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24 fevereiro 2015

Letras & Magnólias | Controlo

A visão da Margarida

Sempre fui uma pessoa com muitas actividades, desde miúda. Lembro-me de em pequenina ter começado com a ginástica – sim, fui um flop. Depois vieram os escuteiros, o teatro, o grupo de jovens, o coro, as aulas de guitarra (a minha mãe bem tentou que me encantasse pelo piano mas eu era o cúmulo da irrequietude) e por aí vai.

Lembro-me de que por volta do secundário passei a integrar a equipa que organizava o Festival da Canção lá da terra. Uma coisa que tinha nascido mínima mas que em alguns anos se tornou tão grande que era, apesar de ser uma coisa assumidamente cristã, um dos eventos da vila. No ano em que enchemos a sala com mais de 1000 pessoas percebemos que tínhamos feito história com uma equipa de 6 pessoas mais 50 voluntários que apareciam na fase final do processo.

Acho que foi a altura em que me apercebi de quão control freak era, então. Alguns anos mais tarde passei a coordenar essa equipa, e mesmo quando estava longe não permitia que nada escapasse ao meu controlo. Há provas que revelam que foram trocados centenas de emails em pouco mais de três meses. Centenas de emails em que eu queria saber quem estava a fazer exatamente o quê, a que velocidade, com que eficácia e com que resultados. E continuei a ser assim na vida, porque o método parecia resultar: se eu souber de tudo consigo controlar tudo. Se conseguir controlar tudo consigo controlar danos. Se conseguir controlar danos consigo ter sucesso.

O problema é que a vida entretanto mostra-nos que não é bem assim que o grande esquema das coisas funciona. Há coisas – muitas, tantas – que não conseguimos controlar. Não conseguimos controlar as pessoas que ficam e que vão das nossas vidas. Não conseguimos controlar as doenças. Não conseguimos controlar as reacções alheias. Não conseguimos controlar os sentimentos. Não conseguimos controlar o que, simplesmente, não controlamos. E depois do choque e da angústia de perceber que havia coisas que não conseguia controlar, passei à fase seguinte: a de entregar e ver o que acontece.

O exercício não é nada fácil – na verdade é dificílimo – mas eu comecei com a coisa mais parva. Todos os dias, quando o autocarro para o meu segundo trabalho se atrasava, ficava em pânico. Porque depois do autocarro tinha que apanhar o metro e outro autocarro. Se o primeiro falhava, demoraria o dobro do tempo. Quando isto acontecia ficava numa pilha de nervos, aborrecidíssima, mal disposta, irritada. Até ao dia em que percebi que não posso, não tenho capacidade de gastar energias com coisas que não consigo controlar.

A minha angústia resolve o atraso? Não. Irritar-me põe-me lá mais rápido? Não. Então guarda as energias da irritação para algo que valha a pena.
É claro que isto me trouxe outro problema: quando me irrito com algo que verdadeiramente acredito que pode ser controlado ou resolvido com a minha irritação...sai de baixo!, que tenho imensa energia guardada precisamente para estes momentos.

Quando me assaltaram a casa, primeiro fiquei numa pilha de nervos. Irritadíssima. Furiosa. A pensar que poderia não ter saído de casa. Poderia já ter trocado a porta. Poderia ter deixado uma luz acesa quando saí. Poderia ter ido no dia seguinte ou escondido a mala e ninguém saberia que íamos para fora. Para quê? Resolveria? Traria as minhas coisas de volta? Não. Agarrei na energia e na fúria e fui ver em casas de penhores e afins se conseguia reaver alguma coisa. Não consegui. Paciência. Não posso controlar. Chorei, fiquei arrasada – às vezes ainda fico – mas paciência. Não controlo.

Alguém está doente. Entro em pânico, quero fazer tudo pela pessoa. Mas eu não sou médica, não sou enfermeira e provavelmente desajudo mais do que ajudo. O que se faz? Reza-se e espera-se. Dá-se força a quem precisa. Canalizam-se boas energias.

No trabalho – tantas, tantas vezes – não concordo com isto ou com aquilo. Irritar-me vai mudar alguma coisa? Às vezes sim: nessas, digo-o a quem de direito. Em tantas outras, não. Irrito-me? Deixo de fazer? Angustio-me? Não. It comes with the job. Eu faço a minha parte e dou o meu melhor. Que não seja por mim que não acontece de forma diferente, mas já não sofro por não conseguir controlar tudo – apesar de às vezes continuar a achar que se controlasse tudo faria melhor. Mas depois tenho a certeza de que não faria. :)

Resumindo e baralhando? Sim, nasci com o gene que me diz que sou muito boa a controlar tudo. E que gostaria de o fazer. Mas a vida não é assim. Portanto, trabalhei o meu cérebro para levar a vida como ela é: controlo o que consigo e o que está nas minhas mãos. O que não está, deixo ir e ver como a vida resolve. Entrego que há quem saiba melhor do que eu que caminhos me estão reservados.

Não é uma forma de vida, é um caminho. Que tem dias mais fáceis que outros. Que exige controlar medos e angústias. Que exige força de vontade e serenidade.

Mas que me tem feito uma pessoa muito melhor. Muito mais em paz. 

[E a minha versão, no sítio do costume.]

1 comentário:

  1. Acho que me identifico mais com a visão da Margarida, mas a idade tem sido uma ajuda preciosa no equilíbrio desta tendência :)

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