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23 dezembro 2015

Da sorte e do azar

Quando li a notícia da morte de David Duarte, miúdo de 29 anos que sofreu uma ruptura de aneurisma, estremeci. Fiquei sem pingo de sangue. Não é nada comigo - não conheço o rapaz - mas é tudo comigo. Com todos nós.

Há um ano e quatro meses, a minha mãe teve uma ruptura de aneurisma. Era sábado de manhã, fim de Agosto. Cocktail perfeito: fim-de-semana + férias. Quando aconteceu, não sabíamos o que aquilo tinha sido. Desmaiou, não sabíamos se o desmaio era consequência de alguma coisa. Caída no chão, desorientada, achámos que o facto de ter batido com a cabeça no chão quando desmaiou podia ter provocado a desorientação. Chamámos o 112. Mandaram uma ambulância dos bombeiros de Queluz, que se perdeu na rua principal da terra onde os meus pais vivem (e isto, per se, podia ter sido complicado). Despistes disto e daquilo e siga para o hospital da área de residência: Amadora-Sintra. Não é, nem será nunca, o hospital em que mais confio. Mas teve de ser. Meio dia entre corredores e finalmente uma TAC. Sangue na cabeça. Muito urgente, vai ser já transferida para o S. Francisco Xavier, que é onde está a urgência de neurocirurgia. E nós ainda sem sabermos se a hemorragia era causa ou consequência do tal desmaio. Descobrir-se-ia depois. Agora era urgente avançar.

À noite, liguei para o S. Francisco. Disseram-me que a minha mãe não estava lá. Tinha ido para o Egas Moniz porque o que ela teve foi uma ruptura de aneurisma. Seria operada na manhã seguinte, domingo. Menos de vinte e quatro horas depois de tudo ter acontecido. Só soube disto no domingo de manhã, quando o meu pai me ligou a dizer que lhe tinham telefonado do hospital a informar que a minha mãe seria operada nessa manhã. Pediram-nos que ligássemos por volta das 14h, porque antes disso não haveria novidades.

Assim que desliguei o telefone, enfiei-me na cama e chorei. Passei quatro horas a chorar sem parar. E a rezar. A tentar respirar por entre a angústia. Ligámos para o hospital. Correu tudo bem, estava no recobro, poderíamos vê-la na visita da tarde. Quando cheguei ao pé da minha mãe, completamente drogada, a cabeça meio rapada, muitos fios ligados a ela, respirei de alívio. Ainda nada era garantido, mas pelo menos estava ali. Acordou, viu-me (mas não se lembra: para ela, esse fim-de-semana não existiu; lembra-se de se deitar na sexta e de acordar segunda-feira, deitada na cama do hospital). E eu chorei.

Esteve um mês e meio internada. Quatro semanas nos Cuidados Intensivos (porque teve complicações a meio do processo e teve de ficar mais tempo sob vigilância apertada) e mais duas na enfermaria. Foram seis semanas de muita ginástica, de muita angústia, de muitas incertezas. Seis semanas de medo a gelar-me o corpo.

Acabou tudo bem. Hoje em dia, a única sequela deste episódio é o cansaço que chega mais depressa. Não tem falhas de memória, não tem nenhuma sequela motora, nada. A sorte esteve do lado dela.

A sorte e a medicina. No Amadora-Sintra, apesar das demoras, nunca se esqueceram dela. Foram fazendo os processos tão depressa quanto possível. Assim que souberam a gravidade da situação, agilizaram tudo e a coisa avançou. No S. Francisco, onde fez uma angiografia (que é o exame que permite avaliar a localização dos aneurismas), assim que perceberam o que aquilo era, encaminharam-na. Como estava estável e responsiva, a operação só seria no domingo de manhã. Não sei se a coisa teria corrido bem caso ela precisasse de ser operada imediatamente. Sei que, a partir do momento em que entrou no Egas Moniz, e até sair de lá, teve sempre equipas altamente competentes e responsáveis, que nunca a deixaram para lá largada. Os enfermeiros dos Cuidados Intensivos foram fundamentais no processo. Ainda me lembro do nome deles todos e isto diz muito sobre a relação que se criou ali. Os médicos que a acompanharam estiveram sempre presentes. Não houve altura nenhuma em que tenhamos achado que ela estava a ser negligenciada ou pouco cuidada.

Tivemos sorte. Tivemos a sorte de ir parar a um hospital onde as coisas estão organizadas e acontecem como deve ser. Mas é triste depender da sorte depois de termos a sorte de não morrer imediatamente quando acontece uma coisa destas. A saúde não pode ser um jogo de azar. Não pode ser mais ou menos, assim assim, às vezes sim, outras não, é conforme calha.

Andamos todos a pagar bancos que foram afundados por meia dúzia de tubarões que vão passando entre os pingos da chuva. Preferíamos todos - tenho a certeza - pagar um serviço nacional de saúde como deve ser, onde não tenhamos de ter a sorte como factor na equação.

Enquanto continuarmos a passar a mão no pêlo da corrupção, do enriquecimento ilícito, dos esquemas, dos compadrios, pois é provável que tenhamos mesmo de confiar na sorte quando o assunto é a nossa sobrevivência. E isto é tão triste quanto injusto e desesperante.

Talvez tenha sido preciso perder-se uma vida para que alguma coisa mude. Mas o David, com apenas 29 anos e tanto ainda por viver, não merecia ser o mártir sacrificado. Nem ele, nem ninguém. E que não seja preciso mais ninguém morrer para começarmos a fazer o que tem de ser feito.

2 comentários:

  1. Acho mesmo que devia ser encontrado o culpado desta morte, e condenado. Acho, sinceramente que, mais do que azar, tudo foi uma terrível negligência e incompetência. Não se pode deixar morrer um doente porque é sexta-feira. Estou mesmo indignada com isto. Como é que o executivo anterior deixou pendente uma negociação destas? Se calhar faz mesmo sentido a análise final do seu post. Deixou pendente porque tinha bancos e ladrões para salvar. Espero mesmo que a família tenha forças para levar isto até ao fim. Não devolve a vida mas não fica impune.

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  2. Hoje ao acordar, li como quase sempre a newsletter do Bloglovin e este teu artigo era dos primeiros da lista. Acordei a ler isto, e aprecio como a distância de um pequeno ano permite contar tudo o que aconteceu com uma ligeira leveza, no sentido que foi uma situação dificil, mas que acabou de maneira positiva e hoje é uma recordação.
    Fiquei chocada de ler sobre o jovem de 29 anos que morreu, sabendo que em Portugal há de tudo o quanto é médicos e acesso à saúde, sabendo eu que se me acontecesse em Luanda, seria morte segura... nem haveria hospital ou clínica para realmente me salvar, pois aqui apenas actua a sorte.
    Fiquei de coração mais partido ao ler o relato da Elodie, a namorada, que nada conseguiu fazer pelo namorado. Credo.

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Obrigada!