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21 novembro 2016

Teimosias

É comum achar-se que ser-se teimoso é um defeito. Discordo.

Em primeiro lugar, ninguém é teimoso sozinho. Ninguém ateima sozinho. São precisos dois. A partir daí, o que existe são duas pessoas com perspectivas, opiniões ou convicções diferentes, cada uma a tentar fazer valer o seu ponto de vista. Isto é ser teimoso? Para mim, é defender aquilo em que se acredita. Quando se ateima por desporto, só naquela de chatear, aí sim, estamos a falar de teimosia pura. De resto, são só pessoas a defender os seus ideais.

Posto isto, bom dia! 

14 novembro 2016

Generation gap

Ir à biblioteca, procurar bibliografia sobre determinado assunto, requisitar os livros, percorrer os índices à procura do que interessava, fotocopiar bocados de texto, fotocopiar imagens, recortar imagens, comprar uma cartolina, fazer linhas a lápis, muito ao de leve, para conseguirmos apagar depois, escrever o título a marcador grosso, colar as imagens recortadas, escrever blocos de texto ao lado, enrolar a cartolina sem vincar, prender com um elástico e levar para as aulas, para apresentar à turma. Tempo despendido: duas tardes.

Pedir o computador ou o tablet emprestado ao pai, abrir o Google, pesquisar o que faz falta, navegar na Wikipedia, ver imagens, tomar apontamentos num caderno, chegar a casa da mãe no domingo à hora de jantar, pedir o computador à mãe, voltar ao Google, abrir a drive para criar uma apresentação (aka, powerpoint), criar slides, passar os apontamentos para ali, juntar fotos sacadas do Google, ter aquilo mais ou menos direitinho, sem grande esforço (a mãe tratou de escrever, mas só porque a filha ainda não se orienta a pôr sinais de pontuação e acentos), fazer download como apresentação, passar para uma pen (e a dificuldade que foi encontrar uma pen em casa??) e trabalho pronto para levar para a escola. Tempo despendido: umas três ou quatro horas.

(E, de caminho, a mãe voltou a mergulha na História de Portugal e teve de explicar o que são "problemas sexuais" à criança, que resolveu que queria fazer o trabalho sobre D. Afonso VI, que calha ter tido umas chatices ali ao nível da potência sexual e sim, isto entrou no trabalho dela, oito anos, quase nove, quarto ano do ensino básico.)

Mas amei vê-la empenhada no trabalho. Quis vir para casa antes de jantar para termos tempo de fazer tudo nas calmas. Fizemos antes de jantar. Claro que depois a vantagem temporal que tínhamos ganho se desvaneceu no "não gosto desta comida, não tens mais nada? Está bem, eu como sopa, mas fazes um ovo estrelado a seguir". Está feito. O primeiro de muitos, suponho...

10 novembro 2016

Detalhes

Um olhar que fala.
Um beijo na testa.
A mão que procura a tua, sem que estejas à espera.
Uma pergunta sobre o teu dia.
Uma partilha de uma história antiga.
Contar aquilo que acabou de acontecer.
Um convite inesperado.
Um bilhete no vidro do carro.
Uma folha seca, apanhada no chão.
Um abraço apertado, só porque sim.
Uma lembrança de que não estavas à espera.
Uma pergunta sobre a tua vida.
Uma brincadeira que se torna dos dois.
Um carinho disfarçado de outra coisa qualquer.
Aquela música que te diz tudo o que precisas de saber.
Um "bom dia meu amor".
Um "descansa mais um bocado, deixa-te estar, dorme."
Um "já comeste?"
Um "quero que cuides de ti".
Um "eu ajudo-te em tudo o que precisares".
Um ciúme que nem sempre se consegue não mostrar.
Um elogio que não esperavas receber.
Tudo o que não é dito.
Tudo o que é feito.
O que se mostra sem palavras.
O que se diz quando não é preciso falar.

07 novembro 2016

Quantos dias cabem num dia?

