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16 abril 2015

Epifania

Escrever este texto agora não me dá jeito nenhum. Esta semana rebentou aí pela blogosfera uma onda roxa, patrocinada por uma marca de iogurtes, que resolveu começar um movimento no âmbito do lançamento de um produto novo. Nada contra. Mas quero que saibam que o que vou escrever a seguir não tem NADA que ver com a dita campanha: não recebi iogurtes, não fui contactada pela marca, não há nada patrocinado aqui. E, obviamente, não vou falar mais dos iogurtes porque eles não tiveram nada que ver com o que vos vou contar, mas não queria que pensassem que era mais uma a escrever um texto bonitinho apenas e só porque houve uma marca a bancar a coisa. De novo: não houve. Estamos entendidos, avancemos.

Na segunda-feira, durante o meu treino no ginásio, tive ali um "aha-moment". Estava a fazer o meu treino mais puxado (o de pernas), concentrada no que estava a fazer e, durante uma pausa, calhei a olhar para um dos poucos (e pequenos) espelhos que existem no ginásio (não é um daqueles ginásios cujas paredes são forradas a espelho, e que estão pejados de narcisos que treinam a olhar para os músculos, não para ver e/ou corrigir o que estão a fazer, mas para se deleitarem com a vista dos seus próprios corpos). Portanto, olhei de relance para o espelho e ali estava o meu rabo. Não desviei o olhar. E dei por mim a pensar: mas eu ando aqui em guerra comigo porquê? Por que raio é que eu me tenho sentido tão mal com o meu corpo? Sim, peso mais 10kg do que pesava há 10 anos. Não, já não visto o 36, visto o 40. E? E então? O meu rabo, ali no espelho, e eu a pensar: isto é estúpido. Eu gosto do meu corpo. Ok, não adoro a minha barriga, mas ela já acolheu bebés e conta uma história - e eu sei que há mulheres que têm abdominais definidos e que também já foram mães, mas elas são elas e eu sou eu. E eu não tenho de ser igual a elas. Nem a ninguém. Tenho de ser igual a mim. E eu gosto do meu corpo, porque é meu. Trato-o bem. Alimento-me muito melhor do que me alimentava há 10 anos, quando passava semanas a jantar pratos de cornflakes ou placas de lasanha cozidas em água e sal, sem mais nada. Pratico muito desporto, e não ando ali a brincar - transpiro a sério, dedico-me a sério, aproveito o tempo que passo no ginásio para tratar de mim como mereço.

Estou farta de que o mundo me diga que o meu corpo não é o ideal. O meu corpo É o ideal. Para mim. E é só isso que importa. Não admito que os media, as outras mulheres, o mundo no geral me façam sentir mal com o meu corpo. Sou saudável, e é SÓ isso que interessa. O resto são conceitos de beleza que vão e vêm - há uns séculos, o ideal de beleza era a Vénus de Botticelli, que estava bem longe de ser o tipo escanzelado que se idolatra nos dias de hoje.

Saí do ginásio na segunda feira e fui comprar calças. Andava a adiar a compra de uns jeans, à espera de perder peso para caber num 38. Desisti disso. Comprei três pares de calças, umas de ganga e duas de tecido, e saí dali feliz. Se podia ser mais magra? Podia. Mas também podia ser mais gorda e ninguém tem nada que ver com isso. Nada dá o direito a ninguém de comentar os corpos alheios. Nada. E acho que é tempo de parar com isso. Há uns meses foi a Jéssica Athayde que foi massacrada porque era, segundo umas alminhas psicóticas, demasiado gorda para desfilar em bikini. Agora é a Carolina Patrocínio a estar na berlinda porque apareceu numas fotos com os ossos do esterno visíveis e, segundo a opinião geral, aquilo é demasiada magreza. Paremos. A sério, paremos com isto de opinar, comentar, avaliar os corpos alheios. Ninguém tem de meter a foice em seara alheia e esta é, claramente, uma seara que não nos pertence. Preocupemo-nos com o NOSSO corpo. Só. Com a nossa saúde. Com o que nos faz sentir bem. Com o que nos faz sentir felizes. O resto é ruído de fundo. Chato, incomodativo, mas apenas isso: ruído.

