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28 abril 2011

Era uma vez...

... uma rapariga que trabalhava. Solteira, sem filhos, sem compromissos de maior, trabalhava e isso era tudo na vida dela. Entrava às 10h e saía quando calhava, às vezes às 19h, outras às 22h, outras à meia-noite. Era conforme o trabalho que havia e estava tudo bem.

A rapariga teve filhos, casou, tem uma família. Sair às 19h é dramático, depois disso é impossível. Não é suposto acontecer, mas acontece quando há mais trabalho. O próprio horário "oficial" já deixou de ser compatível com a realidade desta rapariga, mas aí nada a fazer... por enquanto.

Se pudesse, esta rapariga teria um horário que lhe permitisse ser mãe e mulher e dona de casa e trabalhar com igual motivação. Qualquer coisa como 9h30 - 17h30, com meia hora de almoço. E sem resvalar, não era ter este horário e depois ficar todos os dias a trabalhar até às 19h, que aí era pior a emenda que o soneto. Se pudesse, esta rapariga trabalhava meio tempo no escritório e o resto em casa, que no que faz é perfeitamente possível trabalhar em casa. Se pudesse, esta rapariga não se sentia culpada por uma coisa que é natural e de que não tem culpa nenhuma. É desumano que nos sintamos culpados por estar a cumprir horários à risca e não andar a dar meias horas todos os dias, porque temos uma família que também precisa de nós.

A rapariga precisa de trabalhar, porque tem contas para pagar e filhos para alimentar. A empresa precisa da rapariga porque há trabalho que tem que ser feito. Os filhos dela precisam dela porque... bem, porque é mãe deles e não precisamos de ninguém como precisamos de uma mãe.

Vai daí, flexibilizar a coisa era o ideal. Haver um ajuste da realidade do trabalho à realidade dos funcionários, não prejudicando o empregador e não prejudicando o empregado. É óbvio que, prejudicando o empregador, a questão não se põe, porque a ideia não é fazer de cada empresa uma pequena sucursal da Santa Casa da Misericórdia. Mas fazer dos empregados putas sempre disponíveis também não me parece nada bem.

Por isso, no mundo ideal desta rapariga, os horários seriam ajustados sem perdas para nenhum dos lados. Nas sete horas e meia que tem que trabalhar, trabalha. Depois disse está em horário pessoal e tem mais que fazer: filhos para ir buscar à avó e ao colégio, banhos para dar, jantares para fazer, brincar com os miúdos, deitá-los, ler-lhes uma história, dizer-lhes que os ama sem ter um relógio a bater-lhe na cabeça e a gritar "despachem-se que já são onze da noite". Porque, no meu mundo real, sem esta flexibilidade de que falo e que seria ouro sobre azul para mim, daqui a dois meses hei-de andar assoberbada, a correr todos os dias, a desesperar com os miúdos porque precisam de dormir e já é tarde e eu só cheguei às tantas e assim é impossível chegar a todo o lado. E, para mim, a família está em primeiro lugar. Não estava, quando comecei a trabalhar naquela empresa, porque na altura vivia sozinha e tinha todo o tempo livre para mim. Isso acabou e agora é pelos meus filhos que tenho que me reger e eles não se compadecem com uma mãe que aparece em casa às tantas, esgotada, stressada e em parafuso com tudo o que ainda há a fazer depois de sair do escritório.

A revolução industrial foi uma coisa boa, a ideia de as mulheres trabalharem como os homens também, mas a realidade vai um bocado mais além destes dois factos. A realidade é que as mulheres têm que chegar a todo o lado e isso não é fácil. Não é fácil compatibilizar dois papéis tão absorventes e ser irrepreensível em ambos. Não é fácil porque o tempo não estica, o dia só tem vinte e quatro horas. E depois é ver-nos frustradas porque não conseguimos chegar a todo o lado. É por isso que sou pela flexibilização. Porque uma mulher que sente que cumpre tudo o que se espera dela é uma mulher realizada, que depois acaba por conseguir fazer mais e melhor. E não é isso que se quer, que façamos tudo o que podemos, de maneira excelente e sem falhas?

