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02 junho 2014

Sobre esta coisa da disciplina para com os filhos

Fervo em pouca água. Há coisas que não admito e que não quero mesmo que aconteçam. Mas acontecem e resta-me lidar com elas. As manhãs, cá em casa, são desesperantes. Tenho uma filha que adora a...r...r...a...s...t...a...r...-...s...e... e que não colabora na hora de fazer o que tem a fazer para se despachar. A hora que passa entre acordarmos e sairmos de casa é passada entre conversas, ordens e gritos. Sim, eu grito. Grito quando já mandei vestir vinte vezes e ela continua placidamente sentada a ver TV (que não autorizei, mas que o irmão fez o favor de ligar enquanto eu aquecia os leites). Grito quando já perguntei sete vezes se já lavou os dentes e se já penteou o cabelo e ela me responde sete vezes que não. E arrasta-se. E eu vejo os minutos a passar. Deixo de véspera o máximo que posso, mala do ginásio, roupas escolhidas, lancheira dela preparada, mas não os posso vestir de véspera nem lavar dentes de véspera. E ela arrasta-se e eu acabo por gritar. Depois é ele que acha que tudo é uma brincadeira e tenho que o chamar mais vinte vezes para que o possa vestir, que ele ainda não trata disso sozinho. Ocasionalmente sai uma palmada, também conhecida por sacudidela de moscas. Resultados? Muito poucos, obviamente. Mas ao fim de uma hora, de muitas perguntas, de muitas ordens, de alguns gritos, a paciência já se foi e a visão fica deturpada.

Lamento, mas eu não sou da turma da parentalidade positiva, de deixar fazer tudo, de levar tudo com sorrisos. Gostava de ser, confesso, mas não sou. Preciso de me impor porque estes dois acham que são repúblicas independentes. Quando estão sozinhos com o pai portam-se muito melhor. Claro. É a novidade, a fugida à norma. Eu percebo e agradeço e fico feliz por ele, pai, e por eles, filhos, que conseguem ter tempos isentos de gritos e de desesperos. E gostava de também os ter. Talvez deva mesmo começar a vesti-los de véspera e a lavar dentes de véspera. Ou talvez deva começar a acordá-los meia hora mais cedo. Ah, espera, já tentei isso e o resultado foi que ganhei mais meia hora de ordens, de perguntas e de gritos, porque eles fizeram tudo de maneira a estarem prontos exactamente à mesma hora a que estão prontos nos outros dias. Há outra forma de contornar isto: volto a ser eu a vesti-la e a lavar-lhe os dentes, a penteá-la e a segurar-lhe a caneca do leite. Mas ela tem quase sete anos e não me parece. Ele ainda vá, que tem três anos e meio e está a caminhar para a independência mas ainda precisa muito de mim. Ela terá que se orientar. Onde é que reside a questão dela? Nas distracções. É a pessoa mais distraída que conheço. Tudo serve para sair de órbita e navegar para outras galáxias. Congela a ver TV, a ver revistas na casa de banho, a escovar o cabelo, a arrumar a mochila, a vestir o casaco, a respirar. Congela e arrasta-se, ali no limbo entre a moleza e a falta de vontade. E isso, de manhã, com tempos contados, é um desespero.

Eu sei que sou eu que tenho que aprender a lidar melhor com isto. Mas não sou perfeita - nem ambiciono ser, atenção - e falho muito neste departamento. Haverá outros em que não sou assim, mas neste, confesso, tenho muito, tanto a aprender. E duvido muitas vezes de mim. Questiono muito os gritos e as palmadas e os castigos (time-outs, na verdade, que aqui não há castigos de "agora ficas sem tablet uma semana" porque eles não têm acesso a tablets e afns). Questiono tudo isto e pergunto-me: retirando isto da equação, que ferramentas me restam para fazer a coisa funcionar? Se houver por aí quem saiba, por favor, manifeste-se.

[E depois leio a Vera e tenho a certeza de que há como fazer isto como deve ser - ela faz! - e fico ali a pensar o óbvio: a culpa é minha, que não sou como a Vera, mas gostava de ser. Muito!]

13 comentários:

  1. Eu acho, mesmo, que o que resulta com uns é uma catástrofe com outros.
    São crianças, não são nenucos.
    Pode até haver criancinhas fofas e queridas e disciplinadas, com pais perfeitos por trás, mas, normalmente, quando as criancinhas são fofas e queridas e disciplinadas é muito em parte "mérito" delas mesmas, devido à sua personalidade.
    O meu leva um berro e uma palmada quando o rei faz anos, é verdade. Sei que não sou a mãe perfeita. Mas se tentasse ser acabava com um esgotamento, a sorrir, medicada, para o vazio.
    Não defendo a parentalidade mais-ou-menos-positiva, sei que "falho" quando não consigo pela enésima vez ter paciência. Quando há uma palmada ou um falar mais alto, sou eu que estou a falhar, porque fui eu que não me controlei.
    Tento desculpar-me na medida do possível e ser uma mãe melhor amanhã. Acima de tudo sei que estou, para já, perante um menino mimoca, muito inteligente, sorridente e traquinas. Se quisesse um menino quieto, tinha um cão de loiça, que, bem vistas as coisas, era mais barato.

