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10 novembro 2011

Corporate Life - Horas Extra

Na senda da minha última aventura empresarial, dei por mim a falar com vários amigos que trabalham em comunicação. Dizem-me todos eles que em agência de publicidade nenhuma há horários que são cumpridos. Isto, além de ser a triste realidade, é uma estupidez. Senão vejamos.

Nas agências de publicidade de média e grande dimensão é normalissimo que se entre às 10h e se saia às 2h da manhã. Isto pode ser por uma de duas razões: ou a pessoa passa o dia a fazer nada e depois, a dez minutos de sair, é que se apercebe de que tem tudo por fazer (e fica mais oito horas a fazer o que devia ter feito nas oito horas anteriores) ou o trabalho que aquela pessoa está a fazer (assumindo que até trabalha mesmo aquelas horas todas e que está sempre a produzir) não é trabalho de uma mas de duas pessoas. Ou seja, há pessoas a menos para trabalho a mais.

Ora, isto é perfeito. A empresa paga a UM empregado para fazer o trabalho de DOIS. Não lhe paga horas extra, não lhe dá dias de férias para compensar. E, como nas agências de publicidade isto é prática corrente, ninguém se atreve a contestar.

É a total falta de respeito pela vida pessoal das pessoas. É tratarem-nas como máquinas e não como seres humanos. Quem é que ganha com isto? Os empregados não são de certeza! No fundo, o que acontece é matemática simples: lucro superior para a agência, sem lucro nenhum para o empregado. E, no meio da publicidade, é bem visto quem fica para lá da hora de saída, que não se queixa de trabalhar aos fins-de-semana, quem está disponível para tudo e mais um par de botas e, all in all, quem não tem filhos ou quem, tendo filhos, também tem uma empregada a tempo inteiro para tratar da casa e para educar os filhos.

[E, para mim, está absolutamente fora de questão contratar alguém para fazer as vezes de mãe dos meus filhos. Mesmo.]

17 comentários:

  1. Isso não acontece só nas empresas de publicidade. É uma realidade que afeta muitos empresários deste país... os empregados são robots que eles podem manipular e mexer e exigir e blablabla.

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  2. Infelizmente hoje em dia, não sei bem porquê, as pessoas que entram as 9h e saiem as 6h são mal vistas...eu cumpro o meu horário e tenho o meu trabalho em dia, mas sou sempre a primeira a entrar e a primeira a sair e levo sempre com "aquele" olhar.
    Acho que é mesmo falta de organização, há pessoas que parece que só se lembram de começar a trabalhar à hora que deviam sair!

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  3. Marianne, concordo inteiramente contigo quando dizes que as pessoas que saem tarde do trabalho, muitas vezes andaram a "mongar" durante o dia, porque perderam tempo no facebook, ou porque vão a meio da manhã e da tarde tomar um café, ou porque fazem 2h de almoço, ou porque vão não sei quantas vezes fumar...se fizermos as contas, são muitas horas desaproveitadas em que não estão a trabalhar! Depois, como escreveste, ao final do dia, chegam à conclusão que o trabalho está atrasado e ficam depois da hora!
    Não podias ter explicado melhor! Este teu post podia ter sido escrito por mim!
    Como disse no meu comentário ao teu outro post, para mim o mais importante é a família e trabalho só para ganhar dinheiro!
    Hoje em dia, ninguém se importa com o tempo que não passamos com a família!
    Beijinhos e continua a pensar assim!

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  4. Marianne, quando trabalhava na construção civil acontecia o mesmo! Enquanto tive disponibilidade total para com a empresa, era um elemento importante. Assim que fui mãe, e deixei de ter a mesma disponibilidade comecei a ser vista de lado pelas chefias... mesmo depois de ter cumprido 10h e 11h de trabalho em período de licença de amamentação (tinha que fazer deslocações a 250 km de casa 2 vezes por semana), em que apenas tinha que cumprir 6h. Nessa altura, além de ter um filho com 10 meses o meu pai estava internado em estado gravíssimo no S. José, a 280 km de minha casa...
    Aceitei e pedi para ser compensada. Compensaram-me é certo, mas de má vontade! E ainda tive que ouvir bocas de que não "tinha espírito de sacrifício" para com a empresa. Apenas respondi: vocês metam na vossa cabeça que há vida para além da empresa, sim?! Ou nunca ouviram falar em conciliação da vida pessoal com a vida profissional?!

