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01 fevereiro 2013

Um texto GENIAL sobre a condição feminina

Este texto foi escrito por uma amiga (que quer manter o anonimato). Li-o e manifestei vontade de o divulgar. Vale muito a pena ler...


 


Acordei cedo. Tinha um meeting num hotel caro do centro da cidade às 8h45 e vivo na periferia.


 


O meeting era um encontro europeu de mulheres profissionais. Olhei para as minhas unhas, por arranjar, vai para mais de 3 semanas. Tomei banho e aprontei-me, nada convicta da mulher em que me tornei. O cabelo não me obedece, a pele não anda bem e eu já não sorrio o suficiente para que os olhos me brilhem. Não tenho tempo para mim. Lembro-me pouco de mim, na verdade, a não ser nestes confrontos com as mãos ou o espelho.


 


Ajudei a aprontar as crianças. Será o pai, pontualmente, a levá-las ao colégio hoje.


 


Entro no carro e a luz do dia, mesmo que sombria, é mais cruel que a da minha casa de banho. Acho que não coloquei anti-olheiras suficiente. Vou pelo caminho a pensar na lógica de acordar mais cedo para ir a uma conferência que vai versar sobre a vida louca das mulheres profissionais. Na verdade, aquela conferência é um oximoro. Nós, mulheres, no íntimo, já temos sentido prático suficiente para saber que há ali um quê de fingimento naquele espírito de executivas que adquirimos. Que na verdade, a manhã teria sido mais fácil e mais produtiva e mais lógica se pudéssemos ter preparado os cereais com calma às crianças, no tempo que desperdiçamos a colocar sombra nos olhos e blush nas bochechas. Sobretudo, tudo teria sido mais lógico se não tivéssemos que encarnar um personagem com aspecto de quem não prepara cereais às crianças, não lhes limpa o rabo, nem convive com essas coisas mundanas. Saí. Pelo caminho ataca-me uma dor de barriga infernal. A miúda teve diarreia no fim-de-semana e provavelmente passou-me a virose.


 


Outra coisa que também não combina com mulheres executivas de sucesso são diarreias de filhos.


 


Não há wc’s na autoestrada. Transpiro de pânico e quando finalmente consigo estacionar no parque subterrâneo, corro para o wc onde sei que também vão todos os dias as prostitutas que se vendem no parque do centro da cidade. Acho que somos tão diferentes, eu e elas, na nossa dignidade e nas nossas escolhas, mas, na hora da descarga intestinal devemos correr todas da mesma forma para a casa de banho, naquele cubículo de alívios íntimos.


 


Saio de cabeça erguida, recomposta e, dirijo-me ao hotel sumptuoso, na certeza de que ninguém testemunhou que ainda há pouco eu era uma mulher frágil, a saber-se feia e olheirenta, de unhas por cuidar, traída pelos intestinos.


 


Instalo-me numa mesa em frente a croissants, e compotas, e chás, dispostos em atoalhados imaculados. Olho à volta e vejo mulheres lindas de cabelos cuidados, unhas irrepreensíveis, e uma nuvem invisível de mistura de fragrâncias caras no ar, que me deixa nauseada.


 


Quem são aquelas mulheres? Ainda nem são 9 da manhã e ali estão, com ar de quem se preparou durante 3 horas para aquele momento. Que segredos íntimos, que dores de alma esconderão naquela aparência irrepreensível? Terá sido possível preparar cereais com aquelas unhas? Com aquelas unhas também se limpam rabos de filhos com diarreias?


 


A conferência começa com a frase: “Está na hora do mundo perceber que nós não queremos ser heroínas. Queremos apenas ser mulheres que trabalham",… e eu olho em redor e, aparentemente, vejo tudo menos mulheres que querem ser apenas mulheres que trabalham. Confronto-me antes com mulheres que aspiram ser Barbies, e que concomitantemente, também têm uma profissão, se bem que eventualmente, ou aparentemente, a atracção por essa condição está sobretudo no facto de as aproximar do status de belas heroínas, com o qual sonham verdadeiramente. Pensarão o mesmo de mim?


 


À tarde, procuro dentro do saco que me deram na conferência, e não me engano: Junto aos folhetos das empresas, do lápis e da caneta, e do bloco de notas, há também a oferta de 4 amostras de creme anti-rugas duma marca tão cara que neste momento não posso comprar. Tenho imensa roupa para engomar lá em casa. Quem sabe o vapor do ferro não me abre os poros e me limpa a pele?


