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28 novembro 2011

Wannabe

Hoje armei-me em chique e fui ao Chiado (mentira: armei-me em costureira e fui à Feira dos Tecidos, que fica na Baixa, logo, muito perto do Chiado, e subi ao Chiado para ir almoçar com a minha prima que trabalha lá). Pois que ali andei eu, ankle boots, skinny jeans, cardigan, necklace, cross-shoulder bag, a passear. Aproveitei para fazer uma coisa que adoro: observar pessoas, absorver tiques, perceber comportamentos. De facto, não há zona mais bem povoada que o Chiado. Gente gira, gente fashion, gente freak. Ninguém a mais, ninguém a menos. Pessoas de iPhone na mão, pessoas de RayBan Wayfarer, pessoas de oxford nos pés.

Almocei com a minha prima, pusemos a conversa em dia, entre ruralidades e trivialidades, sem querer saber de quem estava ao lado. Fui à Fnac e não comprei nada. Fui ao Starbucks porque me apetecia uma bebida quente. Não quis perder tempo, pedi uma manga de cartão e continuei caminho de copo na mão (com salpicos a cada passo). O copo dizia Mariana, que é o nome que me apetece no Starbucks (coisa que justifica o título do post, bem entendido). Subi a Rua Garrett, virei na Rua Anchieta, fugi de uma fuga de água, contornei o quarteirão, entrei na Igreja dos Mártires (de copo do Starbucks na mão, que aquilo estava quente pa caraças e não o consegui acabar antes), voltei a descer a Rua Garrett e fui resgatar o carro ao parque de estacionamento, de volta ao meu subúrbio do coração.


[E no meio disto tudo percebi: eu nunca serei fotografada pelo Zé Cabral. Não tenho nada do que ele tem nas fotos dele. Zero. Mas se o tivesse visto por lá era eu quem o interpelava e trazia uma foto como recordação.]

Eu nunca serei Chiado. Serei sempre Cacém. Suburbana, pés na terra, pantufas e roupão manhoso em casa, sem pejo em sair à rua de fato de treino e sem maquilhagem na cara. Nunca serei ankle boots nem skinny jeans nem cardigan nem necklace nem cross-shoulder bag. Serei sempre botas pelo tornozelo, calças justas, casaco de malha, fio e mala à tiracolo. E eu até uso muitos (demasiados!) termos em inglês. Mas não sou - nem nunca serei - um ícone de estilo ou porra que o valha. Sentir-me-ei sempre peixe (muito!) fora de água no Chiado. Cada um é para o que nasce e quem nasce para lagartixa nunca chega a jacaré. E eu sou mais paredes do que pântanos. Sempre. Em tudo.

(Post publicado com vários dias de atraso...)

22 comentários:

  1. Somos como somos e admitir isso é ter coragem, é ser-se genuíno.
    Não queiramos mudar-nos só para os outros. Pois assim estaremos a camuflar a nossa essência!
    Bjs

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  2. Wow! Eu até tive que ir "googlar" aqueles termos todos!! :)

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  3. Espera lá...wow...tu vives no Cacém??? Ehehehe
    És minha vizinha, ora bolas!!!! Em que zona? Manda-me um mail, se quiseres. Ele há coisas...o mundo é uma aldeia, c'um carago!
    Às tanas, já nos cruzámos por lá!

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  4. Somos o que somos e mais nada. Temos é de aproveitar as nossas capacidades, como tu bem sabes fazer

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  5. somos o que somos, desde que sejamos sinceros para nós mesmos. anda por ai muito boa gente a enganar-se, escondendo como o que é e tentando ser o que gosta de se mostrar. mas sinceramente não percebi porque te sentiste peixe fora de água no chiado. nem lá nem noutro sitio qualquer! **

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  6. Atrasado ou não, gostei muito! Cada um é como cada qual e ninguém tem de parecer o que não é! Essa é que é essa! :)

    Beijinhos,
    Maria Leonor
    umdocedecasa.blog.com

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  7. tantas vezes me sinto assim, peixinho fora de água. E talvez não devesse ser mau, mas por vezes é.

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  8. Que engraçado, eu também moro no Cacém, para ser franca não é o sitio que eu idealizei para morar e criar os meus filhos, mas de momento não tenho possibilidades de mudar de casa. Mas não me imagino a morar lá para sempre. Eu moro perto da estação (prédios verdes e brancos que se veem do IC 19)

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  9. Eu, antes morava nos prédios cor-de-rosa do Intermarché e Fábio Lucci, mesmo ao pé do Ic 19. Agora, moro no centro, mesmo ao pé das Finanças e Correios. Também não é sítio onde queira criar os meus filhos mas, infelizmente, também não tenho forma de sair dali.

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  10. Não sou do Cacém, mas o meu "Cacém" também me orgulha. Gosto de não ser da cidade de grande, sinto-me engolida por tanta urbanidade que depois, vai-se a ver, e nem é assim tão espectacular. Mas o que eu queria dizer é que gosto de gente que se assume e que gosta de ser o que é, mesmo que isso vá contra o "socialmente correcto".

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  11. Adorei este post. Identifiquei-me profundamente. Tinha uma amiga "Cacém" que sempre quis ser "Chiado" e consegue parecer "Chiado" mas eu sei que ela não é, mas acha que passou de lagartixa a jacaré. Já não é minha amiga, mas vejo que era mais feliz antes. É tão bom sermos nós próprias sem ligar ao resto.!


    Beijinho*

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  12. Gostei mesmo muito do texto. Também nunca serei 'Chiado' nem tão pouco pretendo ser ;)

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  13. Mas és tu e, sobretudo, tens consciência de quem és. não és porque as revistas te dizem para ser ou porque apenas pretendes ser.
    Podes ser a Mariana no copo do café sem que isso te deixe constrangida porque a certeza de tudo o que és dá-te essa margem de manobra para brincares com as palavras (e a vida, no geral)

    Sendo que esbarrar com o Zé seria sempre um motivo para sorrir! :)

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  14. Cada vez que vou ao Chiado, sinto-me exactamente como tu, puff.

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  15. Adorei o post e identifiquei-me bastante... Mas eu não é só no Chiado...é em Lisboa toda. Sou da província ( como dizem ) e gosto!
    Bjs

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  16. És como és e sabes quem és. Nada mau, hein? ;)
    E ainda bem que és assim, eu gosto de te ler.
    Beijo

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  17. Adorei ler este wannabe.
    Como eu gosto do Chiado, e gostava de lá ter um metro quadrado, mas também estou sediada noutros lados e uso coisas ditas em português.

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  18. o importante é nos sentirmos bem na nossa pele ... eu sou de uma espécie de Cacém da zona norte :) :)

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  19. Mas tens piada, vês? Não é para todos.

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Obrigada!