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24 outubro 2012

Perdão

Perdão se não me entusiasmo perante a moda. Perdão se, para mim, sapatos são sapatos, calças são calças e roupa é roupa: uma coisa que se veste para combater ou acompanhar as especificidades climatéricas. Quando compro uns sapatos não compro nada além de uns sapatos. Não compro status nem os sapatos dizem o que quer que seja sobre mim. Não pago por posição social, não pago para ser vista de determinada forma por quem lida comigo e me vê no dia a dia. Sou apenas e só uma mulher. Nada do que visto reflecte ou omite aquilo que sou, aquilo que penso, aquilo em que acredito. Não uso a roupa como forma de expressão porque não é essa a função que lhe reconheço. Para me exprimir falo e escrevo. Sou clara no que digo e não permito que se tirem ilações acerca de mim com base em objectos como sejam saias, blusas e malas.


 


Não, não ando sempre de fato de treino, não saio à rua de pijama. Não pelos outros, mas por mim. Sim, uso vernizes e maquilho-me e uso isso para me sentir bem comigo, não para ter aprovação externa. Não entendo a necessidade que existe de fazer a roupa falar por nós. E quem diz a roupa diz a maquilhagem, os brincos, os fios e os relógios.


 


As melhores pessoas que conheço são completamente despojadas de ligações emocionais a trapos. Ocupam a mente com coisas mais úteis que, de facto, acrescentam àquilo que já são. Não se perdem na embalagem esquecendo o conteúdo. Não que quem o faça seja má pessoa. Conheço bastantes que vivem da e para a moda, que se expressam por essa via e que a usam enquanto meio de afirmação. Não é o meu caso e não pretendo que seja.


 


Por isso, perdão se não sou ovelha desse rebanho. Não sou mesmo. Perdão se reviro os olhos perante conversas insistentes no tema. Claro que acontece falar de roupa com algumas pessoas. Porém, acontece cada vez mais ouvir falar de roupa e manter a boca fechada. Há muito que deixei de dar para este peditório. Não entendo, por exemplo, a corrente fashionista aplicada a bebés e a crianças pequenas. Não entendo roupa pouco confortável porém de marca, só porque sim. Não entendo a necessidade de afirmação por via da roupa. Nunca me passaria pela cabeça enfiar os meus filhos em t-shirts Ralph Lauren ou em gabardines Burberry's. Uma t-shirt é uma t-shirt, bolas! Uma coisa é ensinar aos miúdos a importância de se andar limpo e asseado. Outra é fazê-los acreditar que só se anda limpo e asseado de Ralph Lauren para cima.


 


Não é assim que quero criar os meus filhos. Não mesmo. Até posso vir a esbarrar numa criatura fashionista e preocupada com o que a sua imagem diz ao mundo, mas não é isso que pretendo fazer. Bem pelo contrário. É por isso que, cá em casa, se compra na Primark, na Zippy, na H&M e, ocasionalmente, nos saldos da Zara. Tudo o que seja mais de cinco euros por uma t-shirt é um desperdício (até cinco euros já são um desperdício, tendo em conta que compro por metade do preço, e giras, ainda por cima). Ah, mas as t-shirts baratuchas duram menos. E desde quando é que os miúdos pequenos vestem a mesma roupa durante muito tempo? Eles crescem e a roupa deixa de servir... Nunca me hão-de ver a  comprar sapatos a 400 euros porque... sapatos nenhuns no mundo custam 400 euros a ser produzidos (ok, eventualmente sim, se forem cravejados de diamentes ou assim). Os meus sapatos do casamento nem dez euros custaram e o máximo que dei por um par de calçado foram 70 euros, por umas botas, e já achei um exagero. Portanto 400 euros por uns sapatos só porque a sola é vermelha?? Lamento, mas não.


 


Esta é a minha visão limitada e pequenina desse "grandioso" mundo que é a moda. Perdão por isso, por dar zero importância ao assunto e por ser péssima companhia neste âmbito.

