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03 abril 2019

Fátima - um ano depois

Fez esta madrugada um ano que, para aí com duas horas de sono em cima, arranquei a pé para Fátima. Há um ano, por esta hora, já com vários quilómetros nas pernas, devia estar a chegar a Carenque ou coisa que o valha. O meu joelho direito aguentou 25 quilómetros, até à hora de almoço. Fiz mais cinco de lágrimas a caírem-me pela cara. Na minha cabeça, a promessa que fiz pela minha mãe que, por sorte, pela medicina ou por Deus, depende daquilo em que acreditarmos, continua cá, sem sequelas, sem grandes efeitos secundários do aneurisma rebentado e do outro que foi isolado e ainda lá está - não tem mais do que sonos trocados e umas dores de cabeça de que eu não gosto nadinha.

Disto tudo, ficou a promessa cumprida conforme pude. Ficou a certeza de que nunca mais na vida me meto em nada parecido. Ficou a certeza de que me falta acreditar. Ficaram as perguntas por responder. Ficou a mágoa com coisas que me foram ditas, como se ter rebentado um joelho fosse uma coisa fixe, que eu queria muito e que me safou de fazer 150km a pé, para conseguir fazer apenas cerca de metade. E ficou o dito joelho rebentado durante meses, as dores, a impossibilidade de reinar como eu gosto, de fazer a minha vida sem aquilo me doer constantemente. Já melhorou, quase não dou por ele (só se abusar mesmo muito ou se, inadvertidamente, puser mal o pé em algum movimento que faça).

Continuo a gostar de ir a Fátima. Mas não preciso que digam o que devo fazer, como devo falar ou o que devo sentir. Continuo a ter a minha relação com Deus (ou seja lá o que queiramos chamar-lhe). Continuo a achar que esta tem de ser uma relação fechada, entre cada um de nós e aquilo em que acreditemos. Tudo o resto, dispenso. 

01 abril 2019

Dia das Mentiras

O dia das mentiras é todos os dias. Quando dizemos que estamos bem e estamos a morrer por dentro. Quando dizemos que não faz mal não termos os abraços que nos fazem falta como combustível. Quando fingimos não ver o fim da conta bancária. Quando deixamos para amanhã aquela mensagem, aquele beijo, aquele mimo. Quando insistimos em pôr toda a gente à nossa frente na nossa lista de prioridades. Quando dizemos que somos felizes naquele casamento que morreu há anos. Quando adiamos os nossos sonhos. Quando desistimos de nós.

Mentimos todos os dias. Mentimo-nos todos os dias. E estas mentiras são sempre o nosso carrasco. Porque nunca seremos felizes a não ser que limpemos todas as ilusões e sejamos absolutamente honestas connosco próprias. Vai doer. Vai doer muito. Mas, depois disso, muito pouca coisa será capaz de nos abalar as estruturas.

27 março 2019

A cidade amanheceu sem ti

A cidade amanheceu sem ti.

Ele não quis morrer mas os cigarros e os prazos e os budgets e o stress sempre o stress a pressa sempre a pressa a noite colada ao dia o sono que não se fez os cigarros e os whiskeys o gin e a comida mais um copo brindemos à vida e o stress e sempre o stress e a estrada que não acaba e o sossego que não vem

Não sei como se respira sem ti aqui. Ainda ontem eram os teus passos a entrar em casa, a festa no cabelo do miúdo, o piparote no nariz da miúda, o beijo rápido que me davas sempre, ainda ontem eras tu e o chão desta cidade, tão tua, tão melhor porque tu.

Um sopro. E de repente és a notícia no jornal as condolências a incredulidade as histórias os risos e os medos as angústias as fotografias e o que escreveste o legado e o trabalho. Ainda há bocado eras carne e sangue a correr e agora és o verbo que se finou e mais nenhum dia terá a tua marca, mais nenhum caminho desta cidade soçobrará sob o peso dos teus passos, mais nenhuma memória, nenhuma fotografia, nenhum riso, nenhum medo, mais nenhum medo, e agora penso, será que deste conta e sentiste medo, será que soubeste, será que lamentaste tudo o que não disseste, o que não fizeste, o que não deste, o que não sorriste. Será que lamentaste todos os cigarros e os prazos e os budgets e o stress sempre o stress a pressa sempre a pressa a noite colada ao dia o sono que não se fez os cigarros e os whiskeys o gin e a comida mais um copo brindemos à vida e o stress e sempre o stress e a estrada que não acabou e o sossego que não veio. Será que pensaste em tudo o que não fizeste e no quanto isso faltará a quem fica, a quem lamenta, a quem não acredita que ainda ontem a cidade amanheceu contigo e hoje, já hoje, ainda nem vinte e quatro horas, há vinte e quatro horas reuniões e emails e coisas para fazer e listas e agendas e sítios onde ir, compromissos, coisas, mais coisas, ainda mais coisas e nem vinte e quatro horas depois és um nome numa certidão de óbito, a marcação do funeral, a encomenda de uma coroa que há-de ficar ali até apodrecer, as memórias, amigos reunidos em torno do caixão, a celebração do que foste, o lamento por tudo o que não fizeste e o tempo esse que não chegou para ti

