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08 março 2017

XX

Guardem lá as flores. Não preciso de flores. Preciso que não sejam paternalistas comigo. Preciso que percebam que sou capaz do mesmo, salvaguardando diferenças biológicas. Vocês, homens, também são capazes do mesmo que nós, salvaguardando as referidas diferenças biológicas. Ou seja, em querendo, são capazes de fazer o mesmo que nós, excepto parir e amamentar.

Exemplos:

- São capazes de pôr roupa a lavar, estender e apanhar. São até capazes de passar a ferro, acreditem. Eu também não nasci ensinada e aprendi.
- São capazes de cozinhar e de lavar loiça.
- São capazes de manobrar um aspirador (acreditem, não é rocket science, vocês conseguem).
- São capazes de mudar fraldas, fazer papas e preparar biberões.
- São capazes de ir às compras e de comprar fruta que não esteja amassada.
- São capazes de limpar pó e de lavar janelas.

Nós também somos capazes de algumas coisas. A saber:

- Usar um berbequim e pendurar quadros.
- Arranjar uma tomada eléctrica.
- Montar móveis.
- Carregar coisas pesadas.
- Trocar pneus, ver níveis de óleo no carro (esta por acaso aprendi há pouco tempo!) e ver a pressão dos pneus.
- Abrir frascos de vidro (uma pancadinha na tampa normalmente resolve o empeno).

Isto parece sexista? É porque é. Nós fomos educadas a assumir certas tarefas que estão desde sempre atribuídas às mulheres (vem lá de trás, da pré-história: os homens iam caçar, as mulheres ficavam a tratar da gruta). Vocês foram educados a assobiar para o ar e a fingir que não percebem por que raio não se penduram camisas pelo colarinho. Com isto, fomos ficando em casa, entretidas a ser mães e a fazer bainhas, e os homens foram ganhando terreno no mundo do trabalho. Depois, um dia, quisemos mais e fomos conquistar o mundo do trabalho - esquecemo-nos foi de que os homens ainda não estavam preparados para ir conquistar as respectivas casas e fazer alguma coisa por lá. Portanto acumulámos trabalhos e funções e continuamos a ouvir o trinado dos que assobiam para o lado e fingem que não vêm os pêlos do gato que precisam de ser aspirados e a fralda do mais novo que está muito mais cheia do que todas as nossas carteiras.

Acredito que esta coisa da igualdade de género começa em nós, mulheres, e não nos homens. Como assim? Olhem, podemos educar os nossos filhos como educamos as nossas filhas, para começar. Fazê-los perceber que, uma vez que têm duas mãozinhas como as meninas, são capazes do mesmo. E ensiná-los como as ensinamos a elas. Depois, não puxando a nós tudooooooo o que acontece em casa. Sei do que falo: fiz esta asneira e bem me arrependi. Parece-me lógico: homem e mulher vivem na mesma casa, homem e mulher trabalham, homem e mulher fazem o que há a fazer em casa. Simples, acho.

Felizmente, as coisas estão a mudar um bocadinho neste aspecto.Ainda bem para nós e para eles, que deixam de ser crianças em ponto grande.

Por outro lado, continuamos a ganhar menos pelo mesmo trabalho, continuamos a não chegar a lugares de topo com a mesma frequência do que eles, apesar de termos as mesmas qualificações. Continuamos a ser olhadas de lado quando pomos a carreira à frente da continuidade da espécie. Continuamos a ser olhadas de lado quando nos fazemos ouvir. Continuamos a ser olhadas de lado e, pior ainda, somos olhadas de lado não só por homens, mas também por mulheres.

Continuo a não gostar disto de haver um Dia da Mulher. E espero ansiosamente que um dia deixe de ser preciso que este dia exista.

2 comentários:

Obrigada!