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11 novembro 2015

A ler...


"Na época em que nos casámos, nos anos setenta do século vinte, o meu marido era tão cheio de vigor que, por vezes, à noite, deitados na cama, eu sentia-lhe o sexo duro, mesmo quando ele já dormia. Ressonava e o pénis erecto lambia-me as pernas, um tanto húmido, se lhe dava para isso. A sensação não era desagradável, assemelhava-se a um gato de língua ávida debaixo dos cobertores. Um dia, isso deixou de acontecer. Em que momento, não sei: as coisas deixam de acontecer e, quando damos por isso, já não acontecem."


[Regresso ao centro do novelo, de onde só sairei quando virar a página 207. Não sei ao que vou, mas desconfio que vou voltar àquela adrenalina dos livros que nos remexem com as entranhas, que nos mudam, que nos inquietam e que não nos largam, mesmo depois de os termos largado a eles. "O Luto de Elias Gro" continua aqui, latente, e continua a deixar-me na boca o travo do que gostávamos de repetir, embora saibamos que nada se assemelhará à sensação que experimentámos quando fizemos aquele caminho pela primeira vez. E temos pena. É exactamente isto que sinto: pena de não poder voltar a sentir o que senti quando li "O Luto" pela primeira vez. Porque voltar a um livro é voltar a casa mas não é entrar em casa pela primeira vez. E aquele arrebatamento que só acontece quando encaras pela primeira vez o desconhecido - e te apaixonas, obviamente - só acontece uma vez.]

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