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  5. Infelizmente é mesmo assim... Mas eu acho que muito disso é culpa dos clientes! Que são 'pra lá de ispectaculares e por isso agora querem isto, depois afinal querem aquilo depois não podem aprovar porque foram almoçar ou porque foram fazer cocó! E as pessoas do lado de cá ficam eternamente à espera, que esteja realmente aprovado e que o pantone não seja afinal o outro a seguir (que ninguém nota a diferença, só eles) há prazos para cumprir porque a produção também está à espera e as datas não podem ser contornadas. Só que no meio disto tudo, o cliente saiu do escritório às 19h e a agência e a produção deixaram os filhos entregues à avó ou à vizinha e o tempo vai passando... É uma merda! E por isso é que as minhas prioridades mudaram desde que fui mãe! (que ninguém me oiça... Os clientes têm de ser educados! :P )

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  6. Descreveste na perfeição o mundo da publicidade!

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  7. Isso não é só no meio da publicidade...
    E infelizmente hoje em dia contam muito mais as aparências... se for preciso essa pessoa que não faz nada o dia todo e depois fica la até as 2 da manha é uma pessoa muito aplicada e muito trabalhadora e esforçada... a outra que compre o seu horário a trabalhar e tem tudo em dia e certinho é uma irresponsável porque sai cedo e não quer trabalhar e de certeza tem pouco trabalho e não faz nada...

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  8. Ah...esqueci-me de dizer que muita gente, pode até sair tarde do trabalho, mas o motivo é outro, não ir para casa aturar os filhos!
    Quando chegam a casa, já eles estão tratadinhos e na cama.
    E a prova disso é que depois de se terem divorciado, voltaram a sair a horas do trabalho.
    Infelizmente conheço gente assim. Mas penso que não se lhes pode dar o nome de pais :(

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  9. Olá. Comecei a minha vida profissional como estagiária numa das maiores e mais conceituadas e arrojadas agências de publicidade portuguesas e foi a loucura total. Chegava a sair às 4 da manhã, frequentemente. Às 5 e 6as ficava presa no trânsito da 24 de Julho. a Adorava o trabalho, mas era explorada até à exaustão. Recebia uma miséria e trabalhava como coppy junior e não como estagiária. Era jovem, sem filhos nem marido mas hoje, para mim, era completamente impensável. Para mim, não é viávelb não ver o meu filho e não estar com ele todos os dias, nem que seja um bocadinho, brincar com ele, jantar com ele e contar-lhe uma história antes de o aninhar na cama.

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  10. Bom, eu trabalho numa empresa pequena e horários também quase não os há, embora não seja da área da comunicação. Nessa trabalha o meu mano e, confesso, não sei como ainda não lhe saltou a tampa: horários que se estendem para lá de nocturnos, fins de semana a trabalhar e sem ver mais um cêntimo ao fim do mês, ainda por cima a ouvir coisas do género "se não quiseres, haverá quem queira".
    Eu neste momento estou em altura de transição, ando demasiado cansada para fazer, como tenho feito, trabalho de duas e três pessoas (quem me manda ser trabalhadora a 100%?, quem?) e nem sempre ver o sacrifício compensado (e não estou apenas a referir-me ao lado monetário). Não tenho filhos, mas tenho vida, e gosto muito dela.

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  11. E se os patrões tivessem de passar uma justificação para os empregados apresentarem aos seus filhos e cônjuges? Eu acho injusto: se eu, para ir com o meu filho ao médico, tenho de apresentar uma justificação escrita no meu local de trabalho por ter faltado durante essas horas, porque raio a entidade patronal não me passa uma justificação de me "roubar" tempo com a minha família???!!!!

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  12. foi por causa de coisas dessas que optei por abrir a minha própria empresa, com todos os riscos que isso traz. Entrava às 9h e saía sempre sabe-se lá bem a que horas. Cheguei a sair pela 1h, 2h sem ter jantado. Uma vergonha acho eu. E passava o dia a trabalhar. No local onde trabalhava penso que existiam duas razões para isso acontecer: primeiro muito trabalho para uma só pessoa. Duas seria o indicado. E depois acordavam prazos loucos com os clientes, sem respeito pelo horário dos empregados. Não pagavam horas extra e informavam que o prazo era aquele e nós que nos lixássemos.
    Hoje em dia com uma filha uma coisa dessas seria impensável. Uma coisa é sair 1h mais tarde, 2h no máximo. Agora fazer literalmente dois turnos é uma vergonha na minha opinião.
    Dizem que acontece noutros trabalhos...muito sinceramente só vi até hoje este enorme abuso na publicidade (até de madrugada!). Ainda por cima eu era copy, era a última a sair porque tinha de verificar o trabalho todo!
    Beijinho

