fazer disto uma batalha campal.

Duas semanas de férias e, a meio, o miúdo adoece e vamos passar uma linda tarde de domingo ao hospital. Ele a vomitar, eu a segurar-lhe o vómito, a lavar roupa, a mudar lençóis da cama que ele vomitou, a tomar banhos para estarmos os dois prontos para outro banho imediatamente a seguir.

Não é fácil. Não é mesmo nada fácil. E depois da merda de ano que eu tive, tudo o que eu queria era ter duas semanas de paz com eles, com sol e gelados, com ar fresco e petiscos, com passeios e o sol na pele. Nada disso. Estou refém em casa. E preciso TANTO de respirar.

(Miúdo a melhorar, com perspectiva de voltar a piorar precisamente ali ao início da noite, que é quando vai acabar o efeito da medicação. Aposto que vai haver camas vomitadas (e os lençóis estão a secar). Amanhã vai estar sol e eu vou ficar trancada com eles em casa porque temos de limpar isto como deve ser. Entretanto, eu que não sou a maior das crentes, rezo para que o resto da semana seja de sol, para ver se consigo ao menos uma ou duas tardes de praia. A verdadeira vontade? Cancelar as férias e marcar mais tarde, quando for finalmente Verão. Isto este ano está a ser a maior perda de tempo de sempre. E sim, estou com um feitio de merda. Eu sei. Só me apetece chorar, já disse?)

11 julho 2018

O que é que a Kizomba tem?

Pergunta recorrente nos últimos tempos: por que é que gostas tanto disso?

Por mil razões. Voltemos atrás. 2006. Entre o pessoal com quem eu saía na altura, havia dois ou três que sabiam dançar. Falhei redondamente. Não atinava com aquilo. Não que tenha tentado muito, na verdade, mas na altura o bichinho não me apanhou.

Uns tempos depois, comecei a sair de vez em quando com a Samanta, amiga que se tornou pro de kizomba enquanto viveu pelos Algarves. Saíamos juntas, ela para dançar, eu para lhe segurar no casaco. Lá havia um ou outro maluco que me arrastava para dançar, mas a coisa não durava muito porque, lá está, eu não fazia ideia do que andava ali a fazer. Aprendia o básico dos básicos nas aulas abertas, antes das aberturas de pista e mais nada. Até que um dia, numa dessas saídas, fui puxada por um senhor angolano, mais velho - avisei que percebia zero daquilo mas ele pediu que confiasse nele e me deixasse ir. Não me largou durante o resto da noite e eu aprendi um bocadinho. E o bichinho entranhou.

Novo salto temporal. Quando comecei a trabalhar na actual empresa, houve um jantar. Descobri que um dos meus colegas era... pro naquilo. Pedi-lhe para me ensinar, foi o que ele fez e sempre que há saídas acabamos a kizombar um bocadinho. Foi com ele que aprendi a maior parte das coisas, com ele a explicar o que estávamos a fazer.

No meio disto tudo, sempre quis fazer aulas. Porque sei que se aprende a sério. Porque acaba por ser um sítio onde socializamos um bocadinho e, havendo uma paixão comum, é mais fácil estarmos todos alinhados.

Quando mudei para o ginásio novo, descobri que havia aulas de kizomba. Quarta à noite, que é quando não tenho os miúdos porque vão jantar ao pai. Perfeito. Ainda andámos ali umas semanas no hoje não dá, esta semana não consigo, mas eu e a Lia lá nos organizámos. E de repente a quarta à noite é sagrada. Entretanto, e porque estar ali já nos trouxe pessoas muito porreiras, já aconteceram saídas para dançar. E haverá muitas mais, seguramente. Este sábado, por exemplo, aterrámos no KETA, que é um festival anual de Kizomba e Bachata (e um dia conversamos sobre Bachata... e sobre aquela coisa de "nunca digas nunca", "não cuspas para o ar" e tal e tal...). Eu, a Lia e mais um colega nosso pegámos em nós e em toda a nossa coragem de principiantes e lá fomos. E foi tão, tão bom...!