De segunda-feira para cá, a minha energia mudou. Deixei de lutar contra mim para lutar por mim, comigo. Estou farta de que me enfiem dietas pelos olhos dentro, como se a minha felicidade dependesse disso. Não depende. Sinto-me bem comigo. Gosto de mim. Sou muito mais do que a minha barriga, sou muito mais do que os 10kg que tenho a mais. Se houver quem não goste, lamento. Não, não lamento nada. Problema deles. Eu estou bem comigo e isso é o que importa. E, tal como disse ali em cima, sou saudável e isso é tudo o que me importa.

11 comentários:

  1. Não sou de comentar, mas não podia deixar de o fazer.
    Com 50kg para o meu 1m60 achava-me gordíssima. Não tinha estrias por aí além, nem celulite, nem mamas descaídas. Mas temia por ir à praia com amigos porque tinha vergonha. Vergonha!!! Cada vez que penso nisso só me apetece esbofetear o meu “eu” de 20 anos.
    Entretanto fui mãe e dizem que isso nos muda. E muda mesmo. O corpo, mas principalmente a mente.
    Hoje tenho estrias, tenho celulite (que tento erradicar por comer melhor) e o meu peso oscila entre os 57 e os 59kg. Mas sou infinitamente mais feliz, porque me aceitei. Aceitei aquilo que vejo no espelho, evidencio as coisas que me favorecem, o melhor em mim. Não tento caber em roupa só porque tem um número. Tento caber naquilo que gosto de me ver ao espelho.
    Gostava de ir ao ginásio para me mexer mais, para ter mais energia. E gostava de comer melhor para viver mais e melhor. Mas se sou feliz? Sou muito mais feliz com os quase 10kg a mais.

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  2. É isso mesmo! Tenho 23 anos e ando em luta contra mim mesma desde os 15. Nunca tive excesso de peso, sequer. Era mais ''gordinha'' (nem sei que termo utilizar) do que as minhas amigas e era praticamente chamada de gorda! (com 1.61 e 55 kgs, nunca mais do que isso) Depois fui emagrecendo, até chegar aos 44 e aí era chamada de esquelética (mas continuava perfeitamente saudável e a alimentar-me bem e a fazer exercício). Agora entre os 47 e os 49 acho que ainda sou considerada esquelética por uns e já sou considerada gorda por outros (verdade!). Quanto a mim há dias em que me sinto lindamente e gosto de mim e outros em que me sinto a pior coisinha do mundo, mas esses dias são cada vez mais raros, felizmente :)

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  3. Clap clap clap!

    Parabéns pela epifania! Era tão bom que todas as mulheres, mais cedo ou mais tarde, chegassem a essa conclusão.

    Eu ainda não estou exactamente nesse ponto. Gosto muito mais de mim hoje do que há 10 anos atrás e uns kilitos a menos (confesso que nem sei quantos serão) mas ainda batalho com a minha barriga. Pode ser que não demore muito tempo a chegar ao ponto que tu atingiste.

    (quanto à polémica dos iogurtes.... não faço sequer ideia do que falas! é o que dá não ler os "blogs da moda".)

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  4. Finalmente ;)... Era isto que eu te tentava explicar há algum tempo. Happy! Temos de ter saúde... Mas não temos de ser perfeitas!!! E muito menos infelizes! Love u ;))))

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  5. Gostei muito do texto Lénia, e o mais importante é aprender a aceitarmo-nos como somos com ou sem peso a mais, isso sim para mim é o mais difícil aceitar, posso estar a confundir os termos, mas tudo tem a ver com a auto confiança,
    o ditado já é velho se eu não gostar de mim quem gostará, mas como se aprende a gostar de nós, fica a minha pergunta.