11 comentários:

  1. Concordo em absoluto. Até gosto de roupa, sapatos, carteiras, mas não quero saber da marca, por mim até pode ser da feira, desde que eu goste who cares? Além disso sou muito mais ponderada agora, só compro se realmente precisar e não apenas por comprar. E sim sou como tu 400 euros por uns sapatos? Um completo exagero e uma parvoíce. Mas pronto são apenas opiniões :)

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  2. É impressão. Estou é um bocado cansada de ser julgada pela minha falta de paciência/gosto/interesse pelo tema. Como se, por não ligar peva a isto, fosse menos pessoa, entendes?

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  3. Também penso assim, até porque se tivesse mts € para gastar de forma fútil, não seria em livros e olha que me ocorre mta coisa :D

    Mas em relação as crisnças, god, é meeesmo verdade! Para quê dar um dinheirão por roupa que é usada durante meses? Sapatos que depressa deixam de servir e que muitos só combinam com X vestido ou Y casaco? Eu cá sou adepta da Primark, Zippy, H&M, C&A, CODE, e por vezes feira mesmo (que ainda vende em larga escala made in portugal e não é barata às vezes) ....etc

    Gostei do post :)

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  4. Concordo! Em miúda nunca usei roupa de marca, 80% da roupa herdei da minha irmã e não fiquei com nenhum trauma por isso.
    Ainda hoje quando uma de nós deixa de usar alguma peça porque já não se sente bem com ela, ou porque deixou de servir dá à outra. Felizmente não o temos que fazer por questões económicas, continuamos a trocar roupa porque fomos educadas com a consciência de que nada deve ser desperdiçado.

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  5. E quem é que te julga por seres dessa (desta) maneira que és? E quem é o parolo que só fala deste tipo de temas, sobretudo com alguém que se está claramente borrifando para tal?

    A sério, manda a dita (ou as ditas) alminha (s) dar uma bela de uma curva ao bilhar grande.

    BTW, estou de verniz vermelho. Quando é que almoçamos?

    Beijoooo

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  6. Deal. Tenho de ir ao Odivelas Parque buscar o cartão de cidadão da gaiata, encontramos-nos no Dolce Vita?

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  7. Se eu soubesse escrever tão bem quanto tu, este texto poderia ter sido escrito por mim. O pior é que há cada vez mais gente que se define pelo que veste. Enfim.
    Beijinhos

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  8. "Nunca me passaria pela cabeça enfiar os meus filhos em t-shirts Ralph Lauren ou em gabardines Burberry's. Uma t-shirt é uma t-shirt, bolas! Uma coisa é ensinar aos miúdos a importância de se andar limpo e asseado. Outra é fazê-los acreditar que só se anda limpo e asseado de Ralph Lauren para cima."

    Estão amaldiçoadas ou dão coceira? Por favor, cada um veste aos filhos aquilo que quer. E não me parece que nenhum desses que lhes veste Ralph Lauren explique às crianças que aquilo é sinónimo de higiene..
    Quem lê isto vê um preconceito - como se todas as crianças que vestem Ralph Lauren fossem ser educadas na base desses disparates.

    Percebo todos os pontos do seu texto. Não percebo que ache que quem se preocupa com isso seja por causa de status/ascensão social/aparências. Já pensou que podem, simplesmente gostar..? Tal como gosta de pintar as unhas..
    "Sim, uso vernizes e maquilho-me e uso isso para me sentir bem comigo, não para ter aprovação externa." - os outros também, mas com saias, sapatos, malas e vestidos..

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  9. Rita,

    A Marianne não é pessoa que precise de advogados e/ou defensores, mas acho que vale a pena dizer que no seguimento deste post, agendámos mais um dos nossos almoços. Sim, eu e a Marianne. A que veste zippy, primark e zara aos gaiatos com a que veste ralph lauren, knot e afins à gaiata. Preconceitos? Nada disso. Não passou de um desabafo dela e de uma demonstração do que valoriza.

    Um beijinho

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Obrigada!