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02 maio 2012

Pingo Doce - my 50 cents

Vi telejornais, li posts, li timelines do facebook e sabia perfeitamente que a coisa estava caótica. Mas precisava de fraldas. Por isso peguei na minha mãe - que precisava de outras coisas - e fomos espreitar o Pingo Doce do Fórum Sintra. Não consigo pôr em palavras o que vi. Centenas de pessoas enfileiradas, munidas de sacos e carrinhos vazios, à espera. As grades fechadas. Uma voz-off a anunciar que o tempo de espera para as caixas era de cerca de 3h e que a circulação dentro da loja era impossível. Quando fosse possível voltar a circular as grades seriam reabertas para permitir entradas faseadas. Olhámos para aquilo e seguimos caminho: apesar de ser uma promoção que dá muito (mesmo muito!) jeito, tenho conseguido comprar tudo o que precisamos sem promoções destas, portanto não nos juntámos às filas intermináveis e seguimos caminho. Duas horas depois, a voz-off continuava a dizer o mesmo, as portas continuavam fechadas e as filas de gente à porta continuavam sem ter fim à vista.


 


O objectivo da Jerónimo Martins (e de qualquer empresa, empresário, etc.) é apenas um: lucro. Aquilo não é uma organização sem fins lucrativos, portanto o propósito é este: gerar lucro.


Os empregados da Jerónimo Martins precisam de comer (como toda a gente) e trabalhar um dia pelo triplo do que ganham num dia normal, terem direito a uma folga extra e poderem usufruir da promoção durante mais uns dias parece-me um bom negócio.


E o que aconteceu ontem espelha bem o que se passa neste país. Houve milhares de pessoas suficientemente necessitadas desta promoção para se sujeitarem a horas de espera, de stress e de cansaço.


 


Este país não se indigna com as pessoas que esperam dias à porta dos sítios que vendem bilhetes para concertos de grandes estrelas (Madonnas e U2s da vida, por exemplo). Não se indigna com quem põe estes bilhetes à venda. Este país não se indigna com as pessoas que fazem fila à porta das Fnacs para serem os primeiros a comprar o último iPad, o último iPhone ou ou último iMac. Não se indigna com a Apple por ter estes produtos tão apetecíveis (e quem diz a Apple diz outras marcas).


 


Não. Este país indigna-se com a cadeia de lojas que disponibiliza uma promoção que, apesar de ter em vista o lucro, beneficia milhares de pessoas. E indigna-se com aqueles que, por necessidade, se sujeitaram a passar um feriado épico. Este país não se indigna com o luxo, mas indigna-se com a fome. E eu tenho vergonha deste país. Não do país da Jerónimo Martins nem do país dos que foram ontem ao Pingo Doce, mas sim do país de todos quantos criticam a iniciativa porque não percebem que, a justificá-la, está um país carenciado, depauperado e sem saída.


 


 


[E às tantas os que andaram à porta da Fnac para comprar o último iGadget são os mesmos que ontem tiveram que passar horas à porta de um Pingo Doce qualquer, para poderem comprar mercearias e etc. a metade do preço normal...]

24 comentários:

  1. Eh, pá, tiraste-me as palavras da boca... ou melhor, dopensamento, porque não sei por palavras o meu pensamento e tu tens efectivamente esse dom.... (por isso é que sigo o teu blog....)

    Posso partilhar?

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  2. Concordo. E essa mentalidade já faz parte do DNA português, de tão antiga que ela é: http://snapshotsabouteverything.blogspot.pt/2011/02/os-seculos-passam-mentalidade-fica.html

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  3. Em parte concordo contigo quando falas das filas para comprar bilhetes para concertos e outros gadjets e também quando dizes que não te envergonhas com quem foi ao pingo doce ontem aproveitar a promoção. Eu fiz como tu, fui, vi as filas, dei meia volta e vim embora. Mas não acho que tenha sido só a crise a justificar a adesão a esta campanha. As pessoas gostam de saldos, promoções e descontos e muitas vezes até comprar o que não precisam.

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  4. Exatamente o que eu penso, aplaudo de pé!
    Beijinhos e mais uma vez parabéns :D

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  5. Sim, até aceito que as pessoas tenham ido pela paixão pelas promoções. E daí? É condenável?

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  6. Sem dúvida o post sobre o assunto "Pingo Doce" com o qual mais me identifico e com o qual mais concordo (das dezenas que já vi por aí espalhados).

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  7. é verdade! comentei precisamente a mesma coisa no meu blog e hoje o FB foi ligar e desligar, assim que me apercebi que continuava a saga de comentários e críticas.

    Não percebo o zum zum sobre este tema... então não sairam todos a ganhar? Qual é o problema?!

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  8. Já me chamaram de tudo! Desde labrega a burra, idiota e por ai a fora. Porquê?
    Porque ir para as filas das gasolineiras, no dia anterior à subida dos preços, para poupar 3 ou 4 euros = porreiro pah!!
    ir ao PD poupar, no mínimo, 50€ = vergonha nacional/sinal de idiotice.

