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22 março 2010

De vez em quando...

... é preciso levar uns socos no estômago, uns abanões, umas wake-up-calls. E isto pode vir de muitos lados. De um livro que se lê (é o caso, agora que ando a ler sobre Teerão que, para quem não sabe, é a capital do Irão, antiga Pérsia, e fica ali coladinho ao Iraque e é o estado mais islâmico-fundamentalista que há). De um filme que se vê (aconteceu-me há uns anos, por exemplo, com o "Lantana" de que já aqui falei há tempos). De uma história que se ouve (já me aconteceu várias vezes, mas adiante).

Eu ando a levar socos no estômago diariamente, há uns 3 ou 4 meses. Quando descobri a V. e quando descobri a história recente dela e da Nídia. E levo socos no estômago por dois lados. Primeiro pela doença em si. E depois pelas lições que a V. me dá diariamente, sem querer. Porque é preciso ser-se uma grande mulher para não ceder perante as dificuldades. É preciso ser-se uma grande mulher para agarrar os bois pelos cornos (e que boi!). É preciso ser-se uma grande mulher para não se entrar na espiral do "coitadismo" e ir por ali abaixo. Eu já estive com a V. uma série de vezes e nunca lhe vi nada a não ser alegria de viver. Mesmo que viva lado a lado com a morte (essa p***) que anda ali a espreitar. Mesmo que lhe custe horrores tudo o que tem que ver e ouvir diariamente. A V. mostra-me sempre que só se vive uma vez e que se deve viver de queixo para cima. Sem pena de nada nem de ninguém, muito mesmo de nós mesmos. E eu gosto dela porque ela não é de salamaleques - foi das poucas pessoas que, por alturas do meu aborto, lidou com a coisa como deve ser: sem paninhos quentes, sem pena, sem contemplações. Como deve ser.

E é isto: a V. é uma mulher do caraças. E devia haver muito mais mulheres assim.

15 comentários:

  1. Como concordo contigo... Desde que leio o blogue da V. vejo a vida de outra forma. Com outros olhos...

    Beijinho

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  2. Não conheço a V, mas leio-a todos os dias, religosamente. Uma maravilha de mulher, um exemplo de força e coragem. Sem dúvida.


    Beijinho,
    Littlemisstaken.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Também eu sofro.
    Também eu choro.
    Também tenho medo. Tanto.

    Mas enquanto a minha irmã tiver força, eu tenho que ter mais.

    E quando ela deixar de ter força, tenho que ter por mim e por ela.

    É isto.

    Nem melhor nem pior que ninguém.

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  6. Marianne,

    Também leio a Me várias vezes, também conheço a história da N., também torço para que tudo fique bem. E acho que ela é uma grande mulher sim. Nunca falei com ela embora gostasse de o fazer.
    Eu passo por uma situação semelhante com a minha mãe e sei o que custa.
    E no entanto não concordo contigo quando dizes que as grandes mulheres não decem perante as dificuldades. Agarrar o boi pelos cornos não significa necessariamente não mostrar tristeza. Não ter medo. Não haver momentos em que ficamos paralisados. Deixar transparecer sofrimento não faz de nós piores pessoas. Nem faz com que deixemos de ser grandes mulheres. Acho que há muito essa ideia, mas, como um professor meu dizia, o psicanalista António Coimbra de Matos, a tristeza é o melhor antídoto contra a depressão. Posso estar a interpretar-te mal mas foi a sensação com que fiquei do texto. Agarrar o boi pelos cornos significa lutar, não deistir às contariedades e acreditar que é possível. Fazer o que está ao nosso alcance para que a pessoa melhore. Mas não deixar de ficar triste. E mostrá-lo se disso sentirmos necessidade. Claro que devemos evitar fazê-lo perto da pessoa. Mas também não devemos fingir que não se passa nada. Se a pessoa tiver necessidade de falar sobre a doença, devemos falar com ela, ouví-la. No meu caso houve familiares que se recusavam a fazê-lo. E a minha sentia que estavam a ignorar o sofrimento dela. A agir como se nada fosse. E isso entristecia-a. E eu sempre falei com ela. Dizendo que tem de acreditar, ter esperança e não ir abaixo, mas compreendendo-a, ouvindo-a e não minimizando. E isto não tem nada a ver com a Me. Primeiro porque só sei através do blogue como ela reage. E isso é apenas uma parte. Também acho que é uma grande mulher sim. Mas não pelas razões que enumeraste. Pelo menos na minha opinião. E não sou de mandar recados. E depois porque eu também acho que ela tem uma postura invulgar.Postura essa que, confesso, eu não tenho. Nem consigo ter. Sofro. E tenho medo. Tanto. E tantas vezes fico paralisada e sem conseguir reagir. Mas acho que isso é diferente de uma postura de coitadismo e vir por ali abaixo. Aliás, acho que em caso de doenças graves com alguém querido é muito possível que isso aconteça. E nada condenável. Eu vim-me abaixo. Muito. E fui tentando manter-me à tona mas nem sempre consigo. E há também os casos de depressões, que, quer tenham doenças de familiares ou próprias associadas ou não, não devem ser vistas como uma forma de fraqueza. Espero que percebas que o meu comentário não é uma crítica e nem uma forma de minimizar a atitude da Me. Mas uma outra perspectiva das coisas. De alguém que passa por uma situação parecida. E que tem noção que as pessoas são todas diferentes. E que reagem de forma diferente às situações. Mas que não é por isso que são melhores ou piores. Tem muito a ver também com a forma como somos educados, com os apoios que temos para lidar com as coisas, entre outras situações.
    E é verdade que estas situações nos mostram que a vida não pode ser desperdiçada. Que só vivemos uma vez. E que a vida é curta, insegura, e que não a devemos tomar como certa. Porque a dada altura pode mudar. Mas há alturas em que apesar de o sabermos não conseguimor fazer grande coisa.