19 março 2019

À espera de Tarantino



Não sou nada fã do Tarantino. Dos filmes dele, gostei do Inglorious Bastards, não vi a filmografia toda, mas, do que vi, foi disto que gostei.

Agora, Tarantino meets Pitt and DiCaprio? Compro! Mais ainda quando o senhor Brad Pitt, do alto dos seus 56 (cinquenta-e-seis-anos-dassssse-como-é-que-é-possível?) anos, se apresenta nestes preparos. Quero ver. Quero mesmo ver. Já sei que vem de lá alucinação colectiva, mas eu aguento. E acho que até vou gostar...

11 março 2019

Quem quer casar com o meu filho?

Nota prévia: Vi uns 10 minutos do programa. Tenho impropérios para três gerações. (Mãe, é provável que este post contenha asneiras.)

Para início de conversa, assim que soube do que tratava esta porra, decidi que não quero ver isto. Do not feed the animals costuma ser um bom princípio. Depois, e porque vi a celeuma por aí, achei que tinha de espreitar. Devo dizer que tive MUITA dificuldade em ver asa apresentações daquela gente. Começa logo mal. Mas avancemos.

Tudo neste conceito está errado. TUDO. Em primeiro lugar, dá aos homens o papel de macho-alfa, caçador, que deverá ser conquistado pelas mulheres. A estas cabe o papel de se tornarem na escolha daqueles. Têm zero poder neste processo. Entram ali, sentam-se, são bombardeadas com perguntas e, quando não servem, são postas a andar. Maravilha para a auto-estima delas, obviamente.

Depois, as mães. Eu acho que isto é uma cena geracional: a minha geração ainda é aquela em que as mulheres eram educadas de uma maneira e os homens de outras (conheço vários casos de irmãos, rapazes e raparigas, que foram educados de forma diferente, o que resultou em mulheres que fazem tudo em casa e em homens que nem uma porra de uma t-shirt são capazes de passar a ferro). Eu achava que esta merda tinha acabado. Ingénua, eu sei. Aquelas mães vão para ali escolher as mulheres para os filhos. Critérios: é jeitosa, sabe cozinhar, não tem filhos, não fuma? Matem-me já.

Como há que aproveitar recursos, a TVI apostou em candidatos requentados. Lembram-se do casal do First Dates que se tornou viral por causa de uma conversa sobre viagens, em que a rapariga afirmava ter visitado três países - Espanha, Itália e Açores - e o rapaz reiterava que eram apenas dois? Estão ambos neste primeiro episódio. 

Bom, resumindo: isto é a prova de que é possível viajar no tempo. Ontem acordámos 2019 e adormecemos em 1865. Impressionante. É vergonhoso que a TVI compactue e incentive um programa que objectifica as mulheres (se bem que a TVI é detentora do Love On Top, de onde, aliás, também aterrou pelo menos uma das candidatas disto), que as põe no papel de submissas a quem cabe a tarefa de manter satisfeitinhos estes machos que não fazem ponta de corno e que precisam de quem lhes dê comida à boca. é vergonhoso que a TVI perpetue esta visão patriarcal da coisa, onde os homens mandam e as mulheres se sujeitam.

