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10 abril 2014

Aos meus irmãos (que não tenho)

Não há nada que lamente tanto como isto: não ter irmãos. Não sei o que é um abraço fraterno. Não sei o que é uma briga idiota, levada às últimas consequências (como proibições de entrar no quarto alheio ou impedimento de usar a roupa do outro) nem sei o que são as pazes feitas entre gargalhadas, quando se torna óbvio (outra vez) que é impossível odiar um irmão por mais de 30 segundos (ou nem tanto). Não sei o que é partilhar histórias. Não sei o que é dividir o amor dos pais - que toda a gente sabe que se multiplica por quantos filhos se faça. Não sei o que é ter alguém que conhece os meus pais tão bem como eu. Não sei o que é partilhar memórias de infância, ter histórias para contar, ter aquele amigo-para-sempre. Não vou saber o que é dividir num ombro igual ao meu a dor de os ver partir. Não vou ter ninguém com quem recordar histórias dos meus pais. Não vou ter sobrinhos-de-sangue. Nem cunhados-direitos.

Lembro-me de ser pequena e pedir insistentemente um irmão (mais velho!) que, obviamente, nunca veio. Nem mais novo, quanto mais mais velho. Lembro-me de me dizerem que não podia ser, que a vida não estava para irmãos, que bastava eu a dar despesa. Também me lembro de achar que a experiência de me terem devia ter sido tão má que só isso justificava que não a quisessem repetir.

Aprendi a viver assim, desirmanada. Mas não gosto. Por isso, na minha cabeça, sempre que pensei em filhos pensei em mais do que um. Filhos únicos, nem pensar. A não ser que não tivesse mesmo podido ter um segundo filho (por motivos de saúde), aquilo que eu mais quis foi dar à minha filha o melhor presente do mundo: o irmão. Pode não ter tanta roupa, pode não ir a tantos sítios, pode não ter tantos brinquedos, mas tem um irmão. Tem ali um amigo-para-sempre. Alguém com quem fazer panelinha contra nós. Alguém a quem contar os segredos que não terá coragem de partilhar connosco. Alguém que a entenderá, quando ela se queixar dos pais que tem. Alguém com quem dividir preocupações acerca de nós, pais. Alguém com quem dividir a conta do lar (do nosso, obviamente). Alguém que, quando nós morrermos, continuará a ser sangue do sangue dela. Que lhe dará sobrinhos e uma cunhada (ou um cunhado!). Alguém que a entenderá mesmo que ela não diga nada, que lhe dará mimo e colo e um ombro. E alguém com quem ela pode brigar até se fartar. E com quem pode fazer as pazes a rir à gargalhada.

Hoje, no dia dos irmãos, sinto-me mesmo muito feliz por ter podido dar aos meus filhos este tesouro maior: um irmão. Para sempre.

7 comentários:

  1. Podes não ter irmãos mas sabes o que dizes.
    :)
    Também não tenciono abdicar de ter 2 filhos. A minha irmã é o meu amor mais incondicional e mais fiel.

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  2. E fizeste tão mas tão mas tão bem. Nada é igual a ter irmãos. Nada. E eu sou muito feliz por ter as minhas.

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  3. Eu adoro os meus irmãos (somos 3). São os meus segundos pais (sou a mais nova) que me ampararam e ajudaram a criar. Por isso a minha filha também ganhou uma irmã e emociono-me, como hoje de manhã, quando gostam de ficar na cama aos beijos e abraços. Tão bom.

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  4. Sou irmã mais velha, pedi e pedi e pedi uma irmã e tive a sorte de a ter. Ela é a minha mais-que-tudo, amiga de sempre e para sempre, confidente, irmã de sangue e de coração. Não imagino a minha vida sem a minha irmã. Nunca. E por isso não me imagino mãe de um só filho ou filha. Quero ter dois. Ponto Final.
    No outro dia, os meus cunhados, que foram pais recentemente, diziam que essa minha convicção ia mudar quando fosse mãe. Porque um filho dá muito trabalho e muita despesa. Tenho a certeza que não, não vou abdicar de dar ao meu filho mais velho a melhor prenda de todo o mundo, um irmão mais novo, e ao mais novo a maior bênção, um irmão mais velho.
    Penso como tu. Não preciso de lhes comprar ténis Nike, pagar férias fora do país, dar-lhes tudo o que quiserem, mas preciso que eles se tenham um ao outro para discutirem, para rirem, para brigarem e fazerem as pazes, para se amarem incondicionalmente e fazerem tudo um pelo outro, sempre que for preciso. Porque eu tive e tenho isso. E sei que não há luxo no mundo que possa compensar um irmão ou uma irmã bem chatinhos mas que nos conhecem melhor do que ninguém :)
    Ainda não tenho filhos, mas mantenho: vão ser, no mínimo, dois :)

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  5. Pela primeira vez na vida, faço um comentário num blogue. Este texto, cada palavra, podia ter sido escrito por mim. A ausência de um irmão (do amor de um irmão, da cumplicidade de um irmão e tudo o resto que referes) é algo que lamento e lamentarei sempre. Tenho duas filhas gémeas. Não pensava ou ambicionava uma gravidez gemelar... Era "coisa" em que não pensava ou queria para mim. Mas quando soube que eram duas - depois do choque inicial - senti conforto. Afinal, nunca, nem por um só momento, serão filhas únicas :) E isso deve ser a melhor coisa do mundo.

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  6. Eu tenho um irmão e foi (e ainda é) a melhor prenda que os meus pais me deram. Hoje sou mãe de uma menina, de um menino e em Agosto, se Deus quiser, de mais um menino. Para eles, é uma bênção ter irmãos. Para nós, é uma bênção saber que, um dia mais tarde, quando nos formos, eles têm-se uns aos outros.

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  7. Parabéns!
    Que grande texto...
    É precisamente para que o meu filho possa ter um irmão ou irmã que estou a arriscar a qualidade de vida (alguma saúde) e acabo de saber que estou grávida aos 36 anos quase 37!
    Mas não quero por nada que o meu filho seja sozinho no mundo como eu!

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Obrigada!