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19 janeiro 2010

A blast from the past

(Por causa de um comentário da Analog Girl, ali no post sobre as histórias)

Há muitos, muitos anos (uns 15) eu ia muitas vezes para a Baixa ver pessoas. Não ia ver montras, não ia comprar nada, não ia ver o rio nem o Terreiro do Paço nem nada disso. Ia ver pessoas. Sentava-e por ali onde conseguisse e ficava horas a ver pessoas e a tomar notas, a escrever comportamentos, tiques, trejeitos, frases apanhadas no ar. Fazia esboços mal amanhados (eu e o meu jeito para o desenho), anotava tudo o que achava interessante.

E depois?

E depois ia para os ensaios do teatro e usava tudo o que tinha visto (e que era aproveitável, obviamente). Foi assim que interpretei um mendigo (primeiro homem, mas depois mudei-lhe o sexo, que aquilo estava demasiado caricaturado). Foi assim que, com esse mendigo, vi esgares de nojo, olhos de susto, pessoas incomodadas nas cadeiras. Foi com esse mendigo que soube até onde podia ir, aquilo de que era capaz, até que ponto podia deixar de ser eu e passar a ser outra pessoa qualquer. Com esse mendigo e com uma velha juíza completamente alucinada que fiz logo a seguir, noutra peça. Em ambos os casos, caracterizações duras e demoradas. A saber: a saia da mendiga era sempre passada por lama e relva (num canteirinho ao pé do teatro) antes de cada representação; a quantidade de laca branca que metia no cabelo, a base branca, o khol preto nos olhos e o lápis castanho a desenhar rugas eram uma coisa complicada de aguentar, quer durante as representações (maquilhagem com calor de holofotes derrete), quer depois, no banho (e as figuras que eu fazia, na rua, a caminho de casa, naqueles preparos...)...

E então?

Eu podia ter sido actriz. E não creio que me arrependesse da escolha.

5 comentários:

  1. Mas olha que agora foste tu quem me fez pensar em coisas há muito idas...
    Nunca mantive um registo tão elaborado como o teu, mas tornei-me observadora à conta do desejo de fazer desenhos animados. Li uma entrevista com um tipo que trabalhava para a Disney (onde eu desejava muito poder trabalhar) e ele focava muito o poder de observação. Desenvolvi boas capacidades de desenho tipo cópia nessa altura.

    Txi, que saudades!

    Não fazia ideia que fizeste teatro. Que tal foi a experiência?

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  2. Uma experiência inigualável. Aprendi muito ali, ganhei muitas competências sociais e tal. E durante algum tempo pensei mesmo em levar aquilo a sério. Acho que me tinha safado... mas a esta altura era capaz de andar a fazer novelas da TVI, coisa que acho que era capaz de me matar...!

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  3. Antigamente eu odiava andar na rua sozinha, mas lentamente comecei a aprender a gostar e, observar quem e o que me rodeia, foi uma das coisas que percebi que gostava muito. Agora, adoro vaguear e tentar absorver tudo, mas gosto da ideia de tentar registar o que vejo... Um dia vou experimentar! =)

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  4. E não é que tenha nada a ver com este post, mas... Descobri a Westrags através do teu blogue e adorei. Encomendei dois casacos lindos (de vez em quando encontro vantagens em não ser magrinha, já que um deles, aquele azul que postaste já só havia o 42). Foram super baratos e são óptimos: assentam bem, têm qualidade, são lindos... enfim, adorei! No início estava com medo porque fico sempre com algum receio em comprar online, mas isto vai ser, sem dúvida, uma experiência a repetir! Obrigada*

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Obrigada!