 


Trabalho, à tarde. Saio do trabalho a correr, apanho um trânsito infernal de chuva, enquanto na rádio escuto notícias degradantes do estado da economia. Apanho as crianças no colégio já passa das 19h e, dentro do carro, disputam ambos a minha atenção, atropelando-se a contar-me coisas do dia, enquanto eu vou monitorizando o relógio. Ainda há banhos, um jantar e às 21h estarei de volta ao colégio para a reunião intercalar da mais nova, enquanto o pai vai deitar as crianças. Amanhã trocamos e vai ele à reunião do mais velho.


 


No caminho para a reunião, liga-me uma amiga. Vive longe. Muito longe. Atendo-a como se a tivesse visto há 5 minutos, quando na verdade não estamos juntas há 20 anos. “Desculpa, vou a caminho da reunião da escola” – “ok, ok, falamos amanhã”.


 


Desligo e tenho uma epifania:


 


Há qualquer coisa de piscadela de olho entre algumas mulheres quando se gostam e tiram a máscara. Uma identificação. Uma compaixão mútua. Um colo que se dá, nem que seja numa chamada que se desliga rapidamente… por todas sabermos este eterno segredo íntimo feminino: o mundo inteiro é carregado sempre às nossas costas.


 


Na verdade, é com essa amiga que muitas vezes discuto as coisas da vida sem máscaras. As coisas mundanas. Os detalhes que fazem os dias serem dias com coisas boas e más. O mundo que nos rodeia. 


 


A minha amiga vive noutro país da Europa, um pouco mais acima, um pouco mais a norte. Discutimos, por exemplo, toda a controvérsia em torno das palavras proferidas pela Isabel Jonet (do Banco Alimentar Contra a Fome), que diz que temos todos que aprender a viver mais pobres. Ambas concordamos com a base da ideia mas, não com a sobranceria moral da mensageira. 


A minha amiga (que também é portuguesa mas, não vive cá) exemplifica com hábitos culturais portugueses enraizados: explica-me que no país onde vive todos levam marmita para o trabalho, que faz parte da cultura instituída, enquanto nós portugueses insistimos em almoçar fora. E o nosso diálogo prossegue assim:


 


Eu: "Acho que não há como comparar hábitos de culturas diferentes agarrando apenas um ou outro detalhe pela rama porque a coisa sai sempre enviesada: Sim, no norte da Europa, as pessoas levam todas marmitas para o trabalho desde o topo até à base, e isto acontece não porque essas pessoas sejam necessariamente mais poupadas mas, porque culturalmente também já existe há carradas de anos uma maior flexibilização da gestão de horário de trabalho. Em Portugal, e mal, as pessoas continuam a sair do trabalho tarde e a más horas e a enfrentar filas de trânsito. Resta-nos muito pouco tempo útil do dia para nos dedicarmos a tarefas domésticas, culinárias e banhos de filhos. A logística das marmitas é uma questão de organização, mas também de tempo. E só de escrever isto apetece-me chorar, confesso. Ainda não arranjei tempo para encaixar marmitas, alimentação variada, banhos, engomar roupa, jantar e histórias aos filhos. Só chego a casa perto às 19h30, muitas vezes às 20h. Mas sim, há mães com menos olheiras que eu que o conseguem, e mandam sopas diferentes todos os dias."


 


Ela: "Tens razão,  são modos de estar; se eu chegasse a casa as 8 da noite já estava tudo a dormir. E mais: confesso, os meus filhos já só tomam banho 5 dias por semana. Ao sábado não tomam porque senão eu enlouqueço com a rotina. E há sempre um ou outro dia que simplesmente não aguentamos, como por exemplo nos dias de natação (o mais novo não vai nadar mas, eu não tenho coragem de o enfiar na banheira quando chego a casa lá pelas 6.30pm). Para que conste, em minha casa a sopa foi abolida. O meu filho leva para a escola 2 sandes ou de queijo ou de fiambre, ou misto; 1 iogurte para beber; um molho de uvas, para o almoço. E agora, quem tem vontade de chorar sou eu. Mas, como já aqui que falamos são questões culturais. Normalmente as 6.30pm já está tudo jantado. A conjuntura é outra, as infraestruturas diferentes."


