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14 novembro 2012

Conto-te #2_Morena de olhos tristes

Ana é como um mil-folhas, um doce construído por camadas. Olhando para ela, enquanto toma a bica escaldada no mesmo café de sempre, todas as manhãs, olhando-a enquanto sorri a quem a atende e já lhe conhece as preferências, não se chega a perceber. As camadas, alegres à superfície, escondem mágoas incalculáveis. O amor que lhe morreu num dia triste, os passos que deu a seguir, sempre a tentar reerguer-se, sempre a tentar sorrir com vontade novamente. Ana esconde-se debaixo das suas camadas, naquele ninho só dela, onde pode ser triste sem que esperem dela sorrisos. Ana esconde no sorriso doce todas as penas do mundo. Carrega no peito a dor imensa da perda. Ampara no colo os sonhos que sabe que não poderá cumprir. Ana sorri e quem a conhece na camada exterior diz que é menina doce, tranquila feliz. Mas as camadas ´mais fundas albergam lágrimas, saudades, uma dor fininha que lhe aperta o peito. Ana sobrevive porque acredita que um dia será capaz de voltar a sorrir com os olhos. Quem a olha mas não a vê, só repara no sorriso doce, mas não chega a ver os olhos castanhos cheios de mágoa. Os sorrisos enganam, os olhos nem por isso. E Ana, morena de olhos tristes, sorri apenas com a boca, mesmo quando os olhos choram e luz nenhuma lhe basta para a iluminar.

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