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05 setembro 2014

A vida às voltas

Agosto era o mês de viragem para mim. Tínhamos decidido que estava na hora de eu voltar a trabalhar a tempo inteiro, fora de casa. Já me apetecia sair da bolha. Já me sentia subaproveitada e com muita vontade de criar, de fazer coisas, de produzir. Ainda não tinha falado nisso porque dia 1 de Setembro seria o meu dia 0. O recomeço.

Mas dia 30 a minha vida virou-se do avesso. De manhã, o meu pai diz-me que encontrou a minha mãe caída em casa. Voei para lá. Encontrei-a consciente, mas fora de si, sem saber onde estava, sem se lembrar de respostas dadas a perguntas feitas por ela imediatamente antes. Passámos o dia no hospital, entre exames. À tarde, com um CD com imagens de uma TAC na mão e a indicação de que aquela paciente era muito urgente, um auxiliar manobrou duas macas ao mesmo tempo, com a minha ajuda e a do filho da outra doente. Voámos para a urgência novamente, onde foi dada ordem de internamento.

Não comi praticamente nada o dia todo. Estive sempre com a minha mãe, que, mesmo sedada, se queixava de dores de cabeça horríveis e que continuava a fazer as mesmas perguntas a que respondi inúmeras vezes.

O médico que a atendeu disse-me que ela ia ficar internada e que o caso era gravíssimo. Saí de lá com o coração nas mãos. Pequenino, esmigalhado, mas ali, nas mãos.

Às dez e meia da noite toca o telefone. Percebi que seria do hospital e ali, numa fracção de segundo, temi o pior. Era o administrativo a informar-me de que a minha mãe tinha sido transferida para outro hospital, onde estava a especialidade de neurocirurgia. Não dormi nada de jeito nessa noite. Na manhã seguinte, domingo, liguei para o dito hospital. A minha mãe já não estava lá, tinha sido transferida para os cuidados intensivos de outro hospital. Gelei. Piorou, pensei. Pouco depois liga-me o meu pai a dizer que lhe ligaram do terceiro hospital, a dizer que ela ia ser operada "agora", que ia dar entrada no bloco operatório e que teríamos notícias dali a quatro horas.

Foram as piores quatro horas da minha vida. Muito piores do que os meus internamentos todos. Muito piores do que tudo o que passei de mau na vida. Nada do que já vivi se compara àquilo. Chorei. Foi ali, durante aquelas quatro horas, que chorei tudo o que ainda não tinha chorado. Tive medo, muito medo. A minha mãe é a trave-mestra da minha vida. É o meu pilar maior. Talvez por não ter irmãos, é nela que me apoio. Apesar de chocarmos tantas, tantas vezes, é a pessoa que me sustém de pé. Sempre foi.

Soubemos depois que a operação correu bem. E só nesse dia nos explicaram o que ela teve: um aneurisma cerebral que rompeu. O sangue que a TAC detectou no sábado à tarde era causa e não consequência da queda dela. A veia rebentou, fê-la desmaiar e, por acaso, caiu de cara no chão, coisa que lhe deu de prémio um galo na testa e um nariz amassado.

No domingo ainda estava sob o efeito da anestesia quando a visitámos, mas falava e mexia-se. O meu coração sossegou um bocadinho. Tem vindo a melhorar de dia para dia, fala mais, tem menos dores. Tem ainda mais uma semana e meia de cuidados intensivos pela frente porque ainda está em risco de ter complicações e, se acontecer, tem que ser imediatamente tratada. Mas, se Deus quiser, nada disso vai acontecer. Depois terá uma estada na Enfermaria e só depois virá para casa.

Muita coisa vai mudar na vida dela. Para melhor. Eu acredito mesmo nisto e quero muito tê-la por cá muitos, muitos anos. Quero que os netos cresçam com ela, como eu cresci com os meus avós - ainda tenho uma avó viva e estou a caminho dos 36 anos. E a minha mãe, tal como a minha avó Florinda, é a mais nova dos avós dos meus filhos.

Têm sido dias agitados. Entre cuidar dos miúdos, da minha casa, da casa da minha mãe e as visitas ao hospital, o tempo não estica. A minha decisão de voltar a trabalhar fica adiada até perceber até que ponto a minha mãe precisa de mim. E até perceber como vai ser com o meu filho, que não entrou na escola pública e que não posso pôr numa privada (e ir trabalhar para poder pagar a escola, não sobrando quase nada para outras coisas, não é opção).

Este ano, Setembro não foi o meu ano novo. Costuma ser a minha época de recomeços. É a altura em que me realinho, em que defino prioridades e em que estou cheia de vontade de evoluir e de crescer. Este ano, o Ano Novo vai ter que esperar. Não me importo. Estou cá para aguentar o barco, seja ele um barquito à vela ou um cruzeiro daqueles bem grandes.

A vida virou-se-me do avesso. Mas eu sei fazer o pino e danço conforme a música. Agora é aguardar e acreditar que a minha mãe vai ficar bem e que daqui a pouco está de volta ao dia-a-dia dela. E ao meu.