Depois de uma semana onde tivemos a visita (não convidada!) de uma gastroenterite lá em casa, o sábado acabou connosco (eu e ela) nas urgências, depois de um episódio de vómito em jacto para o chão da cozinha (e para a mesa e para os meus pés). Diagnóstico já conhecido, mas ainda assim achei melhor ir ver se havia mais alguma coisa a fazer. Não havia. Entretanto passou.

Domingo foi de manhã na cama. Almoço tardio, tudo nas calmas. Quiseram fazer bolachas de gengibre. Fizemos. Recusaram as bolachas porque estavam picantes (os colegas de trabalho agradecem...). Sessão de cinema caseiro, a explorar o Netflix. Eu não consigo estar a ver TV sem mexer as mãos, portanto pus-me a fazer uma gola para mim. A miúda pediu para a ensinar a tricotar. Ensinei. Enganou-se. Quis desistir. Não insisti. Passado um bocado, pediu para recomeçar. Voltei a explicar. Tentou, não desistiu. "Mãe, isto até é giro para quando não tenho nada que fazer...". Fizemos (eu ajudei) uma mantinha para um boneco dela. Ficou toda contente porque o boneco ia dormir quentinho. Jantámos aquele clássico de domingo à noite: sopa com cenas. Ao domingo é raríssimo fazer jantar a sério. Uma sopa, sandes, iogurtes, fruta e siga. Foi o caso. Deitei-os relativamente cedo e voltei ao sofá. Fiz mais uma manta para o boneco dela - para acabar aquele bocado de lã e para ver se ainda sabia fazer torcidos - sabia. Hoje dei-lha. Ficou feliz por o boneco agora ter opções. Deitei-me tarde. Custei a adormecer. Acordei às 6h56, com o despertador a tocar uma das minhas músicas. Depois, a melhor mensagem de bom dia de sempre. Isso: de sempre.

Que comece a semana. Que comecem os sorrisos.

03 novembro 2016

Estes dias

Guardo muito mais do que partilho. Mantenho para mim aquilo que me faz mais feliz, apesar de, por vezes, me apetecer deixar transparecer. Escolho não o fazer. Uma defesa, acho. Quem me conhece sabe que estou bem, apesar das dificuldades dos últimos tempos. Quem me quer bem sabe que estou feliz e sabe que isso me basta. Quem me vê de fora talvez não entenda. Nesta fase, isso não me preocupa. Não quero dar mais de mim agora. Dou-me a quem está comigo nos sorrisos e quando as coisas resvalam. Dou-me a quem faz verdadeiramente parte de mim e da minha vida. Depois há a plateia. E, por enquanto, não há espetáculo.

Os dias voam. O cansaço tem sido mais que muito. Não é fácil ser só eu para dois miúdos pequenos que estão numa idade que faz com que passem a vida à briga. Não é fácil ser só eu a polícia má, que manda fazer, arrumar, lavar, vestir, tomar banho, comer, despachar. Todos os dias. Sempre. Não quero que o cansaço me faça ceder àquilo em que não acredito. Não mudaram as regras só porque mudaram os jogadores. Tudo igual. Eu mais cansada. Eu a tentar não me afundar. Eu a remar com todas as forças. E vou conseguir. Não há lastro que me arraste - não é de hoje, sempre fui assim.

Os dias voam. Não consigo escrever, não consigo descomprimir. Os meus bocadinhos são os amanheceres lentos, entre músicas e um sorriso, as viagens de comboio e aqueles instantes antes de adormecer, de novo com música e sorrisos. Valem-me os fins-de-semana. Nos que estou com eles, consigo que a coisa aligeire e que estejamos todos sintonizados: é tempo para aproveitar. Há cinema, passeios e pequenas rotinas que nos sabem bem. Nos fins-de-semana em que não os tenho permito-me respirar. E é aí que retempero, que me refaço e que renasço. Como se viesse à tona respirar. Não me entendam mal: todo o tempo com eles é bom. Sempre. Mas ser só eu cansa. E quem não passa por isto simplesmente não sabe. Mas aposto que todas as mães solteiras (independentemente do número de filhos que tenham) sabem exactamente do que falo. E quem não passa por isto tende a achar que somos ingratas, que não queremos estar com os miúdos, que preferimos ter tempo para nós. E não é nada disso. É mesmo só o facto de estar tudo nas nossas costas. E eu até entendo que quem nunca passou por isto não perceba e ache só que podíamos ser muito melhores do que estamos a ser. Calha que, aposto, estamos todas a dar o nosso melhor. E não é para calar as tais vozes que acham que sabem de uma coisa que nunca viveram. É mesmo porque eles merecem o nosso melhor, mesmo que à nossa volta se esforcem muito para nos ver no chão.

