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15 janeiro 2016

Uma questão de educação

Ontem, no comboio de regresso a casa, sentei-me num lugar à janela. Estava com três colegas, dois rapazes e uma rapariga, que se sentaram também. Nisto, entra uma senhora, que, não tendo lugar, se encosta ao pé da minha fila de bancos e ali fica, pronta para a viagem dela. A senhora teria talvez idade para ser minha mãe. Cansada, cabisbaixa. Olhei para ela, arrumei o que tinha nas mãos e dei-lhe o meu lugar fazendo um gesto mínimo, que ela entendeu e agradeceu. Encostei-me a um daqueles postes que estão nas pontas das carruagens e ali fiquei, a ler qualquer coisa no telefone, até ter lugar novamente, o que aconteceu cinco ou seis estações depois. Os meus colegas, com menos 13 ou 14 anos que eu, continuaram sentados, impassíveis, sem mexerem um músculo além dos dedos com que avançavam pelas redes sociais nos respectivos smartphones. Nada contra. Mas

Agora, o que me parece óbvio: eu não estava num lugar prioritário, logo, nada me obrigava a dar o lugar à senhora. Mas tenho olhos na cara. E sei que, aos cinquenta ou sessenta anos, mesmo que se passe um dia sentado a trabalhar, o cansaço há-de avançar com mais força. Eu estava cansada, mas não tão cansada quanto a senhora, tenho a certeza. Não me custou nada levantar-me e dar-lhe o lugar. (Ela saiu do comboio uma ou duas estações depois de eu me ter sentado e, ao passar por mim, baixou-se um pouco e agradeceu-me a atenção e, pelo olhar dela, percebi que este pequeno gesto tinha melhorado um bocadinho o dia dela.) O que me custou foi perceber que realmente há uma geração dedicada ao umbiguismo. A senhora vai de pé? Chegasse mais cedo para apanhar lugar. Temos 23 ou 24 anos, passámos o dia sentados e assim vamos continuar porque sim. Só porque sim. A senhora pode estar cansada? Azar. A nossa colega, 13 ou 14 anos mais velha do que nós, levantou-se e deu o lugar à senhora? Problema dela. Oferecer o meu lugar à colega? Hell, no. Deixa-me cá estar, refastelado, a navegar na net e a dormir.

Não fiz mais do que a minha obrigação. Não fiz mais do que o que a educação que recebi me mandou fazer. Não quero aplausos nem atribuições de ordens de mérito. Queria só que os miúdos percebessem que há gestos que são universais e transversais e que nunca é demais ser-se educado e ter alguma preocupação com os outros. É isto que quero transmitir aos meus filhos. Não vou educar os filhos dos outros (muito menos quando têm 23 ou 24 anos e já deviam ter algum juízo), mas posso educar os meus. E os meus vão saber que, mesmo que nenhuma lei os obrigue a isso, a gentileza e o cuidado com os outros é uma obrigação moral. E é para pôr em prática. Sempre. 

3 comentários:

  1. Nem mais!... Já fiz isso algumas vezes também, perante o olhar de homens e jovens que continuaram sentados. A mim não me custa assim tanto e pode, efectivamente, melhorar um bocadinho o dia de outras pessoas (como tão bem disseste). É uma pena que este tipo de gestos sejam a excepção e não a regra na nossa sociedade. Mas continuaremos a acreditar num mundo melhor e a fazer a nossa parte!

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  2. Concordo plenamente. Não só nesta situação mas em tentas outras como nas caixas de supermercado. Já me aconteceu estar com um carrinho com bastantes coisas e atrás de mim vir uma pessoa com apenas uma compra ou duas. Claro digo para passar a frente, é só uma coisinha que foi buscar num rápido não faz sentido estar séculos nas filas..... entretanto eu também já fui a pessoa que fui lá só comprar 1 saca de ração para cão e nem por isso me deixaram passar a frente. Enfim. Educação fica bem em todo lado.

    Blog - Desabafos e Coisas

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  3. Pertenço à geração que disse sofrer de ''umbiguismo'' e nunca, nem uma única vez, fiquei sentada no comboio ao ver alguém que me parecesse necessitar mais de descanso ir de pé. E quem diz comboio diz metro, e durante muito tempo utilizei estes dois meios de transporte todos os dias, por mais de três horas diárias. No entanto já assisti a muitas situações de gente de outra geração, essa que não sobre de umbiguismo, ficar sentada nos lugares que supostamente são prioritários, enquanto idosos, grávidas e afins iam em pé logo ali ao ladinho. A educação infelizmente não é um problema de uma geração como tantas vezes se diz! Não me sinto ofendida com o que disse e até percebo que exista logo a tentação de atribuir essa falta de valores a uma geração, mas felizmente não sinto que seja algo que caracterize as pessoas da minha geração, pelo menos as que me rodeiam.

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Obrigada!