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21 junho 2010

As bases

Nós não somos feitos apenas de nós mesmos. Somos feitos do mundo que nos cerca, do que nos ensinam, do que nos dão, ainda que despropositadamente.

No que toca a livros, eu sou feita de várias coisas. Sou filha única e o facto de, em miúda, não ter com quem brincar, fez com que me refugiasse nos livros. O meu pai ensinou-me a ler e a escrever com 4 ou 5 anos, o que fez com que pegasse em livros muito cedo. Tive sempre a sorte de ter bons professores de português, que, mesmo sem quererem, me incentivaram a leitura. E tive a sorte de, no 10º ano, o programa que a minha escola seguiu ter Saramago como leitura obrigatória. Li o "Memorial do Convento". Os primeiros dois ou três capítulos custaram-me horrores, demorei uns 2 meses a ler aquilo. Foi o tempo que demorei a interiorizar a peculiaridade da escrita de Saramago, a pontuação diferente. Daí em diante foi simples.

Fui lendo os livros dele e guardando alguns para ler depois. Até que cheguei ao "Ensaio Sobre a Cegueira". É o meu livro preferido de sempre. Nunca mais li nada de Saramago que me abanasse como aquele livro. Nunca li nada de outro autor que andasse sequer perto daquela genialidade. Gosto muito do "Evangelho Segundo Jesus Cristo", do "Todos os Nomes" e do "Caim". Ainda não li o "Levantado do Chão", nem "A História do Cerco de Lisboa", nem o "Ensaio Sobre a Lucidez", nem "As Intermitências da Morte", nem o "Manual de Pintura e Caligrafia". Estou a ler "O Ano da Morte de Ricardo Reis" e começo a perceber porque é que Saramago diz que é um dos seus três livros preferidos. Duvido que alguma vez me cruze com outro escritor melhor que Saramago.

Tenho, contudo, outro escritor português preferido, de entre todos os lusos que já li. José Luís Peixoto que, para mim, tem uma escrita "saramáguica", que, a espaços, me faz lembrar Saramago. Talvez por ter as mesmas raízes rurais. Talvez por ter uma mestria semelhante na forma como manobra a língua. Gosto também muito dos livros do Rodrigo Guedes de Carvalho, que, acho, anda mais próximo do Lobo Antunes do que qualquer outro escritor português.

Tiago Rebelo, Margarida Rebelo Pinto e afins não serão nunca, nem de perto nem de longe, tão bons quanto Saramago. Não serão nunca tão bons como os escritores portugueses medianos. Falta-lhe a substância, o conhecimento, o mundo. Falta-lhes, acima de tudo, aquela célula diferente de que são feitos os génios. Saramago é, ele sim, o grande génio da literatura portuguesa, a par com Camões e com Pessoa. E não foi o Nobel que fez dele esse génio. O génio dele é que lhe deu, muito merecidamente, o Nobel (o prémio não é a causa, mas sim o efeito).

As saudades que tenho de Saramago podem colmatar-se com os livros que posso ler e reler. Mas nada me apaga a angústia de saber que, daquelas mãos, não sairão mais obras geniais. E é isso que lamento.

6 comentários:

  1. Dos que referiste li praticamente todos. "Todos os Nomes" foi o primeiro livro de Saramago que li e que fez, com 13 anos, com que me apaixonasse não só pelo grafismo da escrita, mas sobretudo pela inteligência do seu conteúdo.

    Garanto que vais adorar o "Ensaio sobre a lucidez" e as "intermitências da morte"!

    Bisouxxx

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  2. Curioso, também sou filha única e aprendi a ler com o meu pai com 5 anos. :)

    Nunca li nada de Saramago, mas há sempre tempo para começar.

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  3. O livro "Ensaio sobre a cegueira" também foi o livro que me despertou para a verdadeira genialidade de Saramago. Só um génio consegue escrever histórias daquelas, da forma como as escreve. Também ando com curiosidade para ler José Luís Peixoto, mas ainda não tive oportunidade!
    Também fico com esse sentimento, de que nunca mais vamos ser brindados com a genialidade daquele homem.
    kiss

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  4. O "LEVANTADO DO CHÃO" é MAGNIFICO!
    O MEU PREFERIDO! ;D

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  5. O Ano da Morte de Ricardo Reis é para mim, a par do Ensaio sobre a Cegueira, dos melhores dele.
    Rodrigo Guedes de Carvalho é muito mau...

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  6. "O ano da morte de Ricardo Reis" é o livro que quero ler agora (tenho andado a guardá-lo, e agora parece-me uma boa altura), mas o meu escritor favorito é o Eça:-)

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Obrigada!