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30 abril 2013

Mais duas ou três coisas da nossa língua amada

Ç ou C? Simples. Se a vogal seguinte for um e ou um i, então é sempre, SEMPRE, C. Se a vogal a seguir for a, o ou u, então depende do som.


 


Exemplos:


 


"Vou à caça. Nunca cacei nada, mas hoje vou ver se caço".


 


"Esta cidade é linda. Vocês não acham? Tem tantas construções de aço...".


 


"Fui acusado de roubar açucenas".


 


Portanto coisas como çidade, veloçidade e voçês são como os unicórnios: muita gente acredita neles, mas não existem!


 


Quando a palavra tem uma sílaba com som "ssss" usa-se a cedilha, nos casos em que ao C se segue um A, um O ou um U. O C junto do E e do I nunca tem um som "q", mas apenas "ssss" - Cidade, por exemplo. Já com as outras vogais pode ter som "ssss" ou "q", sendo que para ter o som "ssss" leva a cedilha - traça, caço, açucena / caso, coser, cueiros.


 


 


***


 


ou À? Simples: se se refere a tempo ou se pudermos substituir a palavra por uma forma do verbo existir, é sempre, SEMPRE, Há. Se se refere a coisas, pessoas ou lugares, é sempre, SEMPRE, à (e essas coisas, pessoas ou lugares são sempre do género feminino).


 


Exemplos:


 


" bocado liguei-te. Tinhas ido à rua?"


 


"Subi à árvore e caí."


 


" quantos anos casaste?"


 


"Ela disse à irmã que não ia à festa. Não se vêem montes de tempo e ela ficou à nora..."


 


"Aqui não perigo. Não animais selvagens." - Aqui podíamos dizer "aqui não existe perigo. Não existem animais selvagens."


 


***


 


"Chamas-te João" não é o mesmo que "Chamaste o João", ok?


 


Fizes-te, fos-te, disses-te, andas-te, telefonas-te... são unicórnios, está bem?


 


Então qual é o truque? Das palavras ali de cima só o "andas-te" pode ser usado mas não enquanto pretérito. Por exemplo:


 


"Andaste a correr?"


 


"Andas-te a esforçar?"


 


A primeira remete para o passado. A segunda é presente e tem um pronome pessoal ali no meio. Ou seja, se pudermos passar o -te para outro lugar na frase então ele deve ser separado do verbo e levar hífen. Se não pudermos pegar nisso e pôr noutro sítio então é sem hífen.


 


"Andas a esforçar-te?" - Esta forma é até mais correcta do que a anterior, porque os pronomes devem vir depois do segundo verbo, quando um se relaciona com o outro. Outro exemplo "Quero-te dizer uma coisa" é menos correcto do que "quero dizer-te uma coisa".


 


Há ainda uma forma mais "básica" de colocar a oração: "te andas a esforçar?". Não sendo exactamente correcta, não deixa de fazer sentido...


 


Peguem lá nos exemplos que dei lá em cima e vejam se conseguem tirar os -te e pô-los noutro lado...


 


"Te fizes o quê?" ou "Fizeste o quê?"


"Te fos onde?" ou "Foste onde?"


"Te disses o quê?" ou "Disseste o quê?"


"Te telefonas ontem?" ou "Telefonaste ontem?"


 


Pois...


 


Mais uma vez, o -te é um pronome, portanto refere-se a alguém. "Chamas-te João" quer dizer que tu tens o nome João - e a frase está no presente do indicativo. "Chamas-te o João" não é nada. A forma correcta é "Chamaste o João", como quem diz que, no passado, aconteceu uma acção.


 


***




Os advérbios de modo NUNCA levam acentos. Ah, e tal, que'ssa merda de um advérbio de modo? Coisas como obviamente, possivelmente, terrivelmente, pessimamente, agradavelmente... são advérbios de modo. Ou seja, são adjectivos na sua forma feminina (ex.: óbvia) a que se junta o sufixo -mente (há outros advérbios de modo, mas não interessam para o caso).


 


Portanto, aqui a regra é super simples: NUNCA há acentos. Fim de história.


 


"Obviamente, demito-te."


"Possivelmente, vamos na quinta-feira."


"Estou terrivelmente aborrecida."


"Sinto-me pessimamente."


"Foi um serão agradavelmente tranquilo."

8 comentários:

  1. A forma mais básica que usas para explicar o

    "Andaste a correr? Andas-te a esforçar?" foi a que funcionou à primeira com a minha filha. :)



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  2. Serviço público. Once again. Like it a lot :-)

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  3. Gostei muito do post! Está muito bem, e os unicórnios são pérolas (infelizmente) cada vez mais frequentes!
    O que eu me rio contigo mulher!

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  4. Podias fazer um separador com estes posts?
    Ou publicar todos seguidos para eu colecionar? :D
    Ah! E não me venhas dizer que é coleccionar porque eu já adotei o AO!

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  5. Criei a tag "língua afiada" para estes posts.

    E não me meto pelos caminhos do AO... Já me habituei a ler (muitos dos livros que tenho lido já afiam por esse diapasão), mas ainda não me habituei a escrever. E só me rendo quando vier um polícia-da-língua obrigar-me a isso!

    (Nada contra, mas acho estranho... quando me mentalizar é num instante mas, para já, sou pela preservação da coisa original até porque não me faz sentido que a oralidade seja mais valiosa do que a escrita e é esse o fundamento deste AO.)

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  6. Estes teus posts são extremamente úteis. Confesso que as minhas maiores dúvidas surgem na questão do "há" e do "à". É simples bem sei, mas de vez em quando parece que bloqueio, é ridículo. Por isso tudo se escrever com erros por favor peço que me chamem à atenção :)

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  7. Um truque que nunca falha para quem não sabe o que há-de fazer ao "te" é pôr a mesma frase na negativa, se o "te" mudar de sítio é pronome, caso contrário, é o verbo no passado:

    Foste ao teatro? Não foste ao teatro?

    Importas-te que fique? Não te importas que fique?

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Obrigada!