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01 abril 2014

Ainda sobre os amigos

Confesso: fiquei surpreendida com a quantidade de gente que se reviu no que escrevi. Nunca pensei que, entre as poucas pessoas que lêem este blog, houvesse tanta gente a sentir o mesmo. E fiquei triste. Não por mim, essa tristeza vem e passa depressa (porque eu não sou de guardar mágoas muito tempo, não esqueço as coisas, mas consigo conviver com elas e consigo não trazer mágoas antigas para o presente, independentemente da antiguidade das mágoas e da força do presente).

Fiquei triste porque percebi: vivemos (quase) todas nestas solidões acompanhadas. Temos milhares de coisas a acontecer nas redes sociais que frequentamos: há fotos para ver, likes para fazer, comentários para escrever, partilhas, follows, replys e o diabo a sete. Mas estamos todos sozinhos. Fisicamente sozinhos. Encerrados entre quatro paredes, a falar com muita gente e a ver ninguém. Sem um sorriso. Sem um beijinho. Sem um abraço. Tudo virtual. Tudo longe. Sem presença física, sem contacto. Uma falsidade. Porque quando precisamos do tal abraço não há nada. Quando precisamos de estar cara a cara com alguém, há toda uma vida que se impõe, agora não que tenho que ir pôr os miúdos à escola, agora não que vou ao supermercado, agora não que não tenho tempo, agora não que não tenho dinheiro, agora não que tenho outras coisas combinadas. Tudo válido e legítimo. Tudo real e verdadeiro. Os amigos colocados à distância de um like, de um share, de um follow.

Filhos únicos, dizem. Sinceramente, não sei se é por aí. Sou filha única, gosto de estar sozinha, mas não gosto de estar sempre sozinha. Nem sou um bicho do mato antissocial que só está bem debaixo do calhau onde vive.
Temos filhos, foi a maternidade que nos afastou dos amigos. Talvez. Mas não é só isso. Não pode ser só isso. Claro que quando as nossas realidades mudam é normal que tudo se ajuste em função de. Quando tive a minha filha deixei de ser só eu. Deixei de ter a mesma disponibilidade que tinha para sair, para ir jantar fora e regressar às horas a que me apetecesse. Deixei de ser só eu para passar a ser eu e uma criança pequena que não podia ir comigo para todo o lado, mas não é disso que se trata. Hoje em dia, com organização, consigo ir a todo o lado. Ajudam-me os meus pais e os meus sogros ou o marido, se se tratar de um programa que ele dispense ou que não lhe diga nada.
A crise levou-nos o dinheiro, tirou-nos disponibilidade para alinhar em certas coisas. Concordo. A crise levou-me as saídas, os jantares, as idas ao teatro e ao cinema, os fins de semana fora, as férias. Mas não me levou um café, não me levou um jantar caseiro, não me levou uma ida à praia ou ao parque ou a um jardim qualquer. E, na dúvida, há sempre o "não vou ao jantar mas vou lá ter para o café".

O que me custa - e acredito que custe a quem se reviu no que escrevi - é sentir que estou fora da lista dos convidáveis. Que tomam por mim a decisão de não ir a determinado sítio.

Isto não põe em causa a existência de amigos a sério na minha vida. Sei exactamente com quem posso contar e, feliz ou infelizmente, já tive provas disso. Mas eu gostava de ter amigos sempre. Não só nas horas más, não só nos meus momentos essenciais (no meu casamento, por exemplo, estavam todos os amigos-amigos; todos mesmo). Gostava de sentir que os amigos, apesar das rotinas, dos contratempos, das agendas complicadas de gerir, conseguiam um bocadinho para estar connosco só porque sim. Sem ser por necessidade - nossa ou deles - mas apenas pelo gozo que aquela companhia pode trazer. Isto, para mim, também define uma amizade.

10 comentários:

  1. Embora ainda não tenha comentado, revejo-me no que dizes. Simplesmente já me encontro em paz com isso. Sei que há pessoas que vão e vêm ou que vão e não vêm. A vida é mesmo assim principalmente nos centros urbanos em que tudo é rápido e efémero.

    No meu caso, por situações profissionais afastei-me geograficamente dos meus amigos (e longe da vista, longe do coração). Comecei a namorar, juntei-me, casei… e de repente vi-me “sozinha” com o meu marido.
    O problema aqui foi as coisas não terem dado certo… e ainda mais de repente vi-me sozinha! Mesmo sozinha!
    Uma amiga de longa data acabou por me acompanhar (mas ela, de certa forma, esteve sempre ali)… de resto, recuperei amizades antigas, fiz novas, já desfiz antigas e novas. Porque há um momento para tudo e o que é importante hoje, amanhã já não tem a mesma importância.

