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13 novembro 2014

Letras & Magnólias | Casa

Largámos o Frente&Verso porque percebemos, ao fim de quase dois anos, que temos muito menos coisas sobre as quais discordamos do que coisas sobre as quais pensamos da mesma forma. Mas adoramos escrever juntas. Desafiamo-nos. Melhoramos. Crescemos, quando o fazemos. E por isso, decidimos trocar o Frente&Verso, onde tudo começou, pelo Letras&Magnólias. Um espaço nosso, a quatro mãos, que vai versar sobre o que quisermos. Quando quisermos. As letras são dela. As magnólias são minhas. Ambas adoramos as duas coisas.

***

No primeiro dia foi o alívio. Um alívio imenso que me invadiu e me aqueceu, e me deu sono e cansaço extremos. Aliás, nos três primeiros dias foi isso. Um alívio que apagou, finalmente, a angústia que nos últimos meses me tinha apertado o coração e enchido de lágrimas o rosto. Todos os dias. Depois, logo a seguir, houve uma viagem. Desejada há tanto tempo, na melhor das companhias. Era como se fosse o encerrar de um ciclo e o começo de um totalmente novo. Durante as nove horas de voo só houve um peito a explodir de alegria, ainda que o cansaço se fosse acumulando. Sair do avião e respirar aquele ar que nos faz sentir em casa. Sentir aquele clima, aqueles cheiros, ouvir o sotaque, respirar a cidade.
Como te sentes?, perguntavam-me? Imensamente bem. O primeiro mês foi assim. Fácil, porque parecia estar ainda de férias. Não pensava no que aí vinha, porque estava a aproveitar o tempo. Tempo. De qualidade. Serenamente. O primeiro mês, passado fora de casa, foi crucial. Depois veio mais um. Já tínhamos decidido que só no final do segundo começaria à procura de trabalho, e que no máximo ficava até ao final do ano em casa. Se não conseguisse o que queria, arranjava outra coisa que quisesse menos.
O segundo mês foi para ler, ler, pensar e ler – e sim, ficar com o maior bronze dos últimos anos, uma vez que a praia foi a minha casa durante várias semanas. Comer a comidinha da mãe, ter tempo para estar, para passear. Aprender a viver com a carteira totalmente fechada durante vários dias. E o pior foi o regresso a Lisboa. A casa. Ver a rotina dele ser a mesma e a minha não existir. Se em alguns dias era maravilhoso – eu tenho sempre tanto que fazer – em outros era um drama. Ele chegava e o peito apertava-se enquanto as lágrimas voltavam: e se eu não conseguir arranjar trabalho? E se nunca mais conseguir? E agora? As lágrimas secavam num abraço quente e num reconfortante Eu confio totalmente em ti. Vais arranjar. Tenho a certeza. E temos tempo. Aprender a viver com 50% dos rendimentos, com mais 100% do tempo. Aprender a ir ao supermercado sem margem de erro, a passar nas montras sem olhar, a pensar cada viagem ao quilómetro, à refeição, ao minuto, a recusar jantares ou copos fora. Aprender a viver [mais] com menos.
Até ao dia em que o telefone tocou. Um almoço, um pequeno-almoço, mais telefonemas. Passaram menos de três meses. Se o meu coração fosse de plástico tinha explodido de alegria. De gratidão. De certeza: vale a pena arriscar. Vale a pena marcar o caminho das pessoas. Vale a pena aceitar ajuda. Vale a pena fazer aquilo em que acreditamos. Mesmo com medo. Mesmo em pânico. Porque no final pode dizer-se que decidimos, que o que temos é fruto da nossa escolha. Se cedermos ao medo, alguém decidiu por nós. E vale tanto a pena acreditar que podemos ser felizes.

Estas são as letras da Margarida. As minhas magnólias andam pelo blog dela.

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