    Disto tudo retiro que ninguém compra em saldos, ninguém sabe o que são blackfridays, ninguém compra em promoção. Nada!!
    Somos um país de ricos e deus os livre de ir comprar promoções onde só há gente selvagem à solta.

    Depois ainda vêm falar da falta de respeito pelos empregados do PD porque tiveram de trabalhar coitadinhos no feriado...
    Desculpem?! Então só estes é que trabalharam? Os jornalistas fizeram o quê? E os policias? E os outros todos que trabalham sempre... ?

    M.

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  9. Adorei o teu texto e a tua opinião muito bem fundamentada. E fizeste uma comparação excelente. Realmente não se indignam quando passam horas para serem os primeiros a comprar o último iqualquer coisa ou o último G, mas ir a um supermercado abastecer a despensa para uns meses a metade do preço já é motivo para este chinfrim. Escrevi brevemente sobre o tema no meu blog e apelidei a indignação de HIPOCRISIA!

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  10. parabens a quem escreveu este blog..concordo com tudo o q foi escrito.

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  11. Era mesmo isto que eu queria deitar cá para fora!

    Obrigada :)

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  12. Parabéns, está fantástico.

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  13. Boa noite,

    Sou novo por aqui, mas gostava desde já de lhe dar os parabens!! Boas verdades que deveriam de chegar aos ouvidos de muita gente!

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  14. poder se ia justificar (e pode se) se considerarmos que os meios justificam os fins. Às vezes justificam, outras não. A iniciativa seria de louvar se não 1) fosse ilegal 2) se não se aproveitasse desavergonhadamente do estado em que as pessoas estão, às dificuldades a que chegaram 3) se não desrespeitasse brutalmente uma data que honra tudo o que muitos lutaram a favor dos direitos dos trabalhadores, intencionalmente. Indigno me com a situação do país, mas teria de ser completamente cego para não me indignar com uma manobra de Marketing tão flagrante. Se não, a JM que me prove que estou errado e baixe os preços permanentemente para, aí sim, beneficiar aqueles que passam dificuldades e desmentir que a escolha do dia foi apenas casual.

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  15. É por isto que gosto tanto de ti e de te ler! Porque não tens "papas na língua" e escreves como eu gostaria de escrever. Concordo plenamente com o post, era exactamente isto que gostaria de ter escrito lá no meu cantinho mas não me saem palavras assim. :)

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  16. Concordo contigo.
    Mas eu não fiquei triste com o país. Fiquei triste com o comportamento das pessoas, mas compreendo.
    No entanto tenho de fazer uma ressalva. O objectivo do grupo também foi político, demonstrando que as pessoas não são cidadãos mas sim consumidores.
    E isso é vil.

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  17. É mesmo por ai...

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  18. Ó triss, mas o Pingo Doce não tem que tratar as pessoas como cidadãos. Quem tem que nos tratar como cidadãos é o Estado. Nas lojas, sejam elas quais forem, somos consumidores. Não é ao Pingo Doce que cabe zelar pela cidadania!

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  19. É tudo isto que penso e que tu conseguiste colocar em palavras! Daquilo que leio e vejo, até parece que em Portugal não há crise, não há desemprego, ninguém passa dificuldades....estranho, não é?
    Ah....humilharam o povo português.... e passar uma noite ao relento, sem dormir, para comprar bilhetes para concertos não é humilhação? Pois, está bem!
    Defendem que era o Dia do Trabalhador.....mas foram só os empregados do PD que trabalharam nesse dia? Em 2011 tb trabalharam e ninguém levantou esta questão!

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  20. Talvez um pouco de inteligência nos comentários e menos demagogia.

    1. Não é inocente esta campanha ter sido no 1º de Maio, dia do trabalhador. A campanha contra os feriados passa por tentar desacreditá-los.
    2. O discurso de que estas campanhas vêm ajudar o consumidor e as pessoas mais necessitadas também não colhe. O que eu vi numa loja dessa cadeia alimentar foi mercedes e audis a encherem, literalmente, os porta-bagagens com produtos. Tendo em conta que, para usufruir do desconto, o mínimo de compra era de 100 euros, não me parece que, quem estiver com problemas de tesouraria mensalmente, se possa dar ao luxo de empatar um mínimo de 100 euros.
    3. Por último, e tendo em conta notícias que vieram à luz do dia, parece que quem suporta os 50% desconto são os produtores e fornecedores do Pingo Doce e não a organização; a somar aos prazos de perder de vista que essa (e as outras)cadeias de distribuição praticam com os seus fornecedores. Como diz um velho ditado, com as calças do meu pai também eu sou homem.

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  21. MaKiavel,

    Concordo em absoluto consigo. Até que enfim, alguém que vê um pouco mais longe, para lá do óbvio.

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Obrigada!