[E obrigada a quem me tem apoiado, via Facebook. É muito bom sentir este carinho todo que tenho sentido por estes dias. Obrigada mesmo. E desculpem se não respondo logo... é muita coisa a acontecer ao mesmo tempo. Eu sei que vocês percebem!]

25 comentários:

  1. Vai correr tudo bem. Foi detectado a tempo e só por isso já correu bem.
    beijinho grande e as melhoras.

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  2. Muita força e sinceras melhoras da mãe! Tudo a correr pelo melhor! Beijinhos

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  3. Eu... nunca comento mas não queria deixar de te mandar um beijinho. Que susto! As melhoras, espero que tudo acabe MUITO bem.

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  4. Um beijinho apertado. E certamente vai tudo correr pelo melhor. Pensa que o pior já passou.

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  5. Força, Lénia. Votos de que a tua mãe recupere rapidamente e que tudo fique bem. Beijinhos.

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  6. Oh, Lénia, não tinha ideia...que susto enorme. :( Que ela volte a ficar a 100% e por muitos e bons anos. Tenho pena que aquilo que tinhas idealizado não se vá concretizar para já, mas eu acredito que não há acasos nesta vida. Deus vai estar convosco. Há coisas que só entendemos muito mais tarde. Um abraço apertado e muitos beijinhos.

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  7. As melhoras para a tua mãe. Um abraço muito grande para ti! Estou a rezar deste lado :)

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  8. Vai correr tudo bem! Força e um beijinho.

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  9. Espero que corra tudo bem,
    muita força.
    Beijinho

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  10. Lénia, tudo vai correr bem. Muita força, que é preciso nestas alturas. Um beijinho

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  11. Vai continuar a melhorar, vais encontrar uma solução para a escola do miudo, vais arranjar um trabalho que acima de tudo te faça sentir realizada, e tudo vai entrar nos devidos eixos! Eu sei que sim! Beijo grande!

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  12. As melhoras, tudo irá correr bem!!!
    Um forte abraço.

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  13. Sou uma seguidora silenciosa (mais no facebook e no instagram) mas hoje não podia deixar de comentar. Muita força! És uma mulher e pêras. Desejo as rapidas melhoras da tua mãe. Um grande beijinho.

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  14. Vai tudo correr bem, Lénia! Tu és mulher de enfrentar qualquer "guerra"!
    Se alguma lição podemos ou devemos tirar de uma patologia grave como um aneurisma, é que devemos dizer todos os dias Às nossas pessoas que as amamos e a partir de agora vais ver que aproveitar cada minuto e viver a vida devagar vai ter um verdadeiro significado!
    Um grande beijinho! E estamos por aqui.....
    :)

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  15. Um beijo muito garnde minha querida. ... e continuação de boas melhoras para a tua mãe. ...e revi-me em tudo o que escreveste. ...a minha mãe tb é o meu pilar. ...

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  16. Que continue a correr tudo bem com a recuperação! Beijinho

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  17. Acho que nunca comentei aqui, só recentemente o faço no facebook, mas hoje tem de ser. Tenho de te dar os.parabéns.por estares a conseguir lidar com toda esta situação!
    A vida realmente dá muitas voltas, mas.felizmente tudo está a encarreirar-se...muita força para ti e as melhoras da tua mãe, que fique bem e sem sequelas!
    O resto, que seja um dia de cada vez :-)

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  18. Muita força e sempre pensamento positivo! Beijinhos grandes e as rapidss melhoras da tua mãe.

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  19. Querida Lénia,
    As melhoras e muita força para a vida que nos obriga a dançar tantas danças que não julgávamos ser capazes de dançar, quanto mais de entender.
    Um grande abraço e beijinho a dividir por toda a família.

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  20. Imagino o sufoco, caramba...
    Um beijinho grande e muita força. Parece que tudo esta a encaminhar-se pelo melhor, e estou aqui a torcer por vocês!
    **

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  21. Querida,
    A minha sogra aconteceu o mesmo com o agravante que ja se queixava de dores de cabeça ha dias( tinha um furo numa veia) e dias até que um dia o meu marido a encontrou por acaso caída no chão de casa a espumar pela boca, vivem a 50klm do hospital mais proximo o de Castelo Branco e foi transferida para Lisboa para o São José foi operada e a recuperação foi lenta, mas como ela sempre disse não havia de morrer sem ter netos, hoje ainda lhe custa baixar ou de vez enquando tem dores de cabeça mas está aí para as curvas tirou o 9º ano a noite participa em imensas actividades na terrinha toma conta duma neta com 2 anos todos os dias e acredito que fará ainda mais muito mais por nós pela sua familia.
    Como vês tens de ter muita paciência mas muita esperança pois com toda a certeza vai tudo correr bem e este é so mais um degrau, mais uma etapa que a tua mãe vai ultrapassar.
    Um beijinho grande

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Obrigada!