Por que é que eu gosto tanto? Para já, porque adoro dançar. Tudo. Ou quase, vá. Depois, porque gosto de kizomba - da música, bem entendido. Depois porque aquilo é paixão, é entrega, é fogo, é alma. E eu, que sou um cubo de gelo / calhau com olhos / tractor na maioria das situações, ali transfiguro-me. Ali sou eu. Não preciso de me esconder, não preciso de disfarçar, não preciso de parecer uma coisa que não sou. Não encontrei, até hoje, um ritmo que seja tão eu como a kizomba. É fácil esquecer tudo enquanto estou a dançar. É fácil entregar-me ao que estou a fazer. É só deixar-me levar e apreciar a viagem... (Um dia destes mostro um bocadinho...)

10 julho 2018

Ser feliz

Nota prévia: não baixou em mim o Gustavo Santos, nem nenhum daqueles vendedores do óbvio que vão dizer-vos o que vocês estão fartos de saber cobrando uma exorbitância por isso (um cêntimo que seja, quando pago pelo óbvio, é uma fortuna). O que se segue é uma constatação em sede própria, sobre a minha vida, não serve de exemplo, não serve de manual de instruções. Se servir de inspiração, óptimo - mas é grátis, obviamente.

Ando há uns tempos com uma sensação muito, muito boa. Sinto que a minha vida está no sítio certo. Não me lembro de me ter sentido assim (tão assim, com tanta certeza, se quiserem) em altura nenhuma. Havia sempre qualquer coisa que faltava, que não estava no sítio certo, que empandeirava a engrenagem toda. Agora não. Agora está tudo exactamente como tem de estar.

Comentava há dias com a minha Lia que estou realmente feliz. Ser feliz é isto. Tem de ser isto. Está tudo bem. Tudo certo. Tudo como faz sentido. A minha vida foi chegando aos sítios onde tinha de estar.

Tenho uns filhos que, longe da perfeição, são uns porreiros. Os meus pais estão bem. Amo o meu trabalho, adoro a empresa, adoro a equipa. Tenho a Lia a 100m de mim. A mudança para o ginásio novo foi uma das melhores decisões que tomei nos últimos tempos. As aulas de dança são o meu paraíso semanal.

Tenho a vida que quero. Estou tranquila. Tenho os meus amigos por perto, consigo estar com eles, sair, fazer programas e apanhar ar. Dançar é uma terapia brutal - e a minha cara, mas isto eu já sabia. E queria fazer aulas há anos, mas houve sempre qualquer coisa a impedir isso. Agora sinto que fui parar ao sítio certo.

É como se, de repente, tudo fizesse sentido. Sei que isto parte tudo do facto de me sentir muito bem comigo, neste momento. Consigo olhar para mim sem a lente negra com que olhava. Claro que não tenho uma vida perfeita (ainda não enriqueci e só isso já é uma coisa, vá, chata). Claro que há muito por onde crescer. Mas, por agora, está óptimo.

E esta sensação que é acordar de sorriso na cara, a saber que sou exactamente quem quero ser, que faço o que quero, que sou feliz nestes momentos simples, que não preciso de mais do que isto... Isto não tem preço.

Não me perguntem como cheguei aqui. Não sei. Fui andando. A vida foi-me mostrando caminhos, fui fazendo escolhas e, tudo junto, o resultado é este. Sei que sou feliz porque, se pudesse, não mudava nada na minha vida, neste momento. Não falta nada, não há nada a mais. Está bom, não mexe senão estraga. 

05 julho 2018

One Red Crow #8


Chamámos casa a buracos imundos, vidros partidos, paredes negras de humidade, o cheiro a bafio e a vidas que correram mal, o chão manchado, as portas desfeitas a pontapé, noites demasiado longas, fantasmas demasiado vivos. Foi a nossa casa enquanto vagueámos, absolutamente desprovidos de rumo, a única certeza no ar que nos entrava a espaços para os pulmões, a pele macilenta e prova viva de todas as ilusões que acreditávamos serem reais mas que se desfaziam nas ressacas. Apostámos as fichas no número errado, o único cavalo que venceu circulou nas nossas veias e depois fomos apenas a miragem do que poderíamos ter sido se não nos tivéssemos perdido, se não nos tivéssemos entregado, se não nos tivéssemos matado em busca do prazer.