Os dias voam. Mudou tudo. E eu... bom, eu voltei a ser eu. Voltei a sentir um coração que bate. Voltei a sorrir. Voltei a saber quem sou. Mudou tudo. E eu regressei a mim.

27 outubro 2016

Mãe

Hoje de manhã, com os miúdos a caminho da escola, recebi um telefonema da minha mãe. Queria saber se eu estava perto e se queria beber um café com ela. Estava e claro que sim, queria!

Deixei os miúdos, estacionei e bebemos um café enquanto pusemos a conversa em dia. Fui trabalhar, ela foi tratar do almoço e a vida seguiu.

Entretanto parei para pensar. E lembrei-me de Setembro de 2014, ela deitada na cama do hospital, sem se saber muito bem qual seria o desfecho daquilo tudo, sem se saber se ela voltaria para casa ou o que aconteceria a seguir. E agradeci. É uma bênção do catano, uma sorte do caraças continuar a poder receber telefonemas destes (que são agora raríssimos, porque a vida é assim) e continuar a poder beber cafés com a senhora dona mãe.

20 outubro 2016

Quando as fortalezas tremem

Tu é que erraste. Foste tu que sempre quiseste mostrar um lado forte, inabalável, como uma rocha que esteve sempre ali, que aguenta tudo, todos os embates, todos os problemas, todos os maus momentos. Estás ali e nada te afecta, superas tudo, és capaz de tudo, não precisas de nada a não ser de ti mesma e de respirar de vez em quando.

Pois.

Só que um dia precisas de colo - sempre precisaste, na verdade, mas só muito raramente permitiste que alguém se aproximasse o suficiente para perceber que sim, que afinal o rochedo também treme e também vacila e afinal se calhar aquilo de aguentar tudo não é bem assim. E agora? Agora estás sozinha. Porque, como nunca precisaste de nada nem de ninguém, nunca deixaste que ninguém se aproximasse o suficiente para ficar. E falta-te o ar. E dás por ti a implorar mimo e colo àquela pessoa que tem estado ali ao teu lado e a quem até abriste a porta, àquela pessoa de quem não escondeste nada, a quem te mostraste com todas as fragilidades, todos os medos, todas as angústias e todas as incertezas.

Só que o mundo espera que sejas um rochedo e não uma princesa carente. E o mundo não sabe lidar com a tua fragilidade. Portanto, e apesar de te mostrares vulnerável e sem capas, o mundo continua a tratar-te como se fosses o tal rochedo que não precisa de nada.

Culpa tua, que quiseste ser super-heroína em vez de assumires que és humana - frágil, quebrável - e que precisas de colo, de mimo... como toda a gente. Porque sim, aguentas-te sozinha, sobrevives a tudo, dás a volta por cima das situações mais inacreditáveis, mas às vezes, só às vezes, precisas de saber que há quem goste de ti, precisas de sentir que há quem abdique de dez minutos de sono para te dar aquele mimo que te faz falta e que te alimenta para o resto da semana, precisas de saber que importas, que há quem goste de te ter por perto.

[Do lado de lá: se têm um rochedo destes por perto, lembrem-se de que aquilo é só uma capa e que lá por dentro há uma pessoa que tem um coração a bater. Não esperem pelo momento em que o rochedo trema e vos implore carinho. Cheguem-se à frente e mostrem que estão lá, que gostam, que amam, que se importam. Porque quando os rochedos batem no fundo, o caminho de volta à superfície não se faz sem estragos. E depois pode ser tarde.]

03 outubro 2016

O que vem depois do fim

Acontece-me sempre isto: acabo um livro muito bom e demoro imenso tempo a encontrar o próximo livro que vou ler. Acabou de me acontecer. Li os sete livros e meio da série Robert Hunter, do Chris Carter. Aquilo é fabuloso. Assim muito melhor do que qualquer coisa que eu tenha lido - taco a taco com a Trilogia Victoria Bergman, da Dupla Erik Axl-Sund, que não me sai do coração tão cedo. Mas o senhor Carter tem requintes de malvadez (e eu não quero levantar boatos mas, FBI, se me estás a ler, se calhar era boa ideia, não sei, ir ver onde é que andava o senhor Carter nas datas em que foram cometidos os crimes mais retorcidos da história e que ainda estão por resolver... Não sei, é só uma ideia, vá...). Aquilo começa bem... e vai por aí acima, sempre a escalar. Quando achamos que não pode ser pior do que aquilo (e por "pior" entendam "melhor e ainda mais retorcido"), vem ele e tau, toma lá morangos. Um mimo.

Vocês já me conhecem. Eu não aconselho nada que seja menos do que fabuloso. Posto isto, leiam esta porra. Só há dois traduzidos cá, vai demorar a sair a série completa (se é que alguma vez vai sair...), mas se se entendem a ler em inglês - e aviso já que não é preciso ter-se sido amigo íntimo do Shakespeare para entender aquilo na boa - tratem de ler isto. Se gostam de gente morta, isto é. Muito morta, na verdade. Sentido puramente ficcional e literário, obviamente. FBI, PJ, escusam de vir cá para o meu lado, que eu só gosto de ler sobre isto. Não é nada que tencione praticar, ok?

Bom, dizia eu que depois de livros deste calibre, que me deixam sem fôlego, é mesmo muito difícil arranjar alguma coisa igualmente boa para ler. Normalmente o que faço nestas alturas é mudar de género literário. Estava a ler policial? Troca para romance contemporâneo. Acontece que esta transição nunca é pacífica e envolve sempre dois ou três livros abertos, que acabam com 20 ou 30 páginas lidas - o suficiente para perceber que não é altura certa para ler aquilo e que aquilo não me vai encher as medidas.

Foi o que me aconteceu agora. E acho que já encontrei a próxima vítima: "A Última Noite em Tremore Beach", Mikel Santiago. Depois dou notícias. Era isto. Obrigada e boa semana!

28 setembro 2016

Às vezes

Às vezes só precisas que te peguem na mão. Silêncio. Às vezes basta um sorriso - aquele sorriso, involuntário, sincero, transparente, que diz mais do que qualquer frase. Às vezes basta um gesto, pode ser um link para uma música, uma foto acabada de tirar, uma piadinha qualquer, um emoticon giro, um clip de voz. Às vezes, quase sempre, basta sentir que não somos só nós, que não estamos sozinhos, que, venha o que vier, vamos vendo e vivendo e depois logo se vê. E um abraço no momento certo, uma festa no cabelo, um beijo na testa. Às vezes, basta deixar que o tempo se encarregue de alinhar tudo. E respirar tranquilamente nos entretantos.

20 setembro 2016

Jolie, Pitt e quando nem tudo o que parece é

Meio mundo em negação com o divórcio da Angelina Jolie e do Brad Pitt. Ai, não pode... pareciam tão felizes... nasceram um para o outro... impossível...

Meus amigos, só quem vive no convento é que sabe o que lá vai dentro. Uma coisa é o que os casais aparentam perante quem os vê (e isto pode nem sequer depender deles, mas sim dos olhos de quem vê); outra, bem diferente, é o que cada casal realmente vive dentro de portas. Portanto, os comentários do tipo "nunca imaginei... quem diria... impossível..." e afins são só... desnecessários, vá.