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18 outubro 2012

Um país de putas (e de filhos da puta)

Eu não sei se quem está lá em cima (e não, não estou a falar de Deus) já reparou bem no que anda a fazer ou se, quais burros com palas nos olhos, se limita a ver a curta distância e a observar a realidade dos amiguinhos que, estando também lá em cima, se regem mais ou menos pela mesma bitola e, parece-me, nada disto ainda os afectou.


 


A verdade é esta: este país está sem ar. Olho para as pessoas e só vejo olhares tristes, angustiados. Olhares de quem não sabe se vai ter o que comer a meio do mês, se vai poder comprar meias para os filhos, agora que vem aí o Inverno. Vejo gente desinspirada, desmotivada, sem vontade para nada. Porque nada vale a pena, neste país que nos assassinou, mantendo-nos vivos (e agora lembrei-me do Walking Dead: acho que tem tudo a ver).


 


Não há esperança. Roubam-nos por todos os lados, a toda a hora, com a desculpa da crise e da austeridade e do tem que ser, para pormos de novo o país a andar. Um país que não produz riqueza, que não exporta, não tem por onde andar. Anda apenas de empréstimo em empréstimo, de tranche em tranche, rumo ao endividamento final.


 


Olho para o lado e vejo que as pessoas deixaram de ter por que lutar. Não importa quanto lutemos, com quanta força lutemos: vem a dar no mesmo. Já mal temos para sobreviver, os nossos filhos conhecem uma realidade bem pior do que a que a minha geração conheceu em criança. Não era isto que os nossos pais queriam para nós, não é isto que nós queremos para os nossos filhos. Olho para o lado e o que vejo é uma nação que já não tem nada a perder. E todos sabemos do que são capazes (ainda que apenas em teoria) as pessoas que não têm nada a perder, certo?


 


Por isso, em busca de salvação, as pessoas rendem-se aos esquemas que lhes permitem sobreviver, alimentar os filhos, governar a casa. Não faço ideia de quantas mães terão hoje que vender o corpo para que os filhos possam comer. Calculo que sejam muitas. Muitas mulheres que, vendo o fundo do túnel às escuras, se valem do que têm e se vendem. É isto que este tempo nos está a fazer. Está a criar um país de prostitutas, que são muito mais dignas do que quem nos trouxe aqui, que têm toda a dignidade do mundo em si. Porque elas não têm alternativa, fazem o que podem para que os filhos sobrevivam, como é normal, razoável e expectável. Eles, aqueles que tinham alternativas, escolheram enterrar-nos vivos, sem ar, sem ter como sobreviver. Portanto, e fazendo o paralelismo com a história do que qual terá nascido primeiro, a galinha ou o ovo, neste país as putas nascem porque há uns filhos da puta que a isso obrigam.


 


Eu não consigo mesmo vislumbrar soluções. Já achei que isto se ia resolver. Hoje não acho. Acho apenas que nos mataram a esperança, que nos tiraram a motivação, que perdemos as forças para fazer este país acontecer. E não entendo como é que eles, os que estão lá em cima, ainda não perceberam que precisam de nós, que estamos cá em baixo, para resolver este buraco negro. Sem nós, sem o povo, este país há-de morrer asfixiado. É em nós que está a salvação da crise, porque somos nós que trabalhamos, que produzimos, que fazemos a máquina andar. E o que este governo ainda não percebeu é uma coisa muito simples:


 


Não é com vinagre que se apanham moscas.


 


Portanto parem de nos matar aos bocadinhos. Abram os olhos e arranjem soluções viáveis, que não matem o povo que faz este país andar. Os nossos brandos costumes já foram bem mais brandos e não me surpreenderá muito ver acontecer o que fazem as pessoas quando já não têm nada a perder.



10 comentários:

  1. Subscrevo inteiramente. Estou sem ânimo nenhum para este país e para o que quer que aí venha. Não estou no desespero, mas começo a ter a certeza que qualquer dia andarei a penar à séria. Não devia ser assim. Tudo está errado neste país.

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  2. Marianne... não acrescento nada porque me parece que disseste tudo e muito bem.

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  3. O pior é mesmo vermos uma pessoa chegada, em desespero, dizer que a única coisa que falta é mesmo entrar no parlamento e começar a atirar balas a todos os que lá estão. Sem qualquer arrependimento porque, lá está, já não temos nada a perder.
    Eu também tinha esperanças de que as coisas fossem melhorar, mas não dá mais. Quando imagino o meu futuro, quando me vejo com o meu curso (e isto ainda está longe, porque não há dinheiro para ir para a universidade), não me vejo aqui. E pergunto-me se eles continuam a achar que a nossa geração vai ficar em Portugal. Eu não quero.
    Marianne, bom resto de semana, dentro do possivel. Beijinhos

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  4. Uma autêntica desgraça e vergonha é o que se passa no nosso País. Só vejo pessoas angustiadas, aflitas, sem saber que rumo podem dar às suas vidas. Olho para os meus familiares e amigos que só falam em emigrar, fugir para bem longe.

    Mas, depois olhamos à nossa volta e deixar os nossos pais, os nossos amigos, tudo o que conhecemos é aflitivo.

    Um beijinho
    e
    ainda acredito que nós, enquanto sociedade civil ainda vamos dar a volta a isto e dar cabo desta classe maldita que está lá no cimo...

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  5. Sei que a solução não passa só por isto, mas era acabar com as regalias e privilégios dos políticos, desde os carros que são comprados para os meninos pagos pelo Estado a reduzirem-lhes os salários em 50%. Isto era só para começar, já que os sacrifícios têm que tocar a todos. Quanto mais medidas de austeridade "inventam", mas o país se afunda.

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  6. Eu que tenho 19 anos, estudo e penso exactamente o mesmo! Não sei o que mais nos podem fazer e mais tirar, já só penso em acabar os estudos e fugir daqui porque não vejo futuro neste país. A questão é que não pode tudo desertar muito menos as pessoas que já têm vida feita, mas até quando iremos aguentar? Até já a esperança nos tiraram... E ontem em conversa numa aula questionamos se deveríamos ficar aqui e tentar melhorar as coisas, mas não me parece que seja possível, pois não nos dão condições para tal. Os mais novos já não são capazes de pensar no país mas sim, e só, nas suas vidas, porque se aqui ficarmos é para morrer à fome, um retrocesso que não deveria existir no século XXI, muito menos quando nos matamos a estudar e temos muito mais noção das coisas do que há umas décadas atrás...

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  7. Eu muito suspiro...
    Bom fim-de-semana!

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  8. É que é mesmo isto, grandes verdades, nuas e cruas. Bem haja Marianne por escrever assim.

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  9. Maravilhoso texto, fantástico e tão verdade. Antes de me pirar daqui para fora, também faço tudo pelos meus filhos, se for necessário.

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  10. Todos os dias penso que será de mim e das minhas meninas. Que Deus e alguém nos proteja, se não acho que até para baixo da ponte vou ter de ir.
    Ando sem força

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Obrigada!