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08 janeiro 2015

Je suis Ahmed

Tenho uma curiosidade enorme pela cultura árabe. Sou fascinada por aquilo, como sou pela cultura japonesa (a antiga, bem entendido, que a cena dos tamagotchis e de milhares de luzes a piscar é coisa que me repugna). Interessa-me a forma de viver, a língua, a música. Poucas coisas me arrepiaram tanto como ouvir o Adhan (a chamada para a oração) de repente, no meio de uma aldeola em Marrocos.

Embora estejam intrinsecamente ligadas, a cultura árabe não é o islamismo. Claro que é quase impossível dissociar as coisas, mas o facto de eu me interessar pela cultura não significa que alinhe pela religião. O que aconteceu ontem em Paris não foi nem cultura árabe, nem islamismo. Foi terrorismo, que é toda uma outra história. Há muçulmanos com cérebro, que pensam, que são civilizados, que respeitam os outros. E depois há estes terroristas que explodem pessoas só porque sim. Porque acham que, com isso, defendem a sua religião. Não perceberam ainda que, com isso, apenas mancham a religião por que se regem, tornando-a um alvo a abater. Terrorismo não será nunca uma expressão do islamismo. Da mesma forma que pedofilia não é expressão de catolicismo. Ou seja, não se julgue o todo pela parte, nem no que toca ao Islão, nem no que toca à religião católica. Não se confundam conceitos. E sim, a culpa desta confusão que reina hoje em dia é dos tais que, desprovidos de pensamento crítico, desatam a detonar bombas porque acham que assim honram o deus deles.

Eu acredito mesmo que o islamismo não é isto que os grupos terroristas nos oferecem de bandeja. Acredito que o Islamismo, como todas as outras religiões, é paz. E não nos esqueçamos de que, há um par de anos, foram os católicos a andar de cruz ao peito, a despedaçar tudo a eito nas Cruzadas.

O que aconteceu ontem foi terrorismo. Foi um acto que não representa a religião que professam os perpetradores do dito acto. Vi o vídeo da morte do polícia: o homem, deitado no chão, levanta as mãos e leva, em resposta, um tiro na cabeça. O polícia que tentava travar o ataque terrorista morreu assim, assassinado à queima-roupa. O polícia que morreu ontem, deitado no chão e de mãos levantadas, chamava-se Ahmed e era muçulmano.

5 comentários:

  1. Bom texto e excelente reflexão do tema :*

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  2. Infelizmente tens toda a razão. :(
    Muito bom texto!

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  3. Tenho uma opinião muito particular sobre este tema, a dissociação de religião e extremismo. E não só no caso islâmico, pois a religião católica não é de todo inocente. Mas um dia podemos conversar sobre isso ;)

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  4. Os terroristas islâmicos são, como sabes, os que interpretam o Corão à letra. Concordo com grande parte do que dizes, mas a verdade é que, hoje em dia, não se vêem católicos a perpetrar actos de terrorismo como se vêem muçulmanos. Não sei exactamente explicar porquê, mas penso que pode estar relacionado com a própria natureza diferente dos dois textos (Corão e Bíblia). Sim, temos as cruzadas na nossa história, mas não nos podemos esquecer do contexto histórico em que elas aconteceram, que é bem diferente do contexto em que acontecem estes ataques. Não que ache que o contexto justifique alguma coisa, mas as mentalidades e formas de pensar e agir eram outras. A frase do Saramago é a que melhor retrata o que penso sobre o assunto: 'matar em nome de Deus é transformar Deus num assassino'.

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  5. Obrigada pelo teu texto. Revejo-me em muito.
    Vou partilhar.
    Beijinhos

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Obrigada!