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09 agosto 2011

Coisas de miúdos

Quando não temos filhos temos toda uma panóplia de teorias acerca da maternidade. Geralmente, 99% dessas teorias caem por terra no exercício da dita maternidade, quando nos vemos a braços com seres pequeninos que, regra geral, dependem de nós para sobreviver.

Quando não temos filhos achamos que os nossos filhos nunca farão uma birra no supermercado, nunca exigirão que lhes compremos aquele chupa e aquela boneca e aquele Beyblade, nunca farão birras de sono, nunca dirão que não a nada que os mandemos fazer. E achamos que nunca lhes vamos assentar sequer uma palmada no rabo, porque a negociação vai estar sempre na ordem do dia e eles serão civilizadíssimos (e nós também).

Assim que eles nascem desce-nos uma qualquer luz que nos faz ver que nada do que jurámos nunca fazer está a salvo. E havemos de nos confrontar com birras de supermercado (daquelas que nos fazem ter vergonha de ser mãe daquela pessoa pequenina). E havemos de ter que dizer que não aos chupas e às bonecas e aos Beyblades ou, pior ainda, havemos de dizer muitas vezes que sim a isso tudo, só para não ter que gerir uma das tais birras de fazer mortos regressar à vida. E resolvemos muitos dos conflitos com uma palmada, que é coisa que não faz mal a ninguém (e que não significa espancamentos de ter que chamar o INEM, bem entendido).

Juramos que McDonald's só aos 15 anos, saídas à noite só aos 20, namorados ainda mais tarde e nunca por nunca vamos ter um neto nascido quando os nossos filhos tiverem 15 anos. Mas às vezes acontece tudo ao contrário e os nossos filhos são pais adolescentes, atafulham-se de McDonald's e saem à noite a partir dos 14, sendo que nos cabe a nós ficar plantados à porta do Garage até às três da manhã a inventar esquemas para não adormecer por cima do volante, enquanto eles andam lá dentro armados em adultos, de copo na mão, a dançar e a fazer sabe-se lá mais o quê (e eu, pessoalmente, não quero saber... ignorance is a bliss!).

Não nos passa pela cabeça ter filhos malcriados, que respondem, que confrontam, que não acatam as nossas decisões. Mas temos. E aprendemos a lidar com isso. Não imaginamos que um dia podemos vir a ter uma discussão com eles em que não temos razão, mas temos. E aprendemos a lidar com isso (e a assumir que não temos razão e a pedir desculpas na altura certa).

Quando não temos filhos achamos que a maternidade é um lago calmo, com patos e peixinhos. Depois percebemos que afinal é um rio cheio de rápidos, onde de vez em quando há pedras que nos fazem ir à água. Com sorte, aprendemos a divertir-nos com isso.

O que eu acho que ajuda (na maternidade, como na vida) é não nos levarmos demasiado a sério. E não querermos ser campeões de uma competição que na realidade não existe. Toda a gente erra. Os pais erram muito. Os miúdos aprendem também com isso. Quando não lhes escondemos as nossas falhas, quando somos honestos, quando nos mostramos tal como somos e não vestidos de super-heróis, eles aprendem que a vida não é uma coisa cor-de-rosa. E se calhar é também a melhor maneira de não nos desiludirmos enquanto pais, enquanto pessoas, enquanto família. Problemas toda a gente tem. Mas a coisa resolve-se mais facilmente se for vestida de comédia e se deixarmos os dramas para outro cenário...


15 comentários:

  1. Concordo completamente. Principalmente com as verdades que temos como absolutas que depois caem por terra quando somos mães e inicíamos a difícil e maravilhosa de educar.

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  2. Gostei muito Marianne...
    Eu tive uma mãe perfeccionista demais, e tão perfeita que ainda hoje não sabe pedir desculpas... E ela nem sonha o quanto isso prejudicou e prejudica os filhos... É triste, mas nem todos conseguem encontrar-se nas imperfeições perfeitas da vida...
    :-)

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  3. E' tudo tao verdade!
    Concordo plenamente...