 


Eu: "Tens razão. Se eu mandasse sandes para o almoço dos meus filhos, provavelmente seria recriminada socialmente aqui. Quem sabe teria uma assistente social à perna mas, aí é normal. A Jonet tem quase de certeza quem lhes prepare as marmitas. A caridade muitas vezes, e ainda que de forma inconsciente (não posso garantir que seja o caso da Jonet, porque não a conheço pessoalmente, e já que o meu filho já foi colaborar com o Banco Alimentar entregando sacos nos hipermercados, quero crer que não seja por aí), a caridade, dizia eu, e a vontade dos ricos em providenciar alimentação aos pobres é muitas vezes tão-somente uma noção muito clara (umas vezes consciente e outras inconsciente) de que os pobres são mais domáveis sem fome. Os pobres podem não ter onde dormir, podem não ter trabalho, podem vestir qualquer coisa mesmo que esfarrapada, e ainda assim continuar ordeiros, deixando que os ricos continuem a viver descansadamente ricos. Aquilo que faz com que um pobre se rebele à séria é a fome, aquilo que faz com que o pobre enlouqueça é ver um filho com fome. Uma instituição que garante que os pobres não têm fome, garante por si só que os ricos continuem a viver tranquilos na sua riqueza, sem risco. Por vezes a caridade é tão só uma necessidade."


 


Sou pouco dada a tribos. Qualquer tribo: da esquerda à direita, religiosa, desportiva. Acho que tenho um problema qualquer com team-building em ambientes previamente delimitados. Quando as coisas se começam a agrupar, em tribos onde se gritam pensamentos de unanimidade, dá-se-me um nó no estômago e mudo de freguesia. A unanimidade que se constrói a partir de um só lado da barricada previamente definido, é uma unanimidade fácil e hipócrita. Aflige-me, porque  esse uníssono enviesado se confunde com perfeição e tolda-me a visão periférica... E, na verdade, neste momento, dava-me jeito não ser assim. Dava-me jeito parar de pensar e entregar-me a uma tribo cheia de ideias feitas e unânimes, que me guiasse os pensamentos porque ser assim, “relativamente independente”, cansa-me.


 


Sei que aqui despejei um monte de informação meia desconexa mas, olhem, desculpem lá. É a desesperança a falar por mim.


 


O que quero dizer é que sinto que é nesta hipocrisia que o mundo pouco pula e pouco avança. A tolerância e a abertura e partilha de ideias de diferentes visões talvez fosse mais proveitosa. A queda do preconceito também (e todos temos os nossos). Porque é que lá no hotel sumptuoso não estavam também as putas do parque, uma mulher-a-dias, uma mãe "só" mãe? Porque não sabem comer croissants folhados sem fazer migalhas? Porque estragavam as fotos? Será que essas mulheres não teriam inputs importantes a dar para o todo? Não teriam nada a ensinar sobre o que é ser mulher trabalhadora nos tempos que correm? Ou não tinham unhas à altura?

13 comentários:

  1. ...da-se! grande murraça no estômago! Doeu... (e agora sou eu que tenho vontade de chorar)

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  2. Marianne,

    Obrigada por partilhares um texto tão bom, tão bem escrito, tão duro e tão verdadeiro.

    Parabéns à tua amiga por conseguir pôr as palavras a falar tão bem.

    Continuarei a seguir este blog que tão boas leituras nos proporciona.

    Obrigada uma vez mais e beijinhos,

    Patrícia

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  3. Muito muito muito bom!
    Faz pensar, faz doer, acorda muitas alminhas para a dura realidade. E é um bálsamo para essas mulheres de unhas por arranjar e cabelo desalinhado, que tantas vezes se sentem oprimidas pelo espelho e pelas barbies que desfilam na sociedade. Bravo! Uma grande ovação à autora deste texto.

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  4. Vou repetir um comentário, mas....

    .... fosga-se.... que murro no estômago!

    Mas tb vou ser sincera... já não aguento mais chorar, por isso vou tentar entrar numa das tais tribos.... e não pensar!!! Já não consigo pensar mais!!

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  5. Revi-me, revejo-me! As pequenas fragilidades da nossa realidade expostas de forma crua, mas também orgulhosa!
    Parabéns à Mulher, com M grande, que escreveu este texto e a si Marianne, que teve o discernimento de o partilhar!

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  6. Identifico-me totalmente!
    Infelizmente tentamos sempre primeiro enveredar por uma imagem profissional, quando felizmente mais tarde concluímos que apesar das unhas, do cabelo, das olheiras, das diarreias, somos muito mais felizes junto das nossas crianças. Partilho totalmente a opinião dessa mãe.
    Chorar também faz bem, lava a alma e limpa a visão para ver realmente o que nos é importante.
    Obrigada Marianne pela partilha. Um obrigada também a essa mãe-coragem.