A vossa,
Estemerinda


14 comentários:

  1. Eu era uma rapariga assim. Eu sou uma mulher assim. Não devia ser assim.
    Beijo

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  2. Como concordo contigo! Portugal não nos tem facilitado a vida nesses aspecto! É muito difícil conciliar a vida pessoal (familiar) com o trabalho. E claro, consequências disto são o stress, a frustação, a culpa, o sentimento de impotência. Era bom que mudasse, era...

    Beijinho para ti e teus meninos.

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  3. ter flexibilidade de horários faz com que se trabalhe mais e melhor, sem dúvida alguma. A pessoa gere o seu tempo como bem entender e desde que o trabalho apareça feito é o que interessa. Era bom que muitas empresas tivessem essa politica. bj!

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  4. Concordo contigo. Era tão bom que as empresas percebessem que só têm a ganhar. Um trabalhador satisfeito é um trabalhador que produz. Mas não...

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  5. Era bom era mas as empresas nao querem saber se temos ou nao temos familia, dai que cada vez mais as pessoas ponderem em ter mais filhos ou nao, porque se nao for possivel manter a casa apenas com um dos conjuges a trabalhar, entao nem se pensa mais em ter filhos.
    E agora puxando a brasa a minha sardinha, e as que vivem sozinhas com filhos? Que nao tem pais ou maes para ficar com os nossos filhos? Que tem horarios de trabalho, horarios de escola, de atl, horarios para tudo e mais alguma coisa?
    Nao e facil mas e a vida que se escolhe e ha que fazer alguns sacrificios, encarar com um sorriso na cara e pensar que ha sempre alguem que esta pior do que nos :)
    Beijinhos.

    p.s.: so ontem vi o teu email, vou responder a questao que me colocaste.

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  6. Obrigada por participares nesta revolução. Ja fiz o link para este post, la no post pbx da revolução.
    Flexibilizar !!

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  7. Olá, concordo inteiramente contigo Marianne, ser mulher não é fácil e a nossa tarefa triplicou (funcionária, mãe e dona de casa) por vezes tenho dúvidas se terá sido bom ou mau!! Acabamos por ter que trabalhar o dobro dos homens...só consigo ver um lado positivo quando as coisas não correm bem a mulher não tem qe ficar junto do homem só pq não tem sustento..." A primeira mulher a votar em Portugal foi Carolina Beatriz Ângelo"
    bjs

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  8. Todas as mães podem dizer que já foram raparigas assim e que agora (nem que seja às vezes) são mulheres assim. Também gostava que o tempo esticasse.

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  9. Flexibilizar deveria estar na ordem do dia. Recentemente li um artigo que referia que empresas, para não despedirem funcionários, e para reduzirem ordenados, resolveram flexibilizar os horários dos trabalhadores e, sem surpresas, andam a ser mais produtivas e a funcionar melhor.
    Tens toda a razão. Ainda não sou mãe, mas já sinto que estou verdadeiramente tramada...

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  10. Analog, reduzir despesas, sim, se os funcionários ficarem em part time. Agora se fizerem o trabalho seguido, sem pausa para almoço, não vejo porque é que hão-de receber menos ao fim do mês.

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  11. Marianne, tenho visto e sentido, o desepero de algumas mulheres, por não conseguirem dar mais tempo, no emprego. Sentem-se culpadas por uma situação que nem sequer é legal: trabalhar para além do seu horário, sem receberem mais por tal. Estou de acordo contigo que a flexibilização seria o ideal; mas isso seria num estado social, não neste...

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  12. Marianne, provavelmente estou a ser imprecisa. Não sei se era para reduzirem ordenados ou para não aumentarem os trabalhadores (mais provável que fosse a última). Enfim, o que me lembro bem é que era uma medida anti-despedimentos, reduziram as cargas horárias e viram resultados positivos com isso.

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  13. Eu não tenho filhos mas compreendo perfeitamente. Já ouvi comentários menos simpáticos de colegas sobre outras (mães) que saem sempre à hora certa. É, de facto "desumano que nos sintamos culpados por estar a cumprir horários à risca e não andar a dar meias horas todos os dias".

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  14. Nem mais, penso que a revolucao industrial nao criou condicoes para que as mulheres pudessem conciliar ambos os mundos. Talvez por isso ainda nao tenha tido filhos, quando se vive numa cidade sem qualquer familia, e se paga 1000 euros por mes por colocar uma crianca no infantario respiras fundo e vais adiando...

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Obrigada!