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  2. Em jeito de brincadeira...manda-a dormir com a roupa do dia seguinte, e depois testa o resultado. De certo ela não vai querer ir amarrotada e desgrenhada para a escola.:) Não os consegues vencer, junta-te a eles.

    Ainda não me encho de nervos porque o meu pequeno buda (ainda) é muito controlável, mas já tive um cheirinho de gritos e birras pela manhã, porque sua excelência tinha calor e não permitia que o vestisse, e soube que não sou tolerante com birrinhas. Não sei o que me espera no futuro.

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  3. Revejo-me tantooooo em ti. o mais velho dez 7 e congela, arrasta-se e viaja para muito longe. O mais novo tem a mesma idade que o teu e também pensa que tudo é brincadeira.
    Não somos mesmo perfeitas, mas quem o é?!

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  4. antes de ser mãe os meus amigos diziam-me que eu era a pessoa mais paciente que conheciam e até ver a maternidade nisso não me mudou: continuo paciente, continuo a não gostar de gritar. acho que é a minha natureza: a minha mãe era igual. mas às vezes também grito e eles congelam e arregalam os olhos. e às vezes até gostava de gritar mais: de me fazer ouvir mais alto sem ter medo que eles tenham medo de mim. mas não sei ser diferente. provalvelmente estamos as duas a fazer o melhor que sabemos. e eles não precisam de mães perfeitas. precisam é de mães assim: que gritam, que choram, que pedem desculpa, que os abraçam com força. e já agora: eu tenho o tempo todo. já não me lembro da última vez que tive pressa. esta coisa de ser mãe e doméstica traz as suas vantagens. dá-nos tranquilidade e tempo: eles arrastam-se e eu espero.
    obrigada pela referência ao blogue, mas não queiras ser como eu: aqui entre nós: eu também acho que não estou a fazer isto como deve ser.

    **vera

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    1. Eu leio-te sempre e acho-te mesmo paciente. Vejo as tuas fotos e sinto essa maravilha que é não ter o tempo contado. Eu tenho porque ela, na primeira classe, tem hora de entrada e já não dá para ser à velocidade a que eles querem... enfim... estamos a fazer o melhor que podemos e sabemos.

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  5. Lenia aqui vai: :)
    Ainda nAo é o prometido "mi aguardem" mas sim um repor dos termos
    Beijinho
    http://mumstheboss.blogspot.pt/2014/06/as-modernices-da-parentalidade.html

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  6. Pois a mim pareces-me uma mãe real!! A verdade é que sabe bem ler estas coisas, porque nem todos conseguem estar tão perto da perfeição qt seria desejável, e depois ficamos com peso na consciência...

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  7. Lénia, foi esta frase [Lamento, mas eu não sou da turma da parentalidade positiva, de deixar fazer tudo, de levar tudo com sorrisos. Gostava de ser, confesso, mas não sou.] que me deu vontade de também incluir-te no texto - no ínicio ia apenas responder a uma provocação do Miguel.
    O resto não tem nada a ver contigo... :) Beijos bons!

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    1. Mea culpa, que baralhei termos. Lá está, eu ando um bocado aos papéis e não tenho bem claro que tipo de mãe sou. Naosou cutchi cutchi, não sou permissiva, não sou autoritária. Se calhar sou um remix disso tudo, admito. E fiquei cheia de dúvidas depois do teu texto. Esta, por exemplo: na EPP quais são as consequências para comportamento indesejados e que quebram as regras estabelecidas?

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  8. Pois, este post podia ser, a minha Mafalda é igual à tua L nesta parte do arrassstarrr e eu sou igual na parte dos gritos, que nervos!

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  9. Também eu grito mais vezes do que queria e já fiz workshops com a Mum's the Boss que ajudaram bastante a conseguir controlar e descomplicar as coisas, para eles (o pequeno ainda é fácil de controlar) colaborarem comigo. Também adorava ser uma mãe mais zen que consegue fazer-se obedecer com palavras doces, mas quando à vigésima vez o mais velho cntinua a ignorar-me, também me passo e levanto a voz. Mas estou muito mais controlada depois do desafio da Mum e tenho conseguido coisas muito positivas. E olha que não é pela permissividade (que não tolero) nem pela anarquia, mas sim pela positiva e funciona bem. Beijinhos e ainda no outro dia recomendei os teus bolos. O A. ainda fala do bolo do homem aranha! Bjs

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  10. Li este post durante a semana e bookmarquei para poder comentar quando tivesse tempo. Não sou mãe, nunca serei, então não posso opinar. O que mais me marcou foi a tua honestidade. Não dás a entender que a maternidade é uma vida perfeita, com filhos perfeitos dignos de uma campanha de cereais internacional. E a honestidade da vida e dos sentimentos e das situações é algo que existe cada vez menos numa blogosfera que quer aparentar tanta coisa menos a uma vida real. Por isso, parabéns. Really. Beijos, J.

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Obrigada!