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07 novembro 2014

A idade é tramada

Desde que me lembro que gosto de acreditar que sou uma pessoa irreverente. Manias. Sempre achei que tinha que ser contracorrente, que tinha que ir contra a norma, que tinha que desencarneirar. Manias, repito. Bom, durante muito tempo fui, efectivamente, um bocado rebelde. Mas fui aquele tipo de rebelde-certinha: faltava às aulas só quando achava que podia - e nunca houve cá cenas de estar tapada por faltas ou assim; ouvia jazz e quejandos quando os meus colegas e amigos andavam a descobrir os Nirvana e os Pearl Jam da vida; fazia teatro quando a maioria do pessoal queria era ir para o café ver jogos de futebol; lia Milan Kundera, Dostoievsky, Victor Hugo e afins e estava a alguns (muitos!) anos de sair da adolescência; enfim... manias.

Avancemos vinte anos. Continuo a achar que sou um bocado contracorrente e que sou irreverente. Continuo a querer fazer mais tatuagens, apesar de ter quase quarenta anos (ei... what?? Quase-quarenta-anos???? Ouch!). Continuo a ler coisas meio fora do expectável. Continuo a desencarneirar. Ou a achar que. Enfim. Bom, depois, de vez em quando, levo banhos de realidade e percebo: sou uma clássica. Tornei-me numa clássica. Irrevequê?

Ontem, a arranjar as mãos, pergunta a senhora: o que é que quer pôr nas unhas?
Eu: verniz. Vermelho.
Ela: e desenhos?
Eu: nada. Deusmalivre. Nem pensar. Vermelho, básico, simples, só.
Ela: não gosta de cores? Nem de enfeites?
Eu: gosto - de vermelho. E de brancos leitosos. Um rosa de vez em quando, no Verão. Azul petróleo muito raramente e não me tem apetecido. Desenhos, nunca.
Ela: você é uma clássica.
Eu (a sentir-me ensopada por um gigantesco balde de água fria): pois sou.

E é isto. Eu era a irreverente. A que usava batons roxos, não sendo gótica. Agora sou a clássica que anda sempre de unhas vermelhas e já é uma sorte. Quase quarenta anos, já disse?

4 comentários:

  1. Já levei com tantos olhares reprovadores por rejeitar quaisquer aplicações nas minhas unhas conservadoras.... E insistem "um brilho", "um risco", "em degrade", "mas só assim?"...

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  2. Achas mesmo que o facto de não colocares desenhos ou afins nas unhas faz de ti clássica? Eu diria que faz de ti uma pessoa com bom gosto! E uma pessoa com bom gosto também pode ser irreverente... :)

    Nota: eu também só ponho verniz "simples" nas unhas.... mas brinco muito com as cores, principalmente no Verão.

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  3. Concordo totalmente com o comentário acima. É mesmo uma questão de (bom) gosto.

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  4. Gosto tanto de seguir o seu blog! E... identifiquei-me tannnnto com este texto! Lol Não se trata de uma questão de unhas! Julgo eu! Mas sim da "normalidade" com que a vida nos conduz! Sim, tambem estou a passar por essa fase das unhas 😁 mas o assunto é bem mais abrangente! Pensar que usei cabelo laranja, vermelho...que ouvia música diferente, que era sonhadora mas irreverente... Que desisti da moda da tatuagem precisamente porque toooodaa gente tinha uma, que chumbei todas as disciplinas do 10ano sem faltar 1vez às aulas e testes só para cumprir um juramento e mostrar a todos que a minha praia era tudo menos números e saídas convencionais! Sempre me senti "espírito de contradição"! Etc etc!!! Ceus!!! Hoje, a caminho dos 35... Estou casada, com um filhote, mega feliz... Em modo clássica!!! Parabéns pelo blog e obrigada pela partilha!

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Obrigada!