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  6. Sabes, a chatice é essa. Eu tenho, provavelmente, mais 15/17 quilos do meu peso dito ideal. Sou super saudável, as análises mostram-me isso. Nunca me motivei para fazer dieta porque... bem, porque gosto de mim assim! Sou gorducha, com muito peito, mas sempre me senti bem. Tá bem que não me sinto sexy em biquíni, mas nunca me senti mal com o meu corpo. Na sexta-feira passada fizeram-me uma avaliação e descobri que tenho 41% de massa gorda, enquanto deveria ter 20 e tal, alegadamente. Fiquei a sentir-me mal. Não por ser gorda, mas porque não é saudável. Apesar de as análises dizerem que eu estou saudável, isto não pode ser bom sinal. Motivei-me assim. Não pelo físico mas pela saúde. Ando a comer sopas e saladas, a comer coisas saudáveis porque finalmente EU QUERO mudar. :)

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  7. O pessoal à nossa volta nunca está bem! Eu sou magra por natureza, nunca fui gorda mas mesmo assim todos dizem que sou muito magra. E eu digo: alguma vez me conheceram gorda? Gostava de ser mais gorda? Claro que sim! Mas também gostava de ser rica e não o sou :D Resultado mesmo sendo magra não agrado à maioria do pessoal mas queres saber? Agrado-me a mim e aos meus ♥ e isto é o que me interessa! Quero é saúdinha e o pessoal que se meta na vidinha deles!

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  8. Sabes, nos últimos tempos tenho pensado muito mais assim. Ando a aceitar-me cada vez mais como sou. Sim, a minha anca está mais larga, a minha barriga continua com o belo pneuzinho à espreita, mas quando me vejo... vou gostando mais de mim. O meu rabo mal tem celulite, sou uma abençoada por isso, tenho um peito bonito e ainda firme e mesmo com gordura a mais consigo ver os músculos dos abdominais e dos gémeos a sobressair. Eu faço desporto porque gosto, porque quero cuidar de mim e do meu corpo. Eu gosto do meu corpo porque nunca parti um osso, porque consigo levar 5 sacos de compras sem um esforço gigante, porque o meu cabelo não precisa de escova para ficar com ar apresentável. A minha barriga (ainda) não foi casa de um bebé, mas por baixo do pneu tenho um estômago bom, e tudo funciona bem. Há tanto mais no nosso corpo do que a gordura a mais, o peso extra, a celulite...
    A semana passada recomecei uma dieta, mas não me senti bem de maneira nenhuma. Esta semana voltei a comer coisas mais naturais e menos processadas e sinto-me melhor, mesmo comendo mais hidratos pelo meio, mesmo tendo cedido a um gelado. Percebi que quero continuar a exercitar-me e quero continuar a comer bem porque gosto e porque me faz bem. Pela saúde, pelo meu equilíbrio. Quero controlar as doses que como porque de contrário fico com o estômago inchado e preocupa-me que sinta uma fome emocional constante, mas não tanto porque tenho de emagrecer.
    Temos de perceber quem realmente somos e o que podemos fazer de nós. Desafiar os nossos limites e ir mais longe é fantástico, mas negar-nos algo que por vezes nos dá prazer (pode ser a comida, o exercício, comprar umas calças) só porque temos de ir ao encontro de padrões impostos pela sociedade é muito diferente. Cada vez mais me vou libertando e isso faz-me sentir melhor, e bem comigo mesma. Se calhar mais do que se eu perder os 5 quilos que faltam!

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  9. http://mashable.com/2015/04/14/quotes-about-body-image/?utm_cid=mash-com-fb-main-link

    ;) *

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  10. Adorei o texto, Lénia :)
    É mesmo assim que deves pensar. Que devemos todos, aliás.
    Beijinho

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  11. Cresce em nós um poder "indescritivelmente poderoso", quando agimos conforme o que acreditamos e aceitamos o que somos.
    Ser saudável não se mede na balança e a felicidade então, está muito longe de depender de quanto pesamos.

    Eu não tenho sequer balança em casa, raramente sei quanto peso. Sempre gostei do meu corpo (que não é constante) tal como adoro senti-lo funcionar quando faço exercício. Compro S, M ou L se achar que me fica melhor.
    A opinião dos outros é válida numa relação de amor ou amizade, sob a forma de conselho. Tirando isso, o que os outros pensam é apenas isso, o que "eles" pensam. Cabe a nós seguir o nosso próprio raciocínio.

    Bonito texto (o primeiro parágrafo escapou-me pk não sei o que é isso dos iogurtes)

    Força ;)

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Obrigada!