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23 janeiro 2013

Conto-te #6_A little bit dead

Minto-te todos os dias. Minto-te quando digo que ficarei contigo para sempre, que estarei ao teu lado quando chegar a hora do teu último suspiro. Não sei se serei capaz, por isso minto. A doença está a ceifar-te aos bocadinhos, mas já me matou. Eu não era esta pessoa fraca e pouco combativa. Eu olhava de frente para as coisas, agarrava bois por cornos afiados, enchia o peito e não recuava. Foi assim que me conheceste, duro, quase frio. Disseste, a dada altura, que te apaixonaste por mim porque sentiste que eu era o muro que nunca iria desabar à tua volta. Não imaginas como esta recordação me dilacera agora, que mal tenho forças para respirar.


Vejo-te cada vez mais apagada, cada vez mais distante. Há muito que desististe da luta que sabes não poder ganhar. Aceitaste que é disto que morrerás e rendeste-te. Aguardas pacientemente a morte, certa de que fizeste tudo o que podias e de que soubeste quando deitar a toalha ao chão.


Eu não sei lidar com isto. Não consigo imaginar que daqui a uns meses (ou talvez apenas daqui a alguns dias) não vais estar aqui. Não imagino o momento em que me darão a notícia. Não imagino os meus dias sem a correria para o hospital, para te abraçar e para ganhar forças contigo.


Nunca me viste chorar. Viste-me zangado quando me disseste que era o fim e que só te restava esperar. Ao pé de ti continuo a ser o rochedo inquebrável. Mas eu já não sou essa pessoa. E minto-te, não para te dar a força que já não tens, mas para que não vejas a pessoa em que me tornei. És tu que tens os dias contados, que estás numa estrada sem saída. Mas sou eu que estou morto por dentro, que perdi a coragem, que me deixei vencer. Não quero que conheças este lado fraco e quebradiço. Não quero que te desiludas comigo. Quero que leves contigo a memória dos dias em que eu não precisava de mentir e em que era mesmo a fortaleza em que podias apoiar-te sem medo. Hoje já não sou nada disso. Hoje, mesmo vivo e saudável, estou mais morto do que tu.

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