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18 dezembro 2009

Do Natal

Antes.

Alentejo profundo, na casa dos meus avós maternos. Umas 15 pessoas à volta da lareira e na braseira que havia por debaixo da mesa de jantar onde cabem, no máximo, umas 7 pessoas (e já muito apertadas). Jantava-se por turnos. Ao meu pai era sempre deixado o lugar mais próximo do lume e meia hora depois era vê-lo completamente afogueado mas nada o fazia sair dali. Jantava-se bacalhau com couves, coisa que eu e as minhas primas odiávamos. Estava sempre muito frio, mas a porta da cozinha estava sempre aberta por causa da lareira. Antes da meia-noite chegava a nossa hora de dormir. E nós íamos, ansiosas pelo Menino Jesus (o Pai Natal é coisa em que nunca acreditámos). Fingíamos que dormíamos. Depois alguém batia à janela e chamavam-nos; tinha chegado o Menino Jesus [o tempo era o necessário para que toda a gente pusesse tudo o que era presente junto à lareira, nos sapatos que lá tínhamos deixado. E nós, eufóricas, saíamos do quarto e lá íamos, em grande excitação, abrir tudo. Lembro-me bem do Natal em que recebi um gravador de cassetes e uma cassete dos Onda Choque - devia ter uns sete ou oito anos. Lembro-me de ficar sempre triste porque os meus presentes eram sempre mais fraquinhos que os da minha prima. Sempre. E lembro-me de gostar de ficar sozinha no quarto, a brincar com as minhas coisas novas. Havia sempre roupa para estrear no Natal: era comprada com a máxima atenção e era um luxo que só acontecia três ou quatro vezes por ano: nos anos, na Páscoa, para a festa da Aldeia e no Natal. Quatro conjuntos novos por ano. No dia seguinte lá íamos, com os vestidos novos, ao café, para mostrar a roupa - com o frio que estava só podia ser mesmo para isso. Depois, quando regressávamos à cidade, a primeira visita era a casa dos meus avós paternos, para dar beijinhos e entregar presentes. E lembro-me de ficar sempre triste porque os meus presentes eram sempre mais fraquinhos que os dos meus primos. Sempre. Mas a minha avó fazia bifes de peru com batatas fritas para o almoço e isso pagava tudo - ainda hoje os bifes de peru da minha avó e aquelas batatas fritas são especiais. Era o Natal.

Depois.

Alentejo profundo, na casa da minha tia materna mais velha. A mesma família, mais os elementos que entretanto se juntaram, menos o meu avô. A minha avó a aprender a mexer no comando da TV. A minha tia mais velha a aprender a jogar Uno. Jantava-se bacalhau com couves e havia um excesso absurdo de doces por onde escolher. A primeira coisa que eu fazia quando lá chegava era vestir o pijama e o roupão, calçar as pantufas e sentar-me à lareira a ler o livro do momento. Pouco interessada em presentes. Depois, à meia-noite, uma gritaria insuportável, uma guerra surda para ver quem dava à minha prima mais nova o presente mais espectacular. E eu a insistir com os meus pais, ano após, ano para lhe darmos livros - e consegui fazer dela uma amante dos livros, coisa de que ela me "culpa" sem pejo. Lembro-me de ficar sempre pouco surpreendida por perceber que os meus presentes eram o que sempre foram. Depois mais jogos de Uno e de Trivial e do que quer que fosse que alguém lhe tivesse oferecido (à minha prima mais nova). No dia seguinte toda a gente ia beber café e eu, cada vez mais friorenta, não saía da beira do lume e continuava a ler. No dia seguinte almoçávamos nos meus avós paternos, que entretanto foram para lá viver (para a mesma aldeia, quero dizer). E voltávamos a Lisboa, eu com mais uns quantos livros na mala, todos com a sensação de que é assim que deve ser o Natal.

Depois.

Alentejo profundo, já sem a minha avó materna. Natais mais tristes, a minha prima mais nova cada vez mais velha, a espectacularidade dos presentes dela a atingir níveis absurdos, a minha falta de paciência para gritarias cada vez mais flagrante. Natais a pensar apenas que nunca mais era hora de ir dormir. E no dia seguinte os almoços nos meus avós.

Depois.

Nasceu a minha filha. Morreu o meu avô. Tudo isto demasiado próximo do Natal. Natal cá, em casa dos meus pais. O mais feliz de todos, por ela. O mais triste de todos, por ele. Nunca me esquecerei de que o meu avô morreu no último dia em que eu "deixava" a minha filha nascer. Nem de propósito. O último Natal sem o namorado, para quem aquele foi o último Natal só com a família dele.

No ano passado.

Alentejo profundo, em casa dos meus tios. Demasiado barulho para uma criança tão pequena, demasiada confusão para mim. Almoço do dia de Natal em casa dos sogros, na terra. Demasiada confusão para ela, demasiado barulho para mim.

Este ano.

Noite de Natal na terra dele. Almoço de Natal na casa da minha tia mais velha. Vazio. Saudades do meu avô, tantas. É isso que marca o meu Natal: as saudades que tenho do meu avô. Apenas isso. Para mim, o melhor presente seria mesmo tê-lo de volta. Ou reviver a minha infância com ele. Foi o meu avô que fez da minha infância uma memória feliz.

3 comentários:

  1. Também eu gosto muito, MUITO, de te ler... sou tua fã. Sabes-me bem... ;)

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  2. Que belo retrato que descreveste agora. A vida muda, as pessoas vão. Sei o que é sentir as saudades de um avô... Parece que as reacendeste em mim. Desejo que, ainda que com saudades, este Natal te seja especial. Que mais não seja, por poderes ver os sorrisos da tua filha!
    :)

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