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02 outubro 2014

O direito ao Verão

Não me apetece o Outono - nunca apetece, na verdade, mas este ano menos ainda. Não me apetecem os lenços, nem as meias, as botas de cano alto e os casacos apertados. Não me apetece o frio na cama, a manta por cima das pernas, a lareira acesa. Não me apetece a chuva nas janelas nem os limpa pára-brisas cadenciados, a limpar continuamente aquela água que suja muito mais do que limpa. Não me apetecem os dias curtos, o sol escondido, as nuvens gordas sobre a Serra de Sintra. Não me apetece o piso escorregadio nem a chuva que me molha entre a bomba de gasolina e a caixa onde se paga. Não me apetecem camisolas de malha grossa nem os pés sempre frios. Não me apetece o conforto da caneca de chá a aquecer-me as mãos. Não me apetece o tempo que encolhe, os dias incertos, a prisão ditada pela chuva que cai. Não me apetece a habitual ventania que transforma a minha rua num sucedâneo do Kansas da Dorothy de sapatos vermelhos.

Apetece-me um Verão eterno. Um Verão quente de brisas suaves, de noites passadas a passear na rua, a seguir ao jantar. Apetecem-me piqueniques que este ano não chegámos a fazer. Apetecem-me mais manhãs de praia, banhos de mar, o chapéu de sol por cima de mim, a risca branca a meio da barriga enegrecida, prova de que passo o Verão-de-praia sentada numa cadeira, como os velhotes. Apetecem-me gelados e sangrias, sumos de melancia com hortelã, limonadas de morango. Apetecem-me passeios pela Marginal, um almoço na Capricciosa de Carcavelos, o barulho das ondas nas rochas. Apetecem-me os meus miúdos de fato de banho, os risos deles a fugir das ondas, o ar compenetrado enquanto apanham conchas para trazer para casa. Apetecem-me as sestas a seguir ao almoço, num quarto escuro, janelas fechadas para não deixar entrar o calor. Apetece-me o Verão no Alentejo, a piscina do Crato, os passeios depois de jantar naquela aldeia que é nossa. Apetecem-me caracóis e tangos, caracoletas assadas a escorrer molho de manteiga. Apetece-me não contar as semanas que faltam para o próximo Verão - faltam 45.

Este ano, o Verão foi uma miragem e o Outono vai chegando de mansinho para assentar fundações que durarão demasiado tempo. Nunca fui destes dias a meio gás, mornos e quase sem vida. Sempre fui do tempo de garra, do calor que sufoca e nos obriga a sucumbir. Este ano, o meu Verão foi só um sopro. E não tive maneira de o agarrar.

2 comentários:

  1. O Outono costuma ser a minha estação preferida, mas este ano também não estou preparada pare ele. Quero Verão até Dezembro!

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