    Baci*

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  4. (Quase) não tenho palavras para comentar... acho que estás certíssima.

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  5. Concordo com tudo o que escreveste. Com os miúdos temos que nos reinventar todos os dias. Eu sempre soube que quando fosse mãe, não ia ser regra-três, talvez porque fui irmã pela última vez aos quinze anos... e com essa idade já não se é só irmã, é-se mãe também. Eu aprendi rapidamente a não cuspir para o ar e isso tem me ajudado bastante, pois com o meu filhote já passei por tudo um pouco... Birras no supermercado, pedinchices, macdonnald's, coca-cola, palmadas, etc.. Claro que em certos lugares temos público e é lindo ver os olhares daquelas virgens de maternidade ou as pseudo-mães, que nos aniquilam e humilham só com o olhar. Mas eu não me importo com isso, muito pelo contrário, ainda olho para elas com ar de gozo e satisfação, só de imaginar o que o futuro lhes reserva, nessa experiência única que é a maternidade! É do género, "cuspam para o ar minhas lindas, que daqui a uns aninhos logo sabem como é um banho de cuspo"! Bjs

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  6. Há duas coisas que eu fui dizendo que não faria e que efetivamente ainda não fiz. Ainda não levei a miúda ao McDonald's (sabe-se lá até quando dura isto!) e nunca lhe pintei as unhas... e como eu abomino ver miúdas pequenas de unhas pintadas-a-sério... (tenho, por exemplo, uma vizinha que tem uns 10 anos e que usa as unhas compridonas, pintadas de vermelho. Acho horrível, pronto). Não quer dizer que estas teorias resistam muito mais tempo. Mas, até ver, duraram 3 anos e 3/4...

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  7. Costumo dizer muitas vezes quando confrontada com as minha decisões, " depois falamos, quando tiveres filhos". Só quem passa por elas é que sabe. Nem tudo são bebés loiro-nórdico sempre a cheirar a dodot e a champô Johnson sem uma nódoa de papa no babygrow.

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  8. Eu antes da maternidade já tinha uma ideia pré-concebida: que não valia a pena ter ideias pré-concebidas! Mas há coisas que defendia firmemente e continuo a defender e a por em prática no dia a dia... a mesma educação que me deram os meus pais e que eu tento (com a tónica no "tento") igualar. Sim, levei palmadas quando fiz birras no supermercado e o meu filho também já as levou... o meu filho ainda nunca foi ao MacDonalds e não tenciono levá-lo lá nem tão cedo... quanto ao resto, mantenho a minha máxima: logo se vê no momento, conforme a análise das circunstâncias!

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  9. A quem o dizes. Tenho um déspota de 3 meses. Uma pessoa na volta pensa "o que é que estou a fazer mal?". Acho que nada. Já aprendi que isto é como nos AA "um dia de cada vez".

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  10. adorei o texto, muito bom, muito sentido. eu não sou mãe, mas quando for, espero que um dia ou mais dias lol, pense como tu e saiba lidar com todas essas coisas.

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  11. Ai Marianne! O que eu gosto de te "ouvir" falar destes temas!!! :))))))
    Beijosssss (temos de tratar do nosso coffee!)

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  12. Adorei o texto, penso exactamente como tu, e sinceramente deixei de ter paciência para quem tem mil e uma teorias sobre ser pai ou mãe quando ainda não tem filhos. bj!

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  13. Com 14 anos no Garage não é ilegal?

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  14. Chu, teoricamente, sim. Mas eles vão na mesma. E não são multados/chamados à atenção. Aquilo é mesmo para miúdos dessas idades... (os mais velhos que por lá andam devem rondar os 18 anos).

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  15. Que beleza de texto. Admito que eu, não mãe, já pensei muitas das coisas que escreveste aqui. Mas sei que quando, se tiver uma cria, as prioridades e com elas pontos de vista mudam completamente.

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Obrigada!