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09 maio 2014

Coração nas mãos #8_Guerra

Roubo-te a paz. Rasgo-te a tranquilidade quando chego sem dares por mim e, gelado, percorro as ruas do teu corpo como se corresse sem rumo nem sensatez. Desfaço-te em mil pedaços sempre que me sentes abrir as portas que fechaste com demasiadas trancas - inúteis, como vês. Eu sou maior. Sou maior do que o tempo. Sou maior do que as fugas. Sou maior do que os subterfúgios. Sou um beco sem saída onde entraste sem saber ao que ias. Lamento. Não lamento nada. Sou verdade. Invadi-te e conquistei-te, fiz-te terreno meu, teu dono, minha posse. Tu és minha. Ainda que o recuses. Ainda que as tuas lágrimas construam canais para longe de mim, eu tenho diques. Sustenho-te a água e a respiração enquanto te seguro com uma mão o pescoço branco e esguio, os meus dedos marcados na carne, por dentro, marcas invisíveis e quase letais. Trouxe-te para mim para que te encontrasses, tu, mulher perdida, devaneio inconsequente. Quero-te. E roubo-te a paz sempre que quebro no teu regaço depois do amor. Sempre que te peço com a voz mais doce que me beijes mais uma vez. Sempre que mergulho nos teus olhos e ali me afogo, impossível de resgatar. Eu e tu somos uma guerra. Desassossego. Temporal. Verdadeira tempestade feita paixão, mais dor do que prazer, mais morte do que vida, sobreviventes resgatados dos escombros. Entre nós, o sangue que corre é prova dura da mágoa e, enquanto nos ferve por dentro, continuamos juntos, a fazer da paz apenas um nome para além de nós.

1 comentário:

  1. Olá Lénia :-)

    Mais uma vez, o que eu adoro estes pequenos contos... Adoro o suspense, a forma da escrita, algumas palavras fora da linguagem vulgarmente utilizada mas que assenta como uma luva...

    Enfim, gosto de tudo!!!!!!!!!!!!!!!!

    E venham mais.........................................

    Obrigada!

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Obrigada!