    Beijinho

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  7. Miss G.,

    A Me disse tudo no comentário dela. Não se trata de ser melhor ou pior. Trata-se de ser diferente. Eu acho apenas que é preciso coragem para se manter a força e para não ceder. Para não entrar na espiral da auto-comiseração. Cada qual reage às coisas como pode e sabe. No meu caso, por exemplo, há quem me ache muito estranha por ter enfrentado um aborto sem stress nenhum. Aconteceu, paciência, siga. É a minha forma de reagir. Não consigo ficar a lamentar-me. Fico triste, claro que sim, mas reajo. A Me, como toda a gente, tem momentos de fraqueza. Mas eu admiro-a pelos outros momentos, em que ela é forte. É só isso.

    À tua mãe desejo o mesmo que desejo à Nídia: saúde. E que esta guerra seja ganha.

    Para ti: um beijinho (e não acho que quem se vai abaixo seja fraco, menina! Não é nada disso!)

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  9. Me,

    Reescrevi o comentário que aqui estava para que se percebesse ainda melhor.
    Eu sei tudo isso que disseste. E neste caso não é um lugar comum, como muitas vezes nos dizem, que também sabem o que passamos. Eu sei mesmo porque passo por algo parecido.
    Sei que sofres e que choras e que tens medo.
    A diferença é que tu tens uma postura diferente. E acredita que é mais positiva a tua atitude do que a minha. Que fico paralisada. Tal como disse há alturas em que não consigo reagir. Até da minha própria voz tenho medo.
    E também há outra diferença que é a forma como a tua irmã e toda a tua família e a minha mãe reagem. Sei que a minha mãe sente mais conforto se falarmos sobre a doença. E também sei que apesar de me dizer que eu tenho de viver a minha vida se sente melhor por eu estar a acompanhá-la nesta fase. Como eu disse acima tudo vai da estrutura familiar e da forma das pessoas reagirem às situações.
    Eu também mostro à minha mãe que tenho força. e grito quando ela se vai abaixo para a puxar para cima. Mas também lhe mostro que estou triste.
    Mas acho que percebeste o que quis dizer.
    Cada pessoa lida com o sofrimento da sua maneira. Eu fico a marrar na situação. E tu continuas em frente. Não acho que isso mostre que tu ou eu somos melhores pessoas. Mas tenho humildade suficiente para admitir que a tua postura é melhor.
    Continuo a dizer que gostava de falar contigo. Mas não sei para onde te posso enviar um e-mail.
    Beijinhos

    Marianne,

    Obrigada. É o que mais quero também. Mas depois de ler senti necessidade de desabafar. Sem ser contra ninguém e apenas por mim. E fí-lo porque sabia que tanto tu como a Me iam perceber o que eu queria dizer. E não sou muito corajosa no que toca a doenças de alguém que me é querido. Mas apesar de me ir abaixo não entro numa espiral de auto-comiseração. Lamento que esteja a acontecer mas não penso "porquê a nós?"; há tantas pessoas na mesma situação que o que penso é "porque não a nós já que acontece a tantas pessoas?". E essa postura acho que não ajuda. E cmo já referi também admiro a postura da Me. Tal como e não tenho problemas em admití-lo, admiro a minha, porque sei que no que toca à doença da minha mãe tenho sido uma óptima filha.

    Beijinhos

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  10. Miss G. enviei-te um mail com o meu contacto. Eu também continuo a marrar. Todos os dias. A todo o instante. Mas guardo isso para mim.

    E a minha irmã fala. Tanto.

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  11. Também sigo o blog da Me e concordo consigo plenamente
    Quando comecei a ler o seu blog tinha textos enormes na altura, fico contente que tenha voltado a fazê-los, é isso que torna o torna especial!

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  12. É sem dúvida uma grande mulher, cheia de força e de boa filosofia de vida!


    Parabens Me!!!

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  13. apenas um reparo: as pessoas lidam com as coisas como sabem e podem, não existe isso do "lidar com a coisa como deve ser"..

    kiss

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  14. Não podia concordar mais com cada palavrinha...

    Beijinhos a todas

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  15. Concordo com tudo o que aqui foi escrito. Infelizmente, também eu estou a viver uma situação complicada de saúde, não comigo mas com a minha mãe (que durante este tempo já pensei muitas vezes que preferia que fosse comigo). Sim, cada pessoa lida com as situações conforme a sua personalidade, conforme foram educadas para a coisa e conforme aquilo que já viveram. Todas sofrem, todas têm medo.
    No meu caso sempre fui, e toda a minha familia, muito positiva mas também muito realista o que nos faz encarar a situação com muita esperança, muito pensamento positivo, sem nos deixar mos abalar e tentando sempre que a doença não nos deixe a todos aínda mais triste e como somos realistas e sabemos o que pode acontecer vivemos cada dia de forma especial: Apoiando, abrançando, falando. Falando muito!

    Um grande beijinho cheio de força para todas as pessoas que estão a passar por momentos complicados. Em especial para a Me e para a Miss G.

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Obrigada!