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20 abril 2017

[Sem título]

Lembro-me de ter tido uma fase em que pensava que um dia que tivesse uma filha havia de chamar-lhe Camila. Depois Jéssica. Depois Mariana. Queria ser diferente, fugir da manada, demarcar-me. Nunca fui de grupos. Fui sempre outsider, mesmo quando convivia com pessoas com frequência. Nunca me amarrei. Acho que é isso. Mas depois, o amor. Houve alturas em que fugi. Agora não. Não sei porquê. Estava mais confortável quando era só eu e saía da casca de vez em quando, mas não me amarrava e não sentia falta de nada. Porque eu estava sempre lá. Era só comigo que podia contar e eu não me falharia nunca. Depois percebi que não sou feliz sozinha e deixei o amor entrar.

Eu explico: sempre fui solitária. Sempre vivi sozinha, no meu mundo, eu e os meus livros, eu e as minhas séries, eu e os meus filmes, eu e os meus silêncios. Sei que a única pessoa que garantidamente vai estar comigo a vida toda sou eu. Mas aprendi a deixar o amor entrar. O problema é que o amor entra e às vezes sai. E fica o vazio. E aquela ausência, aquela cadeira vazia, não se ocupa só porque sim. Nem sou eu que a ocupo. Então fica ali, com a sombra do amor que foi embora ainda sentada, a ocupar aquele lugar cativo, a fazer-se sentir.

Camila. Jéssica. Mariana.

Não foi Camila porque, quando engravidei, já não gostava assim tanto do nome. Não me imaginava mãe de uma Camila. Não foi Jéssica porque, quando engravidei, já não tinha 13 anos e já tinha percebido a linha que separa a mania de ser diferente do resto. Não foi Mariana porque não.

Continuo a não ser uma pessoa de grupos. Sou pessoa de pessoas. De pouquíssimas pessoas. Não há muita gente a passar a barreira que separa a minha esfera privada do resto. Conheço meio mundo. Muito pouca gente entra no meu mundo. Não sei ser diferente, nem sei se quereria ser diferente.

E sei que tenho sentado na tal cadeira o amor que acolhi, que deixei entrar, que reguei e que amo por inteiro. Até que se desvaneça.

(Um post sobre três assuntos completamente distintos que, de alguma maneira, se misturaram assim.) 

10 abril 2017

38

Pergunta recorrente por estes dias: "mas tu tens mesmo 38 anos?"...

Tenho. A minha mãe diz que sim. O meu cartão de cidadão também. As minhas memórias também. Portanto, sim, tenho mesmo 38 anos.

Mas...

... há dias em que me sinto com 6 anos: completamente inocente, sem saber nada sobre nada, o mundo é um lugar novo com tudo para conhecer...
... noutros tenho 16, já sei mais ou menos quem sou, não tenho grandes preocupações, adoro ser irreverente e dançar no meio da rua, se me apetecer...
... noutros tenho 22, já escolhi o meu caminho mas estou a começar a andar, ainda não sei de todos os tombos que vou dar, ainda acredito em tanta coisa...
... noutros dias tenho mesmo 38 anos, dois filhos, o mundo a fazer-me peso nas costas, esta sou eu, cheia de duvidas, meia dúzia de cabelos brancos, os anos a converterem-se em conhecimento mas ainda tanto por descobrir...
... depois há dias em que me sinto com uns 60 anos, a vida já toda para trás, os meus filhos na vida deles, eu sozinha na minha, eu e os gatos, eu e os livros, eu e o silêncio, o corpo a dar de si, a pele ressequida, a história a ser contada, esta sou eu, aquilo foi o que eu vivi...
... e noutros sinto-me com 90 anos, o mundo já acabado, não ando cá a fazer nada, fui feliz quando tive de ser, a vida passou por mim como uma onda que me engolisse, vim à tona, tornei a afundar e agora já só sou um peso morto, não tenho mais nada a fazer aqui, já não tenho nada por viver...

Mas no geral sim, tenho 38 anos, esforço-me por ter muito menos do que isso, não que me afecte a idade que tenho (porque, na verdade, sinto-me muito melhor agora do que quando tinha 26 ou 27), mas porque quero espremer ao máximo o meu tempo, absorver tudo, viver como puder e ser feliz, se a vida mo permitir. Hoje, por exemplo, tenho 20 anos e o mundo é demasiado pequeno para tudo o que quero fazer.