Agora... calha que eu sou mãe de um rapaz. Para começo de conversa, nunca me sujeitaria ao papel de mãe de entrevadinho que não consegue fazer-se à vida sozinho. Depois, nunca escolheria mulher nenhuma para o meu filho. Em terceiro lugar, acho que a minha missão é fazer dele um homem em condições, que não precise de mulher nenhuma para sobreviver (da mesma maneira que tenciono fazer da minha filha uma mulher que não precise de um homem para sobreviver). Cabe-lhes a eles safarem-se sozinhos. Não precisam de mãezinhas. Nem desta mãezinha terão de precisar. E até acho que já deviam fazer mais do que fazem, mas fazem os dois igual: o que ensino a um, ensino ao outro. E espero que um dia que tenham de escolher companheiros, escolham os que os fazem felizes e não os que lhes façam o jantar e lhes lavem a roupa. Terei cumprido a minha missão se eles forem pessoas completas sozinhas e não precisarem de quem os preencha, mas sim de quem os transborde. Porque estes tipos parecem só todos uns inúteis que não cresceram, são incapazes de sobreviver sem supervisão e, na verdade, o que querem é uma empregada, não é uma mulher. E a culpa disto é, em primeira análise das mães, que não lhes deram as ferramentas certas, e em segunda análise, deles mesmos, que acham que estão bem assim.

Enquanto continuarmos a achar isto tudo normal e aceitável, não sairemos da Idade Média. 

07 março 2019

Luto

Dia de luto nacional pelas vítimas de violência doméstica. Dia em que saiu a notícia da 12ª vítima em 66 dias (fora a cabeça de mulher que foi encontrada dentro de um saco de plástico, na praia de Leça da Palmeira). 

Quando é que esta merda pára? Quando é que vamos deixar de encolher os ombros e de achar que é normal e aceitável e foi só desta vez e, coitado, estava bêbedo, ou, coitado, gosta mesmo dela? Quando?

Pela minha parte, repito o que já disse antes: mais nenhum episódio de violência que me chegue aos ouvidos passará sem acção da minha parte - é um crime público e é dever de toda a gente que tenha conhecimento de crimes desta natureza denunciar.

E, para aquela malta que adooooora lançar boatos: sim, já fui vítima de violência no namoro. Isto aconteceu muito antes de sequer ter conhecido o meu ex-marido que nunca, em momento algum, teve um gesto violento para comigo. Discussões todos temos, mas daí a cenas que constituam crime de violência doméstica vai toda uma vida que, felizmente, nunca vivi. Portanto, escusam de ir por aí. E acho muito triste ter de estar a escrever isto quando nunca, em momento algum, dei a entender que ele tenha sido violento comigo. Não foi. Nem comigo, nem com ninguém. 

06 março 2019

História de um homicídio

Já aqui disse isto mil vezes: a única coisa de me arrependo na vida é de não ter seguido a minha vontade e ter ido estudar psicologia forense, para acabar com os costados na PJ. Se há coisa que me cativa são psicopatas e sociopatas. Adoro aquelas mentes retorcidas, adoro tentar perceber o que leva aquelas pessoas a fazerem o que fazem, quando fazem asneiras da grossa.

Vai daí, tenho andado entretida com documentários sobre crimes reais (na maioria americanos, mas também ingleses e australianos). No meio disto tudo, deparei-me com uma história de que já tinha ouvido falar em tempos mas que, na altura, não explorei.

Em 2008, uma senhora sociopata obcecadíssima pelo ex-namorado achou por bem matá-lo. Até aqui, nada de novo, é só uma entre muitas. Detalhes: os requintes de crueldade da coisa (matou-o com 27 facadas, uma das quais de orelha a orelha que quase o decapitou e, não contente com isso, ainda pôs a cereja no topo do bolo em forma de tiro no meio da testa - amorosa, não é?) e a forma como se comportou durante todo o processo, incluindo interrogatórios e julgamento. 

Ora aquela esperta decide que é boa ideia começar por ligar para a polícia a dizer que ouviu dizer que ele morreu e queria saber se era verdade. Vai daí, há toda uma conversa telefónica onde ela, calmíssima, fala como se efectivamente não soubesse nada sobre o assunto. Calha também que a polícia já a tinha debaixo de olho porque todos os amigos do morto, quando questionados sobre se haveria alguém capaz de lhe fazer aquilo, apontaram na mesma direcção: a dela. 

Às tantas a rapariga é levada para interrogatório, ainda sem estar acusada de nada. E os detectives fazem aquela coisa clássica que vemos nos filmes: espetam com ela numa sala de interrogatório e deixam-na ali um bocado a marinar. E o que é que ela faz? Canta. Fala sozinha. E acaba a fazer o pino contra a parede. True story.

