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10 dezembro 2013

Coração nas Mãos #06_Suão

Um dia entras por essa porta de que não conheces ainda a chave. Pegas no tempo e guarda-lo no bolso, deixas os lamentos no tapete da entrada, assumes o corpo que te coube em sorte e entras. Para trás fica uma vida. Um passado, guardado numa caixa, como fotografias de infância do tempo em que a máquina era analógica e não permitia guardar apenas os sorrisos - ficavam os olhos fechados, os desfoques, os planos incorrectos, ficava tudo como na memória, mesmo os gestos imperfeitos. Deixas os dias em que te soubeste angústia. Deixas as tardes de pés enterrados na areia, enquanto crianças faziam castelos e piscinas à beira do mar daquela praia que ainda é tua. Deixas os bilhetes das viagens de avião, emoldurados há muito, muito tempo. Não trazes nada que seja pretérito. Nas mãos, cada traço é linha de futuro, nada que consigas ainda decifrar.


Abres a porta e o ar que te rasga os pulmões é frio, um ar fértil e novo, que nunca antes te tocou. Não sabes ao que vais e é aí que reside o fulgor. Abraçarás tudo o que vier. Sorrirás sem mágoas nem reservas. Não tremerás perante incertezas, antes saberás sempre qual o caminho a seguir. No dia em que abandonares à porta a insegurança, no dia em que conquistares o domínio sobre ti, o mundo passa a ser a paisagem que te entra pela janela, vento suão que tranquiliza em vez de inquietar. No dia em que não te julgares nem te exigires coisas para lá do que és capaz, a tua alma sossega e desliza pela tarde, no doce balanço de uma rede amarrada a duas árvores a que conquistou a sombra. No dia em que a porta se abrir, depois de lhe teres encontrado a chave - que esteve sempre contigo, afinal, talvez guardada num bolso escondido, mas contigo, junto ao calor da tua pele -, o teu corpo ganha a luta e tu tornas-te maior do que o medo.


 

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