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12 janeiro 2015

Mãe e filha

Não tem sido nada fácil trabalhar a relação com a minha filha. Tem sido um desafio que, de vez em quando, é sinónimo de desespero - nem sempre, mas acontece.

Eu não sou a rainha da paciência. Não tenho uma margem enorme de tolerância. Por norma, se digo para se fazer uma coisa, é para essa coisa ser feita. Há coisas que não precisam de debate nem de negociação: são assim e pronto. Às vezes, demasiadas vezes, esqueço-me de que os 28 anos que lhe levo de avanço me deram ferramentas que ela ainda não tem. Há coisas cujos porquês ela não entende e, como não entende, não faz. E eu nem sempre me lembro de que ela só tem sete anos. O facto de nunca a ter tratado como se ela fosse mentalmente diminuída (que não é, mesmo nada!) faz com que me esqueça muitas vezes de que ela é uma criança e, como tal, não sabe nem entende tudo como os adultos.

Ela é insegura, tem pouca auto-estima, duvida muito de si mesma, apesar de passar a vida a dizer-lhe que ela é capaz de tudo e que só não consegue se não tentar. Desafia todas as regras, à procura do lugar dela nesta dinâmica a quatro que vivemos cá em casa. É respondona, distraída e irresponsável. É uma criança de sete anos, basicamente. Com as outras pessoas, é um doce. Super sociável, bem educada, relativamente sossegada. Comigo solta o diabo que tem dentro e perde os filtros.

Todos os dias há guerras. Ou por causa do que ela não arruma, ou porque se recusa a fazer as tarefas dela, ou porque demora duas horas a jantar, ou porque se distrai com a televisão, ou porque não faz o que lhe mando fazer, quando mando fazer. Motivos não faltam. E eu, entre filhos, casa, trabalho, a minha mãe e a vida no geral, nem sempre tenho paciência para levar a coisa sem recorrer a uma palmada ou a um berro. Mas tento. Cada vez mais.

De há duas semanas para cá, eu e o marido combinámos travar um bocado os calores que nos sobem quando ela faz das dela e tentar não desatar aos gritos. Não tem sido fácil, mas temos conseguido. Ela vai respondendo positivamente a isso. Se há um mês, caso ela me desse uma resposta torta, eu lhe mandava um berro e a punha de castigo, agora olho-a nos olhos e pergunto calmamente se ela acha que está a falar em condições comigo. Ela baixa os olhos e diz que não, pede desculpa e consegue controlar-se.

Na semana passada, um dia ao jantar, houve "festa". Estava à mesa há mais de uma hora, a olhar para o prato. E nós "Leonor, come. Leonor, come. Leonor, come" em repeat. Até que o pai se fartou e, para não se passar com ela, levantou-se da mesa e foi-se embora. O irmão foi também. E eu conversei com ela. Perguntei porque é que ela não fazia o que pedíamos. Porque é que ela simplesmente não obedece. Disse-me que acha que gosto mais do irmão do que dela, porque quase nunca ralho com ele (é verdade... mas o sacana do puto é super obediente e muito meiguinho... e é raro fazer asneiras! Claro que, quando as faz, também ouve, mas é mesmo com muito menos frequência...). Expliquei que isso não é verdade. Gosto dos dois da mesma maneira. Dela até gosto há mais tempo, porque o irmão é três anos mais novo do que ela. Expliquei que só queremos que ela cresça e seja uma boa menina. E ela disse que às vezes ficava confusa porque lhe ralhávamos "e como é que vocês dizem que gostam de mim se depois me gritam?". Doeu. Pedi-lhe desculpa. Disse que é muito difícil não nos passarmos quando ela constantemente desobedece ao que mandamos fazer. Expliquei que, quando mais fácil ela for, menos nós precisamos de nos zangar. Ela queixou-se de que passo mais tempo com o irmão do que com ela - já foi verdade, mas desde que ele entrou para a escola deixou de ser. Diz que tem saudades da mãe só para ela. Perguntei se tem saudades de um dos nossos programinhas de meninas. E vi uns olhinhos a brilhar: "sim, mãe, é isso!!".

Combinei com ela: no fim-de-semana que vem, com o pai fora numa BTT trip qualquer, peço à avó que fique com o pequeno uma noite para eu poder estar só com ela. Agarrou-se a mim com força. Já me falou carradas de vezes do nosso dia de meninas. Diz que está ansiosa, "nunca mais é sábado, mãe". Quer ir ao shopping ver lojas, quer ir ao McDonald's (esta parte vou ignorar), quer vir para casa ver um filme e comer pipocas, enroscada em mim, no sofá. E quer dormir comigo, para o mimo ser completo.

Ela está a precisar de um dia assim e eu também. Porque, no fundo, não nos damos mal mas chocamos demasiado. Talvez eu exija demasiado dela, não sei. Sei que me custa horrores andar sempre a berrar, e sei que ela não é a miúda mais fácil de levar do mundo. Mas também sei que esta relação depende mais de mim do que dela e sei que tem que partir de mim a mudança. Estou a tentar. Não é fácil, mas estou a tentar...  

10 comentários:

  1. Acho que está no bom caminho e a relação com a sua filha vai melhorar. Os filhos também têm muito para ensinar aos pais. Eles obrigam-nos a cultivar a paciência, a desenvolver a imaginação e a crescer como pessoas.

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  2. :) acabei de me rever no que está escrito... afinal não sou a única... Obrigada Lénia... já estou com um sorriso pronta a enfrentar as birras que me esperam quando for busálos à escola :)

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  3. Tenho algo parecido cá em casa com a mais velha, de certa forma esperamos mais delas porque a idade é outra, mas também tenho tentado dar mais de volta e controlar melhor a forma como lhe exijo mais em abono dos seus 8 anos.

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  4. Comecei a semana passada um desafio do blog Mum's the Boss, o "Berra-me Baixo". É precisamente sobre isso, tentarmos encontrar melhores estratégias de comunicação com os nossos filhos e melhorar a nossa relação com eles. Dá uma espreita, pode ser que ajude;)

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  5. Como eu me identifico com este post :) é tão dificil não recorrer ao grito fácil para resolver as situações :) a minha filha tem 6 anos e também está na fase de querer fazer valer a opinião dela a todo o custo... ando a tentar mudar a minha forma de lidar com ela e não gritar tanto :) Força para nós, Mães! :D

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  6. Li o texto e parecia que tinha sido eu a escrevê-lo. Vivo exatamente a mesma situação e preocupação. Não tem sido fácil. Beijjnhk

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  7. Será que resulta com uma de 11 anos?! Não sei o que fazer para evitar tanto choque :-(

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    1. Experimenta. Conversa com ela e explica-lhe as novas regras. E não desistas... (por aqui vai melhorando devagarinho.)

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  8. Oh espelho meu. Como é possível rever-me nesta situação se o piolho só tem 3 anos e meio?...talvez o problema seja mesmo eu. Se há dias que converso com ele para tentar perceber o que se passa naquela cabecinha, há outros em que o grito e o castigo surgem tão rápido.

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  9. Olha! Parece que estás a falar de mim e da Diana. [e, para além disso tudo, eu sou muito bruta e ela é a miss Beijinhos-e-abraços-até-te-faltar-o-ar.)

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Obrigada!