Começa o interrogatório e ela diz que não estava sequer naquela terra (Mesa, Arizona), que estava em casa (algures na Califórnia, a cerca de cinco horas de distância). Apertam com ela e afinal já estava lá em casa, mas o que aconteceu foi que entraram dois encapuzados (o termo "ninja" é usado várias vezes), um homem e uma mulher, e mataram o tipo. Ela, miraculosamente, conseguiu fugir (e a descrição que ela faz da fuga é de rir, de tão surreal). Apertam mais um bocado com ela e afinal já foi ela que o matou, mas foi em legítima defesa. Com 27 facadas e um tiro. E sem ter ficado com "defense wounds", que é logo uma boa coisa quando se quer usar o argumento da legítima defesa. 

(Sim, este caso fascina-me assim... milhões.)

A senhora lá é detida, lêem-lhe os direitos e dizem que vão tirar a fotografia da praxe. E o que é que ela faz? Pergunta se lhe podem chegar a carteira, que queria dar um jeitinho à cara. (A mugshot dela é linda: está assim de cabecinha ligeiramente inclinada para a direita, olhos de bambi e... a sorrir. O normal quando se é preso por homicídio, portanto.)

Tenho andado a ver o julgamento que está na íntegra disponível no YouTube. O advogado de acusação é brilhante, encosta-a às cordas como ninguém. Mas ela, cortesia da sociopatia dela, não se desmancha. Não há nada que a faça vacilar. Não quebra. As vezes em que chora são claramente encenadas. A primeira vez que a vi chorar no julgamento foi quando apareceram as fotografias da autópsia do senhor. 

[E agora a prova de quão fascinada ando com isto: ontem, no Instagram, numa das contas de medicina forense que sigo, aparecem estas fotos (as da autópsia, bem entendido). Bastou ver a primeira, em que se vê apenas o peito dele, para saber de quem se tratava. Não li legendas. Nada. Foi directo.]

Atalho para o fim da história: a senhora foi condenada a prisão perpétua sem hipótese de liberdade condicional. O senhor continua morto, naturalmente.

(Em caso de curiosidade, Jodi Arias e Travis Alexander.)

Nota final: nada temam. A minha curiosidade não apresenta perigo nenhum, nem para mim, nem para a sociedade em geral. 

04 março 2019

Tabuleiro de Xadrez

Às vezes gosto de fazer este exercício: olhar para a minha vida de fora - e o que vejo faz-me sempre lembrar uma espécie de jogo de xadrez gigantesco. 

É giro ver como a vida se encarrega de nos pôr nos sítios certos, nas alturas certas. É giro ver como põe e tira pessoas do nosso dia-a-dia. É giro ver como nos traz pessoas que nos ensinam coisas e as leva embora quando já não temos nada a aprender.

O meu tabuleiro, hoje, está exactamente como preciso dele: com muito espaço livre. Levou embora as pessoas que já cumpriram a sua missão, deixou espaço para que eu cresça. Durante muito tempo, andei inquieta e a precisar de apoio. Agora não. Agora estou de novo em paz. Estava em paz no Verão passado. Tinha chegado finalmente ao ponto em que tudo o que eu fazia era respirar tranquilamente. Depois agitaram-se as águas e agora acalmaram novamente. Sou só eu e o meu tempo. Eu e as minhas coisas. Eu e o meu crescimento. Estou de novo pronta para o que a vida tiver para me ensinar.

Os últimos três anos foram lições incríveis para mim. Aprendi o que é o amor incondicional, que não morre com tempo, nem com distância, nem com obstáculos, nem com nada: Amor que sobrevive à ausência e que, mesmo que viva apenas em mim, me mostra todos os dias o que é isto de amar sem mas. Aprendi que sou suficiente. Tenho tudo o que preciso de ter, sou tudo o que preciso de ser. Aprendi o que é o amor-próprio e a não abrir mão dele por ninguém. E aprendi a dizer que não a tudo o que não me faz bem, a tudo o que não me acrescenta nada, a tudo o que não me ensina nada, a tudo o que me magoa, a tudo o que me faz duvidar. 

Perdoei tudo. Arrumei nos devidos lugares as coisas que me magoaram e já consigo olhar para tudo sem angústias nem mágoas.

Neste momento, sinto que tenho tudo o que preciso para seguir em frente. E sei exactamente por que caminho quero seguir. Se vou fazer esse caminho ou não é coisa que não depende só de mim. Mas, mesmo que não aconteça, estou em paz com isso e com o facto de ter vivido tudo o que pude, quando pude. E tenho a sorte de saber exactamente a que sabe a felicidade plena, o amor inteiro, o querer a vida toda ali. Se isto me basta? Não sei. Mas sei que sou muito grata por já ter tido isto, por ter vivido isto, por ainda saber exactamente a que sabe esta felicidade. 

