De Caim, de Saramago e das polémicas

outubro 22, 2009

Ontem, espicaçada por uma série de debates/entrevistas sobre o novo livro do Saramago e toda a polémica que se levantou à volta dele, decidi que ia começar a ler o "Caim". E li. Um capítulo e meio. E o que tenho a dizer, até agora, é isto: brilhante. O homem tem 80 e tal anos e tem um sentido de humor cada vez mais apurado. É óbvio que o que ele escreve é um romance, não é um ensaio, não é uma tese. É um romance, logo, ficção. É uma ficção que nasce, com certeza, da ideologia do autor (nem poderia ser de outra forma, acho). Mas não é uma verdade universal.

Há 18 anos, quando Saramago escreveu o "Evangelho Segundo Jesus Cristo", mais não fez do que reinterpretar a história, dando-lhe nuances, quanto a ele, mais verosímis. Ou alguém acredita mesmo que tenha havido uma senhora, de seu nome Maria, que engravidou do ar (ou de Deus, sendo que não se sabe exactamente o que é Deus), que teve que ser um anjo a anunciar-lhe a gravidez e tal? Não me parece. Esta, como muitas outras partes da Bíblia, é uma parábola. O Messias tinha que vir de algum lado imaculado, não podia ser parido de parto natural, algures no meio do nada, certo? O que Saramago fez mais não foi do que colocar à história os pés na terra. Ficcionando.

Agora faz exactamente o mesmo: torna mais terrena a história de Caim. Não é para levar à letra. Como não é para levar à letra a Bíblia.

Agora, o que aconteceu foi que Saramago, talvez pela idade que tem, se deu ao luxo de emitir sem pejo as suas opiniões sobre a religião e a igreja católicas. Está no seu direito? Parece-me que sim. Ele mais não faz do que dar a sua perspectiva da coisa. Afirma que Deus é má pessoa, rancoroso, vingativo e que não é de fiar. Se ele mesmo diz que Deus não existe, esta é a impressão dele de uma entidade em que não acredita. Eu não acredito em duendes e acho-os, enquanto figura mítica, do mais ridículo que há. Mas não acredito neles. Portanto se eu disser que os duendes são parvos, não estou a falar de nada além da figura que se estabeleceu para os duendes. Parece-me que é o que Saramago faz ao opinar sobre Deus.

Se virmos bem, foi em nome deste Deus que morreram milhões de pessoas nas Cruzadas. Se, como a igreja diz, tudo o que fazemos é comandado por Deus e eles, os Cruzados, mais não fizeram do que trabalhar para Ele, então sim, Deus foi mau. Porque mandou fazer uma guerra para que a sua fé se expandisse. Não vejo onde é que isto difere dos fundamentalistas islâmicos, por exemplo. Ah, pois, mas esses metem bombas em qualquer lado e matam gente. E os Cruzados atacavam aldeias inteiras e matavam ao desbarato, sem olhar a quem. Há que ter critério, parece-me.

Sim, sou católica. Sim acredito em parte do que a igreja católica professa: nos valores, essencialmente. Não acredito nas fábulas, porque não é para acreditar. Também não acredito nas fábulas do Lafontaine porque, lá está, não é para acreditar; é para compreender e andar para a frente.

Não percebo a celeuma que se criou porque o Saramago disse que o Deus da Bíblia é mau. Mas, no fundo, o que ele conseguiu com a dita celeuma foi exactamente o que quis que acontecesse ao dizer tal coisa: publicidade. E quem não perceber que aquilo foi manobra de marketing...

You Might Also Like

5 comentários

  1. Subscrevo. Ainda não li o livro mas conto os dias para tal, e é como dizes: é ficção. Ele limitou-se a pegar numa história e deu-lhe a sua interpretação. Agora, porque é que ele escolhe histórias bíblicas, que lhe garantem boas vendas à custa da polémica, blá blá blá, acho que, vindo de um país católico e vivendo noutro ainda mais, acaba por ser natural, não?

    Enfim, não percebo a polémica, não é nada de extraordinário nem de novo.

    ResponderEliminar
  2. vai ouvir o que disse o Saramago.

    [o que ele disse foi que a Biblia, escrita por HOMENS, não por inspiração divina mas sim humana e por isso retratava um Deus mau, era um manual de más práticas].

    aliás só falava da Torah [a parte correspondente à Biblia dos Judeus, o Antigo Testamento], pois é sabido que o Novo Testamento foi baseado em escritos deixados por apóstolos e seguidores de Jesus [como Paulo].

    foi exactamente por isso que ninguém da Igreja Católica se pronunciou sobre o assunto [quando o fizeram aquando do evangelho e até sobre os livros do Harry Potter e do Dan Brown].

    o resto é vender jornais com uma não notícia como de costume.

    ResponderEliminar
  3. Não concordo contigo: os duendes são figuras bem engraçadas!
    Quanto ao resto... o Evangelho Segundo Jesus Cristo está no meu top de livros lidos.
    Leste o post no teatro anatómico sobre isto?!
    http://teatro-anatomico.blogspot.com/2009/10/caim.html

    ResponderEliminar
  4. Quando eu digo "top de livros lidos", quero dizer que está entre os melhores livros que li (às vezes não sou muito clara...).

    ResponderEliminar
  5. Pois, a igreja é feita por homens e eles como humanos, erram. Isso das cruzadas e outras coisas estupidas foram feitas por homens que usaram a religião como desculpa, e que hoje em dia toda a gente condena, como é obvio.
    Claro que esta polémica de que toda a gente fala foi uma manobra de markting, é sempre assim. Quando há polémica, toda a gente quer ler o livro. Aconteceu o mesmo com os livros do Dan Brown.

    ResponderEliminar

Obrigada!

GoodReads Challenge

2020 Reading Challenge

2020 Reading Challenge
Lénia has read 29 books toward their goal of 40 books.
hide

Instagram

Parceria

Subscribe