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03 novembro 2016

Estes dias

Guardo muito mais do que partilho. Mantenho para mim aquilo que me faz mais feliz, apesar de, por vezes, me apetecer deixar transparecer. Escolho não o fazer. Uma defesa, acho. Quem me conhece sabe que estou bem, apesar das dificuldades dos últimos tempos. Quem me quer bem sabe que estou feliz e sabe que isso me basta. Quem me vê de fora talvez não entenda. Nesta fase, isso não me preocupa. Não quero dar mais de mim agora. Dou-me a quem está comigo nos sorrisos e quando as coisas resvalam. Dou-me a quem faz verdadeiramente parte de mim e da minha vida. Depois há a plateia. E, por enquanto, não há espetáculo.

Os dias voam. O cansaço tem sido mais que muito. Não é fácil ser só eu para dois miúdos pequenos que estão numa idade que faz com que passem a vida à briga. Não é fácil ser só eu a polícia má, que manda fazer, arrumar, lavar, vestir, tomar banho, comer, despachar. Todos os dias. Sempre. Não quero que o cansaço me faça ceder àquilo em que não acredito. Não mudaram as regras só porque mudaram os jogadores. Tudo igual. Eu mais cansada. Eu a tentar não me afundar. Eu a remar com todas as forças. E vou conseguir. Não há lastro que me arraste - não é de hoje, sempre fui assim.

Os dias voam. Não consigo escrever, não consigo descomprimir. Os meus bocadinhos são os amanheceres lentos, entre músicas e um sorriso, as viagens de comboio e aqueles instantes antes de adormecer, de novo com música e sorrisos. Valem-me os fins-de-semana. Nos que estou com eles, consigo que a coisa aligeire e que estejamos todos sintonizados: é tempo para aproveitar. Há cinema, passeios e pequenas rotinas que nos sabem bem. Nos fins-de-semana em que não os tenho permito-me respirar. E é aí que retempero, que me refaço e que renasço. Como se viesse à tona respirar. Não me entendam mal: todo o tempo com eles é bom. Sempre. Mas ser só eu cansa. E quem não passa por isto simplesmente não sabe. Mas aposto que todas as mães solteiras (independentemente do número de filhos que tenham) sabem exactamente do que falo. E quem não passa por isto tende a achar que somos ingratas, que não queremos estar com os miúdos, que preferimos ter tempo para nós. E não é nada disso. É mesmo só o facto de estar tudo nas nossas costas. E eu até entendo que quem nunca passou por isto não perceba e ache só que podíamos ser muito melhores do que estamos a ser. Calha que, aposto, estamos todas a dar o nosso melhor. E não é para calar as tais vozes que acham que sabem de uma coisa que nunca viveram. É mesmo porque eles merecem o nosso melhor, mesmo que à nossa volta se esforcem muito para nos ver no chão.

Os dias voam. Mudou tudo. E eu... bom, eu voltei a ser eu. Voltei a sentir um coração que bate. Voltei a sorrir. Voltei a saber quem sou. Mudou tudo. E eu regressei a mim.

4 comentários:

  1. Quem não entender que vá para o raio que os parte com as suas sentenças. Não são apenas as mães solteiras que necessitam de tempo para si. Todas as mulheres precisam, independentemente de terem um marido para "aguentar" e um casamento para gerir.
    Os miúdos são o melhor do mundo mas há dias em que conseguem ser o pior. Faz parte, é mesmo assim e não os amamos menos nessas alturas, nem somos más mães por o admitir. Desconfio é de quem diz ter filhos perfeitos, uns anjinhos que nunca lhe deram trabalho e que as motivam a viver exclusivamente para a maternidade.
    Se for verdade, dou os parabéns, mas ainda nesses casos defendo que todas as mulheres devem ter um tempo para si e não se encerrar no papel de esposas ou mães ou na sua carreira.
    Que bom que no meio de tudo isso ainda encontras tempo e vontade de sorrir. Fico verdadeiramente feliz por ti, mereces o melhor!

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  2. Eu não sou mãe solteira e também tenho momentos que me apetece desaparecer do meu papel de mãe. Quem não entender que morra que isso passa.
    Beijinhos

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  3. E é mesmo isto.
    Adorei ler, porque é exactamente como me sinto.
    Ao início sentia-me culpada por me sentir bem nos fins de semana que não estava com a minha filha. Agora, ao fim de 4 anos, já lido bem com esse sentimento.
    A curta separação serve para termos saudades uma da outra. Serve para que ela esteja com o pai (que necessita e faz bem) e serve para que eu respire e viva sem ser na pele de mãe.
    Um beijinho especial de quem entende, percebe e vive a mesma realidade

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  4. Lénia,
    Sempre que fico sozinha com o meu filho (e é só um - de 2 anos), quando o meu marido viaja em trabalho, por exemplo - "renovo" a minha admiração por todas as mães solteiras, que o fazem todos os dias! Tenho mesmo muita admiração e respeito.
    Filipa

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Obrigada!