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30 junho 2014

A natureza ao contrário

É impossível ficar indiferente ao que se passou este fim-de-semana com o filho da Judite de Sousa. Tendo ou não tendo filhos, é impossível não sentir no peito um aperto que será tão pouco quando comparado com o que aquela mãe (e todas as outras que perdem os filhos, seja em bebés ou já homens e mulheres feitos) estará a sentir.

Não me sinto no direito de dizer que calculo o que ela esteja a sentir. Não faço a mais pálida ideia. Nunca perdi um filho - e espero, obviamente, nunca perder. Já perdi bebés in utero mas não é, de todo, a mesma coisa (e até acredito que haja quem ache que sim, mas eu não acho mesmo que seja sequer parecido).

A vida engana-nos, por vezes. Prega-nos rasteiras. Deita-nos ao chão. Mata-nos, obrigando-nos a continuar vivos. Imagino que seja por aqui, mas posso estar errada. Não sei, não faço ideia do que vai agora na cabeça e no coração das mães que perdem filhos.

Ontem, por causa disto, numa caixa de comentários do facebook, falava-se em ter apenas um ou mais filhos. Eu acredito que a dor da perda de um filho único seja igual à dor da perda de um filho de entre mais filhos, porque nenhum substitui outro. Mas o que resta quando só se tem um e se perde esse será infinitamente menor do que o que fica quando há mais filhos vivos. Mas não foi por isto que eu quis ter mais do que um filho. Não foi por mim. Não foi para ter uma espécie de "seguro de vida", que me garantisse motivos para continuar a viver, caso perdesse um deles. Não penso nisso, nunca pensei - nem consigo imaginar como seria se...

Foi por ela. Pela minha filha mais velha. Porque eu não tenho irmãos e adorava ter tido. Não sei o que é ter uma pessoa sangue do meu sangue, que tenha crescido comigo, que sinta pelos meus pais o mesmo amor que eu sinto. Não saberei o que é ter um ombro igual onde chorar um dia que um deles morra. Não saberei o que é ter alguém com quem partilhar angústias de gente crescida. Não sei o que é amor de irmãos e tenho tanta, tanta pena. Por isso não quis ter só um filho. A vida deu-me a alegria de poder ter mais do que um e eu sou tão, tão grata por isso. Porque olho para eles e vejo o tal laço invisível e tão apertado que une os irmãos. Brigam e ralham e chateiam-se mas amam-se a sério, têm saudades um do outro quando estão longe, mimam-se e sabem que se adoram. E isto é uma benção. Não quero imaginar o que será para o outro se um dia um deles se for. Os meus pais, que têm irmãos, ainda não passaram pela perda de um irmão por isso também não calculo o que seja isto de ficar sem uma pessoa que toda a vida foi nossa. Não quero pensar nisto embora, por força deste fim-de-semana, acabe por pensar. E a angústia, ainda que apenas imaginada, é coisa que me carrega no peito. Isto não devia mesmo acontecer. Os filhos não foram feitos para partir antes dos pais. Aos pais não são dados mecanismos que resolvam o enorme buraco que lhes fica no peito. Sobrevive-se, com certeza. Mas viver, em pleno, acredito que nunca mais.

3 comentários:

  1. Bem, eu não tenho filhos, não sei o que é o amor que se sente pelos filhos (acredito que seja arrebatador, a maior e mais pura forma de amor à face da terra, mas não sei) e sinto esse mesmo aperto relativamente à Judite de Sousa. Não temos, mesmo, o direito de achar que sabemos o que ela está a sentir - não sabemos e oxalá nunca venhamos a saber.
    Mas o que me levou a comentar foi sobretudo o teu último parágrafo; tal como tu sou filha única e tu descreveste tão bem o que é não ter irmãos que eu não podia deixar de comentar. Sinto exactamente o que descreveste, palavra por palavra, motivo pelo qual espero que a vida me permita ter mais do que um filho. Não como um seguro de vida,mas sim para que eles possam saber e ter o privilégio de saber o que é o amor entre irmãos.

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  2. É a tal coisa, quando se perde o pai fica-se órfão, quando se perde o marido fica-se viuva, e quando se perde um filho?!?!?!

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  3. Como dizias antes, há onze anos o teu primeiro post. O(s) teu(s) blog(s). Que na altura estavam na minha lista de grávida e que positivamente detestava. A tua cara, que tinhas a coragem de mostrar, ao contrário de muitas outras, e que não me oferecia confiança. E agora, a percepção de que não tens PRÉ CONCEITOS, de eu não te serves da escrita da moda ( detesto um texto É tão bom perceber que o tempo que passa nos faz perceber melhor as pessoas e ver como elas são verdadeiramente. Um beijinho

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Obrigada!