| Fotografia de João Corvo |

03 julho 2018

One Red Crow #7


E então as vozes e o poder, e eu no canto mais escuro, no beco mais sombrio, no passado mais distante, o fantasma e a euforia, os comprimidos engolidos em barda, as lágrimas já gastas, os cortes nos pulsos e nas pernas e no peito, os cabelos desalinhados e sujos, os dias intermináveis, o silêncio, o vazio e o silêncio, depois as vozes e os gritos, eu que não me reconheço nos espelhos que se transformam em vidros cortados manchados de sangue, o branco dos lençóis já encardido, a fúria e as angústias, o desespero, a raiva e o passado, o rosto encovado, a pele baça, os ossos que perfuram a pele fina e o sol que transforma em sombras cada esquina onde pousa e as vozes que gritam, que ordenam, que matam cá dentro, as vozes que me roubaram de mim, que me deixaram sem fundo, que me enterraram num deserto árido e estéril, as vozes que morrem dentro do meu peito, as vozes que me matam todos os dias até que me matem mais uma vez.

| Fotografia de João Corvo |

Frustrações

Fui de férias para o Algarve pela última vez em 2008. Dez anos sem fazer férias fora de casa - descontando a terra do ex-marido e a terra dos meus pais, que era o mesmo que estar em casa. Foi a crise. Foi não ter dinheiro. Foi voltar a ter dinheiro e tentar equilibrar finanças da altura em que não havia dinheiro. Foi o divórcio. Não ter dinheiro novamente. Não conseguir poupar. Contas a zeros todos os meses. Andar sempre com a corda na garganta. Não vivo à grande, nem nada que se pareça. Mas vou ter de me deixar de extras durante um ano, para ver o que acontece. Consegui fazer isto antes. Vivi tipo monja enclausurada. Vou ter de o fazer novamente, para ver se me reequilibro e se deixo de sentir que ando sempre no vermelho.

A única coisa que vou manter é o ginásio, a bem da minha sanidade mental.

Cortes sem apelo nem agravo em roupa, sapatos e afins; saídas; jantares e almoços fora; voltas de carro desnecessárias. Vou obrigar-me a pôr dinheiro de lado todos os meses (garantindo que os meus filhos não são prejudicados em nada e que há sempre latas de atum para mim). Vou obrigar-me a dizer que não a tudo. Vou obrigar-me a cortar em tudo e mais alguma coisa.

No ano que vem quero pegar nos miúdos e ir pelo menos 3 ou 4 dias para fora daqui. Estou a enlouquecer com isto, sempre igual, não sinto nunca que consigo desligar, nunca descanso, nunca respiro. E preciso. Preciso mesmo.

Um ano a apertar. Começa hoje. a ver se me lembro de depois contar como correu.

(E se houver truques extra, avisem. É tudo bem-vindo!)

29 junho 2018

Lili

Em 2017, andei numa espécie de montanha-russa emocional. Passava dos meses feliz da vida... a coisa mudava, andava um mês infeliz, a coisa voltava a ficar bem, mais dois meses de sorriso na cara e... bom, já perceberam.

Numa das alturas em que estava no chão, a minha Lígia agarrou-me. Somos Lili e Lélé, palhaças na vida uma da outra. Gosto dela. E tenho uma dívida de gratidão enorme para com ela.

Então, andava eu a chorar pelos cantos quando ela, perspicaz como poucas pessoas seriam, arranjou maneira de me animar. Ora, é raro estarmos juntas, ela andava a correr na vida dela e não havia muita maneira de a coisa se dar. Do que é que aquela alminha se lembrou? Todos os dias de manhã (ou quando calhava), tínhamos de mandar à outra um vídeo com um filtro parvo do Snapchat. Todos os dias eu me ria com aquilo. Durou uns 3 ou 4 meses. Ela foi viver para fora, a minha vida acabou por se endireitar e pronto... sobrevivemos.

Ontem à noite lembrei-me. Achei que ainda não lhe tinha agradecido o suficiente. Já não tenho Snapchat, mas o Messenger do Facebook adoptou a ideia... mandei um vídeo e ali ficámos um bocadinho, vídeo vai, vídeo vem, as duas a rir feitas parvas.