O que virá a seguir? Não sei. Mas hei-de descobrir. E está tudo bem.

19 fevereiro 2019

Movie time... again...

Como de costume, enquanto a vida lá fora vai andando em stand-by, o cinema ganha espaço. Falta-me ver pouca coisa dos Oscars, não creio que veja tudo a tempo, mas pelo menos o Green Book vai ter de ser porque desconfio que o boneco vai para casa do senhor Viggo este ano. Bom, adiante.


Este foi o filme do dia do meu aniversário, este ano. Tenho alguma tendência para escolher coisas pesadas (excepto no ano em que tive a infeliz ideia de ir ver o La La Land e me arrependi para a vida). Este ano não foi excepção. Não sabia ao que ia. Sabia que aquilo era um papelão da Nicole Kidman. Sabia que contava a história de uma polícia que se depara com o regresso de um caso antigo. O filme é a Nicole Kidman. Ela é o ventilador daquilo tudo. Estava a achar um "bom, é ok, vale pela interpretação dela, a história é meio meh..."... até que aquilo leva ali um plot twist que muda tudo e... Wow.... Que filmaço! Vale muito a pena... Mesmo.


Não sabia bem o que esperar disto. Thriller? Anne Hathaway? Siga. Bom... neste filme, nem tudo o que parece é. É um médio-bom, daqueles para ver no sofá, numa noite de sábado. Não é uma obra-prima, não é nada por aí além, mas vale a pena mesmo assim.


Quando o cinema nos leva ao limite, quando nos revira as entranhas, quando nos arrasta do conforto do sofá, da certeza da vidinha mundana que, mais conta, menos conta para pagar, segue tranquila, quando nos faz ter vergonha dos nossos queixumes que não são nada perto do que vemos ali, naquele ecrã, a ficção que se calhar não é assim tão ficcionada, vidas tão piores do que as nossas... Quando o cinema nos faz isto, temos a certeza de que nunca nos esqueceremos daquele filme.

Aconteceu-me com poucos. "A Vida é Bela", "O Rapaz do Pijama às Riscas" e pouco mais. E aconteceu-me com este, que é um chapadão na cara, sem aviso, sem misericórdia nenhuma. Senti-me pequenina, pequenina perante o que vi. Ali está o degrau mais baixo da pobreza, está a miséria, está a sobrevivência, está uma pessoa que faz o que tem a fazer, que podia fazer tudo errado, dado o contexto, mas não faz. É uma lição de vida gigante. Daquelas para nunca mais esquecer. (E depois é árabe, que é uma das minhas fixações. E começa logo com uma banda sonora maravilhosa. E é realizado pela Nadine Labaki, que já tinha feito outro filme que adorei - "Caramel" - e cujos outros dois filmes quero ver rapidamente.) Se não quiserem ver mais nenhum filme este ano, vejam este. Vejam mesmo. Mas preparem-se para o embate - vai ser duro.

Séries: o que ando a ver


Façam um favor a vocês mesmos, larguem tudo o que estiverem a fazer e tratem de ver isto. Não interessa se têm filhos a rondar a idade destes miúdos, não interessa se nunca hão-de ter filhos, não interessa se estão mais perto da idade destes do que da minha. Vejam isto. É das melhores coisas - senão mesmo a melhor - que vi nos últimos tempos. Chapadas de luva branca em barda ali pelo meio. Muitos abre-olhos. E até para quem, como eu, tem uma mente aberta e não está cá com merdas, é uma série cheia de mensagens importantes, que tocam no nervo certo.


Já tinha visto o primeiro episódio "por aí". Mas a HBO estreou-se em Portugal e... bom, vai ser um mês intensivo ao nível das séries, está bom de ver. Portanto, aqui temos duas mulheres em modo braço de ferro. A que mata e a que procura. A bestinha e a instável. Uma luta de gigantes que ainda não percebi como vai acabar mas... bom, despachei quatro episódios logo no primeiro dia (e tinha vindo de uma sessão de cinema dupla, portanto ecrãs era coisa que não me apetecia por aí além...).

A seguir em fila de espera tenho Sharp Objects e Little Big Lies, tudo na HBO. Na Netflix... já perdi a conta. Andei a ver uma série de documentários sobre - adivinhem - serial killers e afins. Que vício! (E porque Netflix não é suficiente... temos sempre o Youtube. Ando fascinada com um caso real, que aconteceu há 10 anos. Se a vossa cena também são psicopatas e sociopatas, procurem por Jodi Arias. De nada.)