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06 abril 2016

É obrigatório ser feliz

Imaginem uma câmera daquelas que capta coisas em 360º, como umas que há, por exemplo, na passadeira vermelha dos Oscars e que permite ter uma visão ampla das fatiotas dos actores. É como me sinto: rodeada por todos os lados.

Para onde quer que me vire, alguma coisa me berra que tenho de ser feliz. Emagrece para seres mais feliz. Come comida saudável para seres mais feliz. Maquilha-te de manhã para seres mais feliz. Faz desporto para seres mais feliz. Sai com os amigos para seres mais feliz. Lê livros de auto-ajuda para seres mais feliz. Sê feliz para seres mais feliz.

A felicidade virou imposição. Temos de ser felizes. Sempre. Dê lá por onde der. Depois vêm de lá os coachers berrar-nos técnicas para sermos mais felizes. Mandam-nos para o meio do mato, mandam-nos meditar, pensar na vida, dizer o que mais amamos em nós, centrarmo-nos em nós e na tal felicidade que é vital para que o mundo gire. E se, por algum acaso, hoje não estamos particularmente felizes, lá vem a frustração: de certeza que estou a fazer algo de errado para não estar absoluta e irrevogavelmente feliz.

E é uma merda. Porque é só mais uma carga, mais um objectivo, mais uma cenoura à frente do nosso nariz. E se me dizem em todo o lado que eu tenho de ser mais feliz, então é porque tenho MESMO de ser mais feliz e toca de me virar do avesso para ir atrás da tal felicidade que nem eu sei bem onde é que está, mas devo ser eu que estou a ver mal porque todos os entendidos dos lugares-comuns me falam nisto, na felicidade imperiosa e incontornável. Porque mereço, porque tenho direito, porque sim e porque sopas.

[Apetece-me escrever aqui uma asneira, mas vou deixar isso de lado, por respeito à senhora minha mãe, que lê isto. Vou pôr então assim ]

O caracinhas. Larguem-me da mão. Deixem-me estar. Hei-de ser feliz quando calhar. Não que não faça por isso ou que não ande à procura disso. Mas se calhar não sou feliz mais magra, nem com menos colesterol, nem com mais quilómetros corridos, nem com mais retiros feitos, nem com mais aulas de yoga que quase me desconjuntaram toda (estou só a dar um exemplo, que nunca fiz yoga na vida e duvido que alguma vez faça, que aquilo é tão calmo que me enerva ao ponto dos berros a torto e a direito).

Portanto, por favor, parem de me dizer que tenho de ser mais feliz assim ou assado. Larguem-me da mão. Eu é que sei. Posso ser feliz a ler, a ver filmes ou a limpar janelas. Não me mandem ser feliz. Guardem os lugares-comuns num sítio que eu cá sei (ó pra mim outra vez a não dizer asneiras!!). Vendam livros de auto-ajuda a incautos que acham que precisam de vocês como muletas-para-a-felicidade. Na verdade, não precisam. Mas vocês, de caminho, aproveitam-se da ingenuidade alheia para fazerem negócio e cada um vive do que pode, é legítimo. Ok, talvez não tão legítimo assim, mas enfim.

O meu ponto é este: nem sempre estou feliz. Na maioria dos dias, sim, estou feliz - e nem sei bem porquê, é assim uma coisa generalizada e que vem de lugares estranhos como sejam o sol que brilha lá fora, o filme que vi e que me tocou, aquela frase genialmente escrita por alguém, a hora que passei na Fnac, a descobrir livros novos, aquela música que o Spotify me apresentou e que eu não conhecia mas que, de repente, é uma das preferidas do momento, a gargalhada que dei enquanto falava com um amigo que disse uma piada qualquer no momento exacto, os gatos que se aninham nas minhas pernas quando durmo, o sorriso maroto do meu filho, a maneira como a minha filha já se solta nos treinos e a forma forte com que já dá os kyais dela lá no dojo, o almoço com a amiga para pôr a conversa em dia, o chat todo passado com emojis que contam uma história, o capítulo que consegui escrever e de que me orgulho, o bolo que fiz e que saiu bem, o café lá no bairro, com a amiga-vizinha, a antevisão do próximo curso de escrita que quero fazer, o desenho da próxima tatuagem que está quase a sair, a vida de todos os dias com o meu marido, lá em casa, mesmo quando nem tudo corre bem. E depois, há outras alturas em que a felicidade me parece a mais longínqua das metas, a maratona interminável, o caminho cheio de obstáculos que é preciso percorrer e que nem sempre tenho forças para alcançar.

E é legítimo. E pode ser assim. E parem de me dizer como hei-de ser mais feliz. É problema meu, de cada um de nós, cá dentro. Porque a felicidade não vem em livros, nem é um pó num pacotinho a que basta juntar água e mexer. E não faz mal ser-se menos feliz, feliz mais ou menos, só um bocadinho feliz. Como não faz mal não se ser feliz de todo. É um processo. Pessoal e intransmissível. 

6 comentários:

  1. A felicidade nunca é contínua. São momentos. Casuais, momentâneos, efémeros... Nunca ninguém é feliz toda a vida, e tens razão, cada um faz o que pode

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  2. Agora há livros e entendidos em tudo... 'Devemos ser sempre felizes', 'como educar os nossos filhos sem berros nem palmadas', 'os alimentos que devemos comer para não ter cancro' e o diabo a sete. Agora há entendidos em tudo a quererem impor-nos uma vida 100% perfeita, coisa que não existe. Ponto. Adorei o texto e se eu soubesse escrever assim, podia muito bem ter escrito isto :-) Beijinhos

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  3. Oh pensava que se era feliz com as unhas sempre, sempre arranjadas ;)
    Gosto destes post com pes na terra.

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  4. Amei o texto. E olhar para as nuvens, deitada na relva, faz-me tão feliz!

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  5. tudo dito :) clienteperfeito.blogs.sapo.pt

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Obrigada!