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20 outubro 2016

Quando as fortalezas tremem

Tu é que erraste. Foste tu que sempre quiseste mostrar um lado forte, inabalável, como uma rocha que esteve sempre ali, que aguenta tudo, todos os embates, todos os problemas, todos os maus momentos. Estás ali e nada te afecta, superas tudo, és capaz de tudo, não precisas de nada a não ser de ti mesma e de respirar de vez em quando.

Pois.

Só que um dia precisas de colo - sempre precisaste, na verdade, mas só muito raramente permitiste que alguém se aproximasse o suficiente para perceber que sim, que afinal o rochedo também treme e também vacila e afinal se calhar aquilo de aguentar tudo não é bem assim. E agora? Agora estás sozinha. Porque, como nunca precisaste de nada nem de ninguém, nunca deixaste que ninguém se aproximasse o suficiente para ficar. E falta-te o ar. E dás por ti a implorar mimo e colo àquela pessoa que tem estado ali ao teu lado e a quem até abriste a porta, àquela pessoa de quem não escondeste nada, a quem te mostraste com todas as fragilidades, todos os medos, todas as angústias e todas as incertezas.

Só que o mundo espera que sejas um rochedo e não uma princesa carente. E o mundo não sabe lidar com a tua fragilidade. Portanto, e apesar de te mostrares vulnerável e sem capas, o mundo continua a tratar-te como se fosses o tal rochedo que não precisa de nada.

Culpa tua, que quiseste ser super-heroína em vez de assumires que és humana - frágil, quebrável - e que precisas de colo, de mimo... como toda a gente. Porque sim, aguentas-te sozinha, sobrevives a tudo, dás a volta por cima das situações mais inacreditáveis, mas às vezes, só às vezes, precisas de saber que há quem goste de ti, precisas de sentir que há quem abdique de dez minutos de sono para te dar aquele mimo que te faz falta e que te alimenta para o resto da semana, precisas de saber que importas, que há quem goste de te ter por perto.

[Do lado de lá: se têm um rochedo destes por perto, lembrem-se de que aquilo é só uma capa e que lá por dentro há uma pessoa que tem um coração a bater. Não esperem pelo momento em que o rochedo trema e vos implore carinho. Cheguem-se à frente e mostrem que estão lá, que gostam, que amam, que se importam. Porque quando os rochedos batem no fundo, o caminho de volta à superfície não se faz sem estragos. E depois pode ser tarde.]

2 comentários:

  1. Obrigada. Estava a precisar de ler isto.

    Que tenhas ao teu lado quem veja para além do rochedo... Tu és uma heroína, mas também és frágil e humana. Não tem mal nenhum assumires isso. Deixa que te mimem!

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  2. Estou afastada da blogosfera há muito tempo, como autora, pelo menos, mas não consegui ficar indiferente ao que escreveste. Sou um rochedo, já não inteiro, mas ainda assim um rochedo.

    Beijinho para ti e um abraço apertado.

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Obrigada!