Uma década

Fez ontem dez anos que, num dia de muito calor, guardei um teste de gravidez no bolso de trás das calças e fui à minha vida. Minutos depois, quando aquilo me começou a incomodar, lá me lembrei de espreitar o resultado. E o resultado é uma morenaça de cabelo comprido que adora arrancar dentes porque isso significa mais uma moeda. O resultado é uma miúda que adora ler, que adora ser igual a mim mas que tenta demarcar-se para não ficar à sombra (e eu acho muito bem). O resultado é uma pessoa que me desafia para lá dos limites, que embirra como o irmão só porque ele existe (os ciúmes... poderosa arma letal, caramba!). O resultado é a miúda que, não sendo a miúda mais bonita do mundo, é a minha miúda mais bonita do mundo. A miúda que, tenha a idade e o tamanho que tiver, vai caber sempre no meu colo. A miúda que, faça o que fizer, vai ser sempre o meu amor maior.

Dez anos de maternidade. Dez anos de uma montanha-russa potente. Dez anos de muitas dúvidas, de poucas certezas e de muita aprendizagem. E ainda não sei nada sobre isto de ser mãe.

Olhando para trás, fazia tudo novamente. Tudo. Neste timing, desta maneira. Porque ganhei a melhor prenda de todas: a minha Marilú.

07 abril 2017

Sobre a minha filha...

Houston, we have a problem...

Ando aqui num dilema que me apetece partilhar convosco.
A minha filha. A minha filha é uma cópia fiel de sua mãe: feitio difícil (estou a ser simpática, ok?), muitas inseguranças e um corpo igual, que vem exactamente do mesmo sítio de onde veio o meu. Aquela miúda é das que se mexe o mínimo indispensável. Eu era igual: odiava educação física e só comecei a gostar de praticar desporto quando saí da escola e o desporto deixou de ser obrigatório... (e quando passei a pagar para isso, vá...). Adora tudo o que seja doce: chocolates, gomas, bolos, cereais... ela come. Devora, é o termo correcto. Em casa limito-lhe muito o acesso, mas eu não estou sempre com ela e não controlo a 100%. Resultado disto: uma miúda que, com 9 anos, veste roupa para 12. Ok, é alta - sempre foi percentil 90 de altura, é um facto. Mas também está a ficar redondinha. Rabiosque saliente, uma barriguinha ali a aparecer, a cara redonda, toda ela grande. Não é gorda, está longe de ser obesa. Mas eu sei exactamente o que ela vai passar quando tomar consciência de que aquilo não é bom para ela. E sei porque passei exactamente pelo mesmo. Foram anos e anos e anos a não gostar do que via ao espelho. Foram anos e anos e anos a tentar mudar sem conseguir. Foram muitas angústias e ainda mais inseguranças. Foi o precisar de validação externa que é coisa de que ainda não me livrei a 100% (e é uma imbecilidade, eu sei). Ela para lá caminha.

E eu ando aqui entre o querer que ela faça um caminho diferente, mais saudável e mais feliz, e o não lhe querer meter macaquinhos no sótão acerca do corpo dela. É querer que ela se aceite tal como é, mas ao mesmo tempo não querer que ela passe pelo que eu passei. É querer que ela cresça feliz, sem as tais angústias e não querer que esteja sempre a pôr-se em causa e a achar que não chega.

Como é que se gere isto? Aquilo que posso fazer, faço: evito que coma porcarias, insisto em lanches saudáveis, prefiro tê-la zangada comigo porque não a deixei comer um chocolate do que deixar que o coma e saber o que isso lhe vai fazer. Quero que ela saiba que é linda seja de que maneira for, mas não quero que tenha problemas de saúde. Quero que se aceite, mas não quero que se desleixe - não por uma questão estética mas por uma questão de saúde.

É difícil este equilíbrio, não é?

06 abril 2017

Largar

Às vezes, simplesmente, não é para ser. E não entendes. Porque deste tudo. Não usaste máscaras. Estiveste por inteiro. Mudaste prioridades porque o amor há-de ser sempre a maior delas todas. Mas isso não chega. Depois vem a guerra. Um mal entendido qualquer e tu, que não falhaste em lado nenhum, questionas tudo. E aterras. Afinal és tu que, mais uma vez, não foste suficiente. E cais. E pensas que não vales a pena. Que nunca ninguém reconhecerá valor em ti porque simplesmente não o tens. Depois paras, voltas atrás, revês tudo e percebes que não falhaste. Efectivamente deste tudo. Foste tu. Por inteiro. Mas simplesmente não era para ser. E percebes que não adianta lutar. Não podes correr atrás do que não te quer. Esforço imbecil. Não podes obrigar ninguém a querer-te. Portanto respiras.

