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09 abril 2014

O que é que a escrita dele tem?

Às vezes é difícil separar o autor da obra. Há quem não consiga ler Saramago por não gostar do homem. Há quem o leia precisamente por gostar dele. Eu tento não misturar as coisas e separar o autor da sua obra, mas nem sempre é fácil. Amo a escrita de Saramago - que ou muito eu me engano ou vai ser para sempre o meu escritor preferido - independentemente do homem (com quem até simpatizava, mas que nunca procurei "conhecer" melhor precisamente para não me deixar influenciar).

João Tordo. Gosto do homem, da postura dele, da simpatia dele, da maneira tímida como se apresenta, apesar do seu metro e noventa (ou coisa que o valha) e que não lhe permite passar despercebido em lado nenhum. Isto, esta empatia, até podia interferir na minha opinião acerca da escrita dele, mas não é o caso. Porque ele escreve mesmo, mesmo bem. Não é nada retorcido, não se põe a inventar, não torna densa uma coisa que é simples. Pelo contrário. A escrita dele faz o caminho da simplicidade. Aquilo é tudo claro, não precisamos de reler parágrafos sete vezes para entender o sentido das frases. E, à medida que vamos lendo, vamos vendo o filme acontecer à frente dos nossos olhos. É complicado explicar este fascínio que tenho por esta escrita sendo ela tão simples, tão transparente. Claro que o que ele conta não é nem tão simples, nem tão transparente. Não é uma questão de conteúdo, mas de forma. É por isso que não me canso de o ler. Porque ali, naquelas linhas de uma simplicidade brutal, estão tesouros. Está uma imaginação prodigiosa, um domínio perfeito da língua, uma mecânica capaz de nos agarrar às primeiras páginas, para só nos soltar muito tempo depois de terminarmos de ler os livros dele. E isso não é nem comum nem fácil de acontecer. E só pode partir de alguém realmente genial.

Comecei a ler o "Biografia Involuntária dos Amantes" há uma semana. Não tenho tido muito tempo para ler, mas quase metade do livro já foi. Estou a gostar tanto, tanto. Para mim, é claríssima a ordem de preferência dos livros dele. Ou era, porque acho que este vai parar ao topo do ranking. E ainda bem. Bom sinal, não é?

(E, para quem quer saber: Hotel Memória, O Bom Inverno, As Três Vidas, O Ano Sabático, Anatomia dos Mártires, O Livro dos Homens Sem Luz, do que gosto mais para o que não gosto tanto.)

2 comentários:

  1. Eu recrimimino-me por ainda não ter lido nada dele! Estou em falta, e desde que falas de João Tordo que ando roída de curiosidade. Tenho de tratar disso.

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  2. Ola Lenia,

    Incrivel como sinto exactamente o mesmo! De todos os autores que ja li (portugueses e nao portugueses), ele e' o que mais me preenche. Prende-me na primeira pagina e deixa-me so' com a ultima palavra... :)

    Obrigada pela partilha!
    Andrea

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Obrigada!