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27 novembro 2013

Coração nas Mãos #4 - Metade Salete, metade saudade

Salete partiu-se ao meio. Naquele momento, entre o frio que lhe gelava o regaço e a ânsia que lhe comia as entranhas, partiu-se em duas e deixou metade de si ir. Ficou a melancolia agarrada aos nós dos dedos. Ficaram as lembranças que já nem se traduzem em lágrimas porque a água salina que carrega não é suficiente para fazer esse rio transbordar. Ficaram os dias riscados no calendário, as esperas, os desenganos.


Salete caminha agora a meio. Meia mulher: uma perna, um braço, um pé, uma mão. O resto de si ficou lá atrás, no dia em que se quebrou como se quebra uma jarra que se atira contra uma parede num momento de fúria em que, cegos, não vemos nada para lá da dor. Quando se despedaçou para não mais se recuperar, enterrou consigo Libério, o sacana que lhe mastigou a vida como uma pastilha elástica e, mantendo a metáfora, a cuspiu quando deixou de lhe sentir o sabor.


 


Perdeu a conta às promessas. Não sabe quantos dias enterrou ali, naquele fim de mundo moreno de olhos verdes que a encantou com palavras de pechisbeque. Entregou-se jovem, a pele ainda cheia de luz, uma alma branca pronta para acreditar. Envelheceu ali, sentada naquele sofá de napa que lhe queimava o corpo quando o Verão chegava à cidade. Abriram-se-lhe sulcos na face, nos sítios por onde escorria o choro cravaram-se fendas, marcas vivas de um tempo que se foi extinguindo à medida que foi deixando de acreditar.


 


Libério julgou-a boneca de porcelana: bonitinha e inútil, incapaz de se mover sem ser por força das suas mãos. Enganou-se. No dia em que Salete se partiu ao meio, tratou primeiro de partir tudo o resto. Apanhou Libério deitado, um sono solto a fazê-lo ressonar, e afundou-lhe na pele as esperanças. Da garrafa terá ficado um ou outro caco perdido atrás do roupeiro, mas Salete não sabe porque não se deu ao trabalho de os procurar. Do sangue ficou o silêncio. Arrefeceu em torno dele, escureceu e finou-se de vez. E Salete, metade mulher, metade saudade, saiu porta fora sem pressas, nas roupas os pingos do sangue do homem que a matou por dentro, na alma um buraco negro por sossegar. Não tirava da cabeça a imagem dele a guinchar como se fosse um porco (que era) e mesmo assim pensava, "há mortes piores, a minha por exemplo, que morri por dentro e tenho que fingir que vivo". Deu-se ao luxo de se lamentar, como se a perda maior fosse a sua. E foi. Perdeu-se pela metade, deixou que ele levasse consigo para a cova o melhor que tinha sido. Absurdo e inútil, este amor de fotonovela, pensava Salete com o meio cérebro que lhe restava.


 


Abeirou-se do rio, a manhã fria a desfazer o nevoeiro denso que nasceu há pouco sobre a cidade. Dobrou-se até conseguir ver-se reflectida na água escura e deixou cair a saudade. Houve um tempo em que ela fora Libério, o homem que a tomou de assalto, a invadiu e a declarou sua. Hoje não. Hoje matou o amor e matou-se a si, deixou-se pela metade. E na incompletude de uma mulher desfeita espraia-se um longo universo de possibilidades. Até na morte há pedaços de vida e Salete deu consigo a sacudir restos de Libério da alma. Chegará o tempo em que não lhe recordará os vícios, em que não se lembrará do tempo que assassinou em torno daquele homem. Chegará o tempo em que duvidará das suas memórias e, com uma sacudidela de ombros, pensará que está a fazer confusão: isto de que se lembra é coisa que leu algures num livro, quando era moça, não é nada que lhe tenha acontecido a si. E a memória, essa faca afiada capaz de nos cortar em pedaços incertos, mostrar-se-á a melhor companhia que poderia ter. Porque entre enganos e cenas esfumadas, o tempo encarregar-se-á de dar a Libério a morte que realmente mereceu - a do esquecimento e do desprezo. E Salete será sempre o que é: metade mulher, metade saudade.


 

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