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02 abril 2014

Dos outros

De vez em quando deparo-me com textos que merecem toda a atenção do mundo. Aconteceu-me hoje, com este. Não é a minha realidade, mas é a realidade que vi em casa de algumas amigas e entendo. Entendo mesmo.

O divórcio

Um dia, uma amiga disse-me que o pior de tudo no divórcio tinha sido a sensação de falhanço. Não a percebi, na altura. Mas percebo-a agora. O fim de um casamento não é só o fim de um casamento. É o fim de um projecto de vida. Um projecto que era para sempre. Que incluía filhos e netos, tios e primas, sobrinhos e afilhados. Que incluía férias no Algarve e sonhar com uma casa no campo. Que incluia o colchão que comprámos a pensar no modo como os nossos corpos se encaixam, o candeeiro que escolhemos juntos, o tapete de que um de nós nunca gostou. Que metia os amigos ao barulho e as festas que planeávamos fazer e as conversas que tínhamos. Que metia gargalhadas e discussões. Projectos de trabalho, lutas a travar, promoções e contrariedades. Rotinas. Idas ao supermercado. Sopas. Roupa por estender. Colos. Coisas boas e coisas más. Memórias que se acumulam. Envelhecer de mão dada. Cuidar um do outro. Um casamento não é só um papel que se assina. É uma vida que se constrói todos os dias a dois (e a mais). Por isso quando um casamento acaba não é só o casamento que acaba. É a vida tal como a conhecemos que acaba. E começa de outra maneira. Com um tapete novo. Com outro colchão. Sem aqueles primos. Sem aquela rotina. Com outros sonhos. Talvez outro amor. Por isso, mesmo quando temos a certeza que é o divórcio que queremos. Mesmo quando o afecto já se foi. Mesmo quando há rancores que nos corroem. Mesmo quando sabemos que estamos a dar o passo certo, o passo que nos vai fazer bem, o único passo a dar. Mesmo assim (ou, talvez, sobretudo aí) perguntamo-nos como foi possível acreditar tanto e, afinal, estar tão errada. Como foi possível perder tanto tempo e desperdiçar tantos sonhos. Como foi possível investir tanto, querer tanto. E não conseguir. É que não foi um mero engano, uma coisa de nada. Foi um erro do tamanho de uma vida. Um falhanço, como quando se erra um golo de baliza aberta. Estava ali tudo e no entanto.
No dia em que fui assinar o meu divórcio não tirei os óculos escuros. Chorei o tempo todo. A senhora a ler aquelas coisas todas, o nosso nome, a morada, a casa, o carro, o número do cartão de cidadão, papéis intermináveis para assinar, a senhora a perguntar se eu queria mesmo divorciar-me e não bastou eu acenar com a cabeça, tem que dizer em voz alta, disse ela, e eu disse numa voz sumida, sim, quero, como tinha feito para casar, sim, quero, são as mesmas palavras, mas desta vez eu estava de óculos escuros e a chorar. Não era um chorar de tristeza. Essa já tinha passado, há muito. Era o chorar de quem se confronta com o seu falhanço. Total. Era um chorar de vazio. De quem perdeu o chão e agora vai ter de começar de novo. Tudo de novo. Ou quase tudo.
Outra vida. A mesma vida, que é a nossa.

6 comentários:

  1. Assino em baixo. Está tudo dito neste texto. Been there done that.

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  2. Deve ser doloroso... mas é uma espécie de início. Uma nova oportunidade.

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  3. Li este texto e 6 anos passados sobre o meu ainda fico com vontade de chorar. É tão isto e no meu caso ainda mais pois o amor não tinha acabado. Também eu engoli em seco e apenas acenei com a cabeça quando me fizeram a pergunta, também eu fiz um esforço sobre-humano para dizer em voz alta aquela palavra que não queria enquanto lhe apertava a mão e tentava engolir as lágrimas. Posso viver mil anos mas tenho a certeza que nunca irei esquecer e ultrapassar completamente o meu divórcio.

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  4. Revejo-me em cada palavra! Passaram 6 anos desde o dia em que assinei o papel. Também engoli em seco, e apesar de ter a certeza absoluta de que era o que queria, chorei. Não no momento, que aí fiz-me de forte, mas depois, sózinha, no carro, no comboio a caminho de um fim de semana longe de casa com uma grande amiga que me quis dar colo. 6 anos passados, a minha vida reconstruiu-se, voltei a casar, tive filhos e sei que é esta a vida que estava reservada para mim! Estou feliz! Não me arrependo de nada, porque acredito que tudo fez parte de um caminho que construi, e que me conduziu onde estou hoje. E por isso, valeu a pena!

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  5. Tal e qual...
    Foi olhar para a frente e ver o vazio...
    Ainda assim, foi a melhor decisão que tomei!

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  6. Este texto comoveu-me por várias razões. Sou casada mas penso muitas vezes que apesar de ser feliz no meu casamento hoje, ninguém me garante que o serei daqui a 10 anos.
    Posso dizer que apesar de toda a tristeza que se possa sentir nunca é bom para os filhos manter um casamento infeliz apesar do que se diz por aí. Sei bem do que falo enquanto filha.
    Posso dizer que o dia em que os meus pais se separaram definitivamente foi dos mais felizes para mim, apesar de toda a tristeza e lágrimas que se derramaram. Eu sei que o que escrevo é contraditório mas é a mais pura das verdades. Obrigada à Gata pelo testemunho tão sincero e sofrido. beijinhos

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Obrigada!