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16 janeiro 2015

O Amor

Fui desafiada, no âmbito da próxima edição do Mercado dos Santos, dedicada ao Amor, a escrever sobre Amor. Sobre O Amor. Um qualquer, desde que seja amor. Andei às voltas com o assunto: falo do marido?, falo dos filhos?, falo das melhores amigas?, falo dos livros? Não. Falo sobre o meu primeiro Amor.

A minha Mãe. Lembro-me de ser pequena e de ver a minha mãe muito bonita, maquilhada, muito bem arranjada. Era morena e tão, tão bonita. Lembro-me de ficar fascinada com a bolsinha de maquilhagem dela e de achar que, com aquilo ou sem aquilo, ela era sempre a mais bonita. Lembro-me de ir com a minha mãe para o trabalho dela, numa vivenda algures. Ela costurava, eu brincava com retalhos que iam sobrando do trabalho. Depois - ou talvez tenha sido antes, já não sei - passou a costurar em casa. Eu ajudava: passava horas a tirar alinhavos, coisa que odiava. Nunca quis aprender a coser - e tive a oportunidade de aprender com uma verdadeira mestra naquela arte: ela costurava para o Augustus. Ia a Lisboa buscar tecidos e moldes, voltava carregada, trabalhava durante dias e voltava ao atelier dele para levar as peças prontas e para trazer mais trabalho para fazer. Depois a costura acabou.

Lembro-me de não ver a minha mãe durante dias a fio: ela trabalhava numa fábrica onde entrava às oito da manhã. Levantava-se ainda de noite, eu e o meu pai a dormir, e ia trabalhar. Saía às cinco da tarde e ia para a escola: quando casou, só tinha a quarta classe, mas queria mais - começou a estudar à noite. Ia de comboio de Mem-Martins para a Amadora todos os dias. Ficava na escola até às onze da noite, às vezes até mais tarde, quando tinha que estudar ou se tinha que entregar algum trabalho. Chegava a casa, muitas vezes já à uma da manhã, e ia adiantar o nosso jantar (meu e do meu pai) para o dia seguinte. E passava a ferro - eu ainda era pequena e o meu pai nunca soube engomar. Deitava-se às três da manhã (ou mais tarde): levava-me ao colo da cama dela, onde eu tinha adormecido a ouvir o meu pai a contar-me uma história, para a minha, aconchegava-me e eu não dava por nada. Só a via ao fim-de-semana. Acabou o 12º ano no ano em que eu fiz o 7º. Nunca chumbou. Chegou a fazer dois anos num só. Entretanto tinha deixado a fábrica e já trabalhava na empresa onde ficaria até ser despedida, já com 53 ou 54 anos. Nunca conseguiu um trabalho na função pública, como queria - e foi para isso que quis estudar - mas nunca desistiu.

Entretanto, a minha filha. Começou a ficar com ela quando foi despedida, tinha a miúda uns 7 ou 8 meses. Cuidou dela todos os dias até nascer o mais novo e eu ficar com os dois em casa. Depois a minha filha foi para a escola e ela ficou com o neto. Ajuda-os a crescer. Ensina-lhes tanto. Eles amam-na assolapadamente. É "a avó", apesar de terem outra avó - e não é por mal, é mesmo só uma questão de proximidade física e geográfica. 

Depois, de repente, o aneurisma. E eu com o coração mirrado, vazio, seco: não sabia se ia continuar a ter a minha mãe. Rezei muito. Pedi muito. Acreditei muito. Ela está cá. Comigo. Todos os dias. E todos os dias eu agradeço as pequenas coisas que continuo a ter com a minha mãe: um café de vez em quando; falar todos os dias com ela; rirmo-nos das idiotices da Casa dos Segredos; rirmo-nos das coisas que os meus filhos dizem; os abraços mais demorados; os beijos mais sentidos. Todos os dias agradeço a Deus (porque acredito) por não me ter levado a minha Mãe. Este ano, na passagem de ano, chorámos as duas agarradas uma à outra. E agradecemos este dom da vida que ela tem. Que temos todos, porque ela está connosco.

Devo-lhe muito, tanto do que sou. E queria ser um décimo da mulher que ela é - e seria uma grande mulher se conseguisse ser essa décima parte. Amo-a muito, tanto.

Amo-te muito, Mãe. Obrigada por tudo o que és para mim.

[Aceitem o desafio do Mercado dos Santos: escrevam, desenhem, fotografem sobre O Amor, e enviem para mercadodossantos@gmail.com. E no dia 8 de Fevereiro, se puderem, apareçam por lá. Quem me dera poder ir também!!]

3 comentários:

  1. Eu só estive contigo uma vez, como sabes, e não conheço a tua mãe, mas tenho a certeza que tu és mais do que um décimo da mulher que a tua mãe é.

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  2. Fiquei comovida a ler-te. O meu primeiro amor também é a minha mãe e sei bem demais o que é ter de viver sem ela, mas nunca deixo de me sentir grata pelo que ela me deu e por tudo o que tive oportunidade de viver. Que venham muitos mais anos para a tua mãe, que coragem e que exemplo magníficos!

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Obrigada!