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  13. Não podia estar mais de acordo.
    Fico completamente fora de mim quando vejo coisas destas. Quem diz que a discriminação com as mulheres é coisa do passado engana-se, e muito. E o que me choca é que muita gente da nossa geração (30's) é tão ou mais preconceituoso que as gerações anteriores. Assumamos: mulheres com filhos são, na generalidade, mal vistas nas empresas porque são elas que ficam em casa quando os filhos estão doentes, são elas que estão em todas as consultas médicas, são elas que têm que estar, basicamente, em todo o lado e chegar a tudo. Por isso quem sai a horas porque já cumpriu o seu dia e horário de trabalho (e ainda tem mais não sei quantas horas de "trabalho de casa" pela frente) é normalmente mal vista. Que tristeza. Que filhos queremos nós educar se nunca podemos estar com eles? Não é com prendas que preenchemos o vazio de não poderem ter a nossa companhia diária.
    E o que mais me irrita são as pessoas que me jogam em cara que trabalham muito mais do que eu porque eu saio às 18h e elas ficam a trabalhar até tarde. E que me dão a entender que nunca hei-de chegar a lado nenhum profissionalmente porque não faço o mesmo que elas.
    Não há realmente dinheiro nenhum no mundo que pague o tempo que passamos com a nossa família. E todos acabam por se aperceber disso, mais cedo ou mais tarde, seja por um divórcio, seja pelos filhos que não seguiram o caminho desejado, seja pelo sentimento de infelicidade e frustração que, queiramos ou não, julgo que acaba inevitavelmente por aparecer.
    Não há dinheiro no mundo que pague assistir a um piscar de olhos do meu filho ou a um serão no sofá com o marido a ver um filme. :)

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  14. Eu conheço bem esta realidade, apesar de estar mais na área de RP e assessoria de imprensa. O que acontece muito é entrar trabalho urgente dez minutos antes da hora de sair, e aí calo e faço. Agora quando sei que é a chefia que tem um trabalho parado há dias e mo dá para fazer urgentemente a essas horas, levanto-me e deixo-o para o dia seguinte...

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  15. e achava eu que era explorada ... bolas :S

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  16. Olá, Marianne,
    na agência de pub onde trabalho (de média/grande dimensão) não é assim, mas tenho noção de que na maioria delas é, principalmente em Lisboa. Contudo, os próprios profissionais da área são cúmplices e provocaram isso, porque houve um tempo (década de 90) em que era cool ser publicitário e ser cool implicava dizer que trabalhava noite dentro, dava um estilo do caraças dizer que não se tinha horários, era uma coisa muito "à frente", bebia-se umas cervejas e consumia-se outras coisas com o pretexto de que a genialidade precisa de sustento rápido e que as boas ideias podem surgir às 3 da manhã e não às 11h. Acho que as coisas mudaram, estão melhores, porque já toda a gente sabe que país civilizado é aquele em que a vida pessoal tem tanta importância como a vida profissional, mas a verdade é que as entidades patronais habituaram-se a essa disponbilidade e deprezam a boa gestão dos timings porque sabem que a malta não diz que não a um briefing passado hoje para maquetizar amanhã. Mas isto é como dizia o outro sobre os casamentos que não dão certo: a culpa é sempre dos dois. :-)
    Abraço

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  17. trabalhei alguns anos em publicidade e o sistema foi sempre esse. pelas razões que refere e por mais outras quantas que, honestamente, não tenho vontade de recordar. um dia vi-me à beira da loucura e percebi que tinha de tomar uma decisão (porque tinha uma vida de merda - desculpem-me mas não neste caso não há como não usar esta palavra - e, ainda por cima, não era minimamente feliz a fazer o que fazia). a decisão, embora difícil (porque andei meses a fio a remoer o assunto e porque não é uma decisão fácil por variadíssimas razões) teve de ser tomada e despedi-me. neste momento ainda não estou a trabalhar (já passaram cerca de 6 meses) porque, acredite-se ou não, só agora estou a começar a recuperar da estupidez que foi a minha vida durante aqueles anos. agora que arrumei a cabeça, vou tratar e arrumar o que está à volta, já com vários projectos e algumas certezas na mão, sendo uma delas esta: trabalhar em publicidade, nunca mais! (ou, porque esta coisa de dizer nunca às vezes dá asneira, voltar para publicidade só se estiver mesmo muito desesperada e não houver qualquer outra alternativa).

    Rita

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Obrigada!