Paras e respiras. E percebes que precisas de ti. Precisas de te reencontrar. Precisas de recuperar, aos poucos, todo o amor que deste e que te saiu do coração. Percebes que vais demorar muito a reconstruir aquilo que és porque a queda foi violenta. Percebes que o tempo vai ser mesmo o teu maior aliado. Um dia vais acabar por acordar com um sabor doce na boca - é ao que sabem as memórias boas. Até lá, acordas mil vezes durante a noite. Porque, por muito que saibas isto tudo, o teu coração sabe exactamente onde queria estar. E é lá que ele continua. E tu aí, a tentar dormir com metade de ti fora de ti, deitada noutra cama onde nem sequer dão pela tua presença. Porque duvidaram daquilo que foi sempre a tua maior certeza. Porque duvidaram de ti. Do que deste. Do que entregaste. Do que quiseste. Do que foste. E tu quase, quase duvidaste também. Mas sabes. Estiveste lá. Por inteiro. Como não estavas em lado nenhum há muito, muito tempo. Estiveste. Foste. Amaste. E é por isso que não amargas. Porque o amor que ainda existe - que existirá sempre, tome a forma que tomar - não te permite ser mais ácida do que doce. Vais continuar a ser tu. Nunca serás perfeita. Mas tens a certeza de que cumpriste tudo o que prometeste. De que não falhaste. De que não vacilaste. Mesmo assim não foi suficiente. É porque não era para ser. Um dia entenderás... 

03 abril 2017

E sobre o livro...

Acabei de o escrever dia 4 de Fevereiro. Não lhe mexi muito mais. Tive de parar. Entretanto a vida aconteceu e outras coisas exigiram a minha atenção e o meu esforço. Voltei agora. Estará revisto e corrigido até o final de Abril. Depois ganhará asas e voará. Deixará de depender de mim.

Em Maio (ou antes... assim que terminar a revisão deste), pego no próximo, que comecei algures no Verão passado. Sei exactamente o que quero fazer dele mas, mais uma vez, sei que aquilo ganhará vida própria e a dada altura é provável que nada do que imaginei se concretize. É: há alturas em que as histórias se escrevem sozinhas.

Não sei quanto tempo demorarei a escrever este. Seguramente não cinco anos, como o primeiro. Não posso. Nem quero. Porque o terceiro também já está começado e quero muito, muito chegar a ele...

Uma coisa de cada vez. Sei exactamente para onde quero ir. Passo a passo, lá chegarei... E vai ser bom. Mesmo que só eu os leia. Mesmo que nunca saiam de debaixo das minhas asas. Mesmo que não sejam suficientemente bons para serem editados. Deixar que estas duas histórias novas saiam de mim vai ser coisa para me fazer feliz. E só por isso já vale (tanto!) a pena escrever...

Quem és tu, miúda?

Várias vezes o mesmo comentário: pareces uma miúda, tens que idade, mesmo?, impossível teres trinta e oito.

Há dias em que me sinto com noventa. Como se já tivesse vivido tudo e não houvesse mais nada a acrescentar. São raros estes dias, e ainda bem.

Na maioria dos dias, tenho dezasseis anos. Acredito em amores como nos filmes (mas depois duvido de tudo e acho que tudo tem prazo de validade), oiço a mesma música que ouvem os filhos dos meus amigos (e sou incapaz de conviver com a música que ouvem os pais, os tais que são meus amigos e, portanto, mais ou menos da minha idade), sinto-me muito confortável de jeans e ténis (embora me saiba bem o empoderamento que um par de saltos altos me dá de vez em quando), sou capaz de começar a dançar no meio da rua e não me levo nada a sério. Sei que tenho os dias contados e, por isso, aproveito-os ao máximo. Às vezes quase me esqueço disto e deixo-me definhar um bocadinho, mas depois relembro e sigo.

Se me perguntassem, também não diria que tenho trinta e oito anos. Menos dez, talvez. E sabe-me bem esta condição, esta leveza que às vezes tenho. Sabe-me bem olhar para o espelho e não ver os tais trinta e oito anos. Ou então sabe-me bem ver o que faço com esta idade e que, quem sabe, me vai permitir chegar a uma idade considerável a parecer ligeiramente mais nova. Se aos oitenta parecer que tenho setenta e oito já está ganho...

27 março 2017

Ups, downs and in betweens

Não sou muito de frases feitas, mas há duas ou três que me representam muito bem.

"Fall seven times. Stand up eight."
"What doesn't kill me makes me stronger."

É isto. Cais, levantas-te. Choras ali um bocado, só naquela de limpar a alma. Permites-te uns minutos de fundo do poço (não demasiados, que aquilo é sítio que não interessa a ninguém) e voltas a subir. Depois olhas para trás e, embora percebas por que lá foste parar, questionas a necessidade de te teres deixado ficar ali a marinar um bocadinho. Mas está feito e não há como desfazer. Portanto siga.

