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23 outubro 2014

Sobre aquele texto que fala de gente sem filhos versus gente com filhos

Não sei exactamente quando é que o glamour passou a ser condição sine qua non das vidas das pessoas. Há uns anos, o glamour era uma cena reservada a ocasiões especiais, a vidinha do dia-a-dia decorria na santa paz do senhor sem este dado na equação. Entretanto banalizou-se o glamour. Tudo é glamour. Temos que navegar nos mares do glamour a toda a hora, sempre, impreterivelmente.

Eu não quero glamour. Dispenso. Não quero ser o que não sou. Não quero aditivar-me com coisas que, na verdade, só me dão trabalho - e toda a gente sabe que o glamour dá trabalho e eleva um bom bocado os níveis de stress.

E foi nisto que fiquei a pensar quando li o tal texto que, sendo engraçadinho, está a anos-luz da minha realidade. Porque continuo a conseguir fazer muito do que fazem as pessoas sem filhos e porque me revejo em pouco do que ali é dado como certeza no universo de quem tem filhos.

Continuo a ter tempo para o que gosto de fazer. Continuo a ser eu. Antes de ser mãe, sou a Lénia. E a Lénia gosta de ler, de ver séries, de beber café com as amigas, de beber café sozinha, de adormecer tarde depois de ter estado a jogar um jogo parvo no telemóvel. Regra geral, durmo noites descansadas - hoje nem por isso, que o puto fez o favor de me chamar uma data de vezes. Consigo tomar um banho sem ter que sair ensaboada da banheira e não é por ter filhos já com umas idades mais avançadas, porque eles sempre me deixaram fazer isto - ou melhor, eu nunca desisti de fazer isto. Eu não abdiquei de mim na senda da maternidade, não porque não fosse capaz de o fazer, mas porque não acho necessário nem aconselhável.

Olhando para aquele texto, quase vejo um tratado de razões para NÃO ter filhos. Porque aparentemente a maternidade elimina qualquer resquício de glamour. Só que, lá está, o glamour é uma coisinha tão overrated que dá dó.

Na minha vida, quero coisas reais. Quero bifes grelhados com esparguete, o cheiro a comida pela casa, manchas de pasta de dentes no lavatório, dedadas nos vidros, brinquedos espalhados, jogos com metade das peças desaparecidas algures, puzzles incompletos, filmes infantis vistos até à exaustão, narizes ranhosos e calças de ganga pequeninas rasgadas nos joelhos. Quero montanhas de roupa por passar, listas de supermercado penduradas no frigorífico, contas para pagar. Quero andar a correr entre a escola e a natação, com passagem na padaria para comprar o pão para os pequenos-almoços do dia seguinte. Quero saber que ele toma 5ml de Aerius e ela 10ml, que ele não pode abusar no glúten e que ela tem que se controlar nos doces. Quero revirar os olhos perante a roupa que deixou de servir no espaço de dois meses e substituí-la numa ida à Primark ou, na loucura, à Zippy ou à H&M. Quero separar a roupa que deixou de servir e encaminhá-la para os primos, numa sequência lógica que eu também vivi com as minhas primas, nos idos anos 80. Quero saber as músicas do Panda, da Maria e da Sónia, apesar de não gostar de nenhumas. Quero conhecer as manias deles e saber à priori que ele não quer o ovo cozido misturado com o peixe e com os legumes e que ela vai andar a catar pedacinhos de cebola do arroz.

Quero viver uma vida real. Não quero uma vida de fotografia, de revista, de blog de moda. Quero viver para nós, não para os outros. Quero viver para viver e não para mostrar que vivo. Porque, no fim, o que fica são as nossas memórias, não são as memórias que os outros têm de nós.

7 comentários:

  1. Parabéns, Lénia, pelo teu texto! É isso mesmo!

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  2. Melhor não podia ter dito!
    Li esse "artigo" com um gosto meio amargo e um sorriso nos lábios. Um gosto amargo por saber que há tanta gente sem filhos que vai ler aquilo e sentir dó dos pobres coitados dos amigos que têm filhos. E com um sorriso por saber, de experiência, que aquilo é tudo um grande rol de asneiradas porque ser mãe não te anula como pessoa. Pelo contrário, é um extensão de tudo aquilo que (já) és.

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  3. Acho que estamos a perder um bocadinho o sentido de humor... recomendo vivamente leituras de 'Baby Blues' e 'Zits', para olharmos o texto de outra prespectiva.
    De qualquer maneira, Lénia, gostei muito do teu texto, trouxeste-me recordações muito boas :)
    Agora a roca fia mais fino... aquele velho adágio "filhos criados..." é mesmo, mesmo verdade...

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  4. Texto bonito, gostei. No entanto a crónica a q se refere não deixa de ter a sua piada. Provavelmente jã se esqueceu das peripécias q teve c os seus...eheh...
    Bom dia

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Obrigada!