    Hoje conheço muitas pessoas mas tenho poucos amigos. E é assim que me vou manter. Até porque hoje sei que para não sentir solidão não preciso de estar acompanhada. Houve alturas em que sofri com solidão… e tinha alguém ao meu lado! Hoje, mesmo quando estou sozinha, não sofro com solidão! :)

    Beijos!

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  2. Outra vez em cheio. Acho importante estar pelo prazer de estar e não pelo facto de a ocasião o merecer.
    Confuso.

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  3. Ao ler este post, assim como o anterior, faz-me dar ainda mais valor aos meus Amigos, poucos (contam-se pelos dedos das mãos) mas bons, que nunca me deixam sentir sozinha! Mas é verdade que as circunstâncias da vida criam afastamentos, mas tudo se ajusta.

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  4. Acho que nisto das amizades o "nosso" (permite-me que o trate assim, pois identifico-me com muitas das ideias que expressaste) são as expectativas demasiado elevadas. Eu também costumo dizer que não tenho amigas do peito, aquelas mesmo, mesmo assim chegadas a quem se liga por dá cá aquela palha, ou para o ombro de quem vamos a correr chorar quando algo nos corre mesmo mal. Não tenho dessas amigas, as que fui tendo ao longo da vida foram "desaparecendo", por um motivo ou por outro. Nisso assumo muitas culpas no cartório. Eu não telefono, não procuro, não combino coisas. Não é por nada de especial, nem por não gostar de estar com as pessoas (antes pelo contrário) mas a verdade é que ando na minha vida desenfreada e simplesmente parece que nunca tenho tempo para isso. Mas, quando olho à volta, tenho muito amigos, principalmente, e hoje em dia, casais amigos com filhos que são também amigos dos meus filhos (desde os que já vêm de trás, aos que conhecemos em férias, aos que foram herdados de outros amigos). Temos vários desses casais com os quais combinados saídas, jantares e almoços em casa uns dos outros e até férias. E, embora sejam meus amigos, elas (em especial) não são essas tais amigas para quem eu correria a ligar quando precisasse de desabafar. Isso não.
    Ou seja...eu costumo ver o Sexo e a Cidade e achar que aquilo é que são amizades. Mas será que aquilo (na esmagadora maioria das vezes) não existe só nos filmes?
    Parece-me que, como disse ao início deste longo comentário, que o problema é que pomos a fasquia muito alta.
    No meu caso nos ultimos anos deixei de pensar nisso dessa forma e tento, sim, passar cada vez mais tempo com os amigos que tenho e criar laços cada vez mais fortes, deixar de pensar em atingir o nirvana da perfeição na amizade e, quem sabe, com o tempo alguns deles vão mesmo passar a ser desses tais amigos(as) para sempre.

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  5. Pois é mesmo assim. A minha realidade cruzou o oceano e desde há nove anos a solidão instalou se na minha vida. Meu grande e único amigo físico é meu esposo. Poucos conhecidos de bom dia, boa tarde e saidas a tomar um café com meus filhos pequenos. Não sei se esta realidade mude num futuro. Quero acreditar que sim. A frialdade virtual é a única que tenho para conviver com a minha família e amigos na América. Para já um bom dia num grupo do Facebook dado por pessoas desconhecidas dão um toque de felicidade a esta Colombiana. Um abraço amistoso!

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  6. Isto é tão verdade...
    estou na fase de cimentar os laços e empurro-me para fora de casa!

    patrícia A.


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  7. "O que me custa - e acredito que custe a quem se reviu no que escrevi - é sentir que estou fora da lista dos convidáveis. Que tomam por mim a decisão de não ir a determinado sítio."
    Aqui, disseste tudo. Passei e passo por isso muitas vezes. Foi-se atenuando um bocadinho, porque eu própria tive de dizer algo sobre isto. Sim, tenho filhos, mas ninguém tem o direito de presumir que não posso ou não vou, porque...

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  8. Dizer. Mostrar. Explicar que estás magoada. Não é cobrar, é pedir respeito. E acreditar que os verdadeiros amigos ficam. Mesmo. E que os outros...bom, se não o eram na realidade, um dia vão deixar de doer. Se eram, um dia vão voltar :) :*

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  9. Há um ano, mai ou menos, escrevi este texto sobre o tema: http://ladolunar2010.blogspot.pt/2013/02/amigas.html

    Como vês, não estás só.

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  10. Os dois últimos parágrafos são tudo. São tudo o que eu queria dizer no meu último comentário e que tu disseste melhor. É isso.

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Obrigada!