Às vezes, basta um gesto pequenino para fazer toda a diferença. Amizade e cuidado também é isto. Não é preciso muito. Ela teve a generosidade de perceber que eu, que até nem era assim tão próxima dela, estava a passar um mau bocado e tentou ajudar como podia. Ajudou. E eu sou grata para sempre.

Minha Lili, de coração: obrigada!!

28 junho 2018

One Red Crow #6


A mão que te afaga o cabelo enquanto dormes, a tua ausência e o arrepio que se instala quando te vejo, despojada e nua, enrolada no lençol, quando te vejo serena apesar das mágoas, quando nos seguramos e amparamos tudo o que não conseguimos dizer, a mão que te percorre as costas e que te fecha os olhos, que te desenha os lábios e as sobrancelhas, que te prende o ombro num abraço imenso, que permanece vazia porque em ti a morte foi uma vertigem demasiado rápida, demasiado cega, demasiado voraz e a minha mão pousada no vazio onde antes deitavas o corpo, onde tantas vezes fizemos amor.

| Fotografia de João Corvo |

26 junho 2018

15

15 anos de blogosfera e isto para mim continua a não ser mais do que um diário virtual, onde guardo memórias que de outra forma teria perdido.

15 anos disto e continua a fazer sentido andar por cá.

(E aquele agradecimento gigante a quem, durante estes 15 anos, ajudou a dar sentido a tudo isto: vocês, que me lêem e que continuam desse lado. Obrigada!)

Pride

O Isaac nasceu "Maria". Mentira. O Isaac nasceu Isaac mas ninguém sabia e, facto visível oblige, foi "Maria" durante uns anos.

Quando conheci o Isaac, ele ainda era "Maria" - e eu sempre soube que ele era Isaac, apesar da "Maria". Não havia nada que não o mostrasse na sua postura, na sua forma de estar, na sua atitude. Fui das primeiras pessoas a saber que o Isaac ia passar a ser efectivamente Isaac e que a "Maria" tinha os dias contados. Aquele miúdo de 17 ou 18 anos tinha uma clareza de pensamento atroz. Uma maturidade, uma força que era impossível não notar. Começou o processo. Sei que foi duro, sei que não foi fácil, sei que ainda não é fácil, mas o Isaac é aquela pessoa que leva tudo à frente.

O Isaac tem ao seu lado as pessoas certas: uns pais que são do catano (são mesmo, ele e ela, cada um à sua maneira, dois pilares que não vergam e que, mesmo quando não concordam com tudo, fazem o que têm a fazer que é apoiar incondicionalmente o filho), uma namorada que é uma mulher do caraças (porque só uma mulher do caraças vive assim, com a maior das naturalidades uma coisa que nem toda a gente entende, que nem toda a gente aceita, mas ela está-se nas tintas para isso tudo que a vida é deles e isso é que importa), uma avó que vive no presente e não no passado e que é uma miúda espectacular (e sim, o termo "miúda" foi propositado!), amigos que são a rede de que toda a gente precisa.

O Isaac resolveu que queria ser para os outros aquilo que não teve quando precisou: um exemplo, um caso de sucesso, uma voz activa que mostra o caminho. Foi por isso que nasceu o documentário sobre o processo de transição do Isaac. Foi por isso que o Isaac assumiu o papel de cara de uma realidade que se quer normalizada e aceite, como todas as realidades.

Um dia, eu tive de explicar aos meus filhos por que é que a "Maria" agora se chamava Isaac. Eles ainda se lembram da "Maria", mas nunca lhe trocaram o nome. É o Isaac. Para mim, a mesma coisa: desde o dia em que soube que ele seria Isaac, mudei o nome com que tinha gravado o número dele no telemóvel e acho que nunca me enganei.

O Isaac é a face do Orgulho. E eu tenho um orgulho do caraças neste miúdo que faz o que for preciso para ser quem é, que não se dobra perante o que os outros possam pensar, que está a fazer da sua vida a vida que sempre quis viver. Tenho a certeza absoluta de que o nome dele e a obra dele perdurarão muito para além dele. Tenho a certeza de que a comunidade transexual portuguesa vai sempre saber a sorte que tem por ter tido um Isaac a abrir caminho e cabeças. Orgulho em ti, miúdo. Muito orgulho em ti.

O documentário está aqui. Invistam uma hora da vossa vida nisto. Vale TUDO a pena.