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  7. Revejo-me completamente e, ao mesmo tempo, sou uma das que deixou as filhas ainda a dormir de manhã para uma série de reuniões cedo, almoço de trabalho, beberete à tarde, com uma barriga de 6 meses, saltos altos, vestido de cocktail e exemplarmente maquilhada.
    Ao mesmo tempo, a marcar desesperadamente assistência técnica ao frigorífico que avariou e a tentar não perder o contato com o mundo real e as amigas que vão ficando para trás... E com um nó no estômago que me dá vontade de chorar quando vê as horas, o dia, os anos a passar-me à frente.

    Hipocrisia? Sobrevivência? Foi "a vida que escolhi". Beijinhos e muito obrigada por partilhar!

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  8. A vida tem de ser levada com algum sonho, ilusão... Este seu brilhante texto é uma verdadeira chamada ao planeta Terra. Não acredito que hajam vidas de "mar de rosas".

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  9. Assim de repente, pensei que era eu, esta manhã...
    a decidir-me iluminar a casa de banho com mais luz do que o sol, para se verem todas as mazelas que só descubro no espelho retrovisor...
    Mas depois vi que faltavam sogros adoentados na equação, logo não era eu.

    É mesmo assim...mas eu estou a caminho da "europa"...correndo o risco da critica da família e da vizinhança.Há coisas que não dá. Pronto, não deu.Faço o que posso.

    Gostei muito de ler

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  10. eu vim aqui para já não sei bem como...

    enfim... estive a ler este texto, e não consigo deixar de me questionar sobre o título... porquê "condição feminina"??? nas dificuldades da conciliação entre paternidade e trabalho, em que é que os homens são diferentes das mulheres??? os pais trabalham mais do que as mães? os pais dão menos atenção aos filhos do que as mães?

    eu concordo com quase tudo o que está escrito. só não concordo é que um problema "feminino"...

    (como já devem ter percebido, eu não sou mão, sou pai :)

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  11. João, teríamos pano para mangas... Por muito que se ande há anos e anos a lutar pela igualdade entre os sexos, essa igualdade será sempre teórica porque há coisas que não dá para ser o homem a fazer. Parir e amamentar, principalmente. Depois, por muito que haja casos (acredito que seja o teu) em que o homem faz tanto como a mulher, esses casos não são a maioria. Dei este título muito for força da minha situação pessoal, embora não tenha sido eu a escrever o texto. E dei este título porque o evento a que a autora foi - e que motivou a escrita do dito texto - era um encontro europeu de mulheres profissionais. Só por isso. Nada contra os homens que já perceberam a cena da partilha de tarefas. Mesmo nada contra os homens que já perceberam a importância da sua presença enquanto pais. Tomara eu que fossem todos assim. Tomáramos todos, acho.

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  12. João, de certo modo discordo de si: Tudo o que leio no texto me remete para a minha condição feminina. Não porque nele a autora não aborde temáticas que eventualmente também afectem os homens mas, porque o texto é claramente saído da cabeça duma fêmea, emocionalmente falando, a todos os níveis. E não têm exclusivamente a ver com a maternidade. Em nenhum momento do texto se refere o homem no que diz respeito à dicotomia ou à comparação. Em nenhum momento se atribuem sequer "culpas de género". Curiosamente, sim, se quisermos falar de comparação, a autora compara-se com outras mulheres. Por contraste ou por afinidade. Nunca com homens.
    A mim parece-me mais que este texto se centra no grau de exigência que as mulheres se auto-atribuem. E esse eterno elevado nível de exigência custa caro, todos os dias, e há sempre qualquer coisa que se perde pelo caminho... é nesse confronto que a autora se encontra, parece-me a mim. Não no confronto com os filhos, não no confronto com o marido mas, no confronto consigo própria. Ao fim do dia, o que é feito de si própria?

    No que se refere aos pais, sim, o João tem razão. Certamente que um homem que hoje em dia pare para pensar no seu dia, também ele se encontra numa encruzilhada. Diferente desta, no entanto. Imagino que para um homem, por exemplo, seja difícil sentir ainda hoje, culturalmente falando, o peso às costas de ser o pilar de sustento da família, com todas as ameaças de desemprego de que se sente rodeado. Um homem não compete com outros homens em estar primorosamente apresentável nos eventos de trabalho, com a maquilhagem no sítio, mesmo que tenha passado a noite inteira a segurar a cabeça dum filho que vomita. Competirá noutras coisas, certamente.
    Por isso, gostava muito de ver um texto destes escrito por um homem, com o grau de honestidade que está expresso neste.

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Obrigada!