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24 novembro 2014

Ópio

Deixei de ter paciência para a conversa da felicidade, que parece uma drogazinha boa que nos põe na estratosfera. Deixei de conseguir ler sobre isto sem revirar constantemente os olhos. Eu não acredito na felicidade constante. Nem acredito que, para se ser feliz, basta acreditar que se é feliz. Não basta. Não acredito no mood pateta-alegre que vê girassóis em pedras no meio da estrada e lagoas transparentes em poças de lama. Sou demasiado terra-a-terra. Demasiado crua.

Não sou feliz o tempo todo. Tenho, obviamente, momentos de felicidade extrema - os abraços do meu filho; os mimos que só troco com a minha filha, as piadas que só nós entendemos; o momento em que me deito ao lado dele e nos prendemos num abraço, apenas isso, um abraço; um bom livro; quando escrevo sem pensar demasiado e depois, ao ler, vejo que escrevi exactamente o que queria escrever. Mas são momentos. Não é uma coisa o-tempo-todo. Se me perguntarem "és feliz?", respondo sem hesitar que sim, sou. Mas é uma avaliação geral, uma média, se quiserem. Nem sempre é assim. Há momentos em que me sinto profundamente vazia. E angustiada. E descrente. E desiludida. Depois passa.

O que não passa é o cansaço com a conversa da felicidade, como se aquilo fosse uma espécie de obrigação a cumprir sempre, a todo o momento, sem falhas nem deslizes. A fasquia está altíssima, temos que ser sempre felizes, temos que estar sempre nos picos da felicidade. E depois vem a frustração, porque ninguém é feliz o tempo todo. E a mentira, quando nos querem fazer crer que sim, que a vida é uma estrada cor de rosa, sem percalços, sem as tais pedras, sem poças de lama, mesmo que chova torrencialmente para cima de terra barrenta.

Às vezes, a felicidade é só uma gotinha de chuva que me cai no nariz. Noutras é uma tempestade que me ensopa até aos ossos. Num e noutro caso, está tudo bem. Faz parte. E mesmo nos dias menos bons, sei que há, algures, um motivo para sorrir. Mas isso não quer dizer que esteja sempre feliz. Não estou. E ficaria um bocadinho triste se percebesse que quem me lê achasse que sim. Aqui, nesta casa, há dias maus. Aqui, somos reais, iguais a toda a gente. Aqui, na maioria dos dias, somos felizes e está tudo bem. Noutros, temos problemas e pequenos dramas e chatices. Como toda a gente. 

9 comentários:

  1. Não podia concordar mais consigo :)

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  2. Tão isto.

    Também não me passa que não se possa estar triste, não se possa até estar doente, porque TEM QUE se ser SEMPRE feliz. Porque se tem tudo aquilo que é aparentemente condição de. Passam-se fases más, fases patológicas, quem nem nós próprios controlamos, nem desejamos.

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  3. Claro que não se tem de estar sempre feliz, mas eu acho que se encararmos as coisas com mais positivismo, acabamos por relativizar.... Tenho tantos momentos de raiva, frustração e cansaço, claro que tenho. Sou humana. Mas começo a aprender a relativizar e acredita, querida Lénia, não acaba com os problemas, mas ajuda a encará-los com outro ânimo! :) Pelo menos é assim que eu penso. :)
    Beijinho gigante

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  4. Eu não sou sempre feliz e sinceramente também não me sinto na obrigação de o ser. E não me lixem, acho impossível ser-se sempre, sempre, sempre feliz a todo o instante. Não acredito nisso.

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  5. Quando digo coisas do género, dizem-me que sou uma pessoa muito negativa. Mas é a vida, não consigo lidar com algo que nao vivo ou sinto constantemente, mas que me querem fazer acreditar que existe. Nah. Beijos.

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  6. Acho que muitas vezes (não todas) essa impressão é mais de quem lê do que de quem escreve. As pessoas não tentam forçar, fingir, enganar dando a ideia que são as mais felizes do mundo, com uma vida perfeita e em que nunca há um dia de tristeza. Acho que muitas vezes é simplesmente porque não gostam de falar das coisas más, de as deixar registadas. Preferem deixar para trás esses momentos e dar valor ao que é bom. Nós é que nos deixamos influenciar por essa impressão de suposta completa felicidade. Por acaso nunca leio as coisas desse modo (a menos nas excepções, que as há, mas que a maior parte das vezes até me dão vontade de rir de tão plásticas que soam)... acho que é evidente que toda a gente tem os seus problemas e os seus momentos mais depressivos e tristes.

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  7. Brilhante. Ponto. É só isto que tenho a dizer.

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Obrigada!