Nos últimos tempos aprendi que, sim, é possível sentir aquela felicidade plena e inexplicável que só vem com o amor. Também descobri que é possível aprender a patinar em pouco tempo. Mais pirueta, menos pirueta, a coisa dá-se. Às vezes resvala-se um bocado, mas nada que não se cure.

Também aprendi que há terapias valiosas. Filmes, séries, livros. Sair, mesmo que sozinha. Dançar. Cantar no banho. Dançar outra vez. Dançar mais um bocadinho. Sozinha, em frente ao espelho. Cuidar de mim como nunca ninguém cuidou. Como nunca ninguém há-de cuidar.

De caminho, o maior esforço é este: não deixar de acreditar. Apetece mandar tudo com o... caraças. Mas não pode ser. Não gosto de portas fechadas, a não ser que o que esteja lá dentro seja valioso. Foi assim que estive durante muito, muito tempo. Não é assim que quero estar para sempre. Não significa que tenha o portão aberto de par em par, balões à porta a sinalizar a festa. Nada disso. Porta fechada. Só no trinco. Um dia abro-a e deixo-a encostada. Agora ainda não. Ainda me sabe bem o sumo que guardei deste ano. Doce, quentinho, a fazer lembrar um dos melhores Verões de sempre. Ainda faz demasiado sentido. Um dia deixará de fazer e passará a ser só uma das melhores recordações que guardo.

E no meio disto tudo, uma certeza: tive uma sorte de caraças com tudo o que vivi nos últimos tempos. Mesmo que não dê para entender como pude ser tão feliz. Na verdade, é simples: quando é com o coração, não é preciso muito para se ser feliz. E eu fui. Mesmo, mesmo feliz. E hei-de voltar a ser. 

22 março 2017

Material de treino: os espelhos

Nos ginásios, por norma, há toda uma panóplia de apetrechos que podemos usar nos nossos treinos: halteres, barras, discos, bancos, caneleiras, máquinas várias e... espelhos. Desconfio que a maioria das pessoas que treina em ginásios desconhece em absoluto para que servem aqueles espelhos todos. Servem, imagine-se, para se corrigirem posturas enquanto se fazem os exercícios. Que espanto!

Um exemplo: no ginásio onde treino, há, naturalmente, mais homens do que mulheres a treinar na sala de musculação (as mulheres continuam a ter medo de ficarem parecidas com homens - não vai acontecer, nem que treinem 5h por dia... a não ser que metam suplementos de testosterona e quejandos, não vai acontecer, ok? Portanto, a maioria das senhoras prefere aulas de grupo, o que deixa as salas de musculação para o machame e para meia dúzia de mulheres). Ora, e pegando em mim mesma, passa-se o seguinte: tenho um plano novo, com coisas que nunca fiz. Pasmem-se: preciso dos espelhos para me auto-corrigir porque, sem eles, não tenho tanta noção da minha postura. Calha também que a fauna masculina tende a ser herdeira do Narciso e curte mesmo é estar ao espelho a avaliar bíceps e peitorais. Nada contra. Desde que ninguém precise da porra do espelho para o treino. Ontem, por exemplo precisava de um espelhinho pequenino que ali estava. À frente do espelho, a tralha de um garoto de 16 anos que lá treina. E o garoto agarrado ao telemóvel, a passarinhar paracá e para lá. Perguntei se ia precisar do espelho: "vou, a seguir". Ok, então com licença que eu vou fazer as minhas séries. Fiz. Nos meus descansos, sua alteza aproveitou para medir bíceps e tríceps e lá voltou ao telefone. Acabei o que tinha a fazer. E ele continuou a medir-se... (Depois admiram-se de demorarem 2h a "treinar" e de não verem resultados. Que surpresa...)


20 março 2017

Ao pai dos meus filhos

Já não somos um casal, mas continuas a ser o pai perfeito. Já não somos um casal, mas continuas a ser a melhor escolha que eu fiz na vida. Não me arrependo dos anos que passei contigo. Porque foram maravilhosos enquanto o que nos uniu foi amor. E porque deles resultaram aqueles dois miúdos que te chamam Pai.

Poderia mudar muita coisa na minha vida. Nunca mudaria o facto de tu seres o pai deles. Só tenho de te agradecer pelo pai que és para eles. Pela forma como os tratas, como os amas, como os guias. Por seres o rochedo em que eles se apoiam. Por fazeres equipa comigo. Não funcionamos enquanto casal, mas somos imbatíveis enquanto pais. Espero que consigamos sempre manter esta ligação que nos une e espero que, juntos, façamos sempre o melhor por eles.

És o Melhor Pai do Mundo. Nunca te esqueças disso, prometes?