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25 agosto 2016

Burkinis e bikinis: o dilema da carne

Eu devia ter uns 12 ou 13 anos. Fui a um casamento nos Jerónimos. Era Verão, estava um calor absurdo, eu era uma menina de 12 ou 13 anos e a minha roupa consistia numa espécie de macacão com calções e top. Foi a minha mãe que mo fez, como eu quis. Os calções eram curtos (acabavam abaixo do rabo, bem entendido) e o top era cai-cai mas tinha umas alças que, na verdade, eram tipo suspensórios. À entrada da igreja, vem uma senhora ter comigo e informa-me de que não posso entrar assim vestida. Estava demasiado descoberta para estar ali, na casa do Senhor, e aquilo era uma falta de respeito. Na altura, 12 ou 13 anos, achei aquilo uma parvoíce, mas obedeci e fiquei cá fora. Não tinha como resolver a situação, não havia por ai casaco nem echarpe que me valesse e, bom, a coisa passou.

Anos depois, em Itália, e já mais precavida, apesar do calor que apanhei, fui andando com um lenço atrás. Nas igrejas, servia para pôr por cima dos ombros, num respeito pelas regras dos sítios que eu queria visitar. Em Fátima, a mesma coisa (mas por norma vou a Fátima no Verão e tenham lá paciência, mas eu não aguento calças quando estão 40ºC. Mas posso usar uma saia pelo joelho ou uns calções curtos e, se for a Fátima, opto pela saia).

Não vai há muitos anos que muitas mulheres em Portugal usavam lenços na cabeça, vestes pretas de saias largas e compridas (não estou a falar de pessoas de etnia cigana, ok?). Lembro-me muito bem de ver a minha avó assim vestida e lembro-me de ver muitas mulheres na terra dela vestidas da mesma maneira. Questão de hábito, foi assim que aprenderam, era isto que viam por ali e foi isto que foram replicando. Se pensarmos bem, não é assim tão diferente de um hijab ou de um niqab. Uma burqa é um extremo diferente mas, ainda assim, é produto de uma cultura que, por não ser nossa, tendemos a não entender.

Há países árabes onde a regra do corpo e do cabelo cobertos só se aplica às mesquitas - Marrocos, por exemplo: ali podemos andar como quisermos na rua mas, se formos a uma mesquita, teremos de cumprir o preceito. Ou seja, exactamente o que se passa aqui, em algumas igrejas, e o que me aconteceu em Itália. Há outros países árabes em que as idas a praias que não pertençam a resorts obrigam a fato completo. É uma questão cultural, suponho.

E depois há Nice, onde três polícias obrigaram uma mulher a despir uma túnica em plena praia. Diz a lei que estão proibidos os burkinis. Isto é um burkini:
Não era isto que a senhora tinha vestido. O que ela tinha vestido era uma túnica, umas leggings e um lenço no cabelo. Eu já estive vestida na praia - lembro-me de dias na Praia Grande que começavam com o bikini e acabavam comigo enrolada na toalha, cheia de frio, porque entretanto descera um nevoeiro horrível que baixara a temperatura aí uns 15ºC. Era giro que viesse alguém e me obrigasse a despir...

Não acho bem que sejam os estados a impor regras acerca de roupa. A proibição do burkini não é mais do que uma reacção de medo e preconceito. Se, por um lado, acho que as pessoas têm de se adaptar aos costumes e às regras dos países onde escolhem viver, por outro, acho que as liberdades não devem ser limitadas. Vejamos: ninguém obriga muçulmanos a irem viver para França (ou para qualquer outro país laico ou não muçulmano). Se vão, é justo que se rejam pelas regras desse país. Mas se há liberdade religiosa e se os hijabs, os niqabs e as burqas são um hábito que deriva da religião, não será justo que as pessoas possam vestir o que lhes apetecer?

Alegam os franceses que podem esconder-se bombas debaixo dos burkinis. Pois podem. E debaixo de hábitos de freiras e de monges. E debaixo de coletes de caça. E debaixo de gabardines. Já aconteceram atentados nestes contextos todos. Vamos fazer o quê? Obrigar as pessoas a andarem nuas?

Dar voz ao medo é capaz de não ser boa ideia. Porque depois é uma bola de neve. Cada vez mais as pessoas têm medo dos muçulmanos. Culpa deles, dirão alguns, que só fazem porcaria e que andam sempre de atentado em atentado. Não nos esqueçamos dos atentados que foram cometidos em nome do catolicismo. Não nos esqueçamos dos atentados que foram cometidos em nome de nada disto. Há gente má em todo o lado. E há muçulmanos que só querem viver na santa paz de Allah, sossegados na vida deles, que não chateiam ninguém. O problema são os outros, os que se fazem explodir em nome de um deus que querem impôr à força. Certo. Mas isso não se resolve com proibições de burkinis ou seja lá de que roupa for. 

2 comentários:

  1. É tão isto minha querida. Totalmente de acordo contigo.

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  2. Tenho tido algumas discussões sobre isso. Do outro lado o argumento ''ah mas eles também são intolerantes não são? Impõe-nos os costumes deles não é?'' Ah claro, vamos combater a intolerância com intolerância... Estou certa de que vamos chegar a um belo resultado...

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Obrigada!