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09 março 2011

Do dia da mulher

Continuo sem perceber porque é que se há-de atribuir UM dia às mulheres. Como se não fossem as mulheres a carregar o mundo às costas. Começa na procriação. Para se gerar um filho não é preciso que a mulher tenha um orgasmo, mas é imperativo que o homem o tenha. Donde, o prazer dela é dispensável, o dele, essencial. Começamos bem, portanto. Depois são nove meses. De poesia e dores no corpo. E o grand finale, onde nasce um ser novo e terminam as horas de sofrimento por que a mulher teve que passar (ignoremos que existe epidural e assumamos que todas as mulheres têm um parto dolorido). Os períodos (coisa fabulosa de que os homens se safaram). O ter que fazer chichi sentada, sendo absolutamente necessária uma casa de banho ou, no limite do desespero, um arbusto bem guardado, coisa que não há por aí aos pontapés.

Mas, acima de tudo, a Wonder Woman que se espera que todas sejamos. Trabalhar oito horas por dia (pelo menos), pôr e trazer os filhos da escola, dar banhos, fazer jantares, fazer as compras da semana, manter a casa arrumada, mantermo-nos arrumadas, prontas para o que der e vier, não deixar que falte nada em casa, ter a solução para tudo, do Ben-U-Ron para os princípios de febre, ao vinagre para tirar cheiros, à acetona para tirar nódoas de sangue, saber as respostas mais longínquas, para poder ajudar nos trabalhos de casa, conhecer todas as personagens das Winx, do Ben10, do Bob, o Construtor, e não as baralhar. Saber os tamanhos que vestem todas as pessoas que vivem na nossa casa, não esquecer que o marido gosta de meias sem elástico e de gravatas 100% seda, não esquecer que se paga à empregada ao dia 1 de cada mês, tratar de todos os pendentes, sejam as contas do banco ou as marcações de férias, estar sempre disponível para ir com os filhos ao médico, nem que para isso se vire a vida do avesso. Ter que pedir favores para poder ter duas horas por semana com as amigas ou uma tarde para ir às compras. Chegar ao fim do dia com um sorriso, de negligé, fresca e perfumada na cama, à espera do marido que terá, eventualmente, AJUDADO nalgumas das tarefas sem ter efectivamente FEITO nenhuma delas.

Depois disto tudo dão-nos UM dia em jeito de homenagem, numa de "vá, toma lá uma geribéria que hoje é dia da mulher".

Caríssimos, que pariu! Merecemos 365 dias de homenagem por ano. Merecemos mimos todos os dias. Merecemos flores todos os dias. Merecemos que, de uma vez por todas, reconheçam que sem a nossa dedicação, a nossa entrega, o nosso desenrascanço, a nossa força de vontade, a nossa destreza, a nossa argúcia, o mundo era uma bela merda de sítio para se viver.

É por isso que não celebro o dia da mulher. Acho sexista, discriminatório, idiota. É melhor que nada, dizem uns. É uma forma de valorizar, dizem outros. Os homens não têm nenhum dia de homenagem e, ainda assim, o mundo continua, ilusoriamente, a girar à volta deles.


19 comentários:

  1. Temos um dia por sermos uma minoria social, apesar de tudo o que dizes: no mundo industrializado, o mínimo que se pode dizer é que ganhamos menos pelo mesmo trabalho, morremos mais de maus tratos, somos recusadas no mercado só pela perspectiva de podermos ser mães. No mundo em desenvolvimento, há mutilação genital, infanticídio, venda de meninas.

    Sendo maioria em números, somos minoria em valor.

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  2. É isso mesmo.
    Concordo e assino por baixo.

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  3. Concordo. Mas apesar de tudo isso, adoramos ser mulheres. Verdade? :)

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  4. Não é nada fácil, não. E o mais incrível é que, melhor ou pior, lá conseguimos ir fazendo tudo, uns dias com melhor cara, outros nem tanto.

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  5. Não nos dão UM dia em jeito de homenagem. Na realidade o que se passa é que criaram esse dia para assinalar a revolução das mulheres (essas sim que merecem ser recordadas e homenageadas) por melhores condições de vida e de trabalho.
    Não se perceber isto é que me irrita. Não se trata de nós mulheres actualmente mas sim do passado. Daquelas que se esforçaram por tentar mudar as regras, não se trata de feminismo mas da luta pela igualdade, que ainda hoje não é conseguida.

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  6. Eu própria não diria melhor! Análise crítica sem margem para dúvidas.

    http://www.vida-da-minha-vida.blogspot.com/

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  7. Tenho a mesma linha de pensamento. Todavia, ontem ao ler o mini-saia, apercebi-me que ainda há sítios onde faz sentido a comemoração desse dia. Cá não faz sentido.
    Espero que não te importes, mas vou partilhar o teu texto no meu blogue (citrag.blogspot.com)

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  8. Não podia estar mais de acordo com a ideia em geral.

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  9. Olá,

    Sigo o seu blog já há algum tempo, na maioria das vezes concordo com tudo o que escreve e gosto muito de a "ler". Embora tenhamos vidas diferentes, muitas vezes revejo-me nas suas opiniões e comentários. Neste caso, acho que tem razão no muito que diz, mas não acho que seja sexista ou discriminatório. O Dia Internacional da Mulher não é vivido com o seu verdadeiro propósito e, isso sim, é errado. Foi criado nos primeiros anos do século XX, nos Estados Unidos e na Europa, para louvar as lutas de mulheres por melhores condições de vida e trabalho, pelo direito de voto. Enfim, por coisas que hoje em dia nós fazemos/temos, sem pensar que alguém conseguiu esse direito por nós. Devia ser vivido como homenagem.

    Beijinhos e muitas felicidades (ainda não tinha tido oportunidade) nesta nova fase! :)

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  10. Assino por baixo ;)
    E haver um dia para a Mulher é a maior forma de discriminação!

    (Fiz referência ao post no ana'space, espero que não te importes ;) )

    Anna*

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  11. Claro que não me importo, Ana. Só tenho é que agradecer!

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  12. Adorei...
    Eu nao diria melhor!
    Nunca comemorei nem vou comemorar esse dia!
    Parabens!
    E se nao te importares vou partilhar este teu post...devidamente indetificado Claro!
    Beijoca

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  13. Não saberia dizê-lo tão bem, concordo plenamente!

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  14. Concordo a 200% contigo. Tb não festejo, acho absurdo. bj!

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  15. Olá, boa noite. Leio-a há algum tempo, mas só hoje comento.
    Em primeiro lugar, um disclaimer - sou feminista. Entendo que os feminismos não são o oposto do machismo, mas sim correntes de pensamento que se propõem a pensar o género. Que no passado lutou para que todas nós pudéssemos ser quem somos. Por outras palavras e roubando o título a Sartre: O Feminismo é um Humanismo.

    O questionamento feroz acerca da legitimidade da existência do Dia Internacional da Mulher (trabalhadora) só se põe mesmo em relação a este dia (a 10 de Dezembro comemora-se o Dia Mundial dos Direitos Humanos, por exemplo, a 21 de Março o Dia Mundial contra a Discriminação Social). Despudoradamente comemoramos uma série de coisas, mas a emancipação feminina é que não, alto lá, isso para quê. Em 1910 uma feminista, Clara Zetkin, propôs que existisse um dia que lembrasse as lutas passadas, presentes e futuras.
    Cem anos depois e vivemos num País em que as mulheres continuam, em alguns trabalhos, a receber menos por trabalho igual, vivemos num País que em tempo de crise despede primeiramente as mulheres, num País em que no ano transacto 43 morreram às mãos dos seus companheiros ou ex-companheiros. Vivemos num País em que o direito à maternidade ainda é motivo de despedimento ou de não renovação de contrato ou de não contratação. E apesar de tudo isto, as mulheres são as primeiras a achar que o Dia Internacional da Mulher é uma festividade bacoca e não o que efectivamente é... Acho que isto diz muito do que ainda não somos e gostaríamos de ser.

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Obrigada!