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22 março 2010

Às vezes

Apetece-me mandar tudo (o mundo em geral, com algumas raras excepções) à merda. Sem razão aparente, apetece-me, apenas. Às vezes sinto-me prisioneira da minha vida. Sinto que não era assim que queria viver, por esta altura da minha vida. Isto acontece porque, embora não pareça, eu sonhei coisas para mim. Não sou ambiciosa (no sentido em que não atropelo ninguém para chegar a lado nenhum) e prefiro viver calmamente, com a certeza de que um dia as coisas hão-de acontecer. Não estou à espera que me caiam do céu nem é disso que se trata. Prefiro, simplesmente, não forçar a coisa. E depois, aos 24 anos, tomei uma decisão que impossibilitou outras decisões: comprei uma casa. Não aluguei, foi mesmo à bruta: escritura assinada e tal e tal. E isso, parecendo que não, prendeu-me aqui. Não fora a casa e teria arriscado Londres. Não fora a casa e teria arriscado a escrita. Mas houve sempre o peso da casa e da renda para pagar e das responsabilidades. E hoje olho para trás e não me arrependo. Mas olho para trás e vejo que 24 anos é muito cedo para este tipo de compromisso. Ainda assim, foi o meu compromisso, assumido de forma consciente. Adiante.

Às vezes acho que gostava mesmo era de ter um negócio meu. Que gostava de escrever, ser freelancer e poder escrever onde bem me apetecesse. Era exactamente isto: escrever, apenas. Sou má a organizar-me, sou má em matemática, sou má em muita coisa. Mas sei que o meu talento é este, o de pôr por escrito coisas que se sentem. E sei que me devo a obrigação de tentar. Mas não sei por onde começar. Ainda há pouco tempo falava com o meu patrão-amigo sobre uma coisa que comecei a escrever quase há um ano e que, por falta de tempo, se engavetou. E dizia ele que entendia que eu não escrevesse, porque para escrever é preciso tempo e eu, infelizmente, não tenho a disciplina do José Rodrigues dos Santos, que se levanta às 4h para escrever, para às 8h estar pronto a começar o dia "oficial". Por acaso, nos últimos tempos, e graças a uns degraus subidos em direcção à organização como deve ser, até podia usar duas ou três horas ao serão para escrever. Porque, por norma, às 22h estou prontinha para ir para a cama. E vou. Ler. Ou seja, dar tempo de antena à concorrência. Na verdade, ler é a melhor forma de melhorar a escrita.

E, na verdade, não estou assim tão atrasada. O Saramago escreveu o primeiro livros aos 49 anos. E a Rosa Lobato Faria aos 63. Mas eu não queria esperar tanto para me sentir realizada, pronto...

10 comentários:

  1. Tudo leva o seu tempo e escrever um livro deve ser algo bastante reflectido. É que para escrever livros ao género do José Rodrigues dos Santos, mais que mastigados e sem qualquer tipo de peso literário, já basta ele. Por isso não tenhas pressas, ainda tens uma vida inteira pela frente para passar as palavras para o papel.

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  2. Se realmente é isso que queres aconselho-te a correr atrás. Com calma, pequenos passos já que as responsabilidades da vida não te permitem entrares de cabeça nesse projecto. Penso que o primeiro passo está dado com esse projecto engavetado e o próximo é tirá-lo da gaveta. E com passos de bebé vais atingir o objectivo.

    Força

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  3. mas invista tempo nisso, o seu potencial para escritora é grande. escreve bem, sem erros gramaticais nem semânticos e em geral temas muito usais e de fácil identificação com o público, que é o que vende, veja a MRP. é capaz de se safar muito bem.

    obviamente, que como todos os pintores têm de ver muitos quadros e copiar muitos clássicos, também um autor tem de ler muitos livros. e não obrigatoriamente de qualidade. ler maus também é importante.

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  4. Clarinha, querida, se eu quisesse escrever "como a MRP" já tinha editado muita merda. É a coisa mais fácil do mundo, isso.

    Mas pronto, a Clarinha não me conhece (apesar de poder pensar que sim) e lá poderá achar que é esse o caminho que quero seguir. Não é.

    Portanto, menos, Clarinha, menos...

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  5. Faço minhas as palavras já aqui escritas. Tens tudo, tu chegas lá.
    Bjs

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  6. querida, eu comprei o meu apartamento aos 24 anos (só um pormenor para este comentário, mais nada) e aos 33 mudei radicalmente a minha vida profissional. comecei de novo, uma coisa diferente do que tinha feito toda a minha vida de trabalho. há que arriscar para se poder realmente ser realizada (profissionalmente falando).

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  7. Não penses no tempo, o importante é editares algo que adores, leve isso o tempo que demorar... Livros sem qualidade já há muitos, infelizmente, e os bons parecem sempre poucos...
    Tens aqui uma leitora! :)

    Beijinhos

    Helena

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  8. Então e uma crónica? Essas horinhas ao serão chegam para uma boa crónica e é um belo inicio de conversa, não?
    Para mim ser organizada ajuda bastante a ter tempo para o que quero, vale bem o esforço. Mas, claro, eu não tenho filhos para criar e aí as prioridades mudam um bocado.
    Mas tenho a certeza que consegues, mais cedo ou mais tarde, conciliar tudo sem ser a acordar às 4h.
    Arranja um gravador e dita o que queres escrever enquanto fazes outras coisas. Poupas tempo e aproveitas mais ideias.

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  9. Nunca é tarde para se realizarem os sonhos.

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Obrigada!