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04 novembro 2010

Saudades

Eu tenho uma forma um bocadinho esquisita de ver/lidar/gerir as saudades. Não sou saudosista, mas há coisas que me marcaram de tal forma que dava uns meses da minha vida para voltar a viver essas coisas.

Depois há as pessoas. A única pessoa de quem tenho realmente saudades é do meu avô. São umas saudades que me provocam reacções físicas imediatas (como estar a chorar só por escrever isto), saudades que eu não consigo resolver porque ele morreu quase há 3 anos. Foi e há-de sempre ser a pessoa que mais marcou a minha infância.

Não sou daquelas pessoas que se contorcem de saudades. Mesmo em relação ao meu marido e à minha filha. A minha forma de gerir estas saudades é com a cabeça: se eu ceder às saudades vai custar-me muito mais. Se eu levar as saudades com leveza o tempo não custa tanto a passar e quando dou por mim estou nos braços deles novamente (isto acontece sempre que vou para fora em trabalho, por exemplo). Há amigos de quem tenho muitas saudades e há outros de quem tenho saudades mansinhas, mas nem num nem noutro caso se instala o desânimo.

E depois tenho saudades de coisas aparentemente risíveis: da adrenalina da primeira semana de treinos de karate, da adrenalina de ver o 24 e ser tudo novidade (tenho as séries todas em casa, posso revê-las quando quiser, mas não é da série em si que eu tenho saudades, é da novidade, de não saber o que lá vem), de Barcelona, de Londres, de Roma e de Florença, do dia do meu casamento e de alguns livros que li (lá está, não dos livros em si, mas do frenesim da descoberta).

Curiosamente, não tenho saudades da minha filha bebé. Acho-a tão mais deliciosa agora, nesta fase em que tem teorias surreais (e algumas muito acertadas), em que diz tudo como os adultos, uma vez que ninguém fala com ela naquela língua ininteligível com que algumas pessoas insistem em falar com os bebés e as crianças e que eu nunca cheguei a perceber para que serve (com o aviso do pediatra de que ela precisa de ser infantilizada, coisa que acontecerá quando for para a escola), em que faz companhia e é uma companheiraça.

Não trocava a vida que tenho hoje por nada do meu passado. Nem pela independência, nem pela rebeldia, nem pela loucura. Nada do que eu vivi antes se compara sequer ao que tenho hoje, pese embora as dificuldades. E se calhar é por isto que lido tão bem com as saudades: porque o que tenho agora é muito, muito melhor do que o que já tive.


3 comentários:

  1. "com o aviso do pediatra de que ela precisa de ser infantilizada" - porquê?

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  2. A felicidade é isso: estar bem como se está, não ir para trás, nem para a frente. Estar assim: a viver o momento.

    Anseio por um tempo assim...

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  3. Adorei o post, ou seja adoro este blog ;)
    Acima de tudo gosto de ler, blog´s de pessoas felizes e de bem com a vida :)
    E tal com o diz podemos ter saudades, mas o que importa é o presente, ou seja hoje.

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Obrigada!