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02 março 2015

A saga da gata que fazia falta nas nossas vidas

Há umas semanas, decidimos que queríamos ter um gato. Eu sou assumidamente uma apaixonada por gatos. O marido não assume mas também é - ele até viveu com gatos muito mais tempo do que eu. Os miúdos ficaram com os olhos a brilhar com a ideia de termos um bichano cá por casa.

Mais atrás: a minha filha tem muito medo de animais. Qualquer bicho que se chegue a ela é um drama. Pode ser a criatura mais dócil à face da terra: se lhe tocar, ela chora. A minha sogra tem uma gata em casa, só que a bicha é assustada por natureza e não há quem a veja, portanto o contacto é quase nulo. Na terra do meu marido, anda uma cadelita lá pelos quintais, que é de um dos nossos tios. Ora calha que a cadela é daquelas irritantezinhas que ladra e ladra e ladra. Não faz mal nenhum, mas faz muito barulho. E a minha filha tem medo. Começámos a achar que a maneira de a ajudar a ultrapassar isto era patrocinar convivência diária. Um cão estava fora de questão: eu não sou grande fã da espécie e sou um bocado (muito) avessa a cães em apartamentos (mesmo que sejam apartamentos grandes e cães pequenos). Toda a logística dos passeios quer faça chuva, quer faça sol é coisa que não é para nós. O meu marido queria um pássaro, mas eu não me estava a ver a ouvir chilrear o dia todo - além de que a interacção com um pássaro é quase a mesma que com o peixe que temos ali num aquário há uns seis anos: zero. Portanto, um gato - estava escolhido.

Se eu não quisesse adoptar um gato, tinham-me aparecido mil gatos a precisarem de ser adoptados. Como quis, foi um festival para encontrar a nossa gata.

Contactei várias associações. Pesquisei uma data de sites de adopções de animais. Mandei dezenas de emails. Fiz uma carrada de telefonemas. E o nosso gato parecia cada vez mais uma miragem. E não, não éramos nós armados em esquisitinhos. Bom, os miúdos têm medo de gatos pretos (e eu não sou grande fã, confesso). O marido não é apreciador de gatos amarelos e preferia claramente uma fêmea (porque toda a vida teve gatas sossegadas e acha que o sossego vem com o X do gene). Eu não gosto muito de tartarugas, que normalmente têm umas manchas estranhas. Mas, resumindo, aquilo de que fazíamos mesmo questão era de que fosse um gato meigo, que se deixasse tocar.

Na semana passada fomos à União Zoófila, mas não pudemos ver os gatos porque a senhora que trata das adopções estava doente. Ficámos tristes... e ansiosos durante uma semana inteira. Depois, na segunda-feira, fomos ver três gatas, só eu e os miúdos. Não conseguimos perceber qual das três era mais esquiva/bufenta. Nenhuma se deixou pegar, consegui fazer festas numa delas, mas assim que fiz o gesto de a agarrar vi-lhe os dentes. Nada feito. Continuámos a nossa busca. Muitos emails depois, combinámos visitas para este domingo. No primeiro sítio, houve uma gata que nos encantou mas tinha tido uma ninhada há um mês e, portanto, ainda não podia sair dali porque não podíamos desmamar já os gatinhos. Depois íamos a outro sítio mas, como tínhamos tempo no meio, sugeri nova tentativa na União Zoófila. Chegámos mesmo quando aquilo estava a fechar, mas ainda nos deixaram entrar. Expliquei o que procurávamos. De entre os gatos saudáveis, a maioria era fugidia e mal se deixava tocar. Os gatos meigos eram todos gatos doentes. A senhora perguntou se queríamos vê-los mesmo assim. Só que perguntou isto mesmo em frente ao gatil deles e houve lá um amarelo, lindo, que se pôs a olhar para mim. E eu disse que sim, que queria ver os gatos doentes.

Entrei. O gato amarelo pediu logo festas, enrolou-se na minha mão, ronronou. E eu a ver a minha vida a andar para trás, porque um gato doente não era a nossa ideia de adopção - nunca é, não é verdade? Perguntei se havia mais gatos naquele gatil. Havia. Fui ver. E assim que bati os olhos numa gata cinzenta clara, tigrada, de olho azul, soube que ia ser difícil sair dali de mãos a abanar. Conversámos, perguntei muito sobre a doença (e tenho que ler muito mais ainda), a senhora das adopções sossegou-me dentro do possível. E a gata, super doce, a dar-me turrinhas na mão, a deixar-se acariciar, a ronronar tanto. Os miúdos e o meu marido entraram. E assim que viram a gata souberam. A miúda ainda teve medo, foi com muita resistência que aceitou fazer uma festa nela mas depois... "oh mãe, vamos levá-la?". E eu cá e lá: está doente... é tão meiguinha... pode vir a morrer mais cedo do que um gato saudável... é tão bonita... E ali, no momento do vai ou racha, lágrimas: não consigo ir-me embora sem ela. Lindo espectáculo: eu a chorar para um lado, a senhora a chorar para o outro e o meu marido tipo "então?? O que é que te deu??". Tratámos das papeladas, ele foi buscar a transportadora e, quando voltou ao gatil, a surpresa: o gato amarelo, assim que viu aquilo aberto, saltou lá para dentro e já não queria sair. Mas não podíamos mesmo trazer mais um... (quer dizer... está-me aqui atravessado e não sei, não...). Estes dois (e todos os outros daquela box) têm FELV, que é o vírus da leucemia felina. Não tem cura, pode dar chatices... mas também pode não dar e nos entretantos ela merece uma casa como deve ser - e, a sério, se quiserem um super gato meiguinho e muito sociável, vão à UZ e adoptem o King (que é como se chama o amarelo descarado).

Veio o caminho todo sossegada na caixa, a miar de vez em quando, mas sem grande agitação. Estávamos avisados de que ela poderia demorar algum tempo a sair da transportadora. Demorou uns dois segundos! Assim que saiu de lá começou a explorar, foi andando, foi vendo, foi dando turrinhas e pedindo festas. Uma hora depois estava a dormir ao colo do meu marido. E não, não foi ele que a chamou...

A noite foi mais ou menos tranquila. Miou algumas vezes, levantámo-nos para a ir ver e quando percebeu que ia ficar sozinha resolveu ir atrás de nós dar patadas na porta. Por hoje não teve sorte: ficou no hall, na cama dela (que adoptou logo!).

De manhã, o delírio dos miúdos: assim que acordaram saíram disparados para a ir ver. E para lhe fazerem festas. E para me pedirem para não ir à escola hoje (claro que não tiveram sorte neste ponto). E ela ali, mimosa e docinha como já percebemos que é.

Portanto, temos o prazer de apresentar...
Surigata

6 comentários:

  1. Foi a vacina contra essa doença que a Sardinha foi apanhar na sexta feira. Isto porque ela vai muito à rua passear e comer ervas e contacta com outros gatos de rua. A Suri é linda. Essa doença pode nem nunca se manifestar a não ser quando for velhinha. Então estando em casa, cuidada, as probabilidades de se manter saudável aumentam. Uma festinha para ela. ♥

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  2. :) Tão fofa :) Parabéns pelo gesto de terem adoptado ( e vai lá buscar o outro, eles gostam de companhia). Desde que a minha Bolinhas morreu só não trouxemos um para fazer companhia à Dunga porque também temos duas cadelas, mas por mim teríamos outra gata xD

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  3. Que gata linda e que história tão bonita, tenho dois adotados, um que me veio parar à porta recentemente :)

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  4. És grande! Poucas são as pessoas que adoptam gatos adultos. Menos ainda são as que adoptam gatos com FELV. Estou certa que a Suri vai ser uma gata muito feliz e que vocês vão ser muito felizes com ela :)

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  5. Parabéns por teres adotado um gato adulto. Faço parte de uma associação de animais e sei bem o quanto isso é raro!Beijinhos

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  6. A tua Suri é uma fofura :) Tem uns olhos tão meigos e parece ser mansinha!
    Os gatos são realmente uns grandes companheiros. Tive 2 gatas em Portugal e fiquei tristíssima aquando do divórcio porque elas ficaram para o meu ex. Entretanto aqui na Suíça também se proporcionou e agora tenho 2 gatos. Têm personalidades completamente diferentes um do outro e nota-se logo que são machos (muito mais agitados e mexidos que as minhas gatas), e fazem mais asneiras, mas gosto muito deles na mesma. Uma coisa que já fiz num e que tenho de fazer no mais pequeno é castrá-los porque se tornam mais dóceis e ficam com menos tendência a marcar o território!

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Obrigada!