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09 novembro 2010

Para a L.



Era uma vez um miúdo que, sem saber muito bem porquê, era mais forte do que a maioria dos miúdos, apesar de ser franzino. Conseguia levantar pesos impossíveis, conseguia correr mais depressa que todos os outros miúdos que conhecia. E ele não percebia porquê. Vivia no Kansas, com os pais que, veio a saber depois, não eram os seus verdadeiros pais. O miúdo cresceu, continuou a desenvolver os seus super-poderes mas foi sempre vivendo a sua vida normal. Até que, já adulto, foi trabalhar como jornalista em NY e, sempre que havia alguém em apuros, lá entrava ele numa cabine telefónica onde, em menos de nada, se transformava em Super-Homem.

Acontece que, a não ser que tenhas vindo de Krypton, tu não és uma super-mulher. Não tens que ser nem é suposto que sejas. A ferida que tens no coração não se cura com kryptonite, nem passa só com o ar. O tempo não voa e tudo o que estás a viver faz parte do processo. Quando alguém nos arranca o coração do peito, já sabemos que vamos descer até bater no fundo. E depois, quando tocarmos no fundo, dobramos os joelhos e damos impulso para subir mais depressa… mas o regresso à superfície é lento e nem sempre é pacífico.

Não vais morrer de amor. Não te vais afogar nas tuas próprias lágrimas. A dada altura (e isto pode não estar para breve) vais até concluir que és bem mais forte do que imaginavas. E depois, um dia, essa dor que agora te rasga por dentro vai ser só um arrepio, um sopro de vez em quando. Vais saber que não perdeste a capacidade de amar, de te entregar, de viver o que tiveres para viver. Vais ter medo, vais questionar tudo e não vais dar um passo sequer que seja impensado. Mas vais andar.

Mas agora ninguém espera que sejas uma super-heroína intocável, gélida, uma fortaleza inabalável. Não te imponhas a ti mesma essa obrigação. Respira, apenas. Um dia de cada vez. Não é rocket science, mas há alturas em que até o simples acto de deixar fluir o ar nos parece inconcretizável. É por isso que o tempo opera milagres. Mas o teu tempo é apenas teu, não é igual ao tempo de ninguém. Ninguém pode exigir que caminhes a um ritmo que não é o teu. Só depende de ti… Demora o tempo que precisares. Chora tudo o que precisares. Faz o teu luto, ao teu ritmo, à tua maneira. Só assim poderás reconstruir-te a seguir… Tens um longo caminho pela frente. Mas vale a pena percorrê-lo.


6 comentários:

  1. Este texto é perfeito! E verdadeiro. Real. Sentido.

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  2. Perfeito, e se bem entendi,será a mesma situação pela qual passei a 8 meses e sem dúvida é tudo isso que esta aqui escrito.
    Terá de ser tudo ao ritmo de cada um ;)
    E sem dúvida vale a pena percorre-lo
    E como diz Ana leal do blog do Diário de uma Divorciada
    "Há vida depois do "fim do mundo" (e não é nada má!)..."

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  3. Adorei este post. É mesmo assim, quando estamos de coração partido parece que nada mais vai voltar a ser como era. A melhor parte vem depois, quando recuperamos. É tão bom ver de novo a luz e sentir que dpeois disto estamo mais fortes! è duro mas recomenda-se a toda a gente.

    À L., como já foi dito aqui saboreia por mais amargo que seja, este o processo. Dá-te o tempo que precisares. Neste momento nada mais importa se não tu.

    Beijo

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  4. A isto é que eu chamo ter o dom da